18/11/2007

O Caçador

Estava eu a costurar quando oiço aquele assobio. Era um assobio como ainda nunca tinha ouvido outro. Muito bem trinado, até dava gosto ouvir. Não é de pessoa daqui, penso eu de repente. Quem iria a passar? Não pude ir logo, logo ver; estava a acabar uns pon­tos. Mas de repente atiro com a costura para o lado. Quero cá saber! Não posso esperar mais, e chego à janela.

Pudera! Logo vi. Uma pessoa a assobiar daquela maneira nunca poderia ser daqui. Um caçador, mas vindo de onde? Vestia fato de bombazina castanha e trazia um chapéu de abas. Com dois cães ao lado, muito ladinos... De vez em quando falava com eles, ainda lhe ouvi algu­mas palavras.

Quem seria, e de onde viria ele? Passar assim pela nossa porta e não entrar... era estranho. De muito longe devia ser.

Onde ele já ia! E sempre a assobiar. Não se parecia com o Silvestre nem com os outros saloios. Tinha um aspecto muito diferente. Não seria rapaz do campo, natu­ralmente. Mas nem uma só vez olhou para trás, apre! Também esta janela fica tão escondida...

Eu gostaria de lhe ver a cara. E se ele me cumpri­mentasse? Tinha de o convidar para entrar, é como se faz. Podia estar cansado, podia mesmo ter sede... Havia de lhe dar água pelo meu copo de flores, aquele que tem uma silvinha doirada, que me deram de prenda de anos.

Os caçadores às vezes andam perdidos. Que pena ele não me ter visto à janela! A sua voz é que eu ouvi muito bem, uma voz forte mas alegre. Falava com amor aos cães, são sempre assim os bons caçadores. Se ele não é daqui, que não é! via-se perfeitamente, havia de saber conversar. Que pena!

Eu mandava-lhe abrir então a porta da sala e ele en­trava. Ia-me arranjar muito depressa e depois aparecia-lhe. Penteava-me, punha outro vestido, pó-de-arroz na cara... Oferecia-lhe de comer, e depois de ele comer convidava-o para o jardim. Também mandava tratar dos seus cães. No jardim havia de lhe apanhar algumas flores, porque não? Como estas tardes são uma beleza sentávamo-nos um bocado a conversar. E se o meu primo entretanto chegasse, mandava-o embora. As crianças in­comodam.

Mas, afinal, para onde iria ele? Ninguém lhe disse que nós aqui morávamos! E talvez o soubesse, mas como não viu ninguém à janela...

Esta mania de me porem à costura! Se não fosse por vergonha ainda o mandava chamar. Pois sim, mas com que pretexto? Que recado lhe haviam de ir levar? E tal­vez que o meu pai quando viesse não gostasse. Tenho pena. Estou tão farta de saloios! Aquele ao menos era um rapaz de longe e da minha criação. Via-se perfeitamente. Até aquela maneira de assobiar... era mesmo de quem sabia música.

Todo o meu mal é de estar sempre deste lado da casa, lá porque é mais fresco. Ninguém aqui me vê!

Mas nem uma só vez olhar para trás... pouca sorte... porque ele também ficaria contente. Entrava, descansava um pouco, conversávamos, sentia-se bem... e logo havia de ver que eu não sou nenhuma saloia. Agora? Adeus!

Mas talvez que ele volte. Há-de perguntar a alguém de quem é esta casa. E sabendo que é do meu pai, que toda a gente conhece, baterá à porta. É o que me parece. Há-de voltar. A minha vontade é de ir já pôr flores nas jarras. Não me apetece coser mais!

Andar assim por estes sítios um caçador e não entrar... até parece impossível. Passar e não entrar, vindo de tão longe...

Estou triste, estou aborrecida.


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma