20/01/2008

Minuto

António — o Antoneca, saiu. Era de manhãzinha. Para onde é que ele havia de ir? Foi andando. Como ainda era criança ia andando e arrancando flores, só pelo prazer de as arrancar. Arrancava-as e atirava-as fora. De­pois desatou a assobiar e a correr. Assustava os pássaros, ria-se, dava um salto... O Antoneca ainda não tinha mudado a voz.

E nestas galopadas e fantasias chegou junto do lago da mata. A casa dele ficava à beira de uma bela mata.

Ao pé do lago o rapazote estacou e pôs-se a cismar. Tudo lhe parecia mudado. Flores novas, a água arre­piada. .. as pedras deslocadas... até uma espuminha branca em baixo... Aquilo não lhe parecia o mesmo das outras vezes. E não era.

O Antoneca saca de um bocado de papel da algibeira e faz dele três barquinhos. Vamos lá ver agora, diz em mente. Vamos lá ver se eles andam ou não andam! E poisa-os no lago.

Os barquinhos começam logo a andar. Devagarinho primeiro e depois mais depressa. Já vão numa corrida. O da frente até leva gente, e os de trás também. Vai tudo cheio.

Quem se meteu nos meus barcos? — grita o António. Ele vê perfeitamente que os seus barcos vão carregados. O último até leva músicos. No da frente vai uma menina.

Parece uma boneca. Tem um chapéu cor-de-rosa, é muito bonita. Vai às gargalhadas e os músicos a tocar. Sempre dão voltas e mais voltas à roda daquele lado!

A menina, que afinal é uma fada, quer dizer alguma coisa, mas falta-lhe de súbito a voz. Aflita acena com o seu chapéu.

E se ela cai à água? Mas não cai. Nunca fala. Parece que lhe vão a sair umas coisas da boca. Flores, que lin­das flores! Sobem para o ar, nenhuma cai para baixo, são como bolas de sabão.

Também lhe há-de sair o coração pela boca fora, dizem os músicos, porque eles vão a tocar e a cantar. A sua vida é maravilhosa. A vida de uma fada, que nasceu no meio das cilindras e da rosas. Exactamente as flores da paixão do Antoneca.

E a fada das cilindras e é a fada das rosas... repetem os cantores muitas vezes.

Mas que será feito dela? O Antoneca deixou de a ver.

E os músicos sem darem por nada continuam: O cora­ção, quando lhe sair da boca... É a fada das cilindras, é a fada das rosas...

Mas que é dos meus barcos? Cheiinhos de gente, como eles iam? Onde iriam parar os meus barcos? Que é deles, que é deles?

Eram de papel! — exclama por fim o António. Eu já o devia pensar! E atira um pontapé a uma pedra que rebola para um silvado.

Saiam daí cobras e lagartos, ao menos! — diz ele já distraído. E continua aos saltos.


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma