12/11/2007

Luzia


Mesmo ao fundo da povoação, ficava, parece que já esquecida, a casita do António Valente. Pela porta dele não se fazia caminho para banda nenhuma. A aldeia acabava ali. Começava logo adiante, numa pequena chapada sem parapeito, esse terreno ladeiroso que ia dar ao rio, e da banda de lá do rio – tudo aquilo era já Espanha: largos e compridos vinhedos que pela Primavera entravam de revestir de verde todos aqueles montes e cabeços, – montes e cabeços que além, à borda do rio, estacavam, de repente, eriçando-se, imóveis, em fragaredos escalvados de meter medo.
Dir-se-ia, pois, com efeito, esquecida já para aquele deslado a casita do jornaleiro, mas ficava, como vêem, muito bem situada, porque de mais a mais era vizinha de uma pequena ermida – a ermidinha branca da Senhora das Graças – que devia, vista de lá, sorrir-se para os espanhóis, como sorria aos portugueses, especialmente ao António Valente quando aos domingos assomava à janelita, essa linda capelinha da Senhora chamada del Pilar, que alvejava naquele grande trono de verdura, além, debaixo do céu azul.
O António Valente era ainda novo, e tinha dois filhos muito bonitos e ambos muito louros: a Maria da Graça, a mais velhinha, que fizera sete anos, e então o Manuel, que tinha seis. Sete anos e nove meses tinha ele de casado com a Luzia, a mais linda, a mais alegre rapariga das que no Verão arranchavam nas vindimas. Namorara-o o seu lindo cabelo preto, o seu rosto de nazarena, aquele seu ar esbelto de choupo, os belos olhos da rapariga, que lhe lembravam duas amêndoas grandes no feitio, – e então certa covinha que fazia na sua linda face trigueira, quando se ria, aquele demonete...
– Ora aí está uma covinha em que eu gostava de enterrar beijos! – dissera-lhe uma vez, também a rir, esse mocetão do António Valente.
Ela respondera-lhe, fingindo uma grande surpresa:
– Gostavas?!...
– E esses dentes, ó Luzia! Queres-me tu dar uma dentada com esses dentinhos?
– Isso não, rapaz! Preto por preto, está em primeiro lugar o pão centeio!
– Ah, marota!
A esse tempo, a Luzia era órfã de pai e mãe, e não tinha irmãos. – «Sou como o sargacinho do monte!» dizia ela às vezes. – Pensava em se casar? Pensava. Mas não era «para se arrumar»; que muitas vezes dizia ela que «enquanto Deus lhe desse saúde, e força naqueles braços...» – «Esconde lá isso, rapariga! Ora para que hás-de tu estar a arregaçar os braços se mos não atas aqui ao pescoço!» dissera-lhe de outra vez o António Valente – ...que enquanto Deus lhe desse saúde e força naqueles braços, não era ela que caía nessa, – a não ser, já se vê, acrescentava fazendo a covinha, que lhe desse o demo na cabeça para gostar para aí de algum feiarrão...
Certa vez, o António Valente, que já andava aflito de lhe ouvir a conversa, volvera-lhe:
– Ouves, Luzia? Mas para te livrares desse perigo, aqui estou eu que sou bem guapo!
– Tu?! – perguntara ela muito estranha.
E o António redarguiu-lhe logo:
– Olha lá agora se me enjeitas, ó cachopa!
Estavam a cear, por sinal. Tinham andado à azeitona todo o santo dia, e estavam a cear, de ranchada, em casa do amo. Prosseguiu a conversa em grande galhofa enquanto durou o caldo, e enquanto, depois do caldo, comeram as batatas guisadas. Era na cozinha, a grande cozinha escura do lavrador, – com o lume a arder além, o armário acantoado acolá, ali a cantareira, além a boca do forno, a masseira logo ao pé, a banca daquela banda, onde a moça, mais a ama, despachavam as refeições, e em cima, pingando, as varas do fumeiro. A um lado, ao pé da porta que dava saída para o quintal, as azeitoneiras comiam, alumiadas por uma candeia.
Ao lume, escarranchado, estava o amo, a regalar-se de os ouvir, e de ouvir ferver a panela. E por que não esmorecesse a conversa, meteu de lá também a sua «foiçada», enquanto, enxotando o gato dorminhoco, ajeitava com as tenazes um tição:
– Quem há-de casar com a Luzia bem eu sei...
– Quem?! Quem?! Ó Sr. António, diga lá quem! – acudiram logo em coro as azeitoneiras.
Mas ele, desviando a conversa:
– Ó Ana! Ó mulher dos meus pecados! Não me tirarás de cima do lume esta amaldiçoada caldeira?!
– Mas quem, ó Sr. António?! Diga lá quem! – insistiram as outras.
– Isso agora... Ó Ana, olha que esta vianda já está farta de ferver. Tira para lá a caldeira!
– Então não diz, ó Sr. António?!
– Não! É segredo. – E voltando-se para trás: – Se não tiras a caldeira, tiro-a eu!
– Mas ora o que te aflige a caldeira! – disse zangada a Sr.ª Ana, pegando-lhe pela asa e levando-a, num rompante.
– Bem. Agora venha de lá o caldo, que eu também sou filho de Deus.
– Não! Não! Mas antes, há-de dizer quem é o derriço da Luzia! – impetravam de lá os outros todos. – Diga, ó Sr. António! A gente guardamos segredo!
– Isso guardam vocês, olha quem! Ó Ana, mas vem esse caldo ou não vem esse caldo?!
– Jesus! Santo nome de Jesus! – exclamava aflita a Sr.a Ana.
– ...Porque enfim, rapazes, há coisas que são segredo – desculpou-se o lavrador. E dando uma palmada – pá! – no lombo gordo do maltês, que vinha, lambareiro, fariscar a panelinha dos petiscos: – Só se a Luzia deixar...
A Luzia, que o percebera, acudiu de lá contendo a risa, – e, levantando no ar o garfo de ferro, suplicou:
– Não diga, ó Sr. António! Pelas suas alminhas não diga! Peço-lhe eu que não diga!
Foi um alvoroço na cozinha, todos a pedirem-lhe que dissesse! Mas a voz fina de Luzia trepava mais alto que as mais:
– Não diga, ó Sr. António! Sempre quero ver agora se é meu amigo!
– Já vocês vêem... – rematou o lavrador desculpando-se. Mas fingindo logo que se arrependera, emendou: – E tu que é que me dás se eu me calar?!
– Olhem o interesseiro! Eu só se lhe der este anel...
– Valeu! Mas ele de que é o anel?
– É de coralina, quer?
– Não! Só se me deres um beijo!
Foi uma risota.
– Ó Luzia, vai-lhe ali dar um beijo! – acudiu logo, chamando-lhe tolo, a Sr.ª Ana. – Ora o grande tolo!...
– Pois então, ó mulher de juízo, dá-me cá tu o caldo! Não se envergonha de ter aqui o seu homem a morrer de fome!
– ...De fome de beijos, ó Sr. António! – acudiu de lá a Luzia, a rir.
– Ah, grande magana! – disse o lavrador repreendendo-a. – Ora mas é mesmo p’r amor disso...
– Diga! Diga! – clamaram em coro as azeitoneiras.
– ...é mesmo p’r amor disso – continuou o lavrador, – que vou chimpar aqui com quem te tu casas!
E erguendo-se a meio corpo, já com o caldo em uma das mãos, na outra o carolo de pão centeio, começou, voltado para o rancho suspenso:
– A Luzia... – e pisou sem querer o rabo do cão, arredando-o com a ponta do pé. – Vai-te!
– A Luzia... – repetiram todos.
– ...Casa-se com o porqueiro!
Foi uma assuada! Trinta vozes clamaram ao mesmo tempo:
– Casas-te co’ o porqueiro! Casas-te co’ o porqueiro!
O porqueiro era um muito feio, gago e aleijadinho, que estava a comer a um canto do escano.
Perguntaram-lhe:
– Ele é verdade, ó Luís?!
– Quem tera! – acudiu muito contente, soprando a garfada fumegante, o pobre do Luís. E fungou uma risadinha...
– Gostavas, ó Luís? – perguntou-lhe de lá o António Valente.
– To... tava! – disse o gago.
– Tam’ém eu!
Fora então que a Luzia, já de pé para se ir embora, no meio de alguns que se despediam – «Boas-noites, Sr. António! Muito boas-noites, Sr.ª Ana!» – dissera outra vez a sua «história»: – que «enquanto Deus lhe desse saúde, e força naqueles braços...» – acabando por os seus receios de que viesse enfim a dar-lhe volta ao miolo algum feiarrão – «inda mais feiarrão do que o Luís!»
– Olha que já esta noite disseste isso, ó Luzia! – tornara-lhe a rir o António Valente, anediando com a manga o chapéu grosso.
– E tu que tens com isso? – perguntara-lhe ela fingindo-se zangada.
– Tenho! – acudiu o António. – É que se me não dava de casar contigo. – E abalou, acto contínuo, direito à escada. – Com bem passem a noite. Adeus, Luzia!
Não rira desta vez, a Luzia, nem tão-pouco lhe acudiu o remoque...
– Ouves? – chamou ela, sem saber o que ia dizer.
– Que é? – respondeu, já do fundo da escada, a voz do António Valente.
– Não é nada... Era cá uma coisa. Já não é nada.
Mas o lavrador, que percebera, voltou-se logo para a Sr.ª Ana, e disse-lhe assim, de velhaco:
– Sabes que mais, ó mulher? Olha se me vais arejando a roupa sécia, que há-de ser precisa pra um casamento...
Atirando o chaile para a cabeça, a Luzia botara a correr para a escada, sem dizer palavra.
– Então boas-noites, ó rapariga! Vê lá agora se cais...
– Ah, não caio... – respondera ela de certa maneira.
– Não é isso! Que não vás cair que me quebres a escada! – explicou o lavrador alçando a voz, e desfechando-lhe uma gargalhada!
Enfim, enfim, caso é que daí a menos de um ano, à missa do dia, o bom do senhor Reitor dizia assim ao lavabo, com uma grande chapada de sol a bater-lhe na casula branca:
– Na forma do Sagrado Concílio Tridentino...
Pausa.
– Ora mal sabem vocês quem se vai casar! – pareciam dizer no altar-mor, a rir, os lindos santinhos cheios de flores.
E o povo parecia perguntar, escutando:
– Quem será? Quem será?
...e pelo favor de Deus e da Santa Madre Igreja Católica, Apostólica, Romana, querem contrair o Santo Sacramento do Matrimónio que pretendem...
Eram, já se vê, os proclames do António Valente mais da Luzia. Disse-lhes os nomes dos pais, disse-lhes os nomes dos avós, o senhor Reitor: – «todos desta freguesia». Riam, os santinhos: – «Todos desta freguesia!» Sorriam-se cá baixo os do povo:
– Pois vão bem! Pois vão muito bem!
E o senhor Reitor, cheio de sol, fazendo ao alto do papel dos «banhos» um rasgãozinho, para se lembrar que era aquele o primeiro pregão, concluía, cheio de sol, na sagrada forma do estilo, mirando ao alto uma andorinha, que viera também à missa:
– Se alguém souber dalgum impedimento pelo qual os contraentes deixem de receber o Santo Sacramento do Matrimónio que pretendem, debaixo de pena de excomunhão maior o descubram, e debaixo da mesma pena maliciosamente o não embaracem.
Ora, ora! pelo contrário!... Impedimentos não os havia de casta nenhuma, e todos levavam muito em gosto, na freguesia, o casamento: – os santos, o povo, as árvores, as andorinhas... E do mais velho ao mais novo, estou em dizer que não houve ninguém que nos três domingos dos «parabéns» não provasse a rica «pinguinha», e ninguém, dos quarenta para baixo, que na boda não desse à perna – trup-trup! trup-trup! – nesse lindo dia de sol...


In COELHO, Trindade. Os meus amores: Contos e baladas