22/02/2008

Um coração desassossegado



Na tradição de Ruivães não havia exercício tão escandalcoso. Três homens na vida duma mulher, era como que uma espécie de aleijão moral, de que a própria terra se devia envergonhar. Mas a verdade é que a Marciana fizera essa avaria, e ali estava mais uma vez viúva, quase sem lágrimas, a despachar o Bernardino, o último marido, para o cemitério.
O cunhado, o Daniel, que tratava da mortalha, movia-se entre o dever e o desespero. Honrado e alustero, fora casado com uma irmã dela, a Isaura, que falecera há pouco. E aquele parentesco, que o obrigava a enterrar-lhe quantos mantilhões arranjasse, custava-lhe os olhos da cara.
- Uma pessoa está guardada para cada conveniência!
- Que hás-de tu fazer! É família...
- Pois aí é que me dói! Uma deslavada, sem vergonha nem propósitos, e eu depois que a ature...
Desde rapaz que lhe tinha uma antipatia obscura, feita de nadas, e cada dia mais azeda. Namorava-lhe a irmã, mas era ela sempre que aparecia primeiro, a pretexto de o avisar de qualquer conversa que ouvira a seu respeito, de saber se havia ou não comédias na festa de S. Gonçalo, de se queixar das bebedeiras do pai. O Daniel agradecia a prevenção, dava-lhe a informação pedida ou justificava da maneira que podia as fraquezas do futuro sogro., e cerrava os dentes, mortificado.
- Estás em ânsias! - insinuava ela, ironicamente.
- Estou à espera...
- Tem de lavar a louça, primeiro. E porque a não lavava ela, em vez de se pôr ali de espantalho ? O que vale é que era discreto e paciente. Continuava silencioso, até que a namorada surgia, também discreta e paciente, no cimo da escada, e a Marciana, com ar de troça, os deixava em sossego.
- Nem parece tua irmã. Coisa mais reles!
- Olha que não. Estás enganado. Mete-se realmente na vida dos outros quando não devia, e gosta de levar e de trazer... É pena. Mas, fora isso, é como o pão...
- Azedo!
- Também nem tanto!...
- Cá por mim não a trago nem com açúcar!
- Hás-de ver que vos dais bem.
- Não me cheira. Nunca gostei de gente entremetida.
- Dá tempo ao tempo... 
Infelizmente, o tempo só reforçou as razões do Daniel, como a própria Isaura teve de reconhecer.
Quando se receberam, o raio da rapariga parecia doida. Cantava e dançava como se fosse a dona da festa. E toda a gente se espantava com uma alegria tão despropositada.
- Ó mulher, tem juízo! Olha que quem se casa é a tua irmã!
Ficou pensativa e pálida por alguns momentos, como se a acordassem duma anestesia e a dor voltasse. Mas retomou o entusiasmo logo a seguir, e foi a última a deixar os noivos em paz no pobre tugúrio onde iam começar cinquenta anos de felicidade. Com os pretextos mais estapafúrdios, demorava a partida. Conversava, varria, compunha e descompunha a travesseira da cama, comia pires seguidos de arroz doce, e assim encurtava a noite que os dois desejavam - do tamanho da estrada de Santiago. Por fim, lá saiu. E o Daniel, enquanto trancava a porta, desabafou:
- Que cáustico! A Isaura, sabe Deus com que vontade, desculpou-a:
- Coitada, tem aquele feitio... Mas não é por mal.
- Pois olha que se é por bem, pode limpar as mãos à parede. A obrigação dela, de mais a mais sendo rapariga, era pôr-se a andar adiante dos outros.
- Nem pensou. 
- Pensei eu, que estava com vontade de a esganar. Se não fosse por serdes vós Senhor quem sois... Bem se diz lá, que por causa dos santos se adoram as pedras!
- Não regula bem, coitada. Ninguém se mandou fazer...
E tanto não regulava, que um mês depois, do pé para a mão, casava-se também. Ruivães à missa, na sua boa fé, e o padre a ler-lhe os banhos! Ficou tudo abismado. Sem ter havido namoro que se visse, ou suspeita de tal, ia ser mulher do Marcolino.
Zunzuns no povo, porque seria, porque não, mas a verdade é que daí a três semanas estava arrumada. Na boda, repetiu-se a cena do casamento da irmã. Apenas com a atenuante de que agora todos se conformavam com aquele entusiasmo desabrido. O festejo era dela, fizesse como entendesse. E lá que se despedia da vida de solteira como ninguém, honra lhe seja. Agarrava-se ao cunhado, que tinha de dançar com ela mais uma valsa, mais outra valsa, mais outra, que o desgraçado, ainda por cima com malhada no dia seguinte, parecia um mártir a ganhar o céu.
- Coisa mais disparatada, nunca vi! - queixava-se ele, a caminho de casa.
A Isaura, sempre conciliante, punha água na fervura.
- Entusiasma-se e perde-se da cabeça. Tanto monta a gente afligir-se, como não.
- O que vale é que isto é uma vez na vida! Na sua sensata e honrada ética de cavador, o Daniel plantava cada acto social, seu ou dos outros, com a fundura duma raiz. Não concebia a vida sem horas sacramentais, irreversíveis, solenes como uma sementeira ou uma missa.
Mal ele suspeitava que passados dois anos tinha de tratar do enterro do Marcolino, e, decorrido mais um, estava novamente nos braços da cunhada a dançar outras valsas, pois se casava em segundas núpcias com o Carvalheira.
- Eu benzo-me! Até a gente fica não sei como... Faço ideia do falatório que para aí vai!... - lamentava-se à mulher, ofendido no seu bom nome.
- Tem paciência. Que se lhe há-de fazer? Não penses nisso...
Não pensaria, não, se a vida fosse doutra maneira. O pior é que não demorou muito que o Carvalheira esticasse também o pernil, e a cunhada, Deus lhe desse juízo!, não tratasse de pôr o sentido no Bernardino.
- Eu endoideço com semelhante criatura! Parece que anda de caçoada, a querer rebaixar a gente!
- Deixa-a lá. Que se governei Não vamos ao casamento, e pronto.
O diabo é que a Marciana, quando lhe deram a entender que não iam à boda, nunca mais os largou. Vinha, chorava, pedia, contava, jurava, que não houve outro remédio.
E o bom do Daniel lá teve de aguentar aquilo, a fazer das tripas coração.
Felizmente que o Bernardino era rijo, e os anos iam esterroando as arestas da vida como uma grade niveladora. A brincar, a brincar, os invernos tinham passado. Ruça, a Marciana perdera o ar de mula sem rédea. Vergada ao peso dos molhos de lenha e dos cestos de estrume, que o Bernardino, não era para brincadeiras, metia dó. Parecia uma alma pecadora em expiação. Mas mesmo assim, se encontrava o cunhado, toda ela se arrebitava numa conversa sem fim, cheia de calor e de confidências.
- Que língua de saca-trapos! Agarrou-me na Silveirinha, que não me largou. A água da poça a perder-se-me, e ela porque assim, porque assado... Eu já nem a ouvia!
Velha e doente, a Isaura deixara há muito de defender a irmã. Quando o homem lhe aparecia esbaforido a queixar-se dela, calava-se e continuava a torcer o fuso e a cozer os seus males.
- Tomaste o remédio?
- Eu não. O meu remédio, agora, é outro...
- Deixa-te de palermices e trata mas é de comer, que o cemitério tem tempo...
Gostava dela com a mesma frescura dos verdes, anos. E mal tinha olhos para ver como ela definhava dia a dia.
Comida de dores, morreu logo a seguir, duas semanas antes do Bernardino, que uma pneumonia liquidou também. E o Daniel, depois de enterrar a mulher, não teve outro remédio senão fazer o mesmo ao terceiro cunhado que a Marciana lhe arranjara.
Com a alma carregada do seu luto íntimo, encomendou-lhe o caixão, chamou padres, assistiu à missa de corpo presente. Mas, quando a última pazada de terra arrasou a campa do defunto, deu largas à sua indignação recalcada:
- Bem escusavas disto, se fosses outra! A Marciana enxugou as lágrimas postiças e levantou a cabeça.
- Outra, como? Já que o não compreendia, ou se fazia de novas, não pagava a pena estar-se a incomodar. De mais a mais, podia finalmente dá-la ao desprezo.
Largou e foi tratar das leiras. Embora os bens agora lhe não dessem gosto, era preciso granjeá-los como até ali. Enquanto se anda neste mundo, não há remédio senão fazer pela vida. E, mesmo sem a presença querida da velha companheira, lá ia tesourando, podando e curando as videiras.
Foi numa tarde de Maio, morosa e melancólica, que a cunhada de repente lhe apareceu no Tapado.
- Andas contra o míldio?
- Tem de ser. Houve um silêncio curto. 
- As batatas estão bonitas!
- Assim, assim. Outra pausa.
- Merendaste?
- Merendei.
- Trazia-te aqui uma pinga... Desconfiado, fitou-a demoradamente. - Que estás a olhar?
- Nem sei...
- Olha, olha, a ver se descobres!... vão sendo horas...
Com a mão crispada na alavanca do pulverizador, o Daniel continuava a observá-la.
- Será possível?! - perguntou por fim. - E então? Era alguma coisa do outro mundo?
Desabrido, atirou-lhe o nojo à cara:
- Não estás farta, mulher?
- Não.
- Pois bates a má porta. Já te não posso valer. Duas lágrimas começaram a cair pela cara dela abaixo.
- Não é o que tu cuidas que me falta. Estou velha, também. O tempo dessas alegrias já passou.
- Então não te entendo... 
- É o meu coração que não se cala. É ele que sempre gostou de ti e te queria...

Miguel Torga, Contos da Montanha