15/12/2007

Luna Cohen

O ilhéu era a sentinela entre S. Vicente e Santo Antão

File:Ilheu dos passarosSantoAntao.jpg


Sentada num dos assentos ao longo de uma das paredes do aeroporto de Ikeja, Luna bebeu a cerveja quase de uma só vez. O líquido no fundo foi dançando num corrupio seguido, o tempo do balanço do copo nas suas mãos nervosas. Beber o resto? A bebida perdia o sabor entre duas cadências de segundos. Uma poção quente e enjoativa quando não saboreada em devido tempo. Por detrás do assento, um gradeamento separava-a da multidão num outro compartimento, curiosa, a espreitar os passageiros do último avião, alguns ainda a dessedentarem-se no bar onde ela se encontrava havia quase duas horas. Na sua frente um inglês de passagem, à espera do próximo avião para Kano. Viajante internacional, intermediário de negócios ou passador de heroína? Um gole, dois cigarros, nada mais. Uma conversa entre quem aguarda e está à espera, e outrem desejosa de chegar ao fim da viagem, ou seja, de tomar um transporte até Lagos e daí a Ile-lfe, a mais ou menos seiscentos quilómetros deste lugar onde se encontra neste momento com um estranho a seu lado a falar de nada, justamente a mastigar a conversa.
A ventoinha do tecto roda sempre. A multidão espreita, ri, fervilha. No bar servem-se refrescos e tudo quanto seja bebível. A gare aérea, baixinha ao rés do chão, com uma cobertura parecida com a madeira, talvez seja mesmo madeira.
Fora uma manhã intensa a cumprir formalidades, a correr de balcão a balcão. E os funcionários sem pressas. Indiferentes, largam frases curtas, formais. "The pink one". Entregou um dos impressos. "The pink one", insistiu o empregado. Ficou a olhar para ele, a boca semiaberta. Ele devolveu-lhe o papel, tirou-lhe os outros da mão e escolheu um pequeno impresso cor-de-rosa. Escreveu qualquer coisa no verso e pôs-lhe um carimbo em cima. Passou-lho para as mãos. Luna continuou de balcão em balcão e entregar papéis brancos, amarelos. Alcançou o extremo da sala e encontrou-se em frente de uma porta.
Entrou. Seria outro balcão, desta vez com guichets. Já não havia mais papéis. Entregara-os todos. Não só isso. Haviam-na passado a pente fino. De onde vinha, quanto tempo ia ficar, se trazia dinheiro, quanto, finalidade da vinda para o país, autorização da entrada, "Está aqui. Foi-me passada pelo consulado britânico em Portugal," onde se ia instalar, tudo registado e confirmado nos montes de impressos preenchidos e entregues a funcionário aqui e mais além e logo a seguir, nunca mais parava de entregar tantos papéis de tantas cores e tonalidades. E agora?
Um fulano gordo, camisa e calças brancas, os dentes muito certos e bem arruma-dos. "Miss Cohen? Professor Kahn mandou-me para a acompanhar."
Ela acenou um sim contente, contente por encontrar a pessoa número um da sua próxima estadia na Nigéria. Fularin cumprimentou-a com efusão de velhos conhecidos. Em África é assim. A apresentação e as amizades fazem-se sem reticências. "Venho da parte do professor Kahn. Tenho o automóvel no parque para a levar até Varsity." Queria dizer University. "Já trocou dinheiro? Pode fazê-lo aí."
Levou-a a um pequeno e claro corredor. Havia um guiché à esquerda. Fularin deu alguns passos, abanando-se e limpando a testa.
Quando voltou, ele sugeriu uma bebida. Ia levá-la ao bar do aeroporto.
Havia quase duas horas no mesmo lugar. À espera. Fularin deixara-a com um copo na frente, prometera voltar dentro em pouco.
Vira-o por aí, aos abraços, apertando a mão a um outro pessoal, rindo sempre, andando para aqui para acolá.
"Este Fularin é incrível". O ar sério do inglês intrigou-a. Luna olhou para ele. Camisa aberta, cara lustrosa, ar cívico. "Conhece-o?" "Oh", e ele sacudiu a cabeça como quem tem uma lon-da história a contar. Se o conhecia! O inglês conhecia muita gente em todo o lado. Andava a montar a rede telefónica na Nigéria. Fizera já o mesmo em Istambul. E contou coisas de Istambul. Gente simpática. Compras de pedras preciosas, jóias raras. Levara-o um amigo a uma dessas lojas. Numa antecâmara um indivíduo sorridente, recebe-o de braços abertos. Sentados em otomanas de pele de camelo trocam-se cumprimentos, bebem chá quente muito doce. O amigo ficara à porta. Angariador? Talvez guarda-costas, pensara ele ao vê-lo pouco depois, através da vidraça, da maneira como se tinha encostado no umbral e como tinha o braço estendido, ligeiramente levantado de encontro ao outro lado da porta.
O dono do estabelecimento fizera um pequeno sinal ao homenzinho para correr o cortinado. Depois disto, a magra figura ficou postada do lado de lá com o ar de quem não tem nada a fazer.
O sujeito balançou uma minúscula campainha e aguardou os dois empregados. Apareceram com uma caixa, pequena cómoda de madeira pau-rosa e sândalo, de estreitas gavetas com puxadores disfarçados na ranhura da madeira. Pousaram-na e retiraram-se. Com servilidade? Não, apenas lançaram o olhar de revés para o inglês a medir as suas posses.
Corrida a cortina, o mesmo indivíduo começou a abrir as gavetas. Um mudo deslumbramento a desfilar perante os seus olhos.
"E comprou alguma coisa?"
O tempo parou. Aterrou um Boeing. Vira-o aproximar-se como se viesse de encontro às portas envidraçadas do barzito. Através do gradeamento, mesmo por detrás do comprido sofá estofado, levantou-se o silêncio do tagarelar sem parar desde a sua chegada. O avião passou sobre o telhado de madeira e o silêncio estendeu-se pelos outros compartimentos. Depois, a pera. Escutava-se com atenção, o pescoço ligeiramente para a frente, até diluir-se no calor o derradeiro bafo do motor. "Mummy, mummy," ouviu-se ainda, pouco se tinham recomposto do hiato da chegada e do aterrar do avião da Costa do Marfim.
O inglês continuava a narrar. Luna ouvia-o e sorria. "E eu a pensar que essas coisas só aconteciam nos romances cor-de-rosa". "O quê?," interpelou o inglês.
Luna estava inquieta. Fularin nunca mais aparecia. O inglês continuava a conversar, a relatar. Fez uma pausa.
Levantou-se, foi até ao balcão. Voltou com um copo na mão e sentou-se de novo. "Não dê confiança a esse Fularin." "Porquê?", perguntou Luna curiosa. "Porquê?", insistiu a querer saber. "Forget it", aconselhou-lhe o inglês. E mudou de conversa.
"Minha mulher está em Londres. Sou engenheiro, mas lá o trabalho não garante o sustento de uma casa."
Luna sente um pequeno enjoo. Longas horas de voo durante toda a noite, não pudera comer nada, quer em Roma quer em Milão. Os restaurantes fechados, apenas o bar onde se vendem sandes ressequidas embaladas em plástico transparente. Aqui também, só refrigerantes, cerveja, talvez whisky. Longe ia o tempo quando eram oferecidas refeições nos aeroportos ou bebidas esquisitas em Cairo ou em Bombaim. As companhias já não se afoitam em despesas extras. Os passageiros são largados como gado em cada etapa.
Levantou-se com um pequeno sobressalto. Senhor meu pai, não vi as minhas malas ainda. Ninguém me trouxe as malas!
Foi até à porta e sentiu náuseas outra vez. Um porteiro, impassível, não a deixou passar. "Por aqui só os passageiros". "Mas eu sou passageira." "Agora já não o é." E os seus dentes brancos, limpos, não são agressivos.
A ventoinha do tecto espalha o ar fresco aos quatro cantos. Luna não sabe como explicar àquele indivíduo de calças azuis e camisa branca. Deveria ter as malas consigo, mas ainda não as viu.
Retornou ao bar e, encostada à vidraça, estendeu o olhar pelo espaço aberto. Passageiros .de vestes claras, outras coloridas como o arco-íris, caminham ao longo da pista. Vinham calmos, sorriam e, no ar, o aroma a perfume francês. Quando entrara em Milão no avião da frota nigeriana, sentira no interior do avião o mesmo cheiro a pairar no ar. A algazarra rompeu de novo e, da gare, acenava-se para os familiares. Os panos bem arrumados à volta do corpo e as meio soltas capulanas protegem-nas do calor. Os companheiros lançam as pernas muito direitas. Os ombros são largos sob os casacos de alpaca. Os mais velhos trazem a roupa tradicional e na cabeça uma espécie de boné sem pala, redondo, ligeiramente levantado à frente, com uma pequena ondulação.
Fularin vislumbrou-a de longe, a testa encostada aos vidros, espraiando a vista para os campos secos onde o calor despega-se da terra e a grama nasce rija e espalha-se pelo solo descoberto.
As voltas dadas para encontrar a bagagem foram nulas. Estivera até numa espécie de armazém onde estavam empilhadas e etiquetadas malas desaparecidas em voos dos meses de Fevereiro, de Março, de Abril. Desistiu de continuar a procurar.
Em passinhos saltitantes seguiu atrás de Fularin até ao parque onde ficara o automóvel. As sandálias de tiras finas e transparentes deixavam o pó espalhar-se em camada ocre muito ténue sobre os seus pés ardentes do calor.
A estrada vai sendo comida a uma velocidade impossível de descrever. O carro não se detém, nem nos buracos onde salta e geme, nem nos espaços onde a terra levanta nuvens de poeira vermelha envolvendo-os completamente. A viagem parece decorrer num filme no qual a preocupação é fixar as diversas etapas de um próximo acidente.
A tarde torna-se fresca e Luna tenta segurar a cabeça atirada para um lado para o outro lado como a querer ser arrancada do pescoço. Começaram a aparecer pequenas fogueiras onde descansam caldeiras fumegantes assentes em três pedras. Na estrada as mulheres acenam convidando a parar.
"De que se trará, senhor?" Fularin volta-se um pouco. "Milho, milho verde." "Ah, gosto tanto de milho cozido."
Recostou-se melhor e deixa cair a cabeça para trás. Com o dedo grande do pé tenta soltar as tiras da sandália no outro pé. Conseguiu-o. Os dedos dançam libertos, os pés acariciam a rede fresca do tapete.
"Aprecia, miss Cohen?" Os dentes de Fularin mostram-se com satisfação. Está feliz. Porquê?
Luna ri-se intimamente da satisfação do gordo Fularin.
O carro encosta-se à berma. O chofer sai com presteza enquanto Fularin continua sentado no banco da frente. Torna com um saco plástico onde traz seis enganhas de milho verde cozido a fumegar. Durante algum tempo vão encontrando mulheres vestidas de panos garridos, estampados, com desenhos bastante simétricos, a acenarem com uma colher de pau no ar, junto às caldeiras onde ferve o milho verde. Luna vai roendo o milho com uma fome de doze horas. Fularin torna a mostrar os dentes, satisfeito. Luna continua a olhar para a estrada, os vidros descidos. O ar da tarde entra morno no interior do carro. Adormeceu, acordou, tornou a adormecer, nunca mais chegavam. Quando atravessaram lbadan ainda teriam de percorrer uns sessenta quilómetros antes de alcan-çarem a cerca do campus de ïle-lfe.
Na cama onde dorme há horas, o corpo de Luna não acusa vontade de despertar. O steward aguarda, sentado no patim da porta da frente da vivenda do campus, onde Professor Kahn a instalara. Os arbustos bastantes juntos trazem ao quarto um ruído característico. Foi quando Luna acordou. Sentou-se na cama, puxou o lençol e começou a perscrutar o ruído ténue e contínuo. Lembrou-se de cobras, lacraus, lagartos. Deu um salto na cama e saiu a correr do quarto. No corredor espreitou através da porta para debaixo da cama e sentiu-se mais tranquila. Os mosaicos frescos debaixo dos pés maram-na. Sentiu-se segura e foi então buscar água num tambor de ferro a um canto da cozinha. Trouxe dois baldes cheios e colocou-os dentro da banheira. Ia tirando água com um copo, curvava-se para se molhar e poder ensaboar-se.
Quando acabou de se banhar, despejou o resto da água do balde sobre os ombros. Já estava calma de todo.
Não lhe custou adaptar-se à vida tranquila de Ife. Trabalhava com o Professor Kahn na continuidade de cartas trocadas em longos meses de correspondência. Ambos judeus, tinham muitos pontos comuns além do trabalho, divergente apenas uma alínea. Professor Kahn preocupava-se demasiado com Israel. "Está a ver, não é, miss Luna? Desejo conhecer a nossa pátria. Ali estão as minhas raízes, para lá vou viver após a minha reforma. Munique representa para mim o local onde por acidente vi a luz do dia. Um acidente no qual os meus não pediram a minha colaboração." Um riso curto e seco. "Não pensa o mesmo, miss Luna."
Luna endireitou o cigarro na boquilha e lançou o fumo pouco depois, longo, leve, um fumo digerido e bem saboreado. Não respondeu. Não tinha problemas desses. Judia sim, mas a sua pátria era onde nasceram os avós, os pais, ela própria, onde vivera, estudara e passara a juventude. A sua pátria nunca poderia ser Israel. Jamais pensara nem ao de leve neste pormenor de Israel porque era um caso resolvido no seu sub-consciente.
Continuou a olhar para os convidados do Deão. Chegavam em grupos familiares para o almoço no Staff Club.
Luna pensou na necessidade de ir ao cabeleireiro. Não se adaptava a ter de lavar a cabeça em casa. Era um desconforto. "Professor Khan, conhece um bom cabeleireiro em lbadan?"
Professor Kahn estava exuberante. Não bebia vinho todos os dias, era superior às suas posses, mas de vez em quando excedia-se, desforrava-se.
"Ih, Ih, Ih, cabeleireiro, miss Luna? Quer trancinhas besuntadas com graxa?" "Graxa, Professor Kanh?"
Desviou a sua atenção para um grupo familiar de quatro pessoas, vieram em dois carros com chofer, o chefe do clã no primeiro, seguido da mulher e da filha no seguinte. O velho chefe, homem de meia idade, vestes brancas, aproximou-se do anfitrião, dobrou os joelhos no mosaico cinzento e vergou-se até tocar com a testa no chão. Levantou-se e aproximou-se então dos demais.
Luna ia-se habituando a estes rituais tribais com sistemas de classe e tradições bem definidas em público. Traduzem o respeito pelo "mais velho", também é reverência. Neste momento é a saudação entre dois amigos da tribo etche. É o exercício do estabelecido. Pediu uma chávena de chá e foi sentar-se num cadeirão ao pé da piscina. Os sar-dões enormes, verdes, alguns com uma mancha rósea ou castanha no dorso passeavam-se por aí. As sardaniscas, maiores e mais gordas, levantavam a cabeça e assemelhavam-se a um bicho pronto a atirar-se.
Sentiu um frio pela espinha abaixo.
"Então essas pesquisas?" Luna levantou a cabeça e olhou sorridente para o Dr. Da Silva. Tão bom ouvir falar português a milhares de quilómetros de Lisboa. "Olá, então?"
Da Silva trazia um blusão e calças iguais. Jeans impecáveis. A camisa toda aberta. Um fio de ouro com um crucifixo. "Tudo bem, Luna?" "Sei lá". Luna sorriu. "Olhe, venho de uma viagem de quase dois mil quilómetros. Trouxe imenso material para a minha tese de doutoramento. E você, que tal o seu trabalho, gosta?" "Sei lá." Luna desabafa. "Não devo chegar a lado nenhum. Professor Kanh sempre a falar de Israel, Professor Grübber no mesmo. Você sabe, eu também sou judia, no entanto, mentalmente sou cabo-verdiana. Por vezes fico bloqueada com as conversas deles, compreende?"
"Olhe uma coisa, Luna, faça o seu trabalho e não dê importância a isso. Eles masturbam-se com esse tema, está a perceber? Não gosto nada destes bichos." Apontou para os sardões a treparem para os arbustos aí a dois passos. "Eu quando regressar ao Brasil, levo todo o material de recolha para a minha tese. Deixe-os falar, masturbam-se é só. Sabe, dei um salto a Nairobi. De avião. Voltei via Nsuky. Falei com a ex-mulher de Uli Schneider. Ela tem responsabilidades, é agora deusa yorubá, foi-me apresentada pelo técnico nuclear egípcio, casado com aquela moça americana. Não a conhece? Não, refiro-me à americana. Está no departamento das Artes. Não faz nada. Entretem-se por aí. Da próxima vez vou até Calabar. Vou lá descobrir muita coisa para a minha tese."
Da Silva estava exuberante. Continuou a falar, a contar.
O almoço decorreu num ambiente abafado. O calor era cortado pelo cheiro da carne servida com uma espécie de funge. As ventoinhas giravam mas não abrandavam o ar quente. O termómetro marcaria 40° talvez, Luna não percebia os Farenheits, diga-se. Pela altura do mercúrio tentava adivinhar a temperatura.
Nessa noite não dormiu ou melhor, dormiu mal. Um moço inglês engenheiro, duas professo-rinhas alemãs do departamento de línguas modernas e ainda o Dr. Odgi jovem nigeriano descendente de yorubás acompanharam-na a casa.
O campus abrangia uma área de muitos hectares, bem guardado, e nessa hora tardia seria melhor não se aventurarem a regressar a casa fora das cercas. Trouxeram uma garrafa de whisky, algumas cervejas e trataram de passar a noite da maneira mais agradável. Dr. Odgi, des¬contraído, não era mais uma pessoa do curso de férias em Lisboa. Quando o conhecera então, parecera-lhe tímido e insignificante. Revelava-se agora um outro indivíduo, cheio de preocupações, atento às mudanças em África.
Luna começou a sentir cólicas acompanha¬das de espasmos. Abusara dos picantes mas não se queixava. Os amigos queriam novas da revolução em Portugal. Luna ia relatando coisas do M.F.A., do Copcon.
Uma das alemãs tirou um pacotinho da mala de mão e foi ferver água para fazer chá.
Luna contou sobre o 11 de Março. Não faziam a mínima ideia de muitas coisas. Mas sabiam de outras.
"E sobre os helicópteros? Quem os levou afinal?"
Luna admirou-se. "Quem vos contou sobre isso?"
Estava cansada. Não tinha vontade de falar mais.
"Olhem, há dois quartos vagos. Acomodem-se, estejam à vontade. Vou-me deitar. Desculpem-me, mas não estou bem."
Dr. Odgi retirou-se pois tinha conseguido uma vivenda no campus para aí há dois meses. Com um sorriso maroto um atirou-lhes "have a good time" e saiu puxando a porta de mansinho.
No quarto chegavam até ela frases, alusões ao 25 de Novembro. Ainda ouviu "...três mil armas distribuídas!". "Por quem?"
Arrependeu-se de não se ter referido à reforma agrária ou às nacionalizações. Sobretudo às nacionalizações porque vivera esses dias em Lisboa. Os cartazes, os panos atravessados no alto das ruas e casas da Baixa, o apoio da cidade, do povo quando se soltavam slogans alegres e livres durante os desfiles, as canções a transbordarem das bocas das mulheres, estas segurando estandartes de esperança.
Encolheu-se na cama e apertou o ventre.
Foi uma noite de cólicas. No dia seguinte, como não tivesse aparecido, vieram procurá-la cerca das quatro da tarde. Estava sem forças, mal balbuciou duas palavras. Os amigos tinham partido muito cedo para lbadan e julgou as suas horas contadas ali sozinha.
Curtiu uma infecção intestinal durante três semanas. O empregado vinha, punha-lhe um termo com chá ao lado, fazia a limpeza e ia sentar-se na casa de jantar a estudar. Andava a seguir um curso por correspondência. À tarde arranjava-lhe outro termo com chá, colocava um pacote de tostas na mesa de cabeceira e ia-se embora.
Abalada pela estadia na cama, não tinha vontade de nada. Deixava-se ficar na cadeira de lona, a seguir as nuvens de mosquitos e bichinhos a voejarem contra a rede da janela à procura da luz acesa dentro da safa. Apareciam ao entardecer mas, de toda a maneira, as redes em qualquer das janelas impediam-nas de invadir o interior da moradia. No campus havia um jardim zoológico. E se também um daqueles bichos se lembrasse de fugir e começasse por aí a rondar? Levantou-se de um salto e foi verificar a porta. Estava fechada. Tranquilizava, sentou-se de novo, sem vontade para mais nada a não ser prestar atenção ao bater dos insectos contra a rede onde alguns iam ficando presos.
Da Silva viera vê-la numa tarde, andava ela a passear à volta da vivenda, a pisar a erva fresca e densa por todo o lado. Da Silva não saiu da passadeira e chamou-a. "Venha cá, quero dar um grande abraço à nossa ressuscitada".
Luna, agradecida, só sabia repetir: "É tão bom estar-se de saúde outra vez. É tão bom!"
Sentaram-se na varanda. Ia aspirando o cheiro acre da terra molhada enquanto Da Silva preparava um teste. "Olhe aqui, Luna, você alguma vez viu um historiador fazendo investigações para o seu doutoramento, ter de preparar um teste como este aqui?" Oiça, oiça.
— Você já tomou o seu cafezinho?
— Sim, dona Clara, estou acabando mesmo agora.
— Já pensou...?
Não acabou porque Luna ria e como não lhe acontecia desde aquela noite.
A tarde foi agradável. Da Silva era bem amigo. À saída ainda lhe disse duas tretas com humor e finalizou: "Veja se evita andar a passear na relva. As cobrinhas aparecem com a chuva e devem andar por aí. Mesmo pequeninas elas gostam de dar a sua picadi-nha, benzinho."
Despediu-se do Da Silva e fugiu para dentro de casa. Já sentia cobrinhas a subirem-lhe pelas costas acima, rastejando como seda a estalar e a enrolarem-se debaixo do vestido cor-de-rosa com ramagens verdes.
Professor Kahn, apreensivo pela sua súbita magreza, propôs-lhe continuarem o trabalho no semestre seguinte. Ficou aliviada. E se eu fosse assistir às festas do aniversário da independência em Cabo Verde?, pensou.
Até ao dia da partida andou impaciente. O tempo não passava tão depressa como desejava. Queria fazer umas pequenas compras, mas ser-lhe-ia quase impossível. No campus havia um supermercado, uma livraria, o banco e os correios. Talvez pudesse escolher discos na livraria. Da Silva levou-a à cidade, chamavam eles, mais parecia uma aldeola, a cerca de dois quilómetros, à boutique de uma jovem americana. Comprou colares e aproveitou para visitar o museu. Casa baixa de chão cimentado, onde de olhos arregalados pôde admirar peças autênticas de uma cultura milenária, únicas no mundo. O empregado, o Peter, vira-a entrar no museu e viera a correr entregar-lhe um fio de missangas multicores.
A caminho de Ikeja lembrou-se do milho verde cozido. O carro voava. Dr. Odgi acompanhava-a. Goiabas perdiam-se na berma da estrada. "Não gosta de goiabas, Dr. Odgi? São tão boas!"
Dr. Odgi tinha os olhos grandes, pareciam duas amêndoas. Sorriu. "Não comemos disso."
"O quê?" Luna admirou-se. "Não comem goiabas? Em Cabo Verde fazemos goiabada e comemos goiabas maduras. É tão bom!"
O carro saltava e voava. Uma vegetação densa e cerrada ladeava a estrada. Atravessavam uma zona de verde sem fim com grandes árvores a sobressaírem dos arbustos de folhas rijas e de um verde escuro pujante. Seria difícil descortinar algo através da folhagem sussurrante.
"Será floresta virgem?", perguntou Luna.
"Não, são quintas", respondeu Dr. Odgi meio aborrecido.
Luna encostou-se a um canto do carro. Dormitava ainda quando chegaram ao aeroporto.
O avião devia partir às seis da manhã. Dr. Odgi levou-a ao hotel para jantar e passar a noite. Parecia já estar na Europa. Até eles chegava o som de uma orquestra num dos salões. Era uma festa privada, uma festa de multinacionais, possivelmente um encontro de magnates de petróleo. A Europa e o imperialismo ficavam para além daquela porta. Deste lado era a exploração.
O departamento não lhe pagaria a estadia no hotel. Não fazia parte do contrato. Deu cerca de trezentos e cinquenta francos pelo quarto, pagos em cheque de viagem. Pelo jantar foi outra lou¬cura. Como não tinha pairas acabava por pagar sempre a dobrar. Começou a pensar na sua vida e nos meses passados em Ife, fez um rápido balanço se teria valido a pena. A caminho do quar¬to ia deitando contas. Dr. Odgi lembrou-lhe: "Já disse ao criado para a acordar às quatro e meia. Está certo?"
Atravessaram um longo corredor ao ar livre para alcançar o outro corpo do edifício. A humidade na armação coberta de trepadeiras e de flores de cardeal ficava peganhenta nas mãos quentes de Luna. Ia estar tudo certo. Ia a Cabo Verde.
Foi boa esta experiência. Abriu-lhe os olhos. Nem para si já contam os pequenos problemas do professor Kahn, do professor Grübber, de Israel, sei lá. Problemas substitutos de outros, bo¬lorentos, na média burguesia.
Arrumou a roupa na cadeira e sentou-se na ponta da cama. Ligou o ar condicionado e deitou-se sobre a colcha de algodão a pensar nas ruas térreas e lamacentas à entrada de Lagos, nos dois ou três arranha-céus de lbadan a dominarem um mar de casas baixas e mal alinhadas a par de vivendas com jardins bem cuidados e crianças meio nuas a apontarem para ela a rir "Oybo, oybo", e mais riam mais apontavam para Luna atónita. Além, ao lado do mercado, outras crianças agachadas, de cócoras umas três, libertando-se calmamente de fezes incómodas. Lembra-se disto e sorri.
Quando de madrugada bateram à porta do quarto, Luna ia a meter-se debaixo do cobertor. Gelara com o ar condicionado, tinha a garganta ferida, ia ter anginas desta vez.
Meio estremunhada bocejou e ficou assim na borda da cama. Não conseguia coordenar bem as ideias. Despiu a camisa de noite com nervosismo e atravessou nua a curta distância para a casa de banho. Um tanto alheada meteu-se debaixo do chuveiro. Enquanto a água lhe escorria pelo corpo, morna e lisa, Luna divagava. Quando aterrasse na Ilha do Sal tomaria a avioneta para S. Vicente. Nunca tinha estado no aeroporto de S. Pedro. Mas ia jurar. Rodeada pelo mar de pedras de S. Pedro haveria de descortinar lá longe o ilhéu dos Pássaros. Ou não? Não importa. O ilhéu era a sentinela entre S. Vicente e Santo Antão. Mas ela nada receava. Tinha o passe e a senha.


Orlanda Amarílis, Ilhéu dos Pássaros