16/12/2007

Os meus sacos de oiro e os meus sacos de prata

Estavam uns homens a altercar dentro de uma casa, em certa noite, no campo, quando lhes bate um men­digo à porta pedia poisada.

Pois aqui está o meu herdeiro! Este é que o há-de ser! Entre, irmão, diz lá do fundo da casa o homem mais velho. E descanse em paz.

Vossemecê não me deseja a morte nem me derriça em vida, não é verdade? Entre e dê-me o seu nome; o que o mendigo logo fez. Recebeu agasalho por aquela noite e no dia seguinte partiu.

A vida do mendigo não merece relato. Sabe-se apenas que passado muito tempo, em certa noite escura, torna à mesma poisada em cata da sua herança.

Sim senhor! — responderam-lhe os da casa, ali está. Entre irmão e sente-se.

Haviam passado anos; o homem já era muito velho. Andava arrimado a um marmeleiro a muito custo e deixava as pegadas assentes; trazia bocados de mantas esfrangalhadas ao ombro e na cabeça uma carapuça pelada.

Puxa de um mocho, pede licença para descansar e começa logo a contar os trabalhos da sua vida. Como ninguém lhe desse troco — parecia ter caído numa casa de mortos — diz então: julgo ser senhor de uma herança, que o dono desta casa...

Sim, senhor! Pode levá-la. São três sacos de oiro e três sacos de prata.

Três sacos de oiro e três sacos de prata? — exclama o pobre, deslumbrado. E não haverá para aí nenhum carro?

Carros não há, e tudo tem de partir daqui de uma só vez, volvem-lhe secamente.

O mendigo põe os olhos na braseira que está a um lado, e vai-se chegando para ela. Mas ele a chegar-se e o lume a fugir-lhe. O velho, que não é tolo, logo se julga embruxado e compara o caso da sua herança com o da braseira.

Quanto mais perto, mais longe! — suspira longe! — suspira ele. Mas como tivesse muito frio ia indo sempre atrás do lume. Nisto engolfa-se uma rabanada de vento pela porta dentro e arrebata consigo as brasas. O velho vai-lhes no encalço.

Vê-as a deitar faíscas, a espirrar e a saltar sempre para diante; ela também não pára. Anda toda aquela santa noite ao frio e com os olhos nas chamas. No outro dia encontram-no já muito longe a dizer coisas sem tom nem som e a bater o queixo.

Quanto mais perto mais longe! Era toda a sua matação. E também pedia: os meus sacos de oiro e os meus sacos de prata... são meus de direito...

Julgaram-no pateta. E aqui acaba a história.

Pode-se-lhe atribuir moral? Talvez; moral de pobre: quem nasceu para vintém não chega a pataco, nem a poder de lei.


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma