08/11/2007

Maricas


Vocês lembram-se da Maricas, aquela magrita de cabelos muito castanhos, quase louros, que morava defronte da redacção, lembram-se? A boa da rapariga era nossa amiga, pois não era? Sempre benévola e complacente para as nossas balbúrdias e algazarras, de todo o dia e de toda a noite. E vocês bem sabem que tais elas eram, as nossas balbúrdias e algazarras...
Eu, na Maricas, admirava uma virtude rara, toda original e encantadora: – a de não mostrar jamais, na sua amizade, preferência por algum de nós. Dir-se-ia que era nossa irmã, ou mesmo nossa mãe, pois que nos queria a todos por igual, a pobre Maricas de olhar azul e brando...
Não sei se já vos disse: adivinho o interesse com que ela vos perguntaria por mim, nos meus dias de cábula, pela solicitude e interesse com que me perguntava por vocês, quando faziam gazeta ao escritório.
– Então esses cábulas? Então esses marotinhos? Doente, algum?
– Na estúrdia, Maricas! Andam todos por lá...
– Ora vejam! – fazia ela quase escandalizada
Ah, como eu me lembro neste momento da vivacidade franca dos sorrisos que nos mandava, quando, todos em pinha, furando pelos ombros uns dos outros, palreiros conversávamos com ela de janela para janela, num tête-à-tête que durava horas, muito familiares, muito dados, quase que chamando-lhe por tu e ela a nós! Como eu me lembro!
Ela tinha sempre uma resposta e um sorriso para cada uma das mil perguntas que lhe fazíamos, e então uma grande paciência inexaurível. Nós, os estroinas, quase que chegávamos a adorar aquela ingenuidade singela do seu coração de vinte anos. A boa da Maricas era adorável, toda ela bondade e paciência para os nossos distúrbios e para as nossas algazarras de toda a hora e de todo o instante.
Mas como se familiarizou ela connosco e nós com ela, é que me não lembra, e porventura a nenhum de vocês, acho eu. O que é certo, rapazes, é que nós como que a considerávamos uma companheira de redacção, espécie de directora com casa à parte e viver independente, – pois que se entrávamos no escritório (parece mesmo que estou a ver aquela barafunda de escritório!) e, assomando à janela, a não víamos na sua, dizíamos quase sem querer, mas invariavelmente:
– Mau! Falta hoje a Maricas! Diacho! mas onde iria a Maricas?
E passados instantes debandávamos todos, um agora, outro logo, à formiga, mal nos convencíamos de que ela passava a tarde fora, em casa da freira de Quebra-Costas – dessa lembram-se vocês... No entanto, deveis recordar-vos que ela, no dia seguinte... – coitada! – ...a primeira coisa que fazia era justificar a sua falta: «estive aqui, estive ali, fui a umas compras com a mamã», um pouco ruborizada e confusa, como se na realidade a sua obrigação fosse estar ali a aturar-nos. Por pouco ela nos não pedia de mãos postas que lhe perdoássemos, a boa da rapariga.
E nós então galhofeiros, brincalhões:
– Sem mais aquelas, D. Maricas! A congregação risca-lhe a falta, ora essa!...
E ela mais confusa, fazendo girar no dedo o seu anelzinho de cobra:
– Pois sim, mas é que às vezes...
– Às vezes quê?...
Não! ora adeus! Ninguém desconfiava que ela estivesse zangada connosco. Saíra, porque tinha de sair, essa é boa!
Pois não era verdade – perguntávamos-lhe – que ela adorava aquela troupe de boémios?
– São todos muito bons rapazes – dizia já a sorrir. – Todos me tratam muito bem...
E quando dizia isto, o seu rosto miudinho e muito pálido todo se iluminava de prazer e sorria de íntima gratidão. Mas porque simpatizava ela connosco, a pobre da Maricas?
Quando nos via em palestras intermináveis, nas libações do cognac e do café, ouvia-se lá da janela um – pschiu! – muito sibilado.
– Que manda a D. Maricas? É servida?
E ela, levantando os olhos da costura, com ares de formalizada:
– Mando que escrevam, que trabalhem! Já fizeram o jornal?
«O cuidado que lhe dava o jornal!»
– Ora faz favor de não falar em coisas tristes? Olhem agora que lembrança, o jornal!
Ela então, por única resposta, dizia-nos às vezes que na semana passada o tipógrafo viera queixar-se de que havia falta de originais, quantas vezes o garoto da imprensa viera pedir as provas emendadas...
E por falar em provas: – a Maricas sabia todos os sinais das emendas, todos.
– Olhe lá, Maricas, está aqui uma letra a mais nesta palavra.
– Risco por cima, risco à margem, e um d cortado; é fácil.
– Um m de pernas para o ar, e esta?
– Risca-se, e um três cortado, à margem. Está farto de o saber... Quando via algum sentado à mesa, a rabiscar, pedia sempre que lhe fosse mostrando as tiras, à medida que as escrevesse, talvez porque adivinhava que isso era um estímulo. A gente fazia-lhe então a vontade, e mal escrevia a derradeira letra pegava da tira e dizia-lhe para a janela, acenando-lhe com o papel:
– Maricas, cá está uma, vá contando. Veja: escrita de alto a baixo.
À terceira que se lhe mostrava, ela saía-se de lá com um – bravo! – e recomendava, solícita, cinco minutos de folga, enquanto se fumava um cigarro.
A Maricas era quem nos cortava as cintas para o jornal e quem nos fazia a goma nos dias de expedição. Que ricas cintas e que bela goma! Em paga, quando o jornal chegava da imprensa, quase sempre nos sábados à noite, o primeiro exemplar era para ela. Como a rua era estreita, atirava-se-lhe da janela.
– Maricas, aí vai ainda fresquinho!
– Está bem, obrigada. Vou ler, até amanhã.
Corríamos todos à janela, a dar as boas-noites à nossa amiga.
– Durma bem, ouviu?
E no dia seguinte, a Maricas repetia a cada autor frases e frases do artigo publicado, jurava que nos conheceria no estilo ainda que mudássemos de pseudónimo. De resto, sempre benévola: achava tudo muito bom – «escrito com muita graça e muito bem» – como ela dizia.
Nos serões que fazíamos e que por via de regra não passavam de um interminável cavaco, dizia-se mal das mulheres, discutiam-se escândalos, desvendavam-se segredos, tal e qual como em todas as redacções... Mas da Maricas ninguém tinha que dizer senão bem; era a privilegiada naquelas sessões de má língua. Quase sempre a conversa degenerava em algazarra – um que se lembrava de cantar, outro que ia pela guitarra e gemia fados com acompanhamento de violão. E era de ver o Santos Melo, de olhos cerrados e cabeça à banda, como cantava a sua quadra predilecta:
Sei cantigas misteriosas,
Cantigas de endoidecer,
Que os lírios dizem às rosas,
Que as rosas me vêm dizer.
Mas no meio desta inferneira havia sempre um que recomendava silêncio:
«Com mil demónios! não viam que a Maricas não podia pregar olho...»
Todavia... – ó suprema bondade! – ...ela nunca se queixava quando no dia seguinte nos vinha dizer até que horas durara a estroinice, o que se tinha tocado, o que se cantara, quem tinha rido mais, e, até, as vezes que as cadeiras tinham caído.
«Ora viam?! Não a tínhamos deixado dormir! A Maricas que desculpasse! palavra de honra! doravante...»
Ela então acudia logo, como a remediar uma grande desgraça:
– Não, não, eu até gosto. Entretém-me vê-los alegres, faz-me bem, ora essa...

*

Pois, meus amigos, a boa da Maricas – morreu! Vocês não sabiam? E morreu tísica, a desgraçada Maricas! Só depois que o soube, é que eu comecei a pensar naquela tossezinha muito seca em que às vezes a surpreendíamos, naquele branco pálido das suas faces, no bistre das suas olheiras, naquela magreza transparente das suas mãozitas de marfim...
Pobre Maricas!
Haverá três meses que ela me desapareceu da sua janela, onde continuei a vê-la depois que o jornal acabou. Eu sabia lá para onde ela tinha ido?!...
Mal diria eu que estavas no cemitério, tão longe e tão só! porventura na vala comum, sem umas folhas de rosa sobre a tua sepultura humilde – onde neste instante cai chuva e chuva! Ainda se as noites fossem todas de luar... Minha triste amiga! como eu agora relembro, cheio de mágoa, a tua frase de infinita bondade e de infinita resignação:
– ...«Entretém-me vê-los alegres, até me faz bem...»
Compreendo agora tudo – vivias da nossa alegria, já que a tua alma era triste... Mas porque foi que nos não disseste, pobrezinha, que nessa frase singela ia a revelação do pressentimento que tinhas da tua morte prematura?! Triste criança que nós não mais veremos!
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Olha, Maricas, escrevi quatro tiras. Já me não dizes – bravo! – ora não?...

*

... Bom Deus! bom Deus! Para que a terra produza diamantes, e dela rebentem flores, são talvez precisos estes corpos a vigorar-lhe as seivas!...


In , Trindade. Os meus amores: Contos e baladas