02/12/2007

António Fraldão

A Columbano Bordalo Pinheiro


Noite velha, saía o António Fraldão de casa da Alonsa, quando viu, a curta distância, escoar-se um vulto que parecia de gente.
O Fraldão saía à esconsa e por isso não se afirmou; – mas ainda que se afirmasse, provavelmente não conhecia quem era, pois já não havia luar àquela hora, e as estrelas, ao alto, esmoreciam. Demais, os dois seguiram em sentido contrário; ele a meter-se em casa, e o outro, se era gente, direito à cova dos castanheiros, onde se internaria na treva densa.
Aquilo, a princípio, não deu que pensar ao Fraldão; – mas ao chegar a casa pouco depois, no extremo oposto da pequena aldeia, já com a mão na aldraba da porta, suspeitou:
– Ora quem seria o melro?! Se teremos história?!...
Ainda lhe vieram, num ímpeto, ganas de voltar atrás, de farejar o rasto até dar com o vulto, algures, e de o obrigar, se fosse embuçado, a mostrar a cara. Mas presumindo que já o não encontrava, e nada suspeitoso, ainda, dos beijos da Alonsa e das suas juras, abriu a porta e foi-se para a cama – embora, lá no íntimo, arreliado...
Quando depois acendia a candeia, ao pé do catre, reparou que a mão lhe tremia; – e deitando-se, não havia maneira de pegar no sono, às voltas debaixo da manta.
– ...Está bonito, está! E esta?!
A mãe, que ficava num quarto contíguo, separado apenas por um tabique, ainda lhe perguntou de lá se estava doente, ou que é que tinha. Mas ele, respondendo que não tinha nada, parece que até na sua ouviu a voz da mentira, – e se mal estava pior ficou.
Agora, umas guinadas de impaciência picavam-no todo até à alma, e entrou, pouco a pouco, a cismar se seriam ciúmes...
– Ciúmes! – admirava-se ele. – Mas ciúmes de quem?
Considerando, aquilo não passava talvez de uma curiosidade, talvez de uma simples suspeita – curiosidade de conhecer o vulto, suspeita de ter sido conhecido, ele...
Mas logo a seguir tranquilizava-se:
– Agora! Tanto como eu o conheci também! E quem sabe até se não seria algum lobo... – aventava o Fraldão a ver se dormia.
Mas não dormia; e no quarto ao lado, aflita, a mãe pegava-se já a Nossa Senhora: – «Ave-Maria, cheia sois de graça, o Senhor é convosco...»
– Bem digo eu! – arriscou-se a viúva a dizer outra vez. – Ora queira Deus, António; queira Deus e Deus o queira, que te não dêem pela cabeça estas noitadas...
– Isso! – replicou o rapaz. – Agoure-me vossemecê agora, inda por cima!
Um galo cantou a distância, nalguma capoeira.
– Ouve, minha mãe? Deixe-me vossemecê dormir, que já cantam os galos.
Mas espantara-lhe o sono o cuidado que entrara com ele, – nem sabia de quê; e embora de olhos cerrados, e imóvel p'r amor da mãe, as ideias, agora, tomavam-lhe certo rumo, já fixo. – Aquilo com a Alonsa era ainda de fresco, e namoros, pelo visto, a rapariga não tinha nenhum. Ela mesmo lho havia jurado pouco antes mais uma vez, – e que tirante aquele que a perdera, e que depois a botara ao desprezo, não conhecera mais homem nenhum – nem queria. Boa moça, vivendo à jeira do seu trabalho, sozinha, parecia com efeito que gostava dele, a pobre da rapariga; – e de uma vez que lhe tinha falado em se casarem, fitou nele os seus grandes olhos negros, marejados de lágrimas, e com a cabeça disse-lhe que não.
– Não?! Mas se eu quiser? – perguntara ele.
– Não! Tu tens tua mãe.
– Mas minha mãe...
– Tua mãe precisa de ti.
E abraçando-se a ele e apertando-o, agora a chorar com alma, entregara-se-lhe dizendo assim:
– Deixa lá!
Gostava da rapariga desde então, só por isso; – e procurando-a de noite, às escondidas, era mais por lhe fazer a vontade a ela para que a publicidade dessas relações o não desairasse, do que por envolver estas em um mistério, que, por não ter de que se envergonhar, até lhe pesava! Casaria com ela, decerto, quando a demovesse ao casamento; – e essa objecção da mãe, com que ela, coitada, lhe viera mais uma vez ainda essa noite, a própria mãe acabava de o desfazer lá do seu cubículo, dizendo-lhe quando já luzia o buraco, e ao tempo a que todos os galos da vizinhança tagarelavam de longe uns com os outros:
– Olha, António! Se esses cuidados são o que eu penso...
Deteve-se...
– Que tem? – provocara o rapaz o resto da frase.
– Que tem?!... O melhor é casares-te!
Não respondeu.

*

Nesse mesmo dia, depois de cear com a mãe o caldo das versas, o António Fraldão deu-lhe as boas-noites, pegou no chapéu e ia a sair...
– Não te era melhor ires-te p'r' a cama, António?! – perguntou a viúva.
– Eu não me demoro, minha mãe. Deite-se vossemecê, que eu venho já.
Dirigia-se para a porta, mas a mãe ainda o admoestou que tivesse cuidado, – que os perigos donde quer surdiam...
– Não tem dúvida, minha mãe. Não se aflija.
E cerrando a porta atrás de si, achou-se, de repente, na rua escura. No céu, muito alto, luziam estrelas em cardumes, e não havia lua; e nas casas vizinhas, janelas e portas estavam fechadas, e a aldeia, prestes a adormecer, parecia deserta. Ladravam cães aqui e além, disseminados, de guarda às curraladas; e só das bandas do campo, embalando o dormir da paisagem, um ruído atenuado e doce, que era, àquela hora, a fusão do canto dos ralos, dos grilos e das cigarras, vinha, difuso, embriagar de sonho o silêncio das coisas...
Sublinhadas de luz, uma agora, outra logo, raras portas no interior da aldeia; e na taberna do Grincho, entreaberta, sob a fumaceira dos cigarros, que ondulava no ar como um nevoeiro, a mesa do jogo rodeada de gente.
Cortara a aldeia toda o António Fraldão, sem ser visto; e quando chegou à casa da Alonsa, a rapariga, que já o esperava fisgando a rua por uma frincha, abriu-lhe a porta e cerrou-a logo:
– Valha-me Deus, António! Tenho tanto medo que te veja alguém!
– E eu nenhum! Tem de se saber: pouco me importa!
E já defronte da rapariga, ajeitando-lhe o rosto para lhe ver os olhos, perguntou- -lhe se estava triste.
– Não... Triste porquê?!...
– Estás, isso estás!
– É modo meu, não estou...
Mas aos olhos da Alonsa, a desmenti-la, afloraram logo duas grandes lágrimas.
– Vês?! – tornou o Fraldão. – Bem digo eu! Estás a chorar. Eu não gosto de te ver chorar.
– Não! Pois não! – anuía ela enxugando os olhos. – Já não choro. Mas esta minha vida...
Sentou-a numa arca de pinho que havia ao pé; sentou-se ao lado dela; tomou-lhe as mãos.
– Mas anda cá, vem cá, sossega! – suplicava o rapaz. – Mas essa tua vida que é que tem?
– Ora!
– Ora quê, sossega!
Desafogava a Alonsa: – Inda o que lhe valia era o trabalho...
– Ao menos enquanto ando por lá, quer chova, quer neve, até parece que alivio penas!
Respirou muito fundo, mordeu o beiço para reprimir as lágrimas.
– Deixa lá, já te disse, não te aflijas! – continuava o António. – De hora a hora Deus melhora.
– Sim, sim... Mas o que lá vai...
Desdenhava o Fraldão, para a animar:
– Ora, o que lá vai! O que lá vai, lá vai! O que lá vai deixá-lo ir!
E fitando-a, a rir-se:
– És tu minha amiga?
– Sou.
– Muito?
– Muito. Não posso ser mais.
Mas aqui, sem querer, veio-lhe outro hausto; e escondendo a cara no avental, como envergonhada, entrou a chorar convulsa¬mente.
– Maria, então?! Isso que é?! – procurava reprimi-la o rapaz. – Ouve! Escuta! Olha que eu zango-me!
– Não! Não! – repetiu ela com haustos.
– Sim! Mas sim! Ouve! O que tu queres dizer bem sei eu...
Rogava-lhe a Alonsa que se calasse, adivinhando no que lhe ia falar.
– Não, não, António! Tem piedade!
– Sim! Hei-de dizer! O outro!...
– Por alma de teu pai, António! – suplicava a Alonsa pondo as mãos.
– O outro, sim! O outro! – recalcava o Fraldão. – Mas queres então que te diga?
– Oh, não, não! Cala-te!
– Sim! Hei-de dizer! Vou dizer: – Tanto como ele valho eu agora!
Ela repeliu o avental, espantada:
– Tu?!
– Sim! Eu! Inda menos!
– Oh, António! – exclamou a Alonsa pondo as mãos. – Não digas isso, que pecas!
Mas ele, como a cravar-se um punhal, insistiu:
– Esse enganou-te, não é verdade? Disse que se casava contigo e não se casou! Mas eu...
– Mas tu...?! – provocou a rapariga sem perceber.
O Fraldão desfechou:
– Eu... Foi um empurrão que te dei p’r’ a desgraça, arredando-te dele!
– Mas se foi ele que não quis casar, António! – objectou desvairada a rapariga.
– Foi! Mas agora, mulher de dois, mulher de cem! Deixasse-te eu estar como estavas, que o desonrado não eras tu!
Percebera, a Alonsa! E caiu num grande marasmo, que assustou o rapaz.
Para a reanimar, o Fraldão ameigou a voz e atraiu-a para ele:
– Ora mas anda cá! Vem cá! Não te aflijas! Vais-me falar então toda a verdade, prometes?!
Ela não respondeu, absorta...
– Prometes – disse por ela o Fraldão. – Olha então bem p’ra mim.
Ela fitou-o, serena.
– Responde! Tu inda gostas dele?!
Chisparam-lhe de ira os olhos acesos:
– Eu?!
– Então anda cá! Vem cá! – ameigou-a o António. – Pois se já tu vês que fui pior do que ele...
– Ó António!
- ...Perdoas-me?!...
– Perdoo!
– E casas-te comigo?
– Não! Isso não!
– Mas eu perdão só quero esse!
– Deixá-lo!
– Deixá-lo porquê?!
Desdenhando de si, a rapariga ergueu os ombros.
– Inda o perguntas, António!
Mas nisto, parece que no silêncio da rua, perto da porta, ouviram-se passos...
– Escuta... – disse o Fraldão.
– Não é ninguém! – conteve-o a Alonsa sobressaltada.
Mas o Fraldão, desconfiado, ficou em brasas, – lembrado do vulto da véspera.
Desviou-se, mediu-a. Agarrando-lhe os pulsos interpelou-a:
– Ouves?! Tu enganas-me!
Caiu de rojo a rapariga, fulminada:
– Por alma de minha mãe, António!
Mas ele repeliu o juramento:
– Não! Só dizendo que sim ao que te vou perguntar: – Casas-te comigo?
– Caso! – respondeu ela com energia.
Levantou-a num ímpeto o Fraldão, apertou-a contra o peito, despediu-se; – e carregando o chapéu até aos sobrolhos, apagada a luz por precaução, desandou a chave e saiu para a rua.
Cantavam os galos... Em casa, sentada ao lume quase apagado, a mãe de Fraldão desfiava o rosário, – rogando pelo filho a Nossa Senhora: – «Ave-Maria, cheia sois de graça, o Senhor é convosco...»

*

Já no escuro, cá fora, o Fraldão pôs-se a farejar como se fosse um lobo. – Sentira passos, não se enganava, e era o vulto da outra noite, com toda a certeza! Mas agora, rondando com o olhar à volta dele, – na treva imóvel e silenciosa, debaixo do céu melancólico onde as últimas estrelas já feneciam, nenhum vulto, nenhum ruído, lhe feriam a atenção. Contudo, esse ar frio que respirava, ia jurar que um hálito inimigo o empestava – de alguém por ali escondido, algures... Mas um exame atento e perscrutador, do ouvido principalmente, não lhe dava nada, e os olhos, inquietos em todas as direcções, como os dos lobos quando têm fome, continuavam a receber do escuro a mesma impressão de vazio – que o afligia e o exasperava!
– Ah cão! – regougava o rapaz. – Não te encontrar eu, que te comia os fígados! – Oh, mas havia de encontrá-lo! Fosse como fosse! Fosse onde fosse! No inferno! Sete braças abaixo do chão! Havia de topá-lo! Era o vulto da outra noite, não tinha que ver! –Era malandro que o espreitava!
– Pois a cova tenhas tu onde pões os pés, ladrão! Não se abrir a terra que te comesse, grande malvado!
E ao mesmo tempo que se não queria arredar para longe, e sondava o escuro, com pertinácia, na direcção da casa da Alonsa, vinham-lhe ganas de procurar mais lá, mais ao largo, por todas as bandas, de não deixar polegada que não perscrutasse, – de mexer e remexer com as unhas, sendo preciso, a própria terra onde tinha os pés!
– Cão do diabo! Cão tinhoso! Tão longe estejas tu do inferno, como estás de mim, – ladrão!
Agora, como os olhos se lhe iam habituando ao escuro, a exploração corria melhor; – e porque conhecia o terreno como as suas mãos, e caminhava por isso com segurança, procurou, sondou, farejou, – até se convencer que não havia ninguém.
– Sumiu-se! Um raio venha que o parta! Não dou com ele!
Mas de repente deu-lhe um palpite:
– Tate! Fugiu-me p’r’ a cova! Detrás dalgum castanheiro é que eu o topo!
E largando para lá como uma bala, pouco tardou que não lobrigasse um vulto que fugia, – e sentiu-lhe ainda o trupido dos pés.
– Eh cão! É agora! Já me não escapas, malandro!
Mas na dianteira que lhe levava o outro, de mais a mais correndo em declive, no mesmo instante perdeu-o de vista, – sumido, como que diluído, no escuro dos castanheiros!
– Ah ladrão! que era o último dia da tua vida! Mas acabou-se! Algum diabo tinhas por ti! Ah, malvado!
E apanhando do chão duas grandes pedras, ainda as arremessou, com fúria, ao seio do escuro. – Mas só ouviu ramalhar os castanheiros, o baque dos matacões caindo no solo, – e nada mais.
– Pronto! Foi-se! Alma do diabo! Não tinha de ser inda esta noite!
E desandou direito à aldeia, furioso.
– Amanhã! Deixa! Não as perdes! Eu te armarei a esparrela se voltares!
…Mas agora, regressando, só o preocupava saber quem seria o vulto, – de todo inclinado já, contra a Alonsa, à ideia de que o atraiçoava:
– …Oh, a grande magana!... Tinha outro!... Vão-se lá fiar!... A grande magana tinha outro!...
Defronte da porta da rapariga, parou, – imprecando de punhos cerrados:
– Ah traidora! Agora é que era matar-te! O que tu precisavas era morrer! Ah traidora!
E num repelão, desvairado, foi-se ao postigo e bateu.
– Se abre é porque o esperava, a desavergonhada! E capaz sou eu de a matar! Mato-a! Mato-me, acabou-se!
Mas de dentro não acudia resposta: tornou a bater. Senão quando, rente ao postigo, ouviu-se muito aflita a voz da Alonsa:
– Vai-te! Deixa-me! Não me persigas! Por alma de tua mãe tem dó de mim!
– Abre! – rugiu o Fraldão empurrando a porta.
– Não! Não! E se abres mato-me! – tornou de dentro a voz da Alonsa. – Vai-te! Bem bonda o que me fizeste! Vai-te!
– Oh! – regougou espantado o Fraldão. – «O que me fizeste...»
Percebera! Percebia tudo agora!... O vulto era então o José Cherugaço, o de Valdamadre... – e o malvado, depois de ter enganado a rapariga, e de andar por lá a enganar outras, voltava à mesma por desfastio, voltava à mesma por inveja! Era o costume, já se sabia! Oh, o grande malandro! Por isso – lembrava-se agora – quando o encontrara outro dia à Cruz da Carreira, caminho do Souto, o meliante se rira para ele de certo feitio, como se riem os lobos... Espreitava-o, o refinado patife! Estava ao facto de tudo! E era por inveja – ele conhecia-o! – era só por inveja, que voltava outra vez à porta da Alonsa, – a perseguir a rapariga e a desinquietá-la!...
– Oh, mas deixa!... Não as perdes!... Grande malandro, que as não perdes!...
E já distante, pois que deixara em paz a rapariga, a sua vontade foi ir-se dali até Valdamadre, – ajustar contas com esse ladrão!
– Vou! Atiro-me a ele, que o como vivo! – Mas parecendo-lhe aquilo uma surpresa, reconsiderou:
– Não! Há-de ser de dia! À luz do sol é que há-de ser!
E entrando em casa quase contente, o Fraldão fingiu ralhar com a mãe por o ter esperado, e pedindo-lhe a bênção foi-se para a cama.
– Vê lá se vens com frio, António! Aqui inda há umas brasas.
– Não, minha mãe! Não esteja vossemecê agastada! O que eu não queria era vê-la a pé. Vá-se vossemecê deitar, ande, e tenha paciência.
Dormiu o rapaz o resto da noite, de um sono pegado; e ao acordar de manhã para ir para o trabalho, antes do romper do sol, pareceu-lhe tudo aquilo um pesadelo – o que se passara na véspera!...
– Olha que tal, han?!... Como o diabo as arma, às vezes! – lembrava-se ele ainda aterrado.
No íntimo, porém, tirante esse ódio ao Cherugaço, o António Fraldão sentia-se bem; – e logo que o ouviu cantarolar, já levantado, – também a viúva ficou contente:
– Ora graças, António! – festejou ela muito alegre. – Graças que já te ouço cantar!
– Então, minha mãe! É que vi passarinho novo!...
– Ah! – fingiu a viúva que se admirava. – E bonito? – perguntou a rir com certa malícia.
– Mas sim! Muito!
Não insistiu a mãe do António, e o rapaz calou-se também; – mas quando se despediu para sair para o campo, a um olhar da mãe mais perscrutador o Fraldão começou-se a rir...
– Então?... – desafiou-o a viúva.
– Então quê, minha mãe? Não é nada! – disfarçou ele. – É cá uma coisa.
– Mas diz!...
Hesitou. Houve um silêncio...
– Pois digo, acabou-se! – condescendeu o rapaz. – Mas vossemecê há-de-me prometer primeiro que guarda segredo...
– Guardo! – prometeu ela.
Outra pausa...
– É que me está a parecer que vossemecê...
Quedou-se outra vez.
– Anda! Desembucha!
– ...Inda vai ter uma filha depois de velha!
Deu-lhe a mãe uma grande risada, fingindo que não percebia.
– Isso! A boas horas!... Está feito!
E como o filho já ia na rua, correu a dizer-lhe da porta:
– Ouves, António? – E ria-se muito. – Agora só se forem netos...
Já distante, o filho voltou-se para trás, também a rir:
– Ó minha mãe!... E se forem?...

*

Nessas manhãs de fim de Verão, quase outoniças, o sol, lá em cima, nasce muito pálido; e já faz frio. Mas esse mesmo «arzinho» agreste, muito puro, rarefeito pela grande altitude, tonificava o sangue do António Fraldão, que horas antes, por esses mesmos lugares, lhe subira à cabeça quase a escaldar.
As ideias, agora, vinham-lhe lúcidas e chilreantes, – alegres como essa passarada ligeira que por cima dele passava a cantar. Parecia-lhe o campo também mais claro, e mais alegre; – e certas árvores suas amigas, que já tinham conhecido de pequeno o avô dele, ouvia-as mesmo felicitá-lo, quando passava:
– Bons-dias, António! Do que tu te livraste! – Um poço aos pés – dizia-lhe um olmo – e tu por um triz a malhares lá dentro!...
– É verdade! É verdade! O demónio como quer as arma! Nosso Senhor nos livre de tentações!
– Bons-dias! Adeus!
– Adeus! Bons-dias!
E certo pombal por onde passou, todo caiado de branco, sorriu-lhe como um noivado:
– Adeus, António! Quando te casas?...
Ao Caminho Velho, saudando as raparigas que estavam na fonte, o Fraldão pôs-se a cantar:

Entre canas e caninhas
Água deve de nascer,
Menina que está na fonte,
Dê-me água, quero beber.

Elas agradeceram-lhe, a rir:
– Adeus, António! Adeus!
E como se estivesse no grupo a Aninhas do Souto, que além de ser muito linda era cantadeira, mandou-lhe esta – «só pra ela»:

Fechei na mão um sorriso
Da tua boca formosa,
Quando fui a abrir a mão
Tinha-a toda cor-de-rosa.

– Mas que linda, António! Mas que bonita! – agradeceu a Aninhas.
– Isso és tu! Bonita és tu! Linda como os amores! Adeus!
Mas um pouco adiante, ao saltar a ribeira por umas poldras, uma velha que estava a lavar interrogou-o:
– Ó António! Então tu diz que te casas?...
A pergunta surpreendeu-o...
– Eu, tia Claudina!?... – disfarçou o rapaz. – Isso sim! Tenho lá
minha mãe. Pró que eu ganho chegamos bem! Então tão cedo? – perguntou ele sem se deter.
– Os cueiros dos netos! Que remédio!...
Apreensivo, o Fraldão ia agora pensando:
– Aquilo seria bruxedo?!... Ou a tia Claudina estaria a mangar?!...
Mas à Cruz do Carlos, onde o caminho fazia uma encruzilhada para Valdamadre, conheceu, já lá adiante, seguindo pela ladeira que levava à aldeia, o filho do José do Cachão.
– Ó Valentim! – gritou-lhe de longe o António Fraldão.
– Que é? – respondeu o outro conhecendo-o logo.
– Tu vais pra Valdamadre?
– Vou!
– E és capaz de me fazer um favor?
– Até dois!
– Então – ouves?! – então diz-me lá a esse malandro do José Cherugaço...
– Ao pai ou ao filho?
– Ao filho! Diz-me lá a esse grande malandro, – diz-lhe lá! – que a primeira vez que o topo, seja onde for, que lhe hei-de arrombar com um pau a caixa dos miolos! Tão certo como haver uvas!
O outro quis voltar atrás.
– Não venhas, adeus! Diz-lhe lá isto que lho mando eu!
– Ó António! – chamou agora o José do Cachão.
– Que é?
– Então que demónio é isso?!
– Cá umas contas! Diz’-lho!
E o José Cherugaço, prevenido pouco depois, só retrucou ao José do Cachão:
– Deixa-o! Morto por isso estou eu!

*

Não tardou, pois, que os dois se encontrassem; mas nem o Fraldão procurou o Cherugaço, nem o Cherugaço, tão-pouco, buscou evitar o outro. Foi obra do acaso avistarem-se ambos no cabeço das eiras, num dia de feira; – e avistarem-se, o mesmo foi que irem um para o outro, lestos e de cabeça erguida. Já sabia o Cherugaço quem tinha pela frente; e porque o terreno o favorecia, e o inimigo era de respeito, tomou a ofensiva em vez de se defender, brandindo o pau contra o adversário. Errou o golpe, todavia; – e lesto como um gamo, o Fraldão, fazendo pé atrás, pôs a zenir no ar o pau de lódão, calculou, apontou, e atirando à cabeça do Cherugaço, com toda a gana, acertou-lhe, prostrou-o à primeira, –matou-o.
– Àq’ del-Rei! – Àq’ del-Rei! – Acudam!
Corria gente de todas as bandas, era um torvelinho à roda do morto. Atirando com o pau, o Fraldão, muito lívido, pedia aos que o rodeavam que o prendessem:
– Prendam-me! Prendam-me! Matei um homem! Sou um desgraçado! Prendam-me! Prendam-me!
E atirando para diante com ambos os braços, aflito que metia horror, parecia oferecer já os pulsos às algemas, enquanto a feira, num alvoroço, se enovelava toda naquele lugar.
– Que é?!
– Que foi?!
– Quem mataram?!
– José! Não te vás pra lá meter, anda cá!
– António! Foge p'r' aqui, olha que te esmagam!
Eram as mães a gritar pelos filhos, mulheres pelos maridos: um berreiro e um alvoroço! E à tona desse vozeiro medonho, aqueles clamores que fazem as possessas, trágicos e arrepiados, ferozes como gritos de hienas: – «Ihh!...» Estava já preso o António Fraldão; e de jaqueta ao ombro, sem chapéu, seguia para a vila no meio dos cabos, atrás do regedor que abria caminho; – enquanto outros, tomando conta do morto, faziam círculo à roda do corpo, aguardando que viesse a justiça.
Mas passada a crise, entrava de comentar-se o acontecido, e já havia partidos: – Quem atacara primeiro fora o Cherugaço! – o Fraldão, defendendo-se, fizera o que outro faria! – Tal e qual! – Tal e qual!
– Mas eles já andavam de rixa!
– Deixá-lo! O que aqui se passou é que vale!
– O Fraldão tinha-o desafiado!
– Quem to disse?!
– Está-o ali a contar o José do Cachão!
– Recados! Sinal é que não foi traiçoeiro!
– Também o Cherugaço lhe mandou dizer que morto por isso estava ele!
– Ora aí está!
– Pois aí está! O rapaz não teve culpa!
– Não?!
– Não!
– Então assim se mata um homem?! – vociferou um de Valdamadre.
– Isso é outro caso! E se fosse o António que tivesse morrido?! Ele não lhe atirou também à cabeça?!
– E primeiro!
– E primeiro, está visto!
– Se o não apanhou foi porque não pôde!
– E se o apanha era uma vez!
– Está visto! Defendeu-se! Outro qualquer fazia o mesmo!
A corrente, como levada impetuosa, era, pois, a favor do Fraldão; e quando se ouviu, daí a pouco, gritar uma mulher lancinantemente, e se soube que era a Alonsa, e porque chorava, o incidente acabou de voltar a feira a favor do rapaz, e já ninguém, ostensivamente, tomava o partido do morto.
– Coitada da Alonsa!
– Coitado do António!
– E se nós fôssemos tirá-lo aos cabos, ó rapazes?! – desafiou um. – Vamos nós tirá-lo aos cabos?!
– Pronto!
– É pra já! – anuíram uns poucos.
Mas um velho de Variz, que estava a cavalo para ver melhor, meteu-lhes à cara a cavalgadura, contendo-os:
– Alto! Juízo! – gritou ele imperativamente. – Vocês que é que vão fazer?!
– Arrede! – vociferaram muitos ao mesmo tempo. – Arrede!
– Não arredo! – teimou o velho de cima da égua. – Quem é aí que manda arredar?!
Rodearam-no, iam atirar-se a ele.
– Bem! Então agora é julgado! – increpou um com a boca a escumar-lhe. – E julgado, lá vai p'r' a África, condenado?!
– É assim?!
– É assim?!
– Vai o quê?! Vai o quê?! – clamaram uns poucos num crescendo. – Ao juiz que o condenasse fazia-se-lhe o mesmo!
– O mesmo! Pois está visto!
– Está visto! Fazia-se-lhe o mesmo!
– Morra!
– Morra!
O velho apeara-se, furioso:
– Morra quem?! grandes animais! Cuidam vocês então, seus burros, que há juiz que condene o rapaz?!
– Viva!
– Viva!
– Tem razão o tio José!
– Viva!
– Viva!
...Ao mesmo tempo que as grades do cancelão, abrindo-se e fechando-se logo, recluíam o rapaz em nome da lei, – e o Cherugaço, de ventre p’r’ o ar, continuava, estendido na feira, esperando que lhe fizessem a autópsia...
*
Não foi condenado, com efeito, o António Fraldão. Absolvido unanimemente, ao abraço que lhe deu a Alonsa à saída da audiência, com todos à roda a quererem abraçá-lo, o Fraldão respondeu a chorar – beijando-a como uma criança! Tinham-se casado na cadeia, meses antes, – quando a mãe do Fraldão, coitada, receando pela sorte do filho, se tinha já consumido a chorar por ele – e a chorar por ele e a rezar, expelira, sem o ver, o último alento...


In COELHO, Trindade. Os meus amores: Contos e baladas