21/02/2008

O Morgado de Fraião

Na comarca houve desinteligência, que derivou em arruaça, quanto ao prócer que devia representar em Cortes o Braço do Povo.
- Vamos a votos! - gritou um, menos sofredor. E os candidatos, que eram três, ao passo que diziam remeter-se ao juízo do sufrágio, cada um mais altaneiro que os outros, à socapa mandavam os parciais escorvar os trabucos.
&nbspOs quarenta maiores, recenseados em geral na ralé da terra, lavradores, pequenos tendeiros, marchantes, mesteirais, dois mestres-escola e até um ferrador, instados por caciques opostos, mal coçavam a nuca, que, para eles, mudar de compromisso era mais fácil que de sapatos. Ainda no dia da eleição, tendo abalado com as estrelas dos seus eidos, já porque os dias eram ainda pequenos e os caminhos pouco andamosos, alguns pareciam mais oscilantes que o burro de Buridan. E como não? Se o burro do bom dialecta devia com a fome logicamente hesitar entre as duas gamelas de cevada, estes tinham diante dos olhos três cartazes. Dispersos e em pequenos grupos, montados e a cavalo, começaram a chegar à vila já o sol ia alto naquela manhã fria de Primavera.
Com narizes de pingão, o cabelo churro do cachaço a engraxar a gola da jaqueta, mãos calosas, a tresandar ao fumo da lareira e à cebola, davam-se a matar pelo ar de caso, a barba feita de véspera e seu mal encartuchado no fato de ver a Deus e na camisa de linho, cóscora da goma. À porta do Nico, prendiam as bestas a uma talada da parede pelo nó do cabresto ou da brida e, onde lhes fosse a jeito, toca, de rópia, a tomar o arrebenta-diabos. Dentro da tasca, cada qual se chegava aos do seu pendão. E as vozes que se cruzavam, de malícia ou desfrute, obedeciam a estribilhos deste jeito: - A quem dás tu o voto, ó Zé das Quintas? Eu cá sou do Cabeça Ancha. - O quê, és do Barriga Ancha? E ainda lá cabes?
- Olha, falai no mau…
O Cabeça Ancha em pessoa atravessava no cone visual da porta, a caminho por certo dos Paços do Concelho, barrigana à frente, um largo sorriso no seu mascarão de chafariz, a matraquear para o séquito palavras ruidosas na dentuça amarela. Licenciado in utroque jure, advogado há vinte anos na comarca, a mais pendenciosa do Minho, à força de entesourar estava rico como porco. Além de herdeiro do vínculo de Feães, forte em terras de semeadura e pastagem, diziam as más-línguas que ganhara do bom a forjar, de gorra com o tabelião da vila, escrituras e títulos de dívida com tal primor e observância de quindins, que não lhes meteria dente o síndico mais mitrado. Embora para lá do equador da vida, tanto assim que lhe alcandorava a fronte um penacho grisalho, onde aparecia, mostrava-se buliçoso e entremetido. Davam-no como apaniguado do visconde de V. N. de Cerveira, quando o mais certo era pôr sempre as suas conveniências acima de Deus e do rei. Todavia, onde chegasse, não era peco em fazer campanha pelo altar e a monarquia absoluta do senhor D. Miguel, rei e arcanjo.
Mal ele tinha virado à esquina, ouviram-se repicar no largo as ferraduras dum cavalo, batendo trote largo. Tep, tep e estacou. Era o conde Piteira que chegava no tilbury. Um postilhão, impecavelmente hirto e de libré, tomava conta das rédeas. E, ainda o cavalo fogoso estava a morder o freio, já ele descia de um pulo lesto. O rancho dos quarenta maiores atropelou-se contra o vão da porta a admirar o graúdo. Cara deslavada, meio britânica, mão direita encavada na luva cor de canário, seguiu adiante, sem olhar sequer para a baiuca.
Aquele nascera num sino. Seu avô, Desidério Piteira, que passava por ter sido beleguim e alcaiote do Pombal, montara por favor do amo, quando veio a febre da renovação, um tear para picotilhos. O filho, Leandro Piteira, ampliara a indústria, que passou a produzir panos-crus e surrobecos. E sob o impulso do neto, Salvador Marinho Piteira, o actual conde Piteira, ainda antes de comprar com bons dobrões, batidos no balcão da Rota, o título de nobreza que lhe faltava para ser um verdadeiro homem-lige, a fábrica tomara notável incremento. Ao tempo, com os novos processos introduzidos, passava por ser das primeiras na zona fabril de Entre Douro e Minho. O Conde, além do património assim melhorado, realizara avultada fortuna mediante hipotecas sobre grandes casas decaídas e processadas com êxito, fornecimentos ao exército e empréstimos a S. A. o príncipe D. Miguel, por baixo de capa, mas com todos os gatos de ferro da segurança divina e humana. Os amigos de casca-grossa ou zoilos continuavam a chamar-lhe o senhor Piteira. Mas quem requeresse audiência, com mira a ser servido, chamasse-lhe o senhor Conde e, mais urbanamente ainda, o senhor Conde de Guilharil, portela donde seu avô descera de fundilhos novos nas calças velhas e alforge ao ombro a servir de abegão na Quinta de Oeiras.
O conde de Guilharil, aliás, conde Piteira, aliás, Salvador Marinho Piteira, possuía, depois de depurada a linhagem em três crisóis, as maneiras senhoris e veludosas dum camerlengo. Ouvi-lo discorrer em sua artificiosa fala era como ouvir rasgar seda, tecido que começava a urdir nos seus teares. Com efeito, era raro que tivesse palavra mais alta ou mais áspera para alguém. Era também hábito seu, filho da curialidade, supunham uns, manha, criam outros, nunca erguer, quando falava, os olhos para o interlocutor.
Reparando bem na sua estrutura, aparentemente sólida e maciça, só havia uma coisa que destoava nele: as plantas dos pés, pequeninas em demasia para suportarem a coluna avantajada do corpo. O boticário da vila, malhado a pedir forca, com alguma luz das Santas Escrituras, proclamava que eram os baixos da estátua de Nabucodonosor.
Na candidatura a deputado do Braço do Povo, prevalecia-se declaradamente do patrocínio de S. Ex.as Rev.as o arcebispo de Braga, o bispo de Lamego e o bispo do Porto, três mitras, e do coral polifónico do clero atento à batuta. E não se fala nos zéfiros da Corte, que, por virem de tão longe e balsamizados, é de crer que, se chegassem a sobrepujar a serra da Arga, bafejassem a vontade dos labreguíssimos quarenta maiores tanto como o Setestrelo.
Piteira era um realista calculador que, ao preconizar a restauração da Monarquia absoluta, nunca se esquecia de ajuntar as untuosas palavras rituais: a bem da felicidade dos Portugueses e glória de Deus. Nisto, apartava-se nitidamente do Cabeça Ancha que, esse, fechava as arengas com o inevitável arremate: queimem-se, esfolem-se, enforquem-se os chamorros para haver paz na nossa terra! Piteira era outra fazenda. Já no Porto, ao ferirem a calçada as ferraduras dos seus urcos, luzindo arreios de prata, cocheiro e trintanário de libré debruada a cor de laranja, a tirar para púrpura, voltavam-se de olhos arregalados os pelintras e vinham à porta a morder-se de inveja os conceituados comerciantes da praça, muitos dos quais acabavam de trocar os tamancos pelos botins de pelica. Ele, se eram conhecidos, não deixava de tocar com a ponta dos dedos a aba do chapéu num sóbrio cumprimento.
Os aduladores pregoavam, com tuba sonorosa aos quatro ventos, os actos de filantropia de que a Nação lhe era devedora. Ao bravo general Póvoas oferecera de seu bolsinho uma maca, vinte enxadas, vinte pás, e dois ferros de monte para que não voltasse a repetir-se o indecoroso e letal espectáculo da Cruz de Marriços. Com efeito, os cadáveres dos liberais que tinham caído na batalha, insepultos por os camponeses, açulados pelos padres, se terem recusado dar à terra seus ossos excomungados, de si infectos, acabaram por empestar o mundo. Geresceu-se a peste e muitas aldeias em redondo foram tão ceifadas que não escapou casa que não sofresse a nefanda provação. E o Conde invocava, para que à sua dádiva não correspondesse sombra de repulsa, os preceitos da higiene pública e as obras de misericórdia que mandam sepultar os mortos, em vez de os abandonar pelos cabeços a pábulo dos lobos e aves de rapina.
Todos os anos, também, a 26 de Outubro, feliz data do aniversário natalício de S. A. o Príncipe, mandava dar aos pobres um suculentíssimo bodo, a que vinha presidir em pessoa S. Rev.ª o prelado do Porto, ou o vigário-geral da diocese. Depois da missa de pontifical, proferiam-se discursos patrióticos e cristianíssimos, queimavam-se profusas girândolas de foguetes, adquiridas por derrama entre o pessoal da fábrica, e rematava a festa por um lauto banquete às sumidades do Concelho, na qual voltavam a fazer-se solenes afirmações de fé monárquica e religiosa, com muitas saúdes de vinhos velhos e generosos da garrafeira do Conde.
Demais disso, vestia pela Páscoa da Ressurreição 12 necessitados de picotilho novo, obrado nos seus teares, em memória dos trabalhos que Jesus Cristo padeceu a caminho do Calvário.
Podia perguntar-se, e não deixavam de fazê-lo os sequazes: Tais actos de benemerência não estavam mesmo a indigitá-lo ao terceiro Estado para seu representante às Cortes, convocadas para o próximo dia 28 de Junho?
Na taverna do Nico, ainda alguns quarenta maiores, com seus aderentes e familiares, não tinham acabado de ingerir o viático, entrou pela porta, a açoitar com a ponta do pingalim o calção de cavaleiro, Albano de Carvalhais, morgado de Fraião.
Vestido de jaleco curto, à castelhana, apeara dum famoso baio, "que fugia a uma bala". Mal lançou as rédeas ao arrieiro, o Tomás Ruivo, que antes dele pulara do cavalo morzelo, em que sempre acompanhava o amo, pistolas nos coldres, um côvado atrás sobre a esquerda, e já ele se desfazia num grande sorriso de saudação, que distribuía a quantos ali estavam como as pétalas dum ramo. Pegou, também de luva, no primeiro copo que lhe estendiam e fez menção de beber chegando o vinho aos lábios. À sua volta os partidários enxameavam, porque torna, porque deixa, efusivos e açambarcantes, e ele sem saber para qual se havia de voltar. Era um homem na força da vida, alto, sobre o louro, possuindo mais que letras gordas, porque desde menino tivera três frades a ensinar-lhe a gramática, depois o latim, e a reger-lhe a criação. Aliado pela mulher, D. Mécia Lima de Abarim, à Torre da Silva, nada mais que pelo vulto desta casa em foros, bens de renda, coutos, curas a apresentar, se podia avaliar da vasta clientela de rendeiros e traficantes que fervilhavam à sua sombra. Não poucos eram também os amigalhaços e parasitas a seguir-lhe o balsão. Albano de Carvalhais era um impenitente esbanjador, mais que mãos-rotas, posto lavrar já o descalabro, para não dizer ruína, na sua Casa, que não tivera segunda na comarca. Prodigalidades com a facção, jogo, mulheres, cavalos, agiotas açaimados mediante a onzena crescente, a bola de neve do desbarato viera rolando, engrossando, e ameaçava subverter-lhe o património. O velho padre capelão, que pegara de estaca na família, Fr. Aniceto da Luz Perpétua, cujos olhos de picanço devassavam todos os recessos, não viu melhor que induzi-lo a pleitear a eleição do Braço do Povo, no intuito de furtá-lo às más companhias e, na esperança de que, junto do rei poderoso e coração de pomba, encontrasse amparo contra a catástrofe iminente.
Bem certo que o bom beneditino conhecia a corte joanina através dos escritos de Frei Fortunato de S. Boaventura e por um autor não menos entusiasta de realeza, que lhe era anterior, José Daniel. Se tivesse lido ainda Alvito Buela, viria a reconhecer que soltar um perdulário em Lisboa equivalia a atirá-lo a um poço com uma pedra ao pescoço. Os franceses tinham deixado o mau exemplo de suas pessoas ímpias e viciosas para que desalmados portugueses, mais atentos ao vil interesse do que à salvação da alma, ousassem fundar botequins como o Nicola, de negregada fama, onde se zombava de Deus e do rei, e tavolagens em que se jogava o seu e o alheio, bem como alfurjas de vária ordem para gozos e deleites nunca até então sonhados na velha terra das Cinco Chagas. Saberia um provinciano bisonho evitar tais alçapões do Inferno? Fr. Aniceto da Luz Perpétua tinha as suas dúvidas, e propunha-se por isso mesmo acompanhar o incauto fidalgo, de que fora mestre e guia quando menino e seria agora anjo custódio, dado que recaísse nele a representação do Braço do Povo. Mas obtemperaram-lhe que, se já no Minho, não conseguia reter o morgado de tantos passos funestos, que mais e mais lhe escancaravam a voragem, que ia ele fazer à capital, trôpego, jarreta e ignorante das avenidas por onde a mão aliciadora da libertinagem conduz estroinas e meninos bonitos?
Para escarmento, vinha-lhe à memória a última topetada de que tentara inutilmente acautelá-lo com conselhos prudentes e lágrimas paternais, topetada essa que dera que falar e estava para dar, por mal dos seus pecados. Morava na vila de Melgaço, passada para ali da terra de Verim não se sabia em que barca, uma rapariga espanhola, Cármen Salvatierra, espelho de salero e donaire, que vivia com a mãe e o padrasto. Abrira este ali uma quitanda, onde cambiava dinheiro e, a meia porta, exercia o melhor contrabando daquela raia, levando para Espanha e trazendo para Portugal mercadoria a primor, com beneplácito manifesto dos carabineros. Dizia- -se à boca pequena que D. Jesus Martinez - que tal era o seu nome - era agente secreto ao serviço de Calomarde e dos Apostólicos. O certo, certo é que Carmencita era uma lasca de arregalar o olho, em torno da qual arrulhavam pombos mariolas de alto topete, entre os quais contavam o morgado de Gondim, um galo doido por mulheres, e o abade de Cerdal, este um peneireiro de alto lá com ele para toda a espécie de fêmea que mostrasse proa, bom peito e anca. A moça ria, que nem de cócegas, ante os devaneios dos galanteadores e recebia os cortejos de uns e de outros com grandes alardes de virtude e mesmo sobranceiros desdéns. Um dia, o morgado de Fraião viu-a e ficou a morrer por ela. Tinha mulher e filhos, embora, dava tudo, inclusive a salvação, ele que batia o dente quando o frade lhe pintava as profundas do Inferno, para cativar a beldade. Não foi a ponto de inventar uma héctica galopante para D. Mécia e prometer casamento à franduna após o funeral da ilustre dama, que louvores ao Senhor estava anafadinha e da melhor saúde? A moça, rindo muito, respondeu:
- Pues deje usted volar su mujer al cielo de los gorriones y que todo el mundo lo sepa.
Perante semelhante obstinação, que magicou Albano de Carvalhais? Preparou uma expedição a Melgaço com seis dos seus bravos, capitaneada pelo Tomás Ruivo, e raptaram a espanhola. Tinha-a agora como uma rainha, sege, aias, su madre, na casa de S. Pedro da Torre, com uma quantia tão alta à sua ordem no Banco del Espírito Santo de Vigo que bastaria para dotar meia dúzia de burguesinhas honradas. Assim calou a pombinha, garantidos fartamente os seus dias e de su madre e um novio para quando batesse asas. Mas a aventura deixou rescaldo. Uma noite que Albano de Carvalhais saía do seu alcácer de sultão sofreu a espera de quatro homens emboscados que lhe mataram o cavalo com uma zagalotada e deixaram por morto um dos homens da escolta. Quem foi, quem não foi, assentou-se que a cilada partira de Martinez, que jurara tirar-lhe a vida e continuava a mostrar-se relutante a qualquer concordata.
Porém, mediante inculcas daqui, indícios dalém, ficou estabelecido que o autor da tranquibémia tinha sido o abade do Cerdal, Joaquim da Cunha Silvano, que com as dores de cotovelo dera urros que se ouviram até no paço do arcebispo.
A tonteira custara a Carvalhais muito desassossego, sem falar no rombo incalafetável na fortuna combalida. Segundo Fr. Aniceto, a quinta de Agualonga ia-se à gaita, sendo milagre que chegasse para metade das dívidas. Também lhe roubara crédito entre a gente grada e de bons costumes, como os velhos eclesiásticos e fidalgos de cãs e de peso, e todos quanto tinham entrado para o convento das Três Virtudes na velhice. O morgado, em contrapartida das proezas de valdevinos, era um homem insinuante, com amigos em toda a parte, sem ser dos de mofo, capazes de dar a vida por ele. Albano de Carvalhais, além de flagelo sempre pronto a fustigar os cartistas, era um fanático do príncipe e do altar. Neste capítulo, apenas o Cabeça Ancha lhe levava a melhor em ter dado alguns malhados à forca. Caseiros, para quem era constante a lei da perdoança, e lhe não negariam mulher ou filhas se lhas requeresse ao desfastio, caloteiros de marca, dedicados filhos-família que corriam as feiras a cavalo num garrano pimpão, especuladores que andavam no seu séquito como corvos onde sentem que poderão vir a encher o papo, eram também os grandes sustentáculos da sua eleição. Nas quintas, com todo o desmantelamento, havia sempre gente homiziada, e não era por ter ouvido duas missas nos domingos, comentava com acidez reprobatória Fr. Aniceto. Estes, bem certo, que meteriam as mãos no fogo por ele.
Depois de sociarem no Nico, de a grande maioria dos quarenta maiores esgotarem um cântaro de vinho e duas almofias galegas atestadas de torresmos, que o estalajadeiro liberalizara sabendo que pagava a barba longa - Albano de Magalhães, com evidente bom humor e um leve e sardónico sorriso a arrepiar-lhe os lábios finos, deu sinal de partida:
- Vamos lá que Suas Senhorias, o Dr. Cabeça Ancha e o conde Piteira, estão fartos de esperar. E, meus amigos, só vos digo uma coisa: não levo a mal a quem quer que seja que não vote no meu nome. E já agora sempre vos digo outra: se me quiserdes para vosso deputado, eu perca o nome que tenho se voltar da Corte do nosso magnânimo monarca sem trazer uma lei. E é que, tirando-se uma linha de Viana para a Ponte e da Ponte para os Arcos, para a banda de cá as alçadas reais não terão mais direito de pôr a pata. Se puserem, responde-se-lhes a tiro. Correias às costas, portanto, os nossos filhos não deitam. Há gente de sobra nas cidades, em Trás-os-Montes... por esse Alentejo. Morram eles, e fiquem cá os Minhotos em paz com mulheres e filhos.

*

Os quarenta maiores, muito animados, a limpar às costas das mãos os beiços gordurosos com a comezaina no Nico, ocuparam os lugares que lhes estavam reservados na sala de audiências dos Paços do Concelho. Na mesa, à volta do pároco de S.to Estêvão, presidente da Colegiada e da Câmara, assentavam-se os grandes da comarca, Abel de Valadares, senhor de Cubalhão, D. Inigo Soares, da Casa de Tangil, Suetónio Peres Sândias, da Casa da Fumaça, Pedro Márulo, de Parada do Monte, etc. etc.
Ao Dr. Cabeça Ancha coube, primeiro que os demais, como mais velho, apresentar e defender a candidatura. Depois de ponderosas e várias considerações, em forma de sarapatel, quanto ao cariz das culturas, ao baixo preço do milho, ao estado deplorável das igrejas, inclusive o santo da sua particular devoção, S. Bento da Porta Aberta, ao malefício dos liberais naquela vila e termo, às cortes de Almacave e ao milagre de Ourique, atacou de peito o assunto como na luta greco-romana:
"Se me escolheis, a mim prestais-me um péssimo serviço; pelo contrário, a vós, ao príncipe, à Nação e a Deus, prestai-lo tão útil, tão descomunal, que não lhe avaliais a grandeza. E eu vos digo como e porquê. A representação, descontando a parte de encargos que haja de assumir o Tesouro, implica um dispêndio fabuloso. Indumentária, viagem, estadia em Lisboa, roubalheira das estalagens e de beleguins, só isso quanto não custa? Ponde lá agora o que deixarei de ganhar como causídico, e ainda o desconcerto que advém inevitavelmente a uma casa de lavoura com o senhor a dormir ou longe - amo fora, dia santo na loja - que vulto não atingem tais minerações? Por outro lado, quanto ao serviço que posso prestar com este desserviço particular, eu vos digo: prezo-me de conhecer as leis como poucos. António Ribeiro Saraiva foi meu colega de bancada nas aulas de Prima e muitas vezes estudámos juntos e lhe ensinei eu a interpretar as Pandectas. Acúrsio das Neves, o grande João das Regras da Monarquia absoluta, pode-se dizer que andei com ele ao colo. Eu e o conde de Basto somos tu cá, tu lá. E até o general Póvoas, sempre que por sorte eu estava presente, me pedia o parecer para os seus sapientíssimos planos de batalha. Ora eu tenho a certeza que, se me vêem na Corte, me hão-de chamar para o Conselho de Estado, ou ocupar-me na redacção das leis. Estas Cortes são mais que tudo um mostruário de narizes, quer dizer, uma competição de talentos e de carácter, e julgo que cá o velho Dr. Cabeça Ancha - dizendo isto, espalmava a mão no peito e suspendia-se, o rosto regado dum gordo sorriso, a boca aberta, como mascarão de chafariz que está a deitar bom jorro de água - há-de dar honra à sua terra. E eu vos prometo que não voltarei com as mãos escorridas. Pedirei que esta comarca, como pobre que é - e consenti que lhe chame pobre para levar a minha água ao moinho, embora tal não suceda, hem, embora tal não suceda, que eu sei muito bem que cada um de vós tem grão no sequeiro e meia dúzia de libras ao canto da arca para uma aflição e para o mais que for preciso, como pagar os honorários ao vosso advogado, que vos livrou da armadilha do vizinho, a côngrua do pároco, acudir a um amigo numa pressa - seja desonerada de pagar dízimos e gabelas e diminuídos os outros tributos. Demais disso, se me passarem a pena que lavra as leis, bem vai, se não, postar-me-ei atrás do legislador, como um cão, para que não haja piedade com hereges, maçónicos, pedreiros-livres e constitucionais. A Carta é um acto revoltante, pelo que significa em atropelo de princípios. É preciso demonstrar que todo o poder é do rei e vem do rei, nosso Senhor? A consciência diz-nos que a demonstração está feita. Melhor, entra pelos olhos dentro do entendimento. Ora, sendo Deus quem é, omnipotente, o monarca, seu ungido, devia ser engasgalhado entre varais como um cavalo, quer a mandar, quer a gerir? (Aplausos.) Quero Deus livre nos altares; quero livres, satisfeitos e considerados os ministros que o servem; prestigiada e mais rigorosa a justiça; limpos os caminhos de ladrões e os povos de malhados. Aqui está em breves termos o programa do vosso eleito se me derdes essa honra." (Rumores de vária ordem.)
Salvador Piteira falou na sua voz surda e regular, olhos fitos no tampo da mesa.
Também ele queria o altar prestigiado e o trono enaltecido. Eram estas as duas pedras em que repousavam os cunhais da grande casa que é um reino. Que o príncipe mande, legisle, disponha no domínio do material, e o padre no domínio do espírito. Também desejaria ver a Nação rica e próspera. Já que não valia a pena abrir estradas porque mais depressa vinha por elas para as aldeias o vício das cidades, tão-pouco que houvesse mais que um mestrinho em cada terra grande para ler os editais e alvarás, queria ver as igrejas limpas, os sinos intactos nas torres, água abundante nas fontes arcadas e, como o Dr. Cabeça Ancha, menos dízimos, menos tributos, menos alcavalas. Particularmente à sua parte, pediria mais três forcas, a distribuir, com a já existente, aos quatro cantos da comarca, magistrados íntegros e inflexíveis. Ouvia-se dizer que os juízes se dobravam à peita e ao capricho das camorras. Quem são eles? Onde estão? Ninguém dizia. Donde era lícito concluir que a justiça portuguesa honrava o Príncipe como o Príncipe honrava a justiça. Mas lá aparar as unhas aos escrivães e meirinhos, que as tinham aduncas, era obra meritória e indispensável. Ali estava em breves termos por que natureza de providências terçaria armas nas cortes do nosso grande e clementíssimo rei D. Miguel I. - E terminou, olhando pela primeira vez para o auditório: - Viva a Monarquia absoluta! Abaixo a ímpia Constituição! (Ovação.)
Finalmente usou da palavra o morgado de Fraião. Depois de desfolhar um sorriso ameno pelos quarenta maiores, rompeu:
"Meus amigos. Aconteceu-me no penúltimo Verão percorrer, na comitiva de Sua Mercê o senhor Visconde de Santarém, uma grande parte de França e Áustria, países de hereges, hoje limpos desse escorbuto. E eu vos digo o que vi e que gostaria de ver na nossa terra. De norte a sul há estradas, riscadas a cordel e a teodolito, de brita formando concreto com a terra à força de cilindrada. Por semelhantes estradas novas, a que dão o nome de reais, onde não empoça a água das chuvas e se não perde tempo em desvios e rodeios, passam magníficas seges e malas-postas. Nas aldeias há um mestre que ensina a ler gratuitamente quem queira e um maire que administra a Comuna com vara firme e segura. A água vem encanada das nascentes e cai por uma bica para tanques e lavadoiros. Fontes de chafurdo, não há. É falso que tenham posto fogo às igrejas e assado os padres nos espetos. Conversei com um e outro e, gordos e prósperos, louvam a Deus e aos paroquianos, e estes os respeitam e estipendiam. Outrossim vi belas casas a servir de Paços de Concelho, tribunais e outros edifícios de interesse público, cheios de imponência e da melhor ordem. Nada vos digo sobre os costumes, mas creio que neste capítulo nós ganhamos aos Franceses. Não que amemos a Deus melhor do que eles, mas em matéria de guardar o dia do Senhor, eles lá só não trabalham ao domingo e não observam mais nenhum dia santo, desdenhosos dos preceitos da Santa Madre Igreja. Trabalham como moiros, por isso estão ricos. É verdade! Mas como o trabalho não é recomendação perante o Senhor e, sim, a prece, eu quero que continuem a guardar-se no Reino todos os dias santos que marca a folhinha, e vêm a ser uns quarenta na roda do ano, permitindo deste modo que o bom povo ouça a missa e a homilia, sempre que se comemora um grande santo ou fasto religioso. Não vos falo na superioridade dos Portugueses sobre os Franceses em matéria de outros preceitos do Decálogo. Se não fosse o abuso que os frades mendicantes fazem das casas mal guardadas de homens, dir-vos-ia que a nossa terra é na cristandade um dos baluartes do sexto mandamento."
"Mas, fora do domínio espiritual, eu sou pelos caminhos limpos e rectos, onde possam passar reses, carros de lavoira e seges, e onde vacas e burras não enterrem o jarrete e partam o pernil. Sou pela água a cair duma bica em cada aldeia, embora ouça dizer que é mais saborosa e fresca essa que repousa nos limos da madre e entre merugens, e tirada por um cantarinho de mergulho. Pelo menos, a dos canos é mais limpa. Não entram para a fonte cobras nem lagartos, nem moscas que gostam no pino do Verão de se acolher à frescura que lhes oferece o sobrecéu de pedra das fontes cobertas com uma laja ou abobadadas. Sou por um mestre, já não digo em cada terra, que seria ciência supérflua e perigosa, porquanto os livros se propagam o bem também propagam o mal, mas ao menos uma escola em cada vila onde os senhores morgados, os fidalgos, e mesmo aqueles que dispõem de alguns teres, vão aprender a ler, escrever e a fazer as contas dos gastos e receitas de suas casas. Gostaria mais de ver malas-postas para cá e para lá, cruzando a nossa terra, carregando abades, fidalgos e senhoras, já que a boa gente pobre do povo não pode nem deve usar de tais luxos. E, como Sua Senhoria o Dr. Cabeça Ancha, entendo que hereges, franchutes, constitucionais devem ser banidos do Reino para as Pedras Negras e expropriados os seus bens em benefício de quem os der à dica e desmascarar. E, sobretudo, porque hão-de as alçadas reais vir cá tão longe fazer soldados para a guerra? (Vibrantes aplausos.) Não, três vezes não. Quero os nossos mancebos quites de deitar correias às costas. Têm muita soma de gente, de braços a abanar, lá pelo Sul, a quem custará menos depois a voltar para suas casas, porque estão perto. Deixem-nos, que nas nossas igrejas rezaremos pela paz do rei e a vitória das suas armas, e trabalharemos dobrado pelo engrandecimento da Nação."
"Agora, eu vos digo - e tenham-no em vista para que não sofram decepções - representar o Braço do Povo da nossa comarca não é legislar. Isso virá em seguida à assembleia magna da Coroação e Proposição do nosso dilecto monarca D. Miguel I, em que vos representarei, se me derdes a honra de me designar. Para essa conjuntura é que elaboro a lista das aspirações da comarca que irei levar à Secretaria do Reino a fim que sejam ponderadas e atendidas, na medida em que o nosso real amo assim o julgar e o favor que lhe merecer a minha instância, que vos prometo aturada e infatigável. Viva a Monarquia absoluta! Viva D. Miguel, rei e arcanjo!" (Grandes e nutridas salvas de palmas.)
Pediram a palavra muitos dos assistentes, uns para aplaudir, outros para discordar, pois que onde há dois portugueses há discrepância, e onde há três, há partido. Outros reclamavam providências urgentes, honra lhes seja, para seu proveito e regalia. Viu-se entretanto crescer na cadeira, a meio da sala, o Joaquim Guerrilhas, de Romarigães, homem dos seus cinquenta, focinho ensilvado de javali, atarracado. Olhando suspeitoso à direita e à esquerda, desatou a falar com grande mobilidade, como se espalhasse pelo auditório um bolso de pedras.
- Este é meu inimigo figadal - disse o morgado de Fraião para António Maciel, chefe político de Viana, que se sentara a seu lado e lhe patrocinava o mandato.
- Que lhe fez?
- Que me fez? É o homem de mais tricas que há no Alto Minho. Com ele, quando uma pessoa se descuida, está roubada. Tudo lhe serve para operar: caminhos, árvores de corte, águas, o diabo. O meu procurador a cada passo tem de lhe mandar o meirinho a chamá-lo à ordem...
- Vamos lá a ouvir o facínora. Realmente é um feio bicho.
- Está feito com o Barriga Ancha…
Dizia Joaquim Guerrilhas em voz tropeçante:
"Ouvimos com sete ouvidos as palavras dos três senhores, que se oferecem para nos ir representar na Coroação do grande e imperial senhor D. Miguel, que Deus guarde largos anos e bons. Todos três, pelo que disseram e prometem, se podem comparar a três patacos..."
- Salvo seja... - corrigiu o presidente.
"Salvo seja, repito eu, pois não quis desfazer em ninguém. Se comparei, e no meu fraco entender se podem comparar a três patacos os três senhores pretendentes, é que tilintam todos três pouco mais ou menos com o mesmo som. E já que assim é, aqui declaro em voz alta, o meu voto é para Sua Senhoria o morgado de Fraião, que viu mundo e sabe o que é um pobre mudar de camisa. O nosso Minho, senhores, precisa de mudar de camisa. Também eu gosto que a estrada passe à minha porta para ir mais depressa e não encharcar os pés. E quanto a fontes, embora muitas vezes veja os meninos com o sim-senhor virado para dentro do chafurdo a fazer as suas necessidades, as mães que lhes dêem a criação. Primeiro as igrejas, as estradas, mais tarde as bicas. O que cai nas fontes, vai ao fundo. À tona anda a água purinha." (Apartes. Vozes entrecruzam-se.)
"É assim mesmo, pois então! As fontes de mergulho lá estão funcionando com a graça de Deus. Quanto a correias às costas, bem pensado, senhor Morgado, bem pensado! Que as deitem os vadios das cidades, que não têm que fazer, e os arruaceiros, perdidos e achados em festanças e arraiais, Senhora dos Remédios, S. Torquato de Guimarães, S. Bento da Torreira, círios da Arruda e da Nazaré, onde vão para rachar a pinha do camarada e voltam, por tabela, com a sua rachada. Nós somos pacíficos e o nosso regalo é que nos deixem em paz... e às moscas."
"E sobretudo, eu quero a lei de Deus e dos homens mais respeitada; os templos varridos e caiados, e sinos nas torres. E estes sinos eu os quero a dobrar noite e dia à morte dos malhados. Tenho dito."
- Homem, você estava a mangar comigo. O homem é seu vassalo... - murmurou Maciel, na voz a transparecer um certo despeito através do sotaque de ironia.
- Hum, ele me apresentará a conta! Não é sujeitinho para dar ponto sem nó.
Sucedeu-lhe o abade do Cerdal. Era um belo pedaço de homem e apenas pelo escanhoado da cara e o casaco à secular se reconhecia que era um padre, e um padre mundano, pois que a tonsura, ao que a trunfa era de alta, não se lhe via.
"Senhores Quarenta Maiores, amigos e senhores: Vossas Mercês já sabem muito bem qual é o homem que lhes convém... Vossas Mercês já o escolheram para que vos represente em Cortes..."
Olhou em volta e viu todos suspensos das suas palavras.
- À missa deste masmarro é que eu nunca fui - proferiu Albano de Carvalhais em voz baixa para Maciel. - E então ele, à minha, nem que mandasse o bispo. Andamos há muito de candeias às avessas.
Depois daquela manha de pregador, afeito ao púlpito, tomou o abade do Cerdal:
"E eu já sabia quem nos convinha antes de ouvirmos aos três candidatos desfolhar as flores do seu programa. E digo mais, já o sabia antes mesmo de vir a esta assembleia: O homem que nos convém, que está ao corrente das nossas necessidades e dos nossos costumes, que está mais a carácter do pátrio Minho, que tem a vera acção do progresso..."
- Hem? Hem? - sussurrou o morgado de Fraião, perplexo.
"...adquirida por experiência e a ver mundo, é Sua Senhoria o senhor Albano de Carvalhais, última e lídima vergôntea da gloriosa Casa de Fraião."
- O amigo tem-se farto de mangar comigo! - pronunciou Maciel quase zangado.
- Olhe que não. Mas tem graça! Este padre ainda não há muito que pagou a uma roga de sicários para me matar...
- Essa é boa! Então recebeu ultimato do arcebispo...
- Pode ser, mas ponho-lhe muitas dúvidas.
Prosseguia o abade de Cerdal em voz bem timbrada e incisiva:
"A nossa comarca estaria também honrosamente representada tanto pelo ilustre Dr. Cabeça Ancha, luminar do foro e mestre em leis, como pelo conde Piteira, grande esmoler e prático na ciência dos números e com altas relações na Banca e na Corte. Mas, considero eu, e os senhores quarenta maiores dirão se o meu raciocínio é justo, entrementes que vão e vêm, que as Cortes reúnem e não reúnem, que os Três Estados deliberem e não deliberem, que se coroa o nosso grande rei e se vota o credo da nova Monarquia, quem havia de destrinçar as leis nas nossas comarcas, atalhar aos dissídios para que os litigantes se não matem em desespero de justiça? Quem havia de defender os bons das tramóias dos perversos, e os pobres dos ricos mal-intencionados, que em todas as classes os há, como só o nosso grande Dr. Cabeça Ancha sói fazê-lo paternalmente?! Por outro lado, quem havia de vestir os nus, dar de comer aos famintos, atar e desatar os altos negócios da Banca nas províncias do Norte, em conformidade com os interesses da indústria, da propriedade e de modo geral dos povos? Não, nós não podemos de modo algum dispensar as luzes e o bom conselho dos dois grandes homens aqui presentes! Deixá-los partir para tão longe, ainda que fossem apagar um incêndio que devorasse meia Lisboa, não e não. Ficava sem remédio a nossa inópia. O bom, o sábio, o equitativo Dr. Cabeça Ancha e o generoso e previdente conde Piteira não poderão desamarrar-se de nossos braços, que nem é bom falar de nossos corações, que nós não consentimos!"
- De todo aquele chorrilho de amenidades para os dois, não há uma só que não seja mais falsa que Judas. Não sei que bicho mordeu a este salafrário de reverendo! - segredou o morgado para o seu amigo, no fundo exultante.
- Mande-lhe um bom salmão... - gracejou Maciel.
- Não é o tempo deles.
- A menos do dedo do Altíssimo, aqui há gato...
- Gatarrão...!
"Convido - perorava o abade Silvano - aos dois ilustres proponentes a declinarem no ilustre morgado, homem lido, viajado, e sem compromissos, e aos digníssimos quarenta maiores a votarem no seu nome para a nobre missão de nos representar."
E assim foi sagrado, por grande maioria, deputado do Braço do Povo às Cortes o senhor de Fraião.

*

Chegaram os procuradores do Alto Minho à capital, sem novidade de maior, com as caravanas de outros que desciam de variadas terras da província a representar em Cortes os braços do povo e da nobreza. Em Carqueijo viera alcançá-los a comitiva de Vila Real, com Colmieiro de Morais, e mais adiante, na Venda do Cego, surpreenderam a do barão de Tavarede, com o coche esbandalhado e carpinteiros do lugar a atamancarem-lhe um eixo novo.
Aboletaram-se ao Corpo Santo em casa duma senhora espanhola, tida como pessoa de recato, muito cristã, e séria nas contas. Usava ainda capa de merino com vidrilhos e perfumava-se com alfazema. À noite, depois da ceia, vinha rezar com eles o terço. Mas Albano de Carvalhais entrou na cidade com pé esquerdo. Surgiram-lhe umas febres terçãs, tão elevadas que teve, a instâncias dos facultativos, de meter-se na cama e medicar-se. O barbeiro aplicou-lhe uma sangria que teve a propriedade de minorar-lhe as dores, mas deixou-o muito enfraquecido.
Chegou o dia 6 de Junho daquele fausto ano da graça de 1828, dia para sempre festivo na cartilha absolutista, do juramento de el-rei fidelíssimo, o senhor D. Miguel, com a augusta cerimónia de preito e menagem pelos Três Estados, e ele, sem embargo do voto que fizera a S. Bento da Porta Aberta de dar três voltas à ermida, no dia da festa, descalço e de mortalha, e da sua férrea vontade, não pôde segurar-se em pé.
Duas semanas andadas, quando do auto de abertura e proposição das Cortes, tão-pouco se achava melhor. Ao cair da noite, o capitão-mor de Barcelos entrou na estalagem a visitá-lo. Era um homenzarrão, que vendia saúde, peludo que nem um fauno, e só por isso Albano de Carvalhais o recebeu de mau olhado. Estava sentado na cama, mais branco que a camisa que vestia, lábios secos e arregoados pela febre, magro, esquálido, capelas dos olhos encovadas, a mão de dedos aduncos e muito afilados a esbagoar o rosário. Depois de trocarem as palavras consabidas de cumprimentos, disse-lhe o enfermo em voz flébil e entrecortada:
- Estou para aqui um canastrão. Acho-me muito mal, muito mal! Vejo-me mais em termos de me preparar a bem morrer do que ajudar o nosso príncipe a firmar o trono!
O capitão-mor não achou melhor que dar-lhe uma gargalhada, o que acendeu um luaceiro na face do senhor de Fraião. E soltou-lhe logo por cima, falsas mas estralejadas como bátegas de chuva que batem nas vidraças, estas palavras categóricas:
- Não diga asneiras, primo. Isso não é nada! Vai ver. Eu até o acho muito melhor.
- Não, não, custa-me a respirar. A minha arca do peito é um fole roto. - E ao cabo de uma pausa, de que o capitão-mor não soube como varrer o vazio mortuário, tornou, alçando olhos para os seus olhos:
- Então como correu a função?
O capitão-mor perfilou-se diante dele numa atitude de tribuno ou do mensageiro, glorioso consigo, que dá conta do recado. E proferiu de olhos a chispar, a boca, como dizia Frei Luís de Sousa dum personagem real, cheia de risos:
- Estupendo, estupendo! Foi hoje um dos maiores dias da minha vida...
O que havia de egoísta prosápia naquela postura não escapou ao enfermo que, antes de ele ir mais longe, lhe observou:
- Sim, eu calculava o que fosse! Para que fomos nós chamados? Mas conte lá, primo, conte lá... Que pena a minha não ter assistido!...
- Vai assistir à abertura das Cortes, que se anuncia para melhor. Daqui até lá, põe-se rijo como um pêro. Está marcada para o dia 11 de Julho...
Albano de Carvalhais torceu os lábios num esgar de dúvida, e sussurrou em voz que parecia, filtrada pela angústia ou pela glote entabuada, o grasnido dum pássaro a morrer:
- Deus é que manda. Deus é o Rei dos reis. Mas conte lá, primo, conte lá...
- Então eu lhe conto... Tinham fixado para as três da tarde a hora da solenidade. Mas já muito antes caíra em peso, na sala do trono, toda a fidalgaria de Portugal, alto clero e Braço do Povo. Só queria que visse, senhor primo, tanta gente, vestidos todos ao antigo estilo da corte, casaca e calção de seda preta, véstia e meias de seda branca, capa de seda preta com bandas brancas, volta, chapéu com uma das abas levantada e plumas brancas...
- Os alfaiates fartaram-se de ganhar dinheiro...
- Alfaiates e mercadores. Uma andaina destas custa os olhos da cara. Onde faz a sua? O melhor de todos é o Piranha, ali na Travessa dos Calafates. As rabonas que ele faz assentam como uma luva, mas é careiro. Careiro?! Ora, ora, quem paga é o negro.
- Vá contando. Foi então imponente...?
- Magnífico. Nem a corte do roi Soleil, dizia um tal pintalegrete que estivera em França. Os ministros traziam toga e os eclesiásticos vestidos talares. O patriarca de Lisboa, muito encarniçado, cabelo ruivo, parecia mesmo um andor. Passou por meio dos procuradores de mão erguida a abençoar, que nem de hissope no aspersório dos domingos terceiros. No topo da sala, ao lado de duas tribunas, destinadas às sereníssimas infantas, estava o trono...
- Viu as infantas. Que tal?
- Olhe, primo, eu já estou velhote para apreciar tais melápios, mas aqui para nós, que ninguém nos ouve, e salvo o respeito devido às pessoas reais, pareceram-me uns camafeus... Estavam a uns cinco ou seis côvados do meu banco, e eu podia muito bem catrapiscá-las que várias vezes me deitaram o olho...
- Ouvi dizer que o trono era de metais preciosos e pedras finas...
- Se não era, reluzia como se fosse. Mas nem um altar, primo, o altar-mor da Sé de Braga em dia de exposição do Santíssimo!
- Faço ideia... Diga lá como era, a ver se me engano...
- Imagine, primo, um estrado dos seus quatro côvados de frente por outros tantos de lado, ao qual formavam dois planos, ambos cobertos de alcatifas, para o qual estrado tinha de se subir por degraus com passadeira de carmesim a toda a largura. Ponha-lhe em cima um rico e largo cadeirão dourado, com almofadas do mesmo estilo, as armas reais no espaldar, debaixo dum dossel de oiro recamado de oiro, galões e franjas em cachos também de oiro. Faça de conta, agora, que está na feira de ano de Ponte de Lima, com todos os alaridos, tons e modilhos da grei portuguesa. De repente soaram as charamelas, trombetas e atabales tá-trá-tá, trá-tá, e tocata foi essa que se nos puseram os cabelos em pé e nos subiu o sangue nas veias. Calou-se tudo. Era o nosso rei que entrava na sala em traje imperial, carregado de oiro e brilhantes, belo como um arcanjo que é. Abriam marcha os arautos e passavantes, seguiam-se os reis de armas, vestidos a rigor com as suas cotas e uniformes, e os porteiros da cana com as suas maças de prata. Vinha depois o duque de Cadaval, condestável do Reino, de estoque empunhado às mãos ambas, rotundo e opado, um alma de cântaro que nos chama as mulas da província, e logo Sua Alteza, acaudatado pelo conde de Belmonte, camarista de semana, que servia de camareiro-mor. Seguiam-se o marquês de Belas, guarda-mor de Sua Alteza, o marquês de Torres Novas, mordomo-mor, com a cana, e o conde de Redondo, meirinho-mor, com a vara, e mais altos dignitários da Casa Real, todos muito tafuis e ufanos. Sua Alteza atravessou de chapéu na mão, mas firme e altivo, por entre as duas alas dos procuradores, e dirigiu-se ao trono. Que beleza de homem! Caramba, explico-me agora que as mulheres desmaiem de amor só de pôr-lhe os olhos em cima, sim, senhor! Quando se sentou, sentámo-nos todos consoante o lugar que estava destinado a cada um... No trono e degraus do trono tomaram assento os camaristas, o ministro e o secretário de Estado com a almofada dos selos à frente; à banda deles, o cardeal-patriarca e o duque de Lafões; depois, do lado direito, todos os prelados em sitial alcatifado de verde; do lado esquerdo, os marqueses em cadeiras rasas com almofadinhas de veludo carmesim; os condes em bancos cobertos de panos lavrados; os viscondes e barões na ponta. Finalmente, tinham disposto pela sala, em filas apertadas, bancos descobertos, dezanove de cada lado da coxia, para os procuradores, a começar pelos do Porto e Évora, e a acabar pelos de Goa e Eixo. Barcelos tinha assento no banco 14, ao lado de Panóias e de Ourém.
Albano de Carvalhais estava de olhos fitos, boca meio descerrada, a rever mentalmente o pitoresco panorama da abertura e proposição das Cortes e reflectia. Porque o castigava Deus tolhendo-o de representar o velho couto de Fraião? Uma lágrima comiserada borbulhava nos seus olhos vagos, fitos em abstracto, através da vidraça, no horizonte sem fundo, e tudo ele agora considerava punição divina. E, sentindo-se sob a garra duma fatalidade inexpiável, algemado ao catre da hospedaria, com a mágoa de não haver tomado parte no espectáculo esplêndido, essa lágrima furtiva intumesceu e rolou pela face até aos lábios, onde se evaporou ao contacto do seu brasido. Mas o capitão-mor não dera conta e prosseguia:
- Tocaram as charamelas com o fôlego todo, e o rei de armas de Portugal avançou para o banco dos tonsurados e dobrou-se num grande salamaleque diante do bispo de Viseu. Ergueu-se de lá este bispo, pimpante que nem o valete de oiros, Frei Fortunato de S. Boaventura. Apanhando as abas da capa como uma madama, trepou ao estrado real e, depois duma vénia a Sua Alteza, proferiu o discurso da proposição das Cortes que foi uma peça de estalo. Sim, senhor, chama-se um orador de cara! Tenho ainda nos ouvidos aquele rufo de tambor: "Uma voz unânime soa em todo o Reino: que Sua Alteza se apresse a subir ao trono de seus maiores... Não podia o Grande Príncipe desatender a voz da Nação... Os Três Estados aqui convocados que declarem se é conforme à letra e espírito das leis fundamentais que se aplique na pessoa de Sua Alteza o direito à sucessão do Trono da Monarquia Fidelíssima." Os Três Estados bradaram à uma, erguendo a mão: "Apoiado! Apoiado!"
- Também que haviam eles de dizer? - murmurou Carvalhais, novamente se utilizando da verdade crua como revindicta contra a má sorte. - Não tinham vindo para outra coisa... E acabou ali?
- Falou ainda o procurador por Lisboa, um tal José Acúrsio das Neves, que deve ser um melro de bico amarelo. Fala pelos cotovelos e bem, mas o alma do diabo obrigou-nos a ouvi-lo de pé.
- De pé, é boa!
- Sim, senhor. O rei de armas de Portugal, depois que ele se ergueu para falar e mal se havia inclinado diante de Sua Alteza, ordenou em voz alta: "Levantem-se todos!" Assim se fez e logo o figurão rompeu no rataplã: "Sereníssimo Senhor. Depois de tão longas peregrinações e por entre tantos perigos e trabalhos, a mão do Omnipotente conduziu a Vossa Alteza Real, desde as margens do Danúbio às do Tejo, para salvar o seu povo... Aquela hidra que há cinco anos Vossa Alteza Real esmagou tem sido a origem e causa de todas as nossas desgraças. Mas ela fez--se morta, levantou de novo o colo... Ora, vai fixar-se o trono na base da verdadeira legitimidade: reunir toda a grande família portuguesa debaixo de um governo justo e fraternal; tranquilizar os bons, desenganar os iludidos, e arrancar das mãos pérfidas e incorrigíveis o punhal que pretenderam cravar no coração da Pátria, para repartirem depois os seus ensanguentados despojos... A Europa tem os olhos fixos sobre Portugal e não pode deixar de aplaudir a sábia e magnânima resolução que Vossa Alteza Real tomou de firmar o ceptro português sobre as ruínas da Revolução..."
- Que pena eu tenho de lá não estar! - gemia Albano de Carvalhais, rico-homem, católico da velha guarda, azorrague dos pedreiros-livres no seu plácido couto de Fraião, em doce e lamuriada cegarrega. - Que pena tenho!
O capitão-mor esquecera o motivo de afecto e caridade com que começara a descrever a cerimónia. Miguelista dos quatro costados, tomara calor e, enfunado ao vento da própria retórica, largara o pano todo.
- Ah, reizinho duma cana, que desta vez acabam de morte-macaca os inimigos do trono e do altar! Acabam que lho digo eu, primo! O Acúrsio cantou-lhas ali tesas. Algumas passagens valem o padre José Agostinho. Ouça: "De todas as partes se ouve um clamor geral contra os rebeldes, formam-se batalhões de voluntários, pedem-se armas, e os povos se levantam em massa e fazem uma montaria geral não só contra os rebeldes armados, mas contra todos aqueles que suspeitam de aderentes aos princípios da Seita. Desgraçados deles se não achassem amparo em S. A. Real e nas autoridades, a quem Vossa Alteza Real tem encarregado de manter a ordem pública!" E que me diz da gaitada final: "Firme-se Vossa Alteza Real nesse trono excelso e faça feliz a Nação que o adora. Generoso Príncipe, sic itur ad astra!"
- Que maravilhosa memória que o primo tem! Até sabe latim...!
- Arranho, arranho. Algum proveito havia de tirar dos cascudos do padre-mestre.
- O primo, assim, chega a ministro...
- Não chego que me fazem guerra o Maciel de Viana e o visconde de Vila Nova de Cerveira.
- Deixe lá, atrás dos tempos, tempos vêm. Ah!... que altos lugares lhe não estão reservados!? E como rematou?...
- Como havia de rematar: Palmas e mais palmas, vítores por uma pá velha. "Viva o nosso Rei! Viva o absoluto! Viva o pai da Pátria! Viva o arcanjo S. Miguel!" Por outro lado, punhos no ar e urros: "Morram os constitucionais! Morram os cartistas! Morram os pedreiros-livres!"
- Quem os mata?! São como o escalracho - murmurou Albano de Carvalhais. - Quando abrem as Cortes?
- A abertura das Cortes está marcada para quarta-feira, 25 do mês.
- Não chego lá! - soluçou Albano de Carvalhais. - Não chego!
Estava meio reclinado sobre as almofadas, as mãos estendidas sobre os lençóis, pálpebras descidas. O capitão de Barcelos não sabia que lhe havia de dizer. Tornou a abrir os olhos, torceu os lábios exangues numa expressão de infinita mágoa, e ciciou umas frases que envolviam por certo todos os seus amores e desespero:
- E eu que tanto queria beijar a mão do nosso Príncipe!... Acabou-se! O meu Tomás, por alcunha o Trinca-malhados, e os tesos da Labruja podem rezar-me por alma... Carmencita!... Minha mulherzinha!... Meus filhos!... Sinos da minha igreja, dobrai a finados!

*

Constou na Corte, mediante a devassa que se abriu quanto ao lugar vago no 10.° banco, que estava a dar as últimas o deputado do Braço do Povo, Albano de Carvalhais, morgado de Fraião. Pelo quê, a seguir a um confessor, lhe mandaram do Paço o protomédico D. António Salgadinho de Mulafarta e Rodes, que se notabilizara no tratamento das almorreimas do senhor D. João VI.
Era um homem no pendor dos anos, gordinho, de suíças, e com peruca tão engenhosa que lhe escondia quase a calvície adiantada. Vestia com esmero camisa de bofes, debruada a ponto de Alençon, calção com rendas e meia esticada sabiamente sobre as panturrilhas, sapatos de fivelas esculpidas a primor. Ademanes, vestuário e ares majestosos denunciavam à légua o refinado cortesão.
Entrou D. António na hospedaria a cuspir, posto fosse das mais recomendadas da Ribeira, lenço com cheiros na mão esquerda e a fungar uma pitada, espremida nos dois dedos da direita, contra a fedorentina a amónio de gato e doutros bichos, que saturava a escada. Com acento categórico bateu à porta. Acudiu a abrir-lhe a própria D. Paca, que ficou estarrecida e deslumbrada em face do precioso visitante. E, adivinhando-lhe a alta estirpe, conduziu-o com toda a solicitude e humildade pelo corredor lôbrego ao quarto de Albano de Carvalhais, mais lôbrego ainda.
D. António Salgadinho, depois de correr os reposteiros com certa brusqueria, como quem se desforça de desatenções numa etiqueta preestabelecida, inclinou-se para o enfermo. E de ricto depreciativo nos lábios, que não escapou a Carvalhais, se quedou a estudá-lo. Depois de o fixar mudo e teso um bom espaço, com o dedo indicador, como quem dá ao gatilho, fez-lhe sinal para deitar a língua de fora. Viu-lha, tomou-lhe o pulso, e volvendo a fixá-lo com certa demora, emitiu depois dum breve questionário sintomatológico:
- O que Vossa Mercê tem é uma febre maligna. Ora diga-me cá: bebeu água impura em algum lugar?
- Sim... na jornada aconteceu-me beber muitas vezes nas fontes que topava à beira dos caminhos.
- Pois uma delas estava inquinada.
Como Albano de Carvalhais o fitasse de olhos muito abertos, o que ele interpretou como não tendo compreendido, explicou meio divertido:
- Água choca. Vossa Mercê mete-se a viajar sem borracha?
- Trazia duas de três canadas cada uma. Aliviaram-nos delas, à saída de Guimarães, uns pobretões que se tinham plantado a poucos passos de nós, a ver-nos merendar com olhos em brasa. Matámos-lhes a fome e deram-nos o pago. Bastou um momento de descuido e pilharam-nos os alforges!
- Pois teve uma febre maligna, mas, dê graças, está a passar. Vamos enxotá-la à fina força duma vez para sempre...
Pôs-se a receitar, estacando por vezes a redigir, de olhos abstractos para a janela, na operação manifesta de puxar pela memória. Ao fim, pronunciou:
- Mande aviar e mande aviar já. No Beco dos Remolares há um apoticário de confiança. Toma três vezes ao dia, no intervalo das refeições, uma colher de sopa...
Como Albano de Carvalhais erguesse de novo para ele olhos angustiados e inquiridores, permitiu-se acrescentar por entre dentes:
- É o medicamento mais selecto e eficaz que se tem inventado para esta espécie de morbos. Tive ocasião de receitá-lo a Sua Eminência Fr. Patrício, cardeal-patriarca de Lisboa, e numa só noite, depois de ensopar três ordens de lençóis, ficou curado. Não há melhor para descoagular os espíritos quando o sangue se deixa tomar pelos gérmenes pestilentes. É remédio caro, mas Vossa Mercê há-de ver que vale a pena. Eu volto amanhã.
Retirou-se, havendo readquirido a sua sobranceria e desdém de grande áulico, mal se despedindo daquele deputado às Cortes, que não se instalara num palácio à Junqueira com pajens e um mordomo de rabona a recebê-lo.
Quando D. Paca reapareceu, com estalidos da língua a comentar o entono do magnate, que trazia não apenas um rei, mas uma dinastia na barriga, disse, após se haver inteirado da receita que voejara pelo soalho com o pé-de-vento que entrara com ela:
- Eu dou um salto aos Remolares. Assim haja droga manipulada.
- Valerá a pena?! - murmurou Carvalhais. - O físico disse que o mal está a passar, mas eu já sinto a morte a tocar-me as fontes com as asas de morcego...
- Aí vem Vossa Mercê! Deus é que manda, senhor Morgado de Fraião! Não duvide da sua infinita misericórdia. Podia ter, que não tem, a morte nos gorgomilos, e, à voz dele, rodar para outra porta, e o senhor Morgado durar tantos anos que acabem por lhe aborrecer. Reze Vossa Mercê, reze, chame-se aos santos da sua devoção, enquanto vou eu própria aviar a receita que a negra é capaz de se perder pelo caminho ou beber a botijada.
Pegou Carvalhais do rosário e veio encontrá-lo o capitão-mor de Barcelos a engabelar padre-nossos e ave-marias, vorazmente, uns atrás de outros, na pressa de encher o bornal de santa mercadoria para a grande viagem.
- Acho-o melhor - disse-lhe o primo. - Já lhe reluz a menina do olho. Temos homem!
- Agora temos! Eu estava até com bem pressa de o ver para o tornar depositário das minhas derradeiras vontades...
O capitão-mor pôs-se a chalacear, sem grande convicção no que dizia. E foi-lhe prestando ouvido. Queria Albano de Carvalhais que o seu corpo fosse enterrado na capela do solar, ao lado dos morgados de Fraião, ali sepultos desde há nove centos de anos para cá. Como podia ser levarem seus restos mortais para tão longe?
- Não pense nisso. O primo há-de morrer à lareira da sua casa, daqui a muitos anos e bons.
- Vá tomando nota. A espanholita, sabe, a Carmencita, que fui desinquietar a Melgaço, que volte com a mãe para o padrasto. Está bem convidada e recompensada do atraso que lhe causei. Também não me trouxe nada por que tenha de me responsabilizar perante Deus...
O capitão-mor sorriu, mas não se permitiu a mínima observação em assunto tão reservado.
- À minha mulher, senhora D. Mécia, de joelhos peço perdão de tantas loucuras que me ditava o diabo da má cabeça, e que não veja nelas desconsideração ao amor que sempre lhe tive e ao respeito que devo ao nome ilustre que ligou ao meu. Minha esposa que crie e eduque os filhos na santa lei de Deus, na vénia e afecto do monarca absoluto, senhor D. Miguel I, nosso rei e arcanjo. Rogo-lhe também para suplicar a Fr. Aniceto, pela salvação da sua alma, que vele por minha casa e família como santo que é, que Deus lhe alongará a existência, e em tudo seja paternal e protector. E que me deite a sua bênção e se lembre sempre da minha alma nas suas orações.
Palavra puxa palavra, em despeito do compungimento suscitado, recaíram a praticar - sem grande enfado de Albano de Carvalhais, o que a certa altura surpreendeu o capitão-mor, e em contrário do amargor que lhe lia no íntimo - de coisas, e loisas, a política sempre insegura, os malhados que levantavam a grimpa, e que a repressão, batendo forte e dura, não tinha jeitos de arrasar. Albano de Carvalhais queixou-se de que os senhores da Governança e da Corte só tivessem dado fé tão tarde e a más horas de que faltava nos bancos da representação, e apenas naquele dia, depois de o deixarem andar por mãos de barbeiros, lhe mandassem aquele arganaz de físico. A voz do morgado era branda, todavia ressentida. E o capitão-mor ergueu-se a varrer a parte de remoque que lhe poderia ser dirigida:
- Então eu lhe conto, primo... Ontem, pela quinta vez, fiz saber na Secretaria do Reino o estado em que se encontrava o deputado às Cortes, Albano de Carvalhais, morgado de Fraião. Tinham-me respondido: Temos mais que fazer do que pensar na saúde dos fidalgotes que desabaram das falperras sobre a Corte com as maleitas ou a sarna no pêlo. Ele que chame um médico. Não tem por onde pague? Afinal tanto insisti que veio este, que passa por sabedor, mas é muito interesseiro, como se viesse mandado pela Câmara Real. Ele lhe apresentará a dolorosa...
- A mim de sorte a apresentará... Tudo o que aconteceu foi-me bem feito. Quem me mandou ser asno! Para que me meti eu em cavalarias altas!?
Estavam nisto, chegou D. Paca com a botijada. Era um cozimento denso, gorduroso, de aspecto nojento, sobre o verdonho. A boa mulher trazia já uma colher de sopa, que se pôs a encher, mas ele atalhou logo à primeira gota:
- Deixe-me provar...
Levou a mistela aos lábios, saboreou e, fazendo uma careta sinistra, cuspiu para o soalho.
- Homem, não lhe havia de tomar o gosto! - murmurou amicalmente o capitão-mor de Barcelos.
- É uma beberagem nauseabunda, para revessar a cama das tripas...
- O primo bem sabe que os remédios não são nenhum néctar. Deixe ver o récipe, D. Paca...
O capitão-mor pôs-se a soletrar em voz alta, omitindo as palavras e sinais que expressavam a dosagem da farmacopeia químico-galénica:
- Raízes de escorcionária; mi... mi... mitridato; diascórdio; água de cevada depurada; raspas de ponta de veado e de marfim; sumo de cherne... não, sumo de chermes e folhas de ouro...
- Uma burundanga! - murmurou Albano de Carvalhais em voz despiciente. - Para quê? Para abreviar a vida e nos despejar o bolsinho! Em quanto importou a potreia, D. Paca?
- Está lá escrito. O senhor Capitão-Mor leia...
- Libra e meia.
- Libra e meia - confirmou ela. - Disse o boticário que havia de achar puxado, mas era barato pelo efeito que ia produzir. As raspas de marfim e as folhas de ouro custam os olhos da cara. Isto é remédio só para ricos.
- Irra, irrório, senhor Gregório! Peguem dum bacamarte e vão roubar para uma encruzilhada! Veja, primo, libra e meia, o preço duma burra com o poldro... três a quatro pipas do vinho dos Arcos!...
- Carito! Carito!
D. Paca, com a colher na mão, o frasco noutra, dava o seu acordo por monossílabos e frases soltas "sim, sim, um pobre não pode cair doente, está tudo pela hora da morte", aguardando que o enfermo se dignasse ingerir a poção.
Nessa altura, a negra veio anunciar que estava um homem à porta que dizia vir de rota batida do Alto Minho para falar com Sua Mercê, o senhor Morgado…
- Ó D. Paca, vá ver quem é…
- Que é o Tomás… - tornou a negra.
- O Tomás… O Tomás Ruivo?... Temos história. Mande já entrar.
Pois era o seu fiel Ruivo, cara de urso a quem cortaram uma orelha, esbaforido, intonso, as rosetas a tilintar nas esporas ferrugentas a cada passo que dava no sobrado.
- Que há? Que há? - golfou o morgado, de boca torcida, soerguendo-se na cama.
Ruivo, num olhar, deu a entender que havia ali orelhas que talvez não devessem ouvir. Albano de Carvalhais pediu s D. Paca que o deixasse por um momentinho que já a chamava para lhe aplicar os sinapismos e que então tomaria o remédio. E voltando-se para o criado:
- Podes falar, Tomás. Aqui o senhor Capitão-Mor de Barcelos é mais que meu quarto primo por minha bisavó D. Escolástica da Abrunhosa; é como se fosse meu mano. Dize lá o que traz…
- O que me traz é bem mofino, meu senhor… Saberá que os malhados já estão senhores da praça…
- Essa agora! Como pôde isso ser?
- Vieram em força da banda dos Arcos e com outros de Monção abafaram as sentinelas. Depois, de roldão, invadiram a casa da guarda, desarmaram os soldados e lá estão. Agora são eles que mandam e dão leis.
- E os nossos?
- Os nossos acudiram tarde e ainda não passaram de meio caminho. Quando eu saí de casa, havia tiroteio com os de Viana lá para Ganfei, que é a linha avançada dos liberais.
- Nunca imaginei! Que fez esse Cabeça Ancha, que se gloriava de trazer Paredes atrás de si à primeira voz?
- O Barriga Ancha meteu-se em copas.
- Que lagartão! E a joldra da Labruja?
- Nas encolhas, também, meu senhor.
- E o Joaquim Guerrilhas, de Romarigães?
Tomás olhou por terra, torceu depois os lábios.
- Desembucha!?
- Saberá Vossa Mercê, meu amo, que o Guerrilhas é o melhor tratante que a rosa-do-sol alumia. Estava à espera que Vossa Mercê se viesse embora para lhe tirar com uma mina a água do Cerro Gordo. Tinha mineiro rogado e tudo. Não lhe deixou gotinha onde um pássaro refresque a goela! Eu quis levar as coisas pelas boas e fui-me ter com ele: Senhor Jaquim, vossemecê faz uma grande desfeita a meu amo se lhe tira a água. E não pode fazê-lo, que são vários os herdeiros da nascente, e vossemecê é um deles! - "Qual desfeita ou qual carapuço! - respondeu-me ele desabrido. - A água que anda por debaixo da terra é de quem a explora. Fui tirá-la no que é dele?" Mas o safado dos safados fez mais. Na quinta do Laboreiro deitou uma parede abaixo e fez caminho de carro por ela acima para a sua fazendória. Apresentei queixa e lá está a andar na Justiça. O alma de cão, vieram-me dizer, já forjou três testemunhas falsas que vão jurar sobre os santos Evangelhos em como o caminho foi sempre por ali.
- Que mariola! O mundo está perdido com mariolas. Já não temem o Inferno. Cristo, se não volta à terra, perde o seu reino.
- Mas ainda não disse tudo. O Guerrilhas, para cúmulo de desvergonhas, fez-se ou desconfia-se ter-se feito com os malhados. Um grupo dos nossos ia de volta por S. Martinho para tomar o inimigo de revés, pois o malvado saiu-lhes à frente com a matula e abriu fogo contra eles. Os nossos não tiveram outro remédio senão tornar para trás.
- Compreendo, compreendo agora porque é que o ladrão sustentou a minha candidatura!
- Deviam chamar a gente do visconde - interveio o capitão-mor. - Se não bastasse, apelavam para a milícia de Braga, que é testa.
- E o abade do Cerdal? Esse tinha às ordens, na freguesia, um punhado de lapuzes que metiam respeito. Também se virou?
O Ruivo voltara a embezerrar. O capitão-mor assistia, com meio sorriso irónico a esvoaçar nos lábios, ao desenrolar daquela cómica e desatinada conferência.
Albano de Carvalhais viu-se obrigado a dar ao mensageiro nova sacada de freio. Mas o servo fiel tinha um rolho na garganta que o tolhia de explicar-se.
- Tu falas ou queres que mande vir um sacatrapo para te meter pela boca abaixo? - e os olhos de Albano de Carvalhais fuzilavam, com o que se acentuou o parecer satisfeito do capitão-mor de Barcelos.
- O abade, meu senhor, é o seu pior inimigo. Eu até tenho vergonha de contar...
- Raios te partam, excomungado! Conta lá! Assim me julgas pele de galinha!
- A negra disse-me que Vossa Mercê estava no fim da vida e não se podia afligir...
- Desata lá o saco. O que a negra te disse não se escreve. Não, hoje já não dou contas a Deus, fica adiado para amanhã. Vá, desata, não me moas a paciência...
- Pois então saberá que o abade, o grande safardana, lá teve artes, por intermédio duma alcoviteira, de introduzir-se na amizade da espanholona...
- Da espanholona...?
- A mãe da Cármen. E esta induziu a filha a passar-lhe as palhetas. Tem-na o maldito padre para uma quinta abaixo de Monção. Já fizeram as pazes com o Martinez, o contrabandista... e todos os dias há grande rambóia entre eles.
Albano de Carvalhais ficou amarelo, como se houvesse perdido o sangue todo ou estivesse a exalar o último suspiro. Depois fez-se verde, verde como um pepino, e pouco a pouco foi recobrando as cores e voltando à humanal figura. Viram-no abrir os olhos, deitarem chispas, tornar a fechá-los, abri-los como se tivesse apagado o lume interior, e rompeu a gritar:
- E tu não tinhas um trabuco para matar esse malandro? Não tinhas, alma danada?... Que instruções te dei eu? Oh, mil raios me abrasassem e à comédia em que me meti! Não tenho amigos, não tenho nada. Até este cachorro me negou...
- Meu senhor, que havia eu de fazer?
- Que havias tu de fazer? Ainda me perguntas? Pois em vez de parlamentar com o Guerrilhas, deitava-lo abaixo com uma tranca. E ao abade... Diz lá, o masmarro não vai, pelo menos aos domingos, dizer missa na igreja do Cerdal? Pois esperava-lo por detrás da parede do adro e com um tiro mandava-lo de presente ao Diabo, que já espera por ele. Fiei-me em ti. Não és meu amigo... não és!
- Quis matar o abade, quis, sim senhor! Fr. Aniceto impediu-me: "Deixa lá, que o abade prestou-nos um grandessíssimo serviço. A espanholita era uma frieira e galdéria de alto lá com ela." Assim mesmo. Por modos a Cármen veio corrida de Redondela, onde esteve amigada com um homem casado, depois de ter porta aberta lá para o Lugo. Não tenha pena dela, meu senhor... que não o merece!
O morgado ficou um migalho de olhos fechados. Depois disse, e a voz era como se saísse duma cuba:
- Pois sim, mas seja ela lá a rês que for, a desfeita é a mesma. Ele, por um lado, e o Guerrilhas por outro têm de pagar-mas com língua de palmo. Ah, Tomás, Tomás, quanto eu te agradecia se me tivesses vingado! Depois davas às de vila-diogo e vinhas ter comigo. O meu pão era o teu pão, onde tu pateasses, pateava eu!
O morgado esmagou duas lágrimas teimosas, uma atrás da outra, com dedo frenético; o Ruivo chorava e soluçava.
- Escusavas de me trazer cá tais notícias. Morria, acabou-se! Assim nem a terra me come; assim não posso morrer!
- Acalme-se, primo, que lhe pode fazer mal - exorava o capitão-mor de Barcelos.
Aos gritos e lamentos acudiu D. Paca. Julgou, meio surda como era, que fosse a pedir a droga, e já ela trazia, numa mão o frasco com a colher, na outra as papas de linhaça. Carvalhais, quando a enxergou diante de si, fez-lhe sinal para que se aproximasse.
- Deixe ver, D. Paca...
Ela entregou-lhe a botija que ele com mão expedita despejou no bacio. Pediu-lhe a cataplasma e fez o mesmo. Depois exclamou:
- D. Paca, a minha roupa... Está ela limpa e escovada?... Dê-ma cá...
Deu-lhe ela a roupa, assombrada. Olhava para ele, não menos assombrado, o capitão-mor. Albano de Carvalhais começou a vestir-se, primeiro da cinta para cima. Depois, olhando para o chão, proferiu em voz febril:
- Não me trouxe as botas... as de montar... E olhe, faça-me um favor: mande a negra com este moço para que diga aos criados que se preparem. Quero cavalos, pistolas, alforges... tudo em ablativo de marcha. Se Deus quiser, partimos esta mesma tarde com a fresca. Até à noite, tenho muito tempo de pôr as coisas em ordem para a jornada.
- Então vai-se embora, primo? - exprimiu o capitão-mor em voz mista de espanto e reprovação.
- Vou, pois então! Quer que me deixe roubar? Não, de mim não zombam. O abade e o Guerrilhas vão ver uma fona...
- Mas estava ainda há pouco tão doente...
- Não sei. Agora sinto-me rijo. De resto só quero forças até chegar a Valença, e uma moratória de dias... mais dois ou três dias de vida... S. Bento da Porta Aberta, meu advogado nas aflições, há-de-me ouvir e interceder por mim junto do Altíssimo - e, dizendo isto, calçava, sentado na cama, as botas de cano alto, levantando a perna à altura da cabeça do capitão-mor, acaçapado no tamborete.
- E o nosso rei? Não há-de assistir à abertura das Cortes? - interrogou o capitão-mor de Barcelos com certa veemência e tom de acritude.
- Em primeiro lugar estou eu. O príncipe - sabe que mais, primo - que vá para o Diabo!


In RIBEIRO, Aquilino. Casa do escorpião: Novelas