24/01/2008

Thonon-les-Bains


Espraiar o olhar até o ilhéu dos Pássaros isolado a pouco mais de umas centenas de metros da praia.


Ficou feliz. A carta trazia tudo explicadinho tintim por tintim. Pela-manhã sentira um baque no coração e encostada na ombreira da porta da rua esperara até acalmar aquele coração doido doido, a bater tão descompassadamente. Antoninho Coxinno encontrara-a ainda sem cor e animara-a. Eh, nh'Ana, bocê está com uma cara puxada. Bocê ponha-se contente, eu trago uma carta de França pá bocê. Bocê oiá, esse selo é francês, é selo de estrangeiro.
Nh'Ana ficou atarantada. Oh Nhor Deus, descobri agora porque o meu coração saltava como um cavalo espantado desde pela-manhã. "Dá-me essa carta Antoninho. Estás a virá-la de um lado para o outro, bó dezide nunca viste um selo estrangeiro. Tanta carta de Merca, tanta carta de estrangeiro, pá quê esta cara só pá m ode uma carta?"
"Não nh'Ana, cartas de Merca nunca tem selo assim tão bonito. Mercano não é capaz de desenhar selo tão bonito assim."
N h'Ana fechou a porta e foi direita para o seu quarto. Trouxe uma cadeira para junto da mesa de cabeceira, sentou-se, mirou a carta e procurou depois na gaveta uma raspadeira. Enquanto a abria com muito cuidado ia mirando o selo. Antoninho Coxinho tinha dito uma verdade. Mercanos não tinham gosto para nada. Quando mandavam encomendas eram umas roupas estapafúrdias uns trastes sem gosto. Mas tinham uma coisa boa: perfumes. Perfume de Merca não tinha comparação.
Acabou de abrir o envelope e tirou a carta com jeito. Abriu-a e começou a lê-la.
Bendito seja Deus. Apertou a carta contra o peito e os olhos procuraram a cantoneira do outro lado da cama. Uma imagem dentro de um nicho feito de uma caixa de sapatos com um friso de floritas de cera em volta, mostrava uma face descaída com dois vincos sobre os cantos dos lábios. De cada lado do nicho havia uma Santa Teresinha e uma Nossa Senhora do Rosário.
"Meu Sagrado Coração de Jesus, tu ouviste as minhas rezas e tu também Santa Teresinha e tu também Nossa Senhora do Rosário."
Benzeu-se e levantou-se, deu a volta à cama e foi beijar os folhos da cantoneira dos santos. "Maior é o poder de Deus."
Sentou-se para acabar de ler a carta. Tornou a lê-la. Ainda a releu mais uma vez.
Desse dia em diante foi um corropio naquela casa. Nh'Ana entrava e saia para fazer compras. Pano casca de ovo para roupas de baixo, uma corrida para tirar medidas para uns sapatos de polimento preto, comprar pó de arroz e água de cheiro para pôr no fundo da mala da filha. Tanto tempo à espera da noticia. Uma. eternidade à espera da carta de chamada. Gabriel não faltava à palavra. Gabriel enteado de nh'Ana prometera levar a sua meia-irmã para França e não se esquecera.
"Gabriel é como se fosse meu filho. Ele não se esquece de todas as minhas dificuldades para criar estes quatro filhos que o pai me deixou." Juntou as mãos e pôs os olhos em alvo. "Deus tenha a alma de Chico em paz." Deu um pequeno suspiro. "Este filho arranjado fora de casa tem sido o meu anjo da guarda. Manda-me dinheiro, manda-me umas encomendinhas, ó como se fosse meu filho na devera."
"Mas, comadre Ana, bocé não tem medo de mandar a sua filha assim sozinha para tão longe?"
"Como comadre, medo de quê? Medo de nada. Gabriel explicou tudo muito bem explicado. Piedade vai agora, depois, daqui a uns dois anos vai o Juquinha, depois Maria Antonieta e depois vou eu mais o Chiquinho."
"Ah, comadre Ana, Deus há-de acompanhar vocês todos."
Assim se despediram as duas comadres e da mesma maneira se encontraram dias depois, Piedade já iria além do ilhéu dos Pássaros que se a atravessar o canal. Nh'Ana, chorosa, nunca pensara vir a ter uma saudade assim da filha. "Sabe, comadre, a vida aqui já não podia continuar como era. Sete anos sem chuva é muito. Eu não tenho nem uma migalha de reforma de Deus-Haja. Nós vivemos da renda dos bocadinhos de terra e de mais alguma coisinha, encomendas dos nossos rendeiros, um cacho de banana de vez em quando, uns ovinhos, um balaio de mangas uma vez por outra, uma quarta de mongolom, umas duas quartas de milho e é tudo."
"Eu também não tenho nada, comadre Ana. Se não fossem as flores para as coroas dos mortos ou umas rendinhas para lençol, como eu me havia de governar, comadre?"
NIYAna concordava com a cabeça. "Sabe, comadre, se nha fidja me mandar algum dinheirinho, posso começar um negócio de comidas, as¬sim uma caldeira de catchupa com mandioca e toucinho para vender à boca-da-noite, um groguínho ou um pontche para emborcar em cima, e pronto."
"Ah, comadre Ana, eu tenho uma receita de pontche assim desta maneira. Num boião grande de boca larga de uns três litros pouco mais ou menos, está a ver comadre, faço um pontche sabe, sabe. Litro e meio de grogue, ou mesmo uns dois litros, três quartos de mel, rodas de dois limões e o resto é água para acabar de encher."
Nh'Ana não concordou. "Ah comadre, tanta água não. Uma pinguinha é a conta de desfazer o mel. Não comadre, água assim não. Nem é pontche nem é nada."
"Adê, que maneira então? Se comadre Ana quer ganhar alguma coisinha no pontche tem de lhe pôr água. Sabe a como é o litro de mel? E o limão, sabe o seu preço? Até porque limão agora é farelo dele."
Em sonhos enrodilhada, na esperança de abrir o seu botequim, nh'Ana ia desfiando os dias e recebendo notícias da filha. Ultimamente as cartas começaram a rarear. Gabriel veio a ex¬plicar então num post-scriptum de duas linhas. Piedade andava de namoro com um francês. Era um bocado mais velho mas estava certo, mãe Ana. Ela vai ficar bem arrumada.
Nh'Ana tanto ficou aliviada com as noticias como ficou desapontada. Esperava ainda por uns anos ter a companhia da Piedade para lhe dar uns conselhos encaminhá-la no casamento, fazerem as duas o enxoval, tudo num sossego do dia-a-dia. Assim não tinha graça, mas enfim.
A comadre não se sabe pá mó de quê, apareceu-lhe lá em casa, sabedora das novas de França. Nh’Ana um pouco contrariada desta tchefreza, fingiu satisfação ter de compartilhar com a sua comadre de tão boa noticia e a mo¬dos de uma grande amizade a foi levando para dentro de casa para estarem mais à vontade.
"Vamos tomar um cafezinho, comadre. Estou com um pouco de azia. Almoço não me assentou bem no estômago hoje."
"Ah, comadre Ana, uma chicrinha de café não sei negar, mas não tomo nada. Vim só dar--te parabéns. Veio carta de França, n'é devera?"
"Como, disseram-te alguma coisa? Eu ainda não falei com ninguém."
"Credo, comadre Ana, eu não sei nada. Só ouvi umas falas soltas sobre a Piedade e eu pensei logo. Vou a casa da minha comadre Ana. Vou lá não não é por nada. Vou lá só para a avisar sobre Teodoro."
Aqui nh’Ana teve um sobressalto. Ela bem sabia de abusos no correio. Abriam as cartas, liam-nas, tiravam os dólares dos patrícios, fechavam-nas outra vez e não aparecia ninguém para apresentar queixa destas e outras pouca-vergonhas. Mas ela ia queixar-se. Desconfiava de um tal Gilberto, filho de uns gente-branco qualquer não passara do quarto ano do liceu, meteram-no nos correios por favor e era ele de certeza quem andava a abrir carta de cada um. Era ele, tanto mais andava sempre no botequim do Herculano a beber cerveja todas as bocas da noite. Quando se viu empregado dos correios a beber cerveja assim desta maneira, todos os dias todos os dias? A mãe dele, viúva havia quase um ano, sem qualquer pensão de sobrevivência, deitara mão de receber alunos do liceu vindos de outras ilhas, com cama mesa e roupa lavada. Mas ela era atrevida, só queria receber filhos de gente-branco como ela. Quando os tios do Armando, aquele menino de voz doirada, cantava como um canário, quando lhe escreveram para receber o Armando, ela fez umas quantas desproposentezas, a revirar os olhos para um lado, a revirá-los para o outro lado, a esfregar a barbela, para no fim dizer que não tinha nem mais um quarto vago, só se o pusesse a dormir no corredor. Era tudo fita de cinema porque para o Arlindo do Dr. Felisberto foi logo, só faltou dar-lhe cama de trono. Esses gente-branco de Soncente; ela não recebera o Armando porque ele era filho de um carpinteiro, não era? Nh'Ana ainda a matutar, engoneada com essa coisa de tudo gente saber da vida de cada um, encheu as chávenas e sentou-se em frente da sua comadre. "Para quê esta conversa de Teodoro, an comadre?"
""Ah, comadre Ana, não é por nada mas Teodoro gostava muito de sua filha e parece tiveram namoro, não foi?"
"Desculpe-me, comadre, mas Piedade nunca namorou Teodoro."
"Com licença, comadre Ana, mas namorou sim senhora. Namorou tanto, até sê mãe foi deitar cartas para saber da vida e destino dele e da Piedade."
"Home, como?"
"É devera, ela deitou-lhe sorte e deu um rei de copas no meio de Piedade e de Teodoro. Depois, deu três de paus e quatro de paus e ainda dois de espadas. Quer dizer, dentro de três meses, por caminho de mar, numa noite que é o duque de espadas, ela havia de sair para longe desta terra. E foi assim, não foi?"
Nh'Ana estava de boca aberta quase a tremer e a comadre sentia-se feliz. Feliz por sujeitar Nh'Ana a uma evidência tão clara como a das sortes com cartas. Apenas não lhe contou sobre as cartas pretas à volta da Piedade de uma forma tão esquisita nem a ptadeira de cartas soubera explicar como e por que carga de água Piedade aparecia no meio de tantas cartas de espadas, sete de espadas, seis de espadas, três de espadas e, no fim, um quatro de espadas sobre a moça simbolizada em dama de ouros.
Nh'Ana acalmou-se e acabou por não se importar muito. A sua filha ia casar com um francês, assim iam ter os seus filhos de cabelo fino e olho azul ou verde. Teodoro, quem era Teodoro para pensar em casar com a sua fidja-fêmea? Soberba de fora, (batia palmadinhas de cada lado da cara) soberba de fora mas nha fidja-fêmea vai casar e bem.
Gabriel ia dando notícias sobre aquele frio de França em Thonon-les-Bains perto da fronteira com a Suíça.
França tem muito frio, mamãe, mas gente põe galochas forradas, luvas e capote. Mana fez-me um gorro e um cachecol vermelho. Anteontem foi domingo e, por acaso, encontrei Mochinho um moço badio de Ribeira da Barca. Ele apalpou o meu cachecol e experimentou o meu gorro e riu muito, mamãe. Disse eu estava rãscon, já podia conquistar menina-branca de Tho-non.
O seu trabalho no torno numa fábrica de esquis agradava-lhe sobremaneira. Descrevia em pormenor como apertava os parafusos, dava a volta aqueles paus informes, aparava-os, alindava-os à força de máquinas, desapertava os parafusos de novo e lá iam eles para outras mãos fortes para os polirem, depois para outras para lhes colocarem os ferros e assim por diante. A irmã estava no serviço de colar as etiquetas e dar uma limpeza final a cada esqui.
Não fiques apoquentada com esta conversa sobre o frio de Thonon, mamãe, porque mana também faz limpeza no hotel de manhãzinha muito cedo e o patrão deixa-nos dormir no caveau da escada no corredor onde tem um calorzinho sabe dia e noite.
Piedade procurava sossegar a mãe, estivesse descansada porque aqui na França não é preci¬so coser enxoval. A gente vai nos magasins e compra tudo roupa de casa, roupa-de-baixo, tudo-enquanto. Ela e Gabriel iam arranjar para morar junto duns amigos, patrícios de Santanton, tinham uma casa grande, ela ia ficar a morar aí quando casasse. Jean era um bocado ciumento, tinha quarenta e dois anos, era separado de uma outra mulher, mas era muito seu amigo. Trazia-lhe chocolates quando vinha namorar com ela, tudo à vista de Gabriel e dos seus amigos. Nunca ficava só com ele porque Gabriel não deixava, sempre a espiar, até os dois amigos eram capazes de lhe ir contar qualquer coisa mal feita ela viesse a fazer.
Nh'Ana descansou. A filha não esquecera ainda os bons ensinamentos de sua mãe. Esta, no entanto, evitava falar nas cartas à sua comadre. Era boa criatura, mas debaixo de suas boas intenções ainda era capaz de deitar algum quebranto na vida de sua filha. Quebranto podia apanhar qualquer pessoa em qualquer idade. Por isso gente põe os fios de conta, pretas e brancas, de volta das barrigas de menino-novo, por baixo do umbigo. Gente-grande não precisa de um fio de conta de quebranto, mas quando desconfia de quebranto vindo por via de um elogio quase sempre (inveja), de um olhar intenso (mau olhado), é fazer figas com a mão esquerda escondida por entre as saias, debaixo de uma prega ou mesmo com a mão atrás das costas. Figa canhota, bardolega, mar de Espanha. E assim a força malfazeja de olhar ou das palavras é afastada.
Ia guardando as cartas debaixo do pano bordado da cómoda ou então debaixo da caixa de jóias. Algumas vezes relia-as para saborear as coisas sabe-de-mundo de França, terra onde to¬dos os menininhos falavam francês desde pequeninos. Assim iam passando os dias, nh'Ana a pensar no seu botequim no seu negócio para depois do casamento da Piedade.
Todavia, ou por muitos afazeres ou por um pouco de preguiça, as cartas da filha iam rareando. Uma vez por outra quando dava notícias eram logo umas quantas folhas de papel de carta daquelas azuis ou cor-de-rosa com flores estampadas, coisas só mesmo de França. Não parecia muito entusiasmada com a perspectiva do casamento, mas continuava a dizer bem do noivo, era seu amigo dava-lhe muitos presentes, já a tinha levado duas vezes à Suíça, era muito perto de Thonon, só atravessar a fronteira e pronto. Gabriel abria-se mais com a madrasta. Mãe Ana, comprei anteontem uma televisão a cores. Sabe como é? As pessoas se estão vestidas de encarnado ou de azul, a gente vê tudo tal e qual de encarnado de azul ou verde. A minha televisão está em frente da minha cama e quando a quero apagar tenho uma maquininha onde carrego num botão e já está. É como uma pistola, mãe Ana. Aponto para a televisão e carrego no botão e ela apaga-se. Não é uma coisa bonita, mãe Ana?
Não era por acaso a falta de notícias da filha. Andara muito influída com a ideia do casamento mas ultimamente esmorecera. Jean era bom, era seu amigo, mas começou a pensar na sua idade e na dele, começou a pensar na seriedade do Jean, na sua maneira de tratar tudo tão a sério. Deitava contas à vida, calculava todos os francos para isto e para aquilo e ela começou a perder a paciência para aquelas conversas. Um bocado alevantada, esboada mesmo, queria brincar, rir, fumar o seu cigarrinho e ei-la agoniada com as conversas de gente-velha do Jean. E depois, aquele moço da Ribeira da Barca, badio de pé ratchado, vinha todas as tardes com o transistor e aí começavam a dançar os dois, a fazer partes, a cair para a frente e para trás, a dar voltas e a mornar. Jean ficava na ponta da cama, sorria. Não gostava de dançar, preferia ver as dengosices da Piedade e o Maninho a segurá-la em meias voltas inesperadas, parecia um vime tocado pela brisa.
Naquelas partes e requebros, Maninho ia-a apertando e dizia-lhe umas palavrinhas sussurradas, depois largava-a, ela caía para trás e fazia mais partes com floreios de tango e de rumba negra. Jean sorria, sorria sempre, baixava e levantava a cabeça a marcar o compasso.
No dia dos anos do Gabriel resolveram fazer uma festa em casa dos dois amigos, aqueles tchês de Santanton espavoneados com o gira-discos novo. Convidaram os amigos do Gabriel, veio uma cunhada de Mochinho casada de pouco tempo com um da Suíça, um moço de vinte e quatro anos trabalhador numa herdade e ainda duas sampadjudas empregadas também num bar na Suíça.
Piedade preparou cocktails com gin, vermute e gotas de bitter e ainda um outro com vodka, ginginha e refrigerante.
Não se sabe onde descobriram bananas verdes, mas houve caldo de peixe com batata-doce e banana verde reforçado com malagueta. Jean sentia-se desconfortado, nada habituado ao sabor forte a alho e cebola. Comeu o peixe como pôde, sorveu o caldo picante e deixou-se ficar com o prato na mão a ver o vaivém da namorada e das amigas a servirem este, a levarem o prato daquele.
Mochinho estava alegre como nunca e aproximou-se de Jean. "C'est bon, Jean?" Revirou-se para o meio da sala. "Ei, nhãs guente, nhôs arranjem outro prato de canja para este brother".
Com a boca a escaldar da malagueta, Jean levava amiúde o lenço ao nariz.
Mochinho empurrou a cama para a parede. Trouxe o pick-up e colocou-o sobre a mesa de cabeceira. "Vamos fazer uma picapada?"
Entremearam música americana com sambinhãs e coladeiras. Foi um rodopio sem parar. Quando deu para descansar o moço badio sentou-se na cama pôs um travesseiro entre as pernas e começou com as mãos em batidelas secas e ocas a fazer a toada da tchabeta.
Piedade, numa euforia nunca vista, agarrou uma toalha de rosto, atou-a abaixo da cintura e rebolou as ancas.
"Oi, povo, vamos dar com o torno", gemia ela. "Oh, nha guente, nó dá com cadeira!"
A folia entrou pela noite adiante. Mochinho não largava a Piedade. De uma garra-finha de grogue ia sorvendo goladas para se aquecer.
Não a largava e perdeu a compostura. "Oiá, Dadinha, larga este bedjera do Jean. Vais ser minha tchutchinha, menina. Não queres ser minha tchutchinha?"
Ela deixou-o no meio do quarto e foi sentar-se ao pé do noivo. "Estás chateado, Jean? Não gostas da festa?"
Ele levantou-se. "Je m'en vais." "Porquê, Jean? Olha, eu vou contigo." No fundo do corredor havia uma casa de banho. Sentiu o coração pesado e encostou-se a Jean. Ia casmurro, sem dar pio.
"Estás aborrecido, Jean? Estás zangado comigo?"
A saída ficava ao lado da casa de banho. Encostou-se mais a Jean e abraçou-o. "O que é que tu tens, Jean?"
Jean abraçou-a também, envolveu-a e foi levando-a assim de mansinho. Quando chegaram junto à porta, abraçando-a sempre pela cintura, puxou-a para dentro da casa de banho e com o pé fechou a porta e trancou-a. Piedade estava atónita. Ele nunca fora muito efusivo. Beijava-a muito na boca mas nunca fora além disso. Se calhar ela ia deixar de ser menina-nova ali mesmo no chão daquela casa de banho. De qualquer maneira iam-se casar. Ser agora ou no dia do casamento não tinha importância. Deixou-se escorregar sob o peso do homem e viu-se estendida na laje fria. A música vinha até eles e retornava ao pequeno quarto onde era a festa. Na escuridão nada se vislumbrava. Algo enregelou-a e ela pediu "Jean, Jean!"
Ele tinha qualquer coisa brilhante na mão, mas ela já não podia gritar pois ele tapara-lhe a boca com a outra mão. Na escuridão aquele brilho e os seus olhos esbugalhados a quererem ver. Sentiu uma frieza no pescoço e a seguir lume, lume.
Da casa de banho um grunhido fino ganhou intensidade e correu a casa toda. Os olhos de Piedade esbugalharam-se mais, o pescoço retesou-se, deixou cair os braços. O sangue correu por debaixo da porta para o corredor.
Jean levantou-se, fechou a navalha e abriu a janelita.
Do lado de fora começaram a bater com força na porta. Gabriel só dizia "abre a porta, mana, abre!"
O suíço deu vários encontrões na porta e conseguiu forçá-la. Nem assim puderam entrar porque o corpo de Piedade ocupava toda a casa de banho. Deram a volta à casa e viram a janelita escancarada. Quando conseguiram entrar e acender a luz, o espectáculo horrorizou-os. Piedade tinha sido degolada, degolada como se de um porco se tratasse.
Gabriel viu-se só no meio do seu desespero. Teve de enfrentar as idas à polícia, o enterro da irmã, a procura de um quarto onde se abrigar. Em Thonon ninguém queria alugar quarto nem a ele nem ao Maninho e aos outros dois de Santanton corridos da casa onde moravam, nem a qualquer outro patrício.
Um mês depois ele e os companheiros foram avisados para sairem de Thonon dentro de três dias. Se fossem apanhados noutra encrenca se¬riam expulsos do país. Gabriel aproveitou para fazer férias e ir até Cabo Verde consolar mãe Ana.
Nh'Ana, Chiquinho, Antonieta, tias, primas, toda a família foi ao cais receber o Gabriel. Traziam luto carregado. Na carta ele nem tivera coragem de contar como tinha sido aquela desgraça toda. O sangue ainda quente, com espuma, a correr em fio pelo corredor deixara-o enjoado dias e dias. Os olhos muito abertos da irmã, o pescoço corta-do com malvadez de lado a lado, toda descomposta, a imagem dessa noite perseguia-o, perseguia-o de tal forma que nem sabia como conseguiu aguentar tudo até ao fim.
Quando atravessaram a entrada de casa, Nh'Ana desabafou. Começou a chorar, a pran¬tear. As cadeiras estavam dispostas ao longo da parede em toda a roda da sala. Numa mesa en¬costada à parede havia um cruxifixo e uma lamparina acesa. Tinha passa-do o período do nojo, mas N h'Ana quisera esperar o Gabriel para depois desmanchar o altar. As tias e as primas prantearam também. Calaram-se e apenas um soluço ou outro subia no ar. Gabriel começou então a contar tudo.
"Mas porquê, Gabriel, porquê não'disseste na polícia que aquele home é que tinha esfaqueado a falecida? Mas porquê?", perguntava N h'Ana entre soluços.
Gabriel teve dificuldade em explicar-lhe. "Isso não adiantava nada. Eles sabiam mãe Ana, sabiam, isto é, desconfiavam, mas eu sou emi¬rante. Emigrante é lixo, mãe Ana, emigrante não é mais nada."
Não sabia mais que dizer sobre aqueles dias de pesadelo, nem ia contar como ele e os companheiros tinham sido enxovalhados na polícia.
Começou a falar do enterro. "Foi tudo muito bonito, mãe Ana. Gente foi alugar uma câmara ardente. Eu e Mochinho vimos umas quatro e escolhemos uma toda forrada de pano branco e dourado. Não tivemos trabalho nenhum, foi só falar na agência. Põem flores, põem música e tudo. Falecida esteve dois dias na câmara ardente. Gente pagou tudo, tudo, aquecimento, chá e bolos para os convidados, tudo, tudo. Foi tudo muito bonito. Tínhamos cadeiras estofadas para toda a gente e brandy para quem quisesse."
Mãe Ana ficou mais confortada. Ao menos sua filha tivera um funeral condigno. Mas não se conformava do Gabriel não ter denunciado aquele nome só por medo de ser expulso de França. Mesmo assim ele já não poderia trabalhar em Thonon. Quando vol-tasse era para começar a vida desde o principio outra vez. Procura de emprego, licença, carta de serviço, informações.
"Não te apoquentes, mãe Ana. Tenho um amigo que já me arranjou uma pessoa para me esperar na Suíça. Vou para Suíça, vou trabalhar num bar."
"E quem é essa pessoa?" Nh'Ana não se conteve e explodiu. "Toma cuidado com os ami¬gos, Gabriel! Os amigos é que fizeram a desgra¬ça da minha filha que Deus-Haja. Toma sentido!"
Chorava outra vez. Gabriel baixou a cabeça e esperou um pouco.
"Eu não sei quem ele é, mãe Ana. Eu não o conheço. Vamos combinar o dia da minha chegada. Ele vai esperar-me e fica no jardim em frente da estação do comboio. Leva um jornal debaixo do braço, mas ainda temos de combinar as palavras da senha."
Nh'Ana não deu mais conversa sobre o as¬sunto. As tias e as primas ocupavam as cadeiras e olhavam ora para o tecto da madeira pintada com tinta de óleo, ora para a mãe Ana.
Gabriel ficou a cismar na sua vida. Não dis¬sera tudo à mãe Ana. Ia para a Suíça para poder ficar perto de Thonon. Tinha um plano mas não o devia confiar a ninguém. Tinha de vingar a morte da irmã. Mesmo se tivesse de ir até ao in¬ferno atrás do Jean.
As duas primitas mais novas cochichavam. "Nosso primo Gabriel é um bonito rapaz, n'é devera, Luísa?"
"Eu gostava de namorar com ele e ir para a França, não gostavas?"
"Cala a boca, menina. Disparatenta..."
Na rua tocavam tambor. Era dia de Santa Cruz. Gabriel levantou-se e foi até à janela. Uma mole de gente seguia atrás de um homem enfiado num pequeno quadrado feito num navio de madeira. Segurava o barco pela cintura saltitava com pequenos passos, balançando o navio, todo enfeitado com bandeirinhas, para um lado, para o outro. Os paus repenicavam com alegria e o barco balançava-se todo.
Gabriel tinha os olhos rasos de água. Porquê agora, porquê isto? Limpou os olhos com as costas da mão e foi sentar-se outra vez ao pé da madrasta. Logo à tarde iria até ao Step. Dali avistaria o ilhéu, ia-se sentir mais calmo. Espraiar o olhar até ao ilhéu dos Pássaros, isolado a pouco mais de umas centenas de metros da praia, ia dar-lhe a tran-quilidade de espírito tão precisada agora.


Orlanda Amarílis, Ilhéu dos Pássaros