09/12/2007

Mistério em São Cristóvão

Numa noite de Maio — os jacintos rígidos perto da vi­draça — a sala de jantar de uma casa estava iluminada e tranquila.

Ao redor da mesa, por um instante imobilizados, acha­vam-se o pai, a mãe, a avó, três crianças e uma mocinha magra de dezanove anos. O sereno perfumado de São Cris­tóvão não era perigoso mas o modo como as pessoas se agrupavam no interior da casa tornava arriscado o que não fosse o seio de uma família numa noite fresca de Maio. Na­da havia de especial na reunião: acabara-se de jantar e con­versava-se ao redor da mesa, os mosquitos em torno da luz. O que tornava particularmente abastada a cena, e tão desa­brochado o rosto de cada pessoa, é que depois de muitos anos quase se apalpava afinal o progresso nessa família; pois numa noite de Maio, após o jantar, eis que as crianças têm ido diariamente à escola, o pai mantém os negócios, a mãe trabalhou durante anos nos partos e na casa, a moci­nha está se equilibrando na delicadeza de sua idade, e a avó atingiu um estado. Sem se dar conta, a família fitava a sala feliz, vigiando o raro instante de Maio e sua abundância.

Depois cada um foi para o seu quarto. A velha esten­deu-se gemendo com benevolência. O pai e a mãe, fechadas todas as portas, deitaram-se pensativos e adormeceram. As três crianças, escolhendo as posições mais difíceis, adormeceram em três camas como em três trapézios. A mocinha, na sua camisola de algodão, abriu a janela do quarto e res­pirou todo o jardim com insatisfação e felicidade. Perturba­da pela humidade cheirosa, deitou-se prometendo-se para o dia seguinte uma atitude inteiramente nova que abalasse os jacintos e fizesse as frutas estremecerem nos ramos — no meio de sua meditação adormeceu.

Passaram-se horas. E quando o silêncio piscava nos vaga-lumes — as crianças penduradas no sono, a avó rumi­nando um sonho difícil, os pais cansados, a mocinha ador­mecida no meio de sua meditação — abriu-se a casa de uma esquina e dela saíram três mascarados.

Um era alto e tinha a cabeça de um galo. Outro era gor­do e vestira-se de touro. E o terceiro, mais novo, por falta de ideias, disfarçara-se em cavalheiro antigo e pusera más­cara de demónio, através da qual surgiam seus olhos cândi­dos. Os três mascarados atravessaram a rua em silêncio.

Quando passaram pela casa escura da família, aquele que era um galo e tinha quase todas as ideias do grupo pa­rou e disse:

— Olha só.

Os companheiros, tornados pacientes pela tortura da máscara, olharam e viram uma casa e um jardim. Sentindo--se elegantes e miseráveis, esperaram resignados que o outro completasse o pensamento. Afinal o galo acrescentou:

— Podemos colher jacintos.

Os outros dois não responderam. Aproveitaram a para­da para se examinar, desolados, e procurar um meio de res­pirar melhor dentro da máscara.

— Um jacinto para cada um pregar na fantasia, con­cluiu o galo.

O touro agitou-se inquieto à ideia de mais um enfeite a ter que proteger na festa. Mas, passado um instante em que os três pareciam pensar profundamente para resolver, sem que na verdade pensassem em coisa alguma — o galo adiantou-se, subiu ágil pela grade e pisou na terra proibida do jardim. O touro seguiu-o com dificuldade. O terceiro, apesar de hesitante, num só pulo achou-se no próprio cen­tro dos jacintos, com um baque amortecido que fez os três aguardarem assustados: sem respirar, o galo, o touro e o cavalheiro do diabo perscrutaram o escuro. Mas a casa con­tinuava entre trevas e sapos. E, no jardim sufocado de per­fume, os jacintos estremeciam imunes.

Então o galo avançou. Poderia colher o jacinto que es­tava à sua mão. Os maiores, porém, que se erguiam perto de uma janela — altos, duros, frágeis — cintilavam cha-mando-o. Para lá o galo se dirigiu na ponta dos pés, e o touro e o cavalheiro acompanharam-no. O silêncio os vigia­va.

Mal porém quebrara a haste do jacinto maior, o galo in­terrompeu-se gelado. Os dois outros pararam num suspiro que os mergulhou em sono.

Atrás do vidro escuro da janela estava um rosto branco olhando-os.

O galo imobilizara-se no gesto de quebrar o jacinto. O touro quedara-se de mãos ainda erguidas. O cavalheiro, exangue sob a máscara, rejuvenescera até encontrar a infân­cia e o seu horror. O rosto atrás da janela olhava.

Nenhum dos quatro saberia quem era o castigo do ou­tro. Os jacintos cada vez mais brancos na escuridão. Parali­sados, eles se espiavam.

A simples aproximação de quatro máscaras na noite de Maio parecia ter percutido ocos recintos, e mais outros, e mais outros que, sem o instante no jardim, ficariam para sempre nesse perfume que há no ar e na imanência de qua­tro naturezas que o acaso indicara, assinalando hora e lugar — o mesmo acaso preciso de uma estrela cadente. Os qua­tro, vindos da realidade, haviam caído nas possibilidades que tem uma noite de Maio em São Cristóvão. Cada planta húmida, cada seixo, os sapos roucos aproveitavam a silen­ciosa confusão para se disporem em melhor lugar — tudo no escuro era muda aproximação. Caídos na cilada, eles se olhavam aterrorizados: fora saltada a natureza das coisas e as quatro figuras se espiavam de asas abertas. Um galo, um touro, o demónio e um rosto de moça haviam desatado a maravilha do jardim... Foi quando a grande Lua de Maio apareceu.

Era um toque perigoso para as quatro imagens. Tão ar­riscado que, sem um som, quatro mudas visões recuaram sem se desfitarem, temendo que no momento em que não se prendessem pelo olhar novos territórios distantes fossem fe­ridos, e que, depois da silenciosa derrocada, restassem os jacintos — donos do tesouro do jardim. Nenhum espectro viu o outro desaparecer porque todos se retiraram ao mes­mo tempo, vagarosos, na ponta dos pés. Mal, porém, se quebrara o círculo mágico de quatro, livres da vigilância mútua, a constelação se desfez com terror: três vultos pula­ram como gatos as grades do jardim, e um outro, arrepiado e engrandecido, afastou-se de costas até o limiar de uma porta, de onde, num grito, se pôs a correr.

Os três cavalheiros mascarados, que por ideia funesta do galo pretendiam fazer uma surpresa num baile tão longe do Carnaval, foram um triunfo no meio da festa já começada. A música interrompeu-se e os dançarinos, ainda enlaçados, entre risos, viram três mascarados ofegantes parar como in­digentes à porta. Afinal, depois de várias tentativas, os con­vidados tiveram que abandonar o desejo de torná-los os reis da festa porque, assustados, os três não se separavam: um alto, um gordo e um jovem, um gordo, um jovem e um al­to, desequilíbrio e união, os rostos sem palavras em baixo de três máscaras que vacilavam independentes.

Enquanto isso, a casa dos jacintos iluminara-se toda. A mocinha estava sentada na sala. A avó, com os cabelos brancos entrançados, segurava o copo de água, a mãe alisa­va os cabelos escuros da filha, enquanto o pai percorria a casa. A mocinha nada sabia explicar: parecia ter dito tudo no grito. Seu rosto apequenara-se claro — toda a constru­ção laboriosa de sua idade se desfizera, ela era de novo uma menina. Mas na imagem rejuvenescida de mais de uma época, para o horror da família, um fio branco aparecera entre os cabelos da fronte. Como persistisse em olhar em direcção da janela, deixaram-na sentada a repousar, e, com os castiçais na mão, estremecendo de frio nas camisolas, saíram em expedição pelo jardim.

Em breve as velas se espalhavam dançando na escuri­dão. Heras aclaradas se encolhiam, os sapos saltavam ilu­minados entre os pés, frutos se douravam por um instante entre as folhas. O jardim, despertado no sonho, ora se en­grandecia, ora se extinguia; borboletas voavam sonâmbulas. Finalmente a velha, boa conhecedora dos canteiros, apon­tou o único sinal visível no jardim que se esquivava: o ja­cinto ainda vivo quebrado no talo... Então era verdade: al­guma coisa sucedera. Voltaram, iluminaram a casa toda e passaram o resto da noite a esperar.

Só as três crianças dormiam ainda mais profundamente.

A mocinha aos poucos recuperou sua verdadeira idade. Somente ela não vivia a perscrutar. Mas os outros, que na­da tinham visto, tornaram-se atentos e inquietos. E como o progresso naquela família era frágil produto de muitos cui­dados e de algumas mentiras, tudo se desfez e teve que se refazer quase do princípio: a avó, de novo pronta, a se ofender, o pai e a mãe fatigados, as crianças insuportáveis, toda a casa parecendo esperar que mais uma vez a brisa da abastança soprasse depois de um jantar. O que sucederia talvez noutra noite de Maio.


Clarice Lispector, In Laços de Família