27/01/2008

Horácio Sparkins


- Com efeito, meu querido, ele deu muita atenção a Teresa no último sarau – disse a Sra. Malderton dirigindo-se ao marido, o qual, após as canseiras do dia na City, sentado com um lenço de seda na cabeça, os pés sobre o guarda-fogo, bebia seu vinho. – Muita atenção, realmente; e repito que se deve dar-lhe todo e qualquer estímulo. Não há dúvida que ele deve ser convidado para jantar aqui.
- Quem? – perguntou o sr. Madelton.
- Bem, você sabe, meu querido, a quem estou me referindo: àquele moço de suíças pretas e gravata branca que há pouco veio ao nosso clube e de quem todas as moças falavam. É o jovem... meu Deus! como se chama mesmo?... Mariana, lembra-me o nome dele, - disse a Sra. Malderton
- Sr. Horácio Sparkins, mamãe – respondeu Mariana com um suspiro.
- Isso mesmo! Horácio Sparkins – disse a Sra. Malderton.
- Decididamente é o jovem mais elegante que já vi na minha vida. No casaco tão elegante que ele usava a noite passada, parecia-se com... com...
- Com o príncipe Leopoldo, mamãe... tão nobre, tão cheio de sentimento! – sugeriu Mariana, entusiasmada.
- Você não deve esquecer, meu querido – resumiu a Sra. Malderton -, que Teresa tem agora 28 anos. É da maior importância que se faça alguma coisa.
A Srta. Teresa Malderton era uma jovem muito pequena, gorducha, de faces avermelhadas, mas de bom humor e ainda sem compromisso, embora – para fazer-lhe justiça – tal desgraça não decorresse absolutamente de sua falta de perseverança. Em vão tinha namorado durante 10 anos. Em vão o Sr. e a Sra. Malderton mantinham assiduamente relações com grande número de rapazes solteiros e elegíveis de Camberwell, e até de Wandsworth e Brixon, sem falar daqueles que ocasionalmente “caíam” na cidade. A Sra. Malderton estava tão conhecida como o leão do topo de Northumberland House e tinha a mesma probabilidade de “sair”.
- Estou certa de que você gostará dele – continuou a Sra. Malderton. – Ele é tão galante!
- E tão hábil – acrescentou Mariana.
- E tão eloquente – observou Teresa.
- Tem muito respeito a você, meu querido – disse a Sra. Malderton ao esposo.
Ele tossiu e olhou para o fogo.
- Sim, estou certo de que ele tem o maior interesse em conhecer papai – declarou Mariana.
- Sem a menor dúvida – ecoou Teresa.
- É verdade, ele me disse confidencialmente – voltou a Sra. Malderton.
- Está bem – replicou o Sr. Malderton, algo lisonjeado. – Se o encontrar amanhã no clube, talvez o convide. Naturalmente ele sabe que moramos em Oak Lodge, não, minha querida?
- Naturalmente. Sabe também que você tem uma carruagem de um cavalo.
- Vou ver isso – disse o sr. Malderton, dispondo-se a uma soneca.
O sr. Malderton era um homem cujo campo de idéias estava limitado ao Lloyd’s, à Bolsa, à Indianideias e as da sua família foram-se exaltando em extremo, ao passo que lhe crescia a fortuna; todos afectavam elegância, bom-gosto, e outras tolices, imitando seus superiores, e tinham um horror muito decidido e característico a tudo quanto pudesse eventualmente ser considerado baixo. Era hospitaleiro por ostentação, liberal por ignorância, e cheio de preconceitos por presunção. O egoísmo e o amor à exibição faziam-no manter mesa excelente; a conveniência e o amor às coisas boas da vida asseguravam-lhe grande número de convivas. Gostava de ter à mesa homens hábeis ou que considerava tais, pois eram grande tema para conversação, mas nunca pôde suportar aqueles a quem chamava “camaradas espertos”. Provavelmente conseguiu comunicar este sentimento a seus dois filhos, que nesse ponto não causavam nenhuma inquietação ao responsável progenitor. A família tinha a ambição de travar conhecimentos e relações em qualquer esfera social superior à sua, e uma das consequências de tal desejo, facilitada pela extrema ignorância em que estavam de tudo quanto ficava além de seu estreito círculo, era que toda pessoa pretendia conhecer gente da alta sociedade tinha seguro passaporte para a mesa de Oak Lodge.
O aparecimento do sr. Horácio Sparkins no clube provocou, entre os frequentadores assíduos, extraordinária surpresa e curiosidade. Quem podia ser? Ele era evidentemente reservado e visivelmente melancólico. Um eclesiástico? Mas dançava bem demais. Um advogado? Mas dizia que ainda não fora chamado a praticar. Empregava palavras muito finas e era grande conversador. Seria algum estrangeiro distinto vindo à Inglaterra que frequentava jantares e bailes públicos a fim de conhecer a alta-roda, a etiqueta, o requinte inglês? Mas não tinha sotaque. Era um cirurgião, um colaborador de revistas, um autor de romances, um artista? Não: a cada uma dessas suposições, como ao conjunto delas, havia alguma objecção válida. “De qualquer maneira – concordavam todos -, ele deve ser alguém.: - “Deve ser, com certeza – dizia com seus botões o sr. Malderton -, uma vez que percebe a nossa superioridade e nos dá tamanha atenção.”
A noite seguinte a conversa que acabamos de relatar era noite de reunião. A carruagem recebeu ordem de estar à porta de Oak Lodge às nove horas em ponto. As srtas Malderton estavam vestidas de azul-celeste ornado de flores artificiais, e a Sra. Malderton (que era baixa e gorda), idem, idem, parecendo sua filha mais velha multiplicada por dois. O sr. Frederico Malderton, o filho mais velho, em traje de rigor, representava o beau ideal de um garçom elegante, e o sr. Tomas Malderton, o mais jovem, de gravata branca de gala, paletó azul, botões brilhantes e fita de relógio vermelha, de perto se parecia com Jorge Barnewll. Todos do grupo estavam interessados em cultivar a amizade do sr. Horácio Sparkins. A Srta. Teresa preparava-se para mostrar amável e interessante como em geral o são as moças de 28 anos à procura de um marido. A Sra. Malderton ia ser toda sorrisos e graças. A Srta. Mariana lhe pediria o favor de escrever alguns versos em seu álbum. O sr. Malderton tomaria sob sua proteção, o grande desconhecido, convidando-o a jantar em sua casa. Tom dispunha-se a averiguar a extensão de seus conhecimentos em matéria de rapé e charutos. O próprio Sr. Frederico Malderton, a autoridade da família em tudo o que dizia respeito à elegância do traje e das maneiras, e ao bom gosto; que possuía seu apartamento próprio na cidade; que tinha ingresso livre no teatro CoventGarden; que se vestia sempre com formalidade com a moda do mês; que ia às águas duas vezes por semana, durante a estação; que tinha um amigo íntimo que outrora conhecera um cavalheiro que tinha vivido no Albany – ele mesmo declarou que o sr. Horácio devia ser um sujeito famoso e que lhe daria a honra de desafiá-lo para uma partida de bilhar.
O primeiro objecto que feriu os olhos ansiosos da expedita família, ao entrarem no salão, foi o interessante Horácio, com os cabelos atirados sobre a fronte e os olhos fixos no chão, recostado numa das cadeiras em atitude contemplativa.
- Ei-lo, meu querido, - cochichou ao marido a Sra. Malderton.
- Como se parece com Lord Byron – murmurou Teresa.
- Ou com Montgomery – segredou a Srta. Mariana.
- Ou com os retratos do capitão Cook! – sugeriu Tom.
- Tom, não seja burro! – disse o pai, que o morigerava a cada passo, provavelmente com o intuito de o impedir de se tornar “esperto”, coisa totalmente desnecessária.
O elegante Sparkins continuava em sua atitude afectada, de admirável efeito, até que a família cruzou a sala. Então se levantou precipite, com o ar mais natural de surpresa e enlevo, aproximou-se da Sra. Malderton com a maior cordialidade, cumprimentou as moças de modo encantador, inclinou-se perante o sr. Malderton, cuja mão apertou com respeito que raiava a veneração, e retribuiu a saudação dos dois rapazes com um jeito meio agradecido, meio protetor, que acabou convencendo-os que ele devia ser uma personagem importante mas condescendente ao mesmo tempo.
- Srta. Malderton – disse Horácio após os cumprimentos de praxe e inclinando-se profundamente – é-me lícito conceber a esperança de que me permitirá ter o prazer de...
- Não sei se já estou comprometida – disse a Srta. Teresa com terrível afectação de indiferença -, mas realmente... assim... tão...
Horácio ostentou uma expressão primorosamente lastimável.
- Terei muito prazer – externou por fim a interessante Teresa. O rosto de Horácio brilhou de repente como um velho chapéu sob a chuva.
- É realmente um moço muito distinto – declarou o sr. Malderton, quando o obsequioso Sparkins
- Ele tem, de fato, boas maneiras – observou o sr. Frederico.
- Sim, é um rapaz notável – interveio Tom, que não deixava passar oportunidade de meter os pés pelas mãos. – ele fala que só um leiloeiro.
- Tom, disse o pai com solenidade, suponho já lhe ter pedido que não seja tolo.
Tom ficou tão contente como um galo em manhã escura.
- Como é delicioso – dizia à sua dama o interessante Horácio – enquanto passeavam pela sala depois da contra dança -, como é delicioso, repousante, abrigar-nos das tempestades nebulosas das vicissitudes, dos dissabores da vida, embora apenas por alguns instantes fugazes, e passar esses instantes por mais efémeros e rápidos que sejam, no delicioso, no abençoado convívio de um ser – cujo franzir de sobrancelhas seria a morte, cuja frieza seria a loucura, cuja falsidade seria a ruína, cuja constância seria a ventura, e cuja afeição seria a recompensa mais brilhante e elevada que os Céus pudessem outorgar a um homem!
- Quanto ardor! Quanto sentimento!”- pensava a Srta. Teresa, apoiando-se com força no braço de seu cavalheiro.
- Mas basta, basta! – resumiu o elegante Sparkins com ar teatral. – Que foi que eu disse? Que tenho eu... que ver... com sentimentos como este? Srta. Malderton – aqui ele parou de repente -, posso esperar o consentimento para oferecer-lhe o humilde tributo de...
- Na verdade, Sr. Sparkins – retrucou a enlevada Teresa, corando na mais deliciosa confusão – tem que falar com papai. Eu nunca poderia sem o consentimento dele atrever-me a ...
- Decerto ele não fará objeção alguma...
- Ora, o Sr não o conhece ainda! – interrompeu-o a Srta. Teresa, bem sabendo que não havia nada a temer, mas desejosa de transformar a cena em um romance romântico.
- Ele não poderá fazer objecção alguma a que eu lhe ofereça um copo de sangria – volveu o adorável Sparkins com certa surpresa.
- “Era apenas isso? – pensou Teresa desiludida – Quanto barulho por nada!”
- Terei o maior prazer, senhor, em vê-lo a jantar em Oak Lodge, Camberwell, domingo próximo, às cinco horas, se não tiver compromisso melhor, - disse o sr. Malderton no fim da reunião, quando ele e os filhos conversavam com o sr. Horácio Sparkins.
Este curvou-se agradecendo e aceitando o convite.
- Devo-lhe confessar – continuou o pai, oferecendo rapé ao novo conhecido – que gosto muito menos destas reuniões que do conforto, ia quase a dizer do luxo, de Oak Lodge. Elas não têm grandes encantos para um homem de certa idade.
- Aliás, senhor, que é afinal o homem? – perguntou o metafísico Sparkins. – que é o homem? Digo eu.
- Ah, isso mesmo – disse o sr. Malderton -, isso mesmo.
- Sabemos que vivemos e respiramos – continuou Horácio – que temos aspirações e desejos, anelos e apetites...
- Sem dúvida – replicou o sr. Frederico Malderton com ar profundo.
- Sabemos que existimos, digo eu – repetiu Horácio, levantando a voz -, mas aí nos detemos; ai está o fim do nosso conhecimento, o limite do nosso alcance, o termo de nossos fitos. Que mais sabemos?
- Nada – respondeu o sr. Frederico.
E realmente ninguém tinha mais direito que ele de fazer tão afirmativa. Tom ia arriscar um reparo, mas, a bem de sua reputação, percebeu o olhar zangado do pai e escapuliu-se como um cão apanhado em flagrante de furto.
- Palavra de honra – disse o sr. Malderton pai quando a família voltava para casa na carruagem -, este sr. Sparkins é admirável. Quantos conhecimentos! Que amplidão de informações! Que maneira esplêndida de se exprimir!
- Para mim ele deve ser alguém disfarçado – declarou a Srta. Mariana. – Que encantadoramente
Tom arriscou:
- Ele fala forte e muito bem. Apenas não entendo exatamente o que ele quer dizer.
- Quase começo a desesperar de você entender qualquer coisa, Tom -, disse o pai, o qual, naturalmente, ficara edificadíssimo com a palestra do sr. Horácio Sparkins.
- Tenho a impressão, Tom – disse a Srta. Teresa -, de que você foi bastante ridículo esta noite.
- Sem a menor dúvida! - gritaram todos.
E o pobre Tom procurou reduzir-se ao menor volume possível. Naquela noite o sr. e a Sra. Malderton conversaram longamente sobre as perspectivas e o futuro de sua filha. A Srta. Teresa foi deitar-se perguntando a si mesma se, caso desposasse um aristocrata, devia incentivar as visitas de suas conhecidas actuais, e sonhou a noite inteira com gentis-homens disfarçados, grandes recepções, plumas de avestruz, presentes nupciais e Horácio Sparkins.
Na manhã do domingo se aventaram diversas conjecturas acerca da condução que o ansiosamente esperado Horácio iria adotar. Ia tomar um cabriolé? Montaria a cavalo? Preferiria a diligência? Tais e outras mais hipóteses de igual importância absorveram a atenção da Sra. Malderton e de suas filhas durante toda a manhã, depois do ofício divino.
- palavra de honra, minha querida, aborrece-me que o simplório do seu irmão tenha convidado a si mesmo para jantar aqui hoje – disse o sr. Malderton à mulher. – Por causa da visita do sr. Sparkins eu me abstive, de propósito, de convidar fosse quem fosse, além de Flamwell. E agora pensar que seu irmão... um lojista... não, é insuportável. Não gostaria que fizesse qualquer referência à loja diante do nosso convidado... não, nem por mil libras! Preferiria que tivesse o bom senso de esconder a desgraça que ele representa para a família, porém ele gosta tanto do seu horrível negócio que não deixará de falar a respeito.
O sr. José Barton, a pessoa em apreço, era dono de um grande armazém, homem vulgar e tão despido de sensibilidade que não tinha o menor escrúpulo em confessar que não estava acima do seu negócio; juntara seu dinheiro graças a ele, e não fazia questão de encobri-lo.
- Ah, Flamwell, meu caro amigo, como vai? – perguntou o sr. Malderton ao ver um homenzinho azafamado, de óculos verdes, entrar na sala. – Recebeu o meu bilhete?
- Recebi sim, e estou aqui às suas ordens.
- Não conhecerá de nome, por acaso, esse Sr. Sparkins? Você conhece todo o mundo.
Era o r. Flamwell um desses cavalheiros de relações extremamente vastas que a gente encontra de quando em quando na sociedade, os quais pretendem conhecer a todos mas na verdade não conhecem ninguém. Em casa dos Maldertons, onde qualquer história sobre gente distinta era acolhida com ouvidos gulosos, estimavam-no especialmente. Vendo com que espécie de pessoas tratava, levou ao extremo a paixão de exibir as suas relações. Tinha um modo peculiar de contar as suas maiores mentiras num parêntese, com ar de quem se desmente a si mesmo, como se estivesse receando parecer egoísta.
- Bem, não o conheço por esse nome -, replicou em voz baixa e com um jeito de imensa importância. – No entanto, devo conhecê-lo, sem a menor dúvida. É alto?
- É de estatura mediana – disse a Srta. Teresa.
- Cabelos pretos? – perguntou Flamwell, arriscando uma suposição arrojada.
- Sim – respondeu a Srta. Teresa ansiosamente.
- De nariz bastante arrebitado?
- Não – replicou Teresa com desaponto. – tem um nariz romano.
- Pois não foi o que eu disse, um nariz romano? – disse Flamwell. – Não é um moço elegante?
- É.
- De maneira excessivamente simpáticas?
- Sim – exclamou a família toda. – Naturalmente você o conhece.
- Foi o que pensei: naturalmente você o conhece, se ele é “alguém”, - triunfou o Sr. Malderton. – Quem pode ser ele?
- Bem, pela descrição de vocês – disse Flamwell ruminando e baixando a voz até o cochicho -, ele se parece de modo estranho com o nobre Augustus Fitz-Edward Fitz-John Fitz-Ozborne. É um rapaz de muito talento e bastante excêntrico. É muitíssimo provável que tenha mudado de nome por algum motivo especial.
O coração de Teresa batia forte. Seria mesmo o nobre Augustus Fitz-Edward Fitz-John Fitz-Ozborne? Que nome para ser gravado elegantemente em dois cartões acetinados, atados com uma fita de cetim branco! A nobre senhora Augustus Fitz-Edward Fitz-John Fitz-Ozborne! Só o pensar nisso dava um êxtase!
- Faltam cinco para as cinco – disse o Sr. Malderton consultando o relógio. – Espero que ele não nos desiluda.
- Ei-lo! – exclamou a Srta. Teresa ao ouvir duas fortes pancadas à porta.
Todos procuraram assumir o ar de quem nem suspeitava a chegada de quem quer que fosse, como costumam fazer as pessoas que esperam ansiosas uma visita.
A porta da sala abriu-se.
- O Sr. Barton – anunciou a criada.
- Raios o partam! – murmurou Malderton – Ah, meu querido, como vai você? Que há de novo?
- De novo mesmo – retrucou o comerciante na sua habitual maneira rude – não há nada. Nada que eu saiba. Como vamos, meninas e rapazes? Sr. Flamwell, prazer em vê-lo!
- Eis o Sr. Sparkins – disse Tom, que estava olhando pela janela -, num formidável cavalo preto!
La vinha Horácio, bem seguro, montando um grande cavalo preto que curveteava e cabriolava como um surpanumerário de bufar, de empinar-se, de escoicear, o animal consentiu parar a umas cem jardas da porta. O sr. Sparkins apeou-se e o confiou aos cuidados do cavalariço do sr. Malderton. A cerimônia de introdução realizou-se com as devidas formalidade. O sr. Flamwell
- É o nobre Sr. Augustus como-se-chama-mesmo? – perguntou baixinho o sr. Malderton a Flamwell, que o escoltava para a sala de jantar.
- Bem, não é ele... pelo menos não precisamente – volveu a grande autoridade -, não precisamente.
- Quem é, então?
- Psiu! – disse Flamwell abanando a cabeça com gravidade como para mostrar que o sabia bem, mas se achava impedido por alguma grave razão de revelar o notável segredo.
Podia ser um ministro que procurava inteirar-se das opiniões do povo.
- Sr. Sparkins – disse a encantadora Sra. Malderton -, queira dividir as senhoras. João, ponha uma cadeira para o cavalheiro entre as senhoritas.
Estas palavras foram dirigidas a um homem que, em condições normais, acumulava as funções de criado e jardineiro mas, como era necessário impressionar o sr. Sparkins, fora forçado a calçar sapatos e pôr um lenço branco no pescoço, e havia sido retocado e escovado até assemelhar-se a um segundo lacaio.
O jantar era excelente. Horácio dava a maior atenção à Srta. Teresa e todos estavam de bom humor, excepto o sr. Malderton, o qual, conhecendo as propensoes de seu cunhado, sofreu a espécie de agonia que, segundo as informações dos jornais, experimenta a vizinhança quando um servente de taverna se enforca num depósito de feno, agonia “mais fácil de ser imaginada que descrita”.
- Flamwell, tem visto ultimamente o seu amigo sir Thomas Noland? – perguntou o Sr. Malderton, lançando a Horácio um olhar oblíquo para ver o efeito que sobre ele exercia o nome de tamanho homem.
- Bem, não muito... quer dizer, não ultimamente. Mas vi Lorde Gubbleton há três dias.
- Ah espero que S. Excia esteja passando bem – disse Malderton num tom de profundo interesse.
Desnecessário declarar que, até aquele momento, ignorava de todo a existência da personalidade em apreço.
- bem, estava passando bem... muito bem até. É um ótimo camarada. Encontrei-o na City, e tivemos uma longa prosa. Damo-nos muito. Mas não pude conversar com ele todo o tempo que queria, porque ele ia à casa de um banqueiro, um homem rico e membro do Parlamento, com o qual também me dou bastante... poderia até dizer – intimamente.
- Sei a quem você está se referindo – retrucou o hospedeiro, que o sabia tão pouco, na realidade, quanto o próprio Flamwell. – Ele tem um negócio formidável.
Era tocar em assunto perigoso.
- Por falar em negócios – interveio o sr. Barton, do centro da mesa – um cavalheiro que você conhecia muito bem, Malderton, antes de você ter dado aquele primeiro golpe feliz, passou outro dia na nossa loja e...
- Barton, permite-me que lhe peça uma batata? – interrompeu o infeliz dono da casa, na esperança de cortar a história pela raiz.
- Pois não! – respondeu o comerciante, insensível de todo ao objetivo de seu cunhado – E ele me disse sem rodeios...
- Mais farinhenta, por favor, - interrompeu Malderton outra vez, temendo o fim da anedota e a repetição da palavra loja.
- Ele me disse assim – continuou o culpado depois de passar a batata: - “Como vão os negócios?” Entoa eu lhe disse brincando – você conhece a minha maneira -, sim, eu lhe disse: “Eu nunca estou acima dos meus negócios, e espero que eles também nunca estejam acima de mim” Ah! Ah!
- Sr. Sparkins – disse o dono da casa, debalde procurando disfarçar a sua consternação - , um copo de vinho?
- Com o maior prazer, meu senhor.
- O prazer é todo meu.
- Obrigado.
- Uma dessas noites – resumiu o hospedeiro dirigindo-se a Horácio, em parte com a intenção de ostentar os dotes de conversador de seu novo conhecido, em parte com a esperança de abafar as histórias do cunhado -, uma destas noites conversamos sobre a natureza do homem. Sua argumentação me impressionou muito fortemente.
- E a mim também – disse o sr. Frederico.
Horácio inclinou a cabeça graciosamente.
- Por favor, sr. Sparkins, qual a sua opinião a respeito da mulher? – indagou a Sra. Malderton.
As moças sorriam tolamente.
- O homem – respondeu Horácio -, o homem, quer quando erra nos campos luminosos, alegres e floridos de um segundo Éden, quer quando percorre as regiões estéreis, áridas e, por assim dizer, vulgares a que somos forçados a nos habituar em tempos como estes; o homem, em qualquer circunstância ou em qualquer lugar, vergado sob as mortíferas rajadas da zona frígida ou comburido pelos raios de um sol vertical -, o homem sem a mulher, estaria sozinho.
- Estou muito contente de verificar que o senhor tem opiniões tão respeitáveis – declarou a Sra. Malderton.
- Eu também – acrescentou a Srta. Teresa.
Horácio fitou-a com olhar encantado, e a jovem corou.
- Pois bem, na minha opinião... – disse o sr. Barton.
- Eu sei o que é que você quer dizer – interveio Malderton, determinado a não dar oportunidade a seu parente -, e discordo de você.
- Como? – perguntou o comerciante, espantado.
- Sinto não estar de acordo com você, Barton – lançou o hospedeiro de modo tão positivo como quem deveras contradiz uma asserção feita por seu interlocutor -, mas não posso aprovar o que eu considero uma afirmação monstruosa.
- Mas eu queria dizer...
- Você nunca poderá me convencer – afirmou o sr. Malderton com obstinada determinação – Nunca.
- Pois eu – disse o sr. Frederico, a auxiliar o ataque de seu pai – não posso subscrever integralmente a argumentação do sr. Sparkins.
- Como! – exclamou Horácio, que se tornara mais metafísico e argumentador ao ver a parte feminina da família ouvi-lo com enlevada atenção. – Como! É o efeito conseqüência da causa? É a causa precursora do efeito?
- Aí está – disse Flamwell.
- Sem dúvida – concordou o sr. Malderton.
- Porque se o efeito é a conseqüência da causa e se a causa precede o efeito, parece que o senhor se engana – prosseguiu Horácio.
- Sem sombra de dúvida – acudiu o sicofanta Flamwell.
- Pelo menos esta deducao me parece lógica e justa.
- Sem dúvida alguma – repercutiu Flamwell – Com isso a questão está liquidada.
- Talvez esteja – disse o sr. Frederico. – Não o percebi logo.
- Eu nem agora o percebo – opinou o comerciante -, mas suponho que tudo esteja certo.
- Que inteligência maravilhosa! – segredou a Sra. Malderton às filhas quando se retiraram para o salão.
- É um amor! – disseram juntas as duas moças. – fala como um oráculo. Ele deve ter visto coisas.
Ficando a sós os cavalheiros, produziu-se uma pausa, durante a qual todos olharam com suma gravidade, como se exaustos com a profundidade da discussão. Flamwell, que resolvera elucidar quem era e o que era o sr. Horácio Sparkins, foi o primeiro a quebrar o silêncio.
- Desculpe-me, senhor – disse aquela distinta personalidade -, suponho que estudou para advogado, não? Eu mesmo já tive o desejo de adotar essa profissão... pois estou em relações bastante íntimas com algumas das glórias do nosso foro.
- N... não... – respondeu Horácio depois de hesitar um pouco. – Precisamente, não.
- Mas, ou muito me engano, ou o senhor tem tido contato com as becas de seda, - disse Flamwell com deferência.
- Quase toda a minha vida – replicou Sparkins.
Assim, a questão estava resolvida no espírito do sr. Flamwell. Tratava-se de um moço que entraria a advogar dentro em pouco.
- Eu não gostaria de ser advogado – disse Tom, falando pela primeira vez e olhando para todos a ver se alguém lhe prestava atenção.
Ninguém respondeu.
- Não gostaria de usar cabeleira postiça – insistiu o rapaz.
- Tom, peço que não se torne ridículo, - observou-lhe o pai. – Peço-lhe que preste atenção ao que está ouvindo, para aproveitá-lo, sem fazer a cada momento essas declarações absurdas.
- Está certo, papai, - respondeu o infeliz Tom, que não pronunciara nem uma palavra sequer depois que pedira outro bife, às cinco e um quarto; agora já eram oito.
- Bem, Tom – disse o tio bondoso -, não se aflija. Eu estou de acordo com você. Não gostaria de usar cabeleira postiça; prefiro um avental.
O sr. Malderton tossiu com violência. O sr. Barton quis concluir:
- Pois se um homem está acima dos seus negócios...
A tosse voltou com decuplicada violência, e não cessou antes que o seu infeliz motivo, de tão alarmado, houvesse de todo esquecido o que pretendia dizer.
- Sr. Sparkins – interrogou Flamwell, voltando a carga -, conheceu por acaso o Sr. Delafontaine, de Bedford Square?
- Trocamos os nossos cartões, e desde então já tive a oportunidade de servi-lo bastante, - replicou Horácio, corando um pouco, sem dúvida por haver sido forçado a fazer essa confissão.
- O senhor pode considerar-se feliz por haver tido ocasião de ser útil a esse grande homem – observou Flamwell com profundo respeito.
Depois, murmurou confidencialmente ao sr. Malderton, quando acompanhavam Horácio ao salão:
- Não sei quem é. Mas é certo que ele pertence à justiça e que é alguém de grande importância, com relações das mais altas.
- Não há dúvida.
O resto da noite decorreu de modo mais agradável. Aliviado de suas apreensões por haver o sr. Barton caído em sono profundo, o sr. Malderton ficou tão amável e gentil quanto possível.
A Srta. Teresa tocou A queda de Paris de maneira magistral, conforme declarou o sr. Sparkins, e ambos, assistidos pelo sr. Frederico, ensaiaram um sem número de canções e trios do começo ao fim, chegando à agradável evidência de que suas vozes se harmonizavam à perfeição. Por via das dúvidas, cantaram todos a primeira parte. Horácio, além da leve desvantagem de não ter ouvido, estava na mais perfeita ignorância de qualquer nota musical. Contudo, passaram o tempo deliciosamente. Era mais de meia-noite quando o sr. Sparkins pediu que lhe trouxessem o seu corcel com ar de cavalo de coche fúnebre, pedido esse que só foi satisfeito com a condição expressa de que ele repetiria a visita no domingo seguinte.
Quem sabe se o Sr. Sparkins não deseja fazer parte do nosso grupo amanhã de noite? – sugeriu a Sra. Malderton – O sr. Malderton quer levar as meninas a verem o pantomimo.
O sr. Sparkins inclinou-se e prometeu ir ter com elas no decorrer da noite, no camarote n. 48.
- Não o requisitamos para a parte da manhã – disse a Srta. Teresa num tom fascinante – porque mamãe nos leva a uma porção de lojas a fazer comprar. Sei que os cavalheiros têm horror a essa espécie de passatempo.
O sr. Sparkins inclinou-se outra vez e declarou que ficaria encantado, mas negócios de grande monta ocupavam-no durante a manhã. Flamwell olhou significativamente para o sr. Malderton.
- É dia de vencimento – sussurrou.
No dia seguinte a carruagem encontrava-se às 12 h à porta de Oak Lodge a fim de levar a Sra. Malderton e as filhas para a sua expedição. Deviam elas jantar e vestir-se para o espetáculo na casa de um amigo. Primeiro, carregadas de caixas de chapéus, tinham de fazer uma excursão à loja dos Srs. Jones, Spruggins and Smith, em Tottenham Court Road; depois, outra, à Casa Redmayne, em Bond Street; depois outras, a inumeráveis lugares de que nunca ninguém tinha ouvido falar. As meninas procuravam diminuir o tédio da viagem elogiando o sr. Horácio Sparkins, censurando a própria mãe por conduzi-las tão longe só para economizar um xelim, e perguntando se jamais chegariam a seu destino. Por fim o veículo parou em frente à loja de um fanqueiro, de aspecto sujo, com toda espécie de mercadoria e letreiros de todos os tamanhos na vitrina. Havia ali enormes setes com minúsculos “3 farthings ao lado, perfeitamente invisíveis a olho nu; cinqüenta mil e trezentos boás de senhoras, desde um xelim até um pêni e meio; sapatos franceses de legítima pele de cabrito, dois xelins e nove pence o par; sombrinhas verdes, a preço não menos módico; e “toda espécie de mercadorias cinqüenta por cento abaixo do custo”, como diziam os donos, que o deviam saber melhor do que ninguém.
- Por Deus, mamãe, a que lugar a senhora nos trouxe! – exclamou a Srta. Teresa. – Que diria o sr. Sparkins se nos visse?
- Com efeito, que diria! – concordou a Srta. Mariana, horrorizada com a idéia.
- Sentem-se, minhas senhoras. Qual é o primeiro artigo? – perguntou o obsequioso mestre de cerimônias do estabelecimento, o qual, com seu grande lenço branco no pescoço e sua gravata solene, parecia um mau “retrato de um cavalheiro” numa exposição de Somerset House.
- Gostaria de ver sedas – respondeu a Sra. Malderton.
- Pois não, minha senhora! Sr. Smith! Onde está o Sr. Smith?
- Estou aqui, senhor! – gritou uma voz do fundo da loja.
- Tenha a bondade de apressar-se, Sr. Smith, - disse o mestre-de-cerimônias. – O senhor nunca está onde a sua presença é necessária.
Convidado assim a desenvolver a maior rapidez possível, o Sr. Smith pulou o balcão com grande agilidade e plantou-se diante das freguesas. A Sra. Malderton deu um grito abafado. A Srta. Teresa, que se tinha curvado para falar à irmã, levou a cabeça e viu – Horácio Sparkins!
“Encobriremos com um véu”, como dizem os romancistas, a cena subsequente. O misterioso, filosófico, romântico e metafísico Sparkins – aquele que, aos olhos da interessante Teresa, parecia encarnar o ideal dos jovens duques e dos tafuis poéticos que vestiam chambre de seda azul e chinelos idem idem, os quais ela conhecia dos livros e com os quais sonhava, mas que nunca esperava ver -, transformara-se de repente no Sr. Samuel Smith, auxiliar de uma loja barata, o caixeiro mais moço de uma firma incerta, de 3 semanas de existência. O desaparecimento honroso do herói de Oak Lodge, em seguida a esse reconhecimento inesperado, não pôde senão ser comparado ao furtivo esgueirar-se de um cachorro com uma enorme chaleira presa ao rabo. Todas as esperanças dos Maldertons se derreteram de vez, como sorvetes de limão num banquete; Almacks era para eles mais distantes que o Pólo Norte.

voltando-se para a filha mais nova, que estava ocupada em fazer uma bolsa de tricô e olhar sentimentalmente. Houve e ao Banco. Algumas especulações bem sucedidas o levaram de uma situação de obscuridade e relativa pobreza a um estado de abastança. Como tantas vezes acontece em tais casos, suas e seu par se dirigiram para a quadrilha que se formava. romântico! fitou Horácio por trás de seus óculos verdes com ar misterioso e importante ao mesmo tempo, e o galante Horácio olhou para Teresa com uma expressão indizível.
Charles Dickens