24/02/2008

O coração


Havia um coração (ou muitos) que pagava, que pagava sempre...

Era o coração de um rapaz. Estava ele na idade de amar e a luz dos seus olhos era uma linda rapariga, que também o amava.

Porém os pais dela opunham-se a este amor e o rapaz andava triste como a triste noite. Espreitava a namorada de todas as bandas e não comia nem bebia.

Um dia os pais dela pregam-lhe a partida de a leva­rem para muito longe. Para onde, ninguém o soube. E o moço, a chorar pêlos campos, entrou a invectivar a sua boa fortuna que assim o desamparava.

Andava ele nestes clamores quando vê vir pêlos ares uma ave estranha. Era tão grande que sombreava toda uma eira. Vinha descendo. O seu bico, igual a uma fateixa, parecia recurvo e enorme. Descia, sem o largar de vista. Com o pasmo, o moço nem arredava pé.

Levo-te! rouquejou a ave. Levo-te!

Para junto dela? murmurou inperceptivelmente o moço.

Levo-te! E poisou as pontas das enormes asas no chão. O moço cavalgou a ave sem hesitações. E num abrir e fechar de olhos se viu em terra nova, ao pé da namorada. Choraram ambos de felicidade.

Paga-me! rouquejou a ave.

Sim, sim, eu te pagarei, respondeu-lhe alegremente o moço. Mas antes disso não nos quererás levar daqui a ambos?

Seja! roquejou ela.

E os dois cavalgaram o avejão, indo ter tão longe que diferente do conhecido lhes pareceu o céu, a terra e todas as mais coisas.

Assim que saltaram da estranha montanha, passaram os braços pela cinta um do outro e tomaram por uma vereda rescendente. Só se viam borboletas e flores: era a Pri­mavera. Imediatamente o resto do mundo lhes esqueceu e até o monstro que ali os depusera.

Um dia, porém, quando mais tarde o moço sozinho torna a passar pela mesma vereda, já despojada de ver­dura e de flores, vê a terrível ave direita a ele.

Paga-me! rouquejou ela.

Pago-te, sim, mas como?

Abre-me o peito!

O moço regaça então a camisa e aparta os braços.

E a ave, com gula, enterra-lhe o bico no coração. Ele cambaleia, mas logo se compõe e volta pelo mesmo cami­nho. Tudo se lhe afigura pálido. Até a ideia de chegar à sua própria casa o aborrece. A mulher iria salteá-lo de perguntas: porque se demorara, por onde andara... Era enfadonha a vida!

E o tempo foi passando. Nasceu-lhe um filho, o pri­meiro. Voltou-lhe a alegraia ao coração. Andava sempre desejoso de se despachar. Tinha um entusiasmo novo. Não havia filho como o seu! Se ele pudesse... até o mundo, com todas as suas lindezas e bens lhe havia de pôr no berço.

A trabalhar e mesmo a dormir só tinha pensamen­tos de amor. Mas um dia a criança adoeceu gravemente.

O pai, a estalar de angústia, vai para o campo desabafar. Chora e arrepela-se. Nisto vê vir no ar, direita a ele, a estranha ave.

Só tu me podes valer! grita-lhe.

E ela rouqueja: vem.

Logo os dois fenderam os ares. Poisaram longe, entre medonhas fragas. O moço salta abaixo e o avejão grasna: colhe-as, colhe-as, colhe-as...

Eram as ervas da salvação.

Feita a colheita, o moço ouve: paga-me!

Não tenhas pressa, leva-me ao meu filho quanto antes.

Seja! — rouquejou o avejão.

Só muito mais tarde, quando o moço, já homem de barbas, esquecido de velhos pesares, andava lavrando, é que dá com umas asas enormes, ruças e estranhas, poisa­das na terra.

Paga-me! ouve ele logo rouquejar.

É verdade que te fiquei em dívida. E escancara o peito à terrível ave. Esta enterra-lhe o bico no coração e some--se nos ares.

O homem, porque a bela mocidade já se lhe fora, olha à roda de si atordoado. Aborrece-lhe a vida, mas não pensa em morte. Que é que lhe poderia ainda dar gosto? A sua junta de bois está velha, tem de a trocar ou vender. A terra também já lhe anda a pagar mal. E já é pai de uma caterva de filhos. Mas ainda há-de ser rico!

Esta ideia nunca mais o larga. Deixou de rir como an­tigamente, anda sempre aos brados. Dispara de umas fazendas para as outras sem descanso. É insofrido com os homens da jorna. Pelos caminhos pragueja e espanca muros e troncos com as verdascas que apanha. Não poder eu estar em toda a parte... grita. E tanto gritou de uma vez que o avejão lhe desceu à frente, rouquejando: levo--te.

Para toda a parte! implora-lhe ele.

E assim foi. A cavalo no seu monstro de asas ele está presente em todos os campos. Tornou-se extraordinaria­mente rico e temido. Mas teve de pagar os favores que recebeu. A derradeira bicada do avejão foi tal que o seu coração se desencantou de tudo... Nem mais gostos nem cobiças... E, por fim, até a morte o veio procurar. Achou-o na soleira da porta, à vista das primeiras árvores que ali pusera e de um rebanho de netos que cabriola­vam. A morte fechou-lhe os olhos sem ele soltar um ai.

No outro dia, quando o levaram para a cova, todos viram com espanto, no ar, um avejão, coisa extraordi­nária, que fazia grandes círculos sem nunca poisar.

Está farta! — diziam os do enterro.

Mas o pior é que a sorte dos vivos nunca viria a ser muito diferente da do morto. O coração tem sempre de pagar... Ou o vão matando aos poucos ou ele se gasta.


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma