19/11/2007

Um roubo



Foi numa noite medonha, cheia de água e gelada, que o Faustino assaltou a Senhora da Saúde. Há tempos já que a ideia desse roubo o obcecava, mas a mulher e o demónio duma hesitação imbecil tinham-no afastado disso. Ainda bem que o destino acabara por dispor as coisas de maneira a que ele pudesse finalmente realizar o sonho. Punha-se a deitar contas à vida, às casas da povoação onde lhe fosse possível arranjar meia dúzia de vinténs para matar a fome naquela grande invernia, e nada, a não ser a Senhora da Saúde. Mas é que nada! Abaças era uma terra pobre. Dinheiro, do contado, só o Albertino. Infelizmente, ao Albertino, tudo menos mexer-lhe num gravelho. Forte e valente como um toiro, ainda por cima dormia de caçadeira encostada ao travesseiro. É claro que havia o recurso de alargar os olhos pelas aldeias vizinhas. Somente: além de o temporal tolher os passos ao mais honrado, como o ano ia de fome, todos viviam de olho aberto e de porta trancada. De resto, não se sentia já com forças para repetir a façanha de Freixoedo. Cinco costelas partidas são muitas costelas. Sem contar - e aqui é que a porca torcia o rabo - com o aviso solene do juiz:
- Dou-lhe apenas quatro meses, atendendo a que já foi bem convidado e que é esta a primeira vez que aqui me aparece. Mas não volte! De contrário, perca o amor à liberdade.
Ora, uma coisa é passar uns dias na cadeia de Alijó e outra ver-se um homem metido numa penitenciária a vida inteira.
Apertada por tal arrocho, a imaginação do Faustino sucumbia. Até que, ressuscitada por aquele buraco no estômago que nenhum aguaceiro enchia, começou de novo a namorar a Senhora da Saúde, rica e desamparada na serra.
Nem juiz, nem testemunhas, nem o delegado a berrar... Nada. Decididamente, o grande tiro era ali!
Naquela noite, depois dum caldo que nem a cães, e de todas as demais hipóteses arredadas, a miragem voltou, mas já sem a indecisão das tentações anteriores. Não havia que ver. O sítio não podia ser melhor; à porta, bastava-lhe um empurrão; o resto, quê? Acender uma vela das do altar, forçar a fechadura da caixa das esmolas, encher o bolso, e ala morena.
A mulher, sem migalha de pão na arca e sem pinga de azeite na almotolia, sabia bem que o remédio habitual daquelas penúrias era ir buscá-lo onde o houvesse. Mas quando o homem, a meia voz, começou a repisar a ideia, desaprovou mais uma vez o projecto sacrílego. A outro lado qualquer, estava de acordo. À Senhora da Saúde, não.
O Faustino nem a ouviu, ocupado como estava no labor de semear a boa semente na terra podre dos últimos escrúpulos. Debruçado sobre as pernas, com os dedos dos pés a espreitar das meias rotas, continuou a aquecer-se aos tições apagados, a chupar a pirisca do cigarro e a enumerar uma por uma as mil vantagens do negócio.
Coisa realmente fácil, sem nenhum perigo, e que trazia a solução do aperto em que estavam. Por ser capela?! Valha-nos Deus! O essencial é que na caixa houvesse algum... Ao menos cem mil reisinhos! Há?! Pois não teria sequer cem mil réis?!
Interpelava a companheira, que não colaborava já de nenhum modo naquela luta. Embrulhada no xaile puído, aninhara-se quase em cima do borralho e fechara os olhos. O Faustino teve de responder às suas próprias perguntas.
Cem mil reis, e a contar muito por baixo. Até era ofender a Santa, supô-la com menos capital na arca.
À medida que ia pondo na balança as justificações do seu desejo, o Faustino via oscilar o fiel da decisão e pender para o lado que lhe convinha o prato reluzente da fortuna. Não havia que ver. As coisas eram o que eram. A evidência metia-se pelos olhos dentro.
Por volta da meia noite as derradeiras amarras da consciência acabaram de ceder. Raios partissem as horas que gastara a pensar na morte da bezerra! Há certas alturas em que a gente, em vez de miolos, parece que tem aranhas no toutiço!
Ergueu-se. Do Faustino titubeante, quase a deixar fugir a sorte que tão generosamente lhe sorria, já não restavam sinais. Agora estava de pé um homem magro, baixo, de barba restolhuda e olhos de azougue, vivo, flexível, decidido como uma doninha.
A mulher nem dormia nem velava. Continuava engrunhada no seu canto, distante, como se o frio a tivesse entorpecido ou uma grande dor silenciosa e funda a roesse por dentro.
Ele também lhe não falou. Ladrão agora duplamente culpado diante da desaprovação dela, foi à loja buscar os precisos e desapareceu na escuridão do quinteiro, sombra muda a esgueirar-se na sombra.
O temporal bramia pela aldeia fora. Ouvia-se a nortada a pregar nos braços dos castanheiros e as bátegas a cair nas estrumeiras encharcadas. Um taró de repassar fragas.
Faustino, vencidos cautelosamente os cem metros da quelha em que morava, meteu-se à serra. Apesar de o vento galego o empurrar para trás, para o frio enxuto da casa, caminhava depressa. Uma vez que encontrara forças para tomar a única resolução acertada, era preciso não demorar.
Infelizmente, a Senhora da Saúde não ficava logo ali. Quase no termo de Valongueiras, distava de Abaças uma boa meia hora. Ainda por cima, caminhos maus. Ou lajes com relheiras que lembravam rugas em coiro de atanado, ou então saibro ensopado e atoladiço. Trilhos excomungados! Mas desembelinhava as canelas o melhor que podia, e meia hora, que afinal queria dizer meia légua, passa depressa. É questão de um homem ir deitando contas à vida enquanto as pernas passeiam.
Cem mil réis, na pior das hipóteses, estavam-lhe no papo. Só muito azar. Mas não.
A Senhora da Saúde governava-se... Nem havia outra tão agenciadeira nas redondezas...
Na carvalhada da Arcã os pensamentos mudaram-lhe de rumo. A tosca memória erguida pela morte do Joaquim Teodoro, assassinado naquele sítio, chamou-o a uma realidade mais dura. O Joaquim Teodoro, ao cabo, era ladrão .também. Não de caminhos nem de igrejas, é certo, mas de roleta, que dá mais e sem nenhum trabalho. Basta lume no olho e dedo. justamente o forte do Joaquim Teodoro... Que habilidade! Isso então na vermelhinha não havia segundo!
O mais pintado entregava-lhe ali o seu e o de quem calhasse. Artes do diabo! Mas o Videira, quando no dia da festa lhe passou para as mãos o último tostão, jurou-lhe que no ano que vinha não vigarizava ele mais ninguém. Dito e feito. E ali estava agora a alma do Joaquim Teodoro pintada a branco no granito, entre línguas de fogo, de mãos erguidas a pedir um padre-nosso!
E se ele, Faustino, tirasse o chapéu e atendesse a imploração ?
Um padre-nosso antes de roubar a Senhora da Saúde, tinha a sua graça!
Apesar de travado por estes pensamentos desconsolados, caminhava depressa. E, à medida que a carvalhada foi ficando para trás, a imagem do Joaquim Teodoro começou a desvanecer-se. Insensivelmente, todo ele ia aderindo à realidade erma e negra que o cercava. Também onde o raio da Santa viera fazer o pouso! Era mesmo desafiar um homem. O pior é se...
Mas não. A sorte dele havia de ser tão caipora, que encontrasse a caixa sem um vintém?
A esta íntima interrogação, os olhos responderam-lhe bruscamente que chegara. A dois palmos do nariz viam-se as paredes da ermida a reluzir.
Embora gatuno de profissão, pois que não se podia chamar cesteiro a quem só lá de tempos a tempos fazia um cesto por desfastio, Faustino, mal deu de chofre com a capela, teve um baque no coração. E parou. Nunca assaltara nenhum lugar sagrado. Sempre era roubar a Senhora da Saúde!
Mas a hesitação durou um minuto apenas. Molhado da cabeça aos pés, o próprio organismo é que o impeliu para a frente, para dentro de uma casa com telhado. Não havia tempo a perder de maneira nenhuma. Nem o corpo, nem o espírito lhe podiam consentir uma fraqueza em semelhante ocasião. Para diante é que era o caminho!
Num ímpeto, chegou-se à porta e meteu-lhe o ombro. Pois claro, como tinha previsto... Escancaradinha! Com a respiração suspensa e todo num formigueiro, entrou de rompante no poço de escuridão.
Dentro, o primeiro impulso do seu instinto foi fechar a porta de novo. Mas a razão, chamada a contas, discordou. Homem, pelo sim, pelo não, deixar o trânsito desimpedido!
Riscou um fósforo, de cabelos em pé. Até se desconhecia! Ninguém as calça que as não borre, bem se diz lá!...
Na luz incerta que se fez, pôs-se a olhar febrilmente para todos os lados e a ouvir ao mesmo tempo, de orelha fita, o silêncio pesado da capela. Felizmente, nada. Imóveis e espantados, os santos pareciam surpreendidos, mas não faziam um gesto para defender a moradia. Realmente, todos de pau! Que sossego! Chegava a parecer mentira que uma casa de Deus tivesse de noite um ar tão desgraçado. Nos palheiros, ao menos, havia ratos!
Deu alguns passos. Como o fósforo estava no fim e já lhe aquecia os dedos, riscou outro. Menos inseguro, subiu as escadas do altar de S, José, logo à entrada. E, quase serenamente, acendeu a vela dum castiçal.
A igreja clareou quanto a luz pôde. E, mais iluminada, tomou-se ainda mais simples, mais natural. As imagens já nem sequer o ar atónito de há pouco conservavam; e o resto, francamente, sem nenhum ar divino. Toalhas, bancos, jarras...
O trivial. Tanta mortificação inútil!
Voltou-se. A caixa das esmolas estava ao fundo, enterrada na parede que ligava o templo ao cabido. Era do lado de fora, pela fresta cavada na cantaria, que os devotos deixavam cair a boa massinha. Pinga que pinga... Uma mina!
Com passos de lã, chegou-se. Caramba, seria que não estivesse a abarrotar?! Pôs a luz no chão e meteu mãos à obra. Se calhar tinha que escaqueirar a tampa à martelada... Mas não é que a fechadura parecia de papelão e cedia ao cinzel sem resistência nenhuma?! Tudo às mil maravilhas... Um mês de tripa forra ninguém lho tirava.
Desgraçadamente, a caixa estava limpa. Ou fora roubada, ou a esvaziara o padre Bento na véspera ou então já não havia fé neste amaldiçoado mundo. Ah! mas ele, Faustino, não se deixava enganar assim. Não. Tivesse a Senhora da Saúde paciência. Lá pouco dele, isso vírgula! Vinha com boas intenções. Obrigavam-no, pronto: ia o que houvesse e passava tudo a patacos.
Pegou de repelão no castiçal e avançou indignado para o altar mor. Não acreditava que no sacrário a miséria fosse também assim.
Era. Os dois SS entrelaçados na portinhola queriam dizer apenas um buraco escuro, vazio, onde os seus dedos resolutos tactearam em vão.
Ladrões! Filhos duma grande... Nem ao menos o cálix! O que vale é que havia ainda a sacristia para revistar. E que não estivessem lá os apetrechos devidos! Ia a casa do abade, que lhe havia de pôr ali o que pertencia à santa...
O cálix, a cruz, o turíbulo, tudo. E a bagalhoça, claro. Pouca vergonha!
Investiu pela sacristia dentro. Queria ver quem levava a melhor.
Mas qual o quê! Estava mesmo roubado. Flores desbotadas de papel, tocos de círios, um crucifixo partido... Que cambada!
Desanimado, pegou na luz. Larápios! À medida que o desespero tomava conta dele, perdia o resto duma precaução que a prudência lhe aconselhara. Falava alto, rogava pragas, caminhava pela capela abaixo com a indignada razão de quem andava na sua própria casa a verificar os danos dum assalto de bandidos! Canalhas!
Até que chegou ao fim da nave. Olhou ainda os altares num relance. Os santos lá continuavam parados como há bocado e a olhá-lo agora a modos de caçoada. Sim senhor, uma linda figura de pedaço de asno que fizera diante deles!
Pôs o castiçal no chão, soprou à vela, puxou a porta e saiu.
O temporal redobrara de fúria. A atravessar o adro, com a desilusão a percorrer-lhe as veias, é que via bem como a escuridão era cerrada e como a chuva lhe trespassava o corpo. Porca de vida! Um homem a fazer por ela, a aguentar no lombo uma noitada daquelas, para ao cabo dar com o nariz no sedeiro!
Na carvalhada da Arcã já os ombros, de entanguidos, se lhe queriam meter pelo pescoço dentro. Filhadinho! A roupa ia-lhe tão colada ao corpo que parecia que era a pele. Cadela de sorte!
Na curva, lá estava outra vez a alma do Joaquim Teodoro a pedir o padre-nosso. Pata que lambesse o Joaquim Teodoro! Padre-nossos, padre-nossos, ia-se a ver e a caixa da Senhora da Saúde sem um vintém! Ah! mas o abade punha-lhe ali a massa e o resto com língua de palmo. Oh, se punha!
Às quatro da madrugada entrou em casa. Como um pitinho! A mulher lá estava ainda no mesmo sítio, calada, triste, longe da vida.
Não lhe falou. A escorrer água, gelado, foi direito à cama, despiu-se e meteu-se entre as mantas a bater os dentes. Pela manhã ardia em febre. E daí a seis dias, depois de um cáustico lhe abrir no peito urna bica de matéria e de o barbeiro de Parada o ter desenganado, foi preciso chamar o confessor, a ver se ao menos se lhe podia salvar a alma.
Veio então o padre Bento, manso, vermelho, tranquilizador. Mas o Faustino delirava. E mal o santo homem, de sobrepeliz, lhe entrou pelo quarto dentro, arregalou os olhos, inteiriçou-se no catre, apontou-o à mulher e aos circunstantes, e com a voz toldada da bronco-pneumonia, rouquejou:
- Ladrão! Prendam-no, que é ladrão!

Miguel Torga, Contos da Montanha