25/10/2007

Os Mastros Do Paralém


Só um mundo novo nós queremos: o que tenha tudo de novo e nada de mundo.


A chuva é carcereira, fechando a gente. Prisioneiros da chuva estavam Constante Bene e seus todos filhos, encerrados na cabana. Nunca tamanha água fora vista: a paisagem pingava há dezassete dias. Mal ensinada a nadar, a água magoava a terra. Sobre as telhas de zinco, se acotovelavam grossas gotas, grávidas de céu. Na encosta do monte, só as árvores teimavam, sem nunca se interromperem.
Sentado num canto da velha cabana, Constante Bene pesava o tamanho do tempo. Desde os princípios, era guarda na propriedade do colono, o xikaka Tavares. Morava entre laranjeiras, num lugar quase-quase fugido da terra. Ali, no cimo da montanha, o chão se comportava, direito e bom.
- Aqui só as laranjas é que tem sede.
Sede de pássaros, melhor diria Constante. Mas ele simplificava a vida. A seus dois filhos, Chiquinha e João Respectivo, ensinava os infinitos modos do sossego. Os meninos dele recebiam cuidados, muito órfãos que eram. Eles, sós, tratavam os assuntos da casa.
Chiquinha superava a idade, corpo adiantado. Já os peitos protestavam contra o aperto da blusa. O pai olhava com custo o seu crescer. Quanto mais ela se parecia mais a tristeza de Constante se afiava na lembrança da falecida.
O outro filho, João Respectivo, se mantinha pequeno, alheio ao tempo. Todos estranhavam seu nome. Respectivo? Mas aquele nome aconteceu-se, sem ordem da vontade. Levara o menino à vila para lhe dar registo. Na repartição se apresentou de intenção civilizada:
- Quero registar essa criança.
O funcionário, em vagarosa competência:
- Trouxe o respectivo?
- Não senhor. Só trouxe o meu filho. - É isso mesmo, o seu respectivo filho.
Pensou Constante Bene que outro nome estava a ser acrescentado à criança. E assim ficou de ser chamado o menino, nascido da morte de sua mãe. No curso do tempo, ele foi entrando no mundo guiado por uma só mão, na metade desigual de ser órfão.
O guarda olhava as cimeiras partes do mundo, os ombros da terra, imóveis como os séculos. No enquanto, ele pensava: o mundo é grande, mais completo que coisa cheia. O homem se credita muito enorme, quase tocando os céus. Mas onde ele chega é só por empréstimo de tamanho, sua altura se fazendo por dívida com a altitude.
Porque não se conformam as gentes, tais quais? Porque se afrontam na arrogância de sempre vencer? Constante Bene temia as sanções do mais querer. Por isso, ele proibia os filhos de espreitarem para lá da montanha.
- Nunca, sequer.
Estava o dito pelo interdito. Falava-se muita lenda da outra encosta do monte. Parece nessoutro lugar nunca os colonos haviam pisado. Quem sabe lá a terra restava com suas cores indígenas, seu perfume de outroras? Quem sabe aquelas paragens fossem propensas apenas à felicidade?
Esse lugar: Bene chamava-lhe o Paralém. Muitas vezes, no cansaço da noite, rondavam pela cabana seus secretos chamamentos. O guarda soltava seus sonhos, tais que ele nem a si mesmo confiava o relato.
Uma madrugada, ele se valentou, saindo rumo às escarpas. Subiu os penedios, chegou ao cume. Sentiu o remorso, ele se transgredia. Se desculpou:
Hoje é hoje.
Então, espreitou para a vertente proibida. Um cacimbo almofadava o luar, se espalhava como claridade que embrulha a nudez de uma mulher. A neblina era tanta que a terra devia dispensar a chuva. Deixou-se ficar ali, sentado. Até que um mocho lhe trouxe o aviso. Aquela beleza era como o fogo: longe não se via, perto queimava. E voltou à cabana.
Agora, no dezassétimo dia das chuvas, Bene sentia o suspiro da tarde. A luz estava já cansada de subir quando as folhagens espiaram o sinal. O cachimbo do velho ficou suspenso, vagou-se o instante.
Foi quando viram o mulato. Era um vindo do longe, da ultraterra. Caminhava embrulhado no rosto, todo em baixo da chuva. Trazia um saco sobreposto nas costas. Passou pela cabana, alheio à curiosidade dos três. João Respectivo foi ao caminho e espreitou. Confirmou o mulato escalando as alturas, desaparecendo entre as rochas mais subidas.
Que homem seria, de onde viera? Mesmo calados, os três se perguntavam. Mágoa de amor, adivinhava Chiquinha. Um caçador de leopardo, suspeitava João.
Esse homem não é pessoa de ser - sentenciou o pai.
Os meninos defenderam o intruso, alegando sua inocência. Precisavam de alguém que acontecesse, um susto naquele mundo tão sem febre. Mas Bene repetia:
- Aquele homem é um fugista. Se não fosse era um fugista, ele havia de parar aqui, receber os acolhimentos.
E avançou a ameaça: lhe competia saber a versão do aparecista. Afinal, era esse o seu serviço. Os filhos lhe pediram, aquele misto não podia merecer as imediatas suspeitas.
- Pois eu lhe ponho muita desconfiança. É um mulato. Vocês não conhecem as manias dessa gente.
- Mas esse homem passou, sequer não entrou na machamba.
O pai considerou: Joãozinho até que estava certo. O estranho parecia destinado a subir, lá onde os homens não escrevem pegadas.
- Tem razão, filho. Mas ele que não se chegue perto.
Depois das chuvas, os filhos saíram a procurar o estrangeiro. Espreitaram os lugares, entre as pedras do cume. Encontraram-lhe na última altura, na boca de uma gruta. Olharam como que fazia: o mulato já descobrira o sítio de morar. Parecia ter fome de habitar a terra, no meio daquele cheiro todo verde. Vivia perto do chão, rasteiro como os bichos. Só fogueira e manta compunham seu cansaço. João e Chiquinha espreitavam longe, sem coragem de se mostrarem.
Em casa, o pai repreendia aquelas espreitações:
- Não vão muito lá. Sempre eu vos aviso: o lume acende de ser soprado.
Mas no fundo, Constante gostava de saber as novidades. Inquiria sobre as coisas vistas. Os filhos devolviam palavras soltas, pedaços de um retrato rasgado. Depois, o pai insistia: que não fossem muito lá, talvez era um louco perigoso. Sobretudo, era um mulato. E se explanava: o misto não é sim, nem não. É um talvez. Branco, se lhe convém. Negro, se lhe interessa. E, depois, como esquecer a vergonha que eles trazem de sua mãe? Chiquinha intercedia: não seriam os todos. Haveria, por certo, os bons tanto como os maus.
- São vocês que não sabem. Não vão lá, acabou-se.
Por tempos, os filhos obedeceram. A menina, porém. Mais que às vezes, ela retomava a subida, fingindo ir à lenha. O velho pai, olhando as demoras, suspeitava de desobediência. Mas ficava calado, à espera do destino.
Uma noite, já o xipefo se consumia, Chiquinha foi surpreendida ao entrar. O pai:
- Estiveste onde?
- Fui lá, papá. Não posso mentir.
Constante Bene mastigou a ofensa, meditou o castigo. Mas essa filha já está do corpo da falecida, pensou. E amoleceu.
- Sabe Chiquinha: quem proíbe o mel é a própria abelha. Entende o que estou-te a dizer?
Ela acenou com a cabeça. Seguiu-se uma vagarosa espera. Bene soprou a chama, convidando o escuro. Invisíveis, os dois se fitavam melhor. O pai, então, perguntou:
- Alguma coisa ele falou?
- Sim, falou.
- Afinal? E esse misto disse o quê?
Chiquinha permaneceu como se nada tivesse ouvido. O pai aguardando na esquina da curiosidade. Mas um homem velho, por respeito devido, não pode demorar de ser respondido.
- Ouça, filha: não ouviste que te perguntei?
- É que nem me lembro o que esse homem falou. O pai calou-se. Deu um balanço na cadeira, ajudando-se a levantar. Fechava a janela quando, de novo, inquiriu:
- Chegaste de saber se existem outros lugares, lá no mundo?
Parece que existem.
O velho abanou os ombros, desacreditando. Deu uma volta na sala, tropeçando em barulhos. A filha quis saber por que razão ele não acendia a lamparina.
Para mim já chegou a noite.
Chiquinha ajeitou a capulana no arco dos ombros. Depois, sentou-se, só sendo. Adormeceram. Mas fizeram-no de alma descoberta, o que convida os maus sonhos.
Naquele pesadelo, o guarda se sentiu derradeiro. Assim ele viu: o mulato era um mussodja (Mussodja - soldado, guerrilheiro (termo formado da palavra inglesa soldier).
) e caminhava, por entre o pomar, com sua farda guerrilheira. Mas, de espanto: ele tocava as laranjas e elas se acendiam, em chamas redondas. O laranjal parecia era uma plantação de xipefos. Sobre o barulhar das folhagens, se escutavam cantos: Iripo, iripo Ngondo iripo (Iripo, iripo/Ngondo iripo - canção da luta de libertação nacional, anunciando a chegada dos guerrilheiros)
De repente, eis: o Tavares. Furioso, canhangulo (Canhangulo - espingarda antiga, de "carregar pela boca".)) nas mãos. Disparava contra onde? Contra o chão, contra as árvores, contra a montanha. O colono gritou-lhe:
- E você, Constante, é guarda de quê? Apanha essas laranjas, antes que arda tudo.
Constante hesitou. Mas o cano da espingarda, virado em seu peito, lhe fez obeditoso. Árvore ante árvore, ele foi colhendo ardências até seus dedos virarem uma dezena de chamas. O velho acordou aos berros. Queimavam-lhe as mãos. A filha encharcou-lhe os braços de generosa água. Aliviado, ele ocupou a cadeira, preparando-se para acender o cachimbo.
- Não, pai. Não mexe mais no fogo, deixa que eu acendo.
- Minha filha, agora te peço uma ordem: não sobe o monte, nunca mais.
Chiquinha prometeu, mas de falsa convicção. Porque, desde esse dia, ela prosseguiu as demoras. O pai nada comentava: sofria sozinho as dores do presságio.
Certa vez, em esperado imprevisto, Chiquinha se apresentou muito de pé, mãos cruzadas sobre o ventre. - Estou de grávida, pai.
Constante Bene sentiu a alma tombar nos pés. Chiquinha, ainda tão filha, como podia já ser mãe? Que justiça é essa, meu Santo Deus, como é uma menina-órfã pode ser mãe de criança sem o devido pai? Era urgente encontrar aquele progenitor sem aspecto.
- Foi ele?
- Juro, pai. Não foi esse.
- Então, quem é o dono da grávida? - Não posso dizer.
- Olha, filha: é melhor falar. Quem te subiu? - Pai, me deixa assim.
A menina sentou-se para melhor chorar. Constante pensou em bater, arrancar a verdade. Mas do corpo de Chiquinha se foi aumentando a lembrança da falecida mãe e seu braço deixou-se, vencido. O velho regressou ao quarto, acendeu o cachimbo e, pela janela, fumou a inteira paisagem.
Os meses foram passando com muita largura. A barriga de Chiquinha luava, de desenho cheio. Em Junho se deu o parto, assistido pelas velhas mulheres das redondezas. Constante não estava, na ocasião. Saíra em suas rondas pela machamba. Quando voltou à cabana, já as parteiras preparavam a refeição. Primeiro, ele sentiu o fumo do cheiro. Depois, o choro de um bebé. Sorriu, lembrando o ditado: onde vires o fumo, aí estão os homens; onde choram os bebés, aí estão as mulheres. Agora, se confunsionavam os ditos. Parou à entrada, de coração salteando. Um choro naquele lugar! Só podia ser! Queria saber de Chiquinha, lhe apetecia entrar correndo. Mas havia muito orgulho impedindo-lhe de ser avô.
- Esse bebé nasceu demais - confessou dentro da sua voz.
Entrou. Espreitou ruídos e sombras. Todas se calaram, tensas. Mais que as outras, se suspendeu Chiquinha com o embrulho da vida em seus braços.
O pai arrumou-se em seu canto, distante. João Respectivo foi quem estreou palavras:
- Pai, já viu que nasceu? Um menino tão muito gordo.
Os olhos de Chiquinha ansiavam resposta do pai. Ela fez um gesto quase arrependido de mostrar a criança mas corrigiu-se. As mulheres foram saindo. No lugar, agora se cabia pouco.
Passaram dias cheios de tempo sem que Constante se aceitasse avô. A menina muitas vezes se demorava perto do pai, susperando a benção. Surdinava canções de embalar, as mesmas que aprendera dele. Cantava mais para embalo do pai que da criança. Mas Constante Bene se esquivava, turvando-se aos olhares da filha.
Uma noite, quando todos já dormiam, uma luz tremente atravessou o quarto. Foi-se chegando à cama de Chiquinha e ali permaneceu, farolitando. Tocada pela claridade, Chica despertou e viu seu pai com o candeeiro na mão. Constante desculpou-se:
- Essa sua criança estava a chorar. Vim ver.
Chiquinha sorriu: mentira dele. Se o bebé tivesse chorado, ela teria ouvido, primeira que todos. João, mais tarde, confirmou: o velho vinha todas noites, através do escuro, espreitar o berço. Chica nem cabia em si. Abraçou seu pequeno filho em suavíssima felicidade.
No dia seguinte, manhã já elevada, o guarda matabichava. Mastigava sobras da noite, estalando a língua entre os dentes.
- Ouça lá, ó Chica: esse seu filho não é muitíssimo claro?
- Os bebés são assim, pai. Só depois ficam escuros. Não lembra o João?
- Isso é no princípio, antes de chegar a raça. Mas esse aí: já passaram tantos dias, é tempo de ficar da cor.
Chiquinha encolheu os ombros, não sabendo. Descascou uma batata-doce e soprou nos dedos, sobrequentes. O seu filho, agora, já era neto. Dali para a frente, não seria ela sozinha a segurar na vida do menino.
Assim se iniciou um novo sentimento na cabana. Mesmo o Bene parecia mais novo, cantarolando, trautecelão. Chiquinha premiava o pai com refeições mais demoradas de paladar. Joãozinho se entregava a infantarias, correndo os atalhos dos bichos.
Constante não o requeria, respeitando suas meninices. Antes ele brincava com o filho do patrão. Os miúdos, no arco dos risos, desconheciam a fronteira de suas raças. Bene se agradava, vendo assim Respectivinho recebendo cuidados de empréstimo.
- Ao menos, ele lá ganha comida.
Desde a chegada do mulato, contudo, o menino se desviara para mais altas paragens.
Certa vez, preocupado pela tardeza do filho, Bene saiu pelo monte, rumou as solidões por onde João se venturava. Junto ao poço, ele chamou pelo filho. Mas quem saiu dos arbustedos foi Laura, a mulher do lenhador. Ela, lata de água à cabeça, como não sentisse o peso. No embalo dos ombros, alguma aguinha tombava, molhando as costas, os braços, os seios.
- Constante, você é guarda, devia olhar a sua vida.
- E porquê, só por causa sou viúvo?
Bene pensava que Laura lhe queria desamarrar a viuvez. Olhou a mulher com muitos olhos, adivinhando-lhe o corpo debaixo da capulana. Tentou conversa doce. Mas ela desviou as falas:
- Não sabe todos dizem sobre da sua filha, maneira como ela apanhou grávida?
Ela repetiu-lhe as dicências: a menina fora vista, ninguém não sabe por quem, junto às alturas. E o incontável: um homem lhe forçara, cambalhotando nela. Constante roeu pragas, sua voz se esfriou:
- Esse homem era preto?
- Não, dizem não era.
- Já sei quem é esse satanhoca (Satanhoca - sacana, impostor.). Aliás, sempre eu já sabia.
Sem despedir, retomou o caminho de regresso. Não entrou em casa. De um caixote do quintal tirou uma catana. Passou-a pelos dedos, num pensamento de lâmina.
Depois, sem pressa, subiu a montanha. Nos cumes, procurou o mulato. Encontrou-lhe debruçado na fogueira, reparando uma avaria do fogo. Constante não escondeu intenção, arma pendurada, às vistas.
- Venho te matar.
O intruso não mostrou susto. Só os olhos, de bicho emboscado, procuraram saída. Sua garganta escassa:
- Foi o teu patrão que te mandou?
Constante desconheceu a pergunta. Por certo, o outro lhe queria distrair. Hesitou, vacilento. Vingador sem carreira, pedia ajuda ao ódio. Rezou para dentro: meu Deus, como eu nem sei matar! Só um instante, Te peço, dá-me a certeza nesta minha mão.
- Por que me odeias tanto?
De novo, o outro lhe desviava os intentos; o guarda indagou:
- Diz-me: vens de lá, do Paralém?
- De onde?
- De lá, do outro lado do monte? - Sim, venho.
- E lá se levantou já a nova bandeira?
O intruso sorriu, quase em condolentidão. Bandeira? Era isso que lhe interessava, saber de um pano, suas cores?
Respondes assim porque és mulato. E os mulatos não têm bandeira.
O outro riu, desdenhoso. Aquele riso, pensou Bene, era o sinal de Deus. A catana rebrilhou nos ares, zun-zun-zun, cravou-se no corpo do estranho. Gementio, ele caiu-lhe por cima. Agarrou-se, liana desesperada. Dançaram os dois, pisando a fogueira. Nem Bene sentia como seus pés nus se enchameavam. Mais um golpe e o intruso enroscou-se no chão, em estado de pangolím.
O guarda acocorou-se ao lado da vítima e, com as mãos, avaliou a sua morte. Sentiu o sangue engomar-lhe o gesto. Parecia os dedos, viscosos, lhe apontavam culpas. Sentou-se no chão, cansado. De onde vinha tantíssima fadiga? De matar? Não. Aquele fundo desalento lhe vinha dos pés, brasados na fogueira. Só agora lhes sentia, as chagas.
Tentou erguer-se: desconseguiu. Os passos mal podiam tocar o chão. Fixou as luzinhas, lá no vale. Aquela era uma inviável distância, um impossível regresso.
Arrastou-se até ao sacudu (Sacudu - mochila; o termo foi trazido pelos guerrilheiros da Frelimo que foram treinados na Argélia, a partir da palavra sac-au-dos.) do mulato. Tirou um cantil e bebeu. Depois, vazou a mochila: caíram papéis sob a luz da fogueira. Pegou em folhas soltas, vagarinho, decifrou as letras. Estavam escritos sonhos lindos, promessas de um tempo fortunado. Escola, hospital, casa: tudo, de abundância, para todos. Seu peito se apressava, amotinado. Voltou a sacudir a mochila. Tinha que estar, fosse amarrotada num canto, havia de constar.
Foi então que, como onda de prata, a bandeira tombou do saco. Parecia imensa, maior que universo. Bene se deslumbrava, nem ele se cria um dia chegar a tal visão.
Lembrou, entretanto, as penas daquele tempo: o mastro da administração. Ali sua lembrança se joelhava, o chamboco (Chamboco - matraca.) do cipaio, "passa sem fazer poeira, seu merdas, não suja a bandeira". E ele, de pés rasteiros, carregando seus filhos, sem levantar passo. O patrão, no passeio, simulava seguir outras atenções. Pode a pessoa assim tanto se desalmar?
Mas agora, aquela nova bandeira não parecia estar sujeita a nenhuma poeira, fosse feita da própria terra. As cores do pano lhe povoavam o sonho.
Acordou por mão de seu filho, o Respectivo. Olhou em volta, procurou o corpo do mulato. Nada, não havia corpo.
- Lhe enterraste, João?
- Não, pai. Ele fugiu.
- Fugiu? Não pode. Se eu lhe matei! - Só estava ferido, pai.
Duvideiro, o guarda sacudiu a cabeça. Ele garantira o devido falecimento do outro. Seria obra de xicuembo (Xicuembo - feitiço.)?
- Estava vivo, com certeza. Eu mesmo lhe ajudei a descer o monte.
Furioso, o guarda bateu no miúdo. Como é que podia? Ajudar um gajo que abusara dos respeitos de Chiquinha, dele, da família?
- Não foi ele, pai.
- Não foi? Então quem deu grávida a sua irmã?
- Foi o patrão, o mezungo.
Constante nem se deu licença de escutar. O mulato montara a cabeça daquelas crianças, se havia tornado sua única crença.
- Esse misto, fidaputa, é um Pide. Encontrei o saco de um mussodja, lá na gruta. Pensa são coisas dele, alguma vez? É um Pide, um Pide que abusou na sua irmã, roubou o sacudu de um guerrilheiro.
- Foi o patrão.
- Olha, João, não repete isso maistravez.
- Foi pai. Eu vi.
- Jura?
O menino se assegurava, em convictas lágrimas. Bene respirava aos quases. O tamanho daquela verdade não cabia em si. Doeram-lhe mais os pés, o sangue ensonado sobre as feridas. Já as moscas zunzuniam, desprestigiando o sagrado líquido. Com os dedos espremeu um torrão de areia. A terra se submetida, esfarinhada. Aquela obediência entre os dedos lhe foi trazendo, devagarmente, o respirar sereno dos decididos.
- Não chora mais, filho. Olha isso que eu tirei do saco.
E estendeu a bandeira. João pestanejava, em fraco entender. Uma bandeira, só dali o velho punha tanto alvoroço?
- Embrulha a bandeira com máximo cuidado, dentro do saco. Carrega o sacudu, vamos embora, ajuda o seu pai.
João lhe ofereceu os ombros. O velho se encavalitou no menino, à maneira da infância. Gracejou:
- Trocamos: eu sou filho, você o pai.
E riram-se, ambos. O velho, oblíquo, se admirava da força do menino: ele nem pausava para retocar o fôlego.
- Prontos, filho: o tudo já é muito. Desjunta seu corpo, quero descer-te.
Estavam perto da casa. Sentaram-se na sombra de uma grande mangueira.
João soltou-se às falas, anunciando futuros:
- Essa conversa é perigosa, meu filho.
Mas o Joãozinho se destemia, repetia ensinamentos do mulato. Aquela terra só convinha a seus filhos devidos, cansada de sangrar riqueza para os estrangeiros.
- O Tavares...
- Deixa lá o patrão quieto.
- O pai não pode ficar sempre no serviço de guardagem, guardar essa terra faz conta ela não foi-nos roubada pelos colonos.
O pai já subira às fúrias. O miúdo que se calasse, aquilo era só falar por boca de outros. O velho ordenou que mantivessem caminho. João fez menção de ajudar o pai mas este recusou:
- Não preciso. Caso senão ainda você aumenta mais suas espertezas.
Coxearam no trilho. Constante, agora, se apoiava num pau reclamando em desfile de resmungos. Ao menos, o pau não sofre de ideias nem vaidades. Leva-me, só mais nada. Ai, os homens... Prefiro as coisas, sempre não tenho zanga com elas.
No riacho, depois de um fresquinho, ele mudou o tom:
- Escuta João. Eu sempre penso esta dúvida: agora sou criado do colono. Depois será o quê?
- Depois será a liberdade, pai.
- Tolice, filho. Depois, seremos criados deles, desses mussodja. Tu não conhece a vida, meu filho. Essa gente de tiros, no fim da guerra, já não aguenta fazer mais outra coisa. A enxada deles é o espera-pouco (Espera-pouco - o mesmo que canhangulo; arma de carregar pela boca.).
O menino tinha os olhos curvados, negando as circunstâncias. Então, porque o pai esperava tanto a nova bandeira? Porquê aplicava em sonhar com o outro lado, o Paralém?
- É só um sonho que eu gosto.
Respectivo já não levantava argumento. Apenas sua adolescência se opunha que tão claro sol estivesse condenado ao sumário poente.
- Não se engana, filho: amanhã será o mesmo dia.
Se aproximaram da casa, notaram vozearias. Apuraram ouvido: era o colono que gritava dentro da cabana. Constante, esquecido do coxear, entrou. O patrão, embaraçado, perdeu as rédeas de si. Mas logo se refez, inchando os ombros, alargando a pele:
- Que é isso que tens nos pés? Tens as patas cheias de sangue.
O velho guarda não respondeu. Arrastou-se até enfrentar o patrão. Só então ele notou como era mais alto: ao xikaka lhe faltavam calcanhares. Acendeu, em vagares, o cachimbo. Tavares recebeu o fumo da afronta:
- Não queres dizer como fizeste isso? Pois eu te digo o que é: manha de preto. Mas fica sabendo que não levas nem um dia de dispensa. Hoje mesmo te quero a fazer ronda na propriedade.
Impassível, Bene, parecia nem ouvir. O patrão se chegou mais perto, em jeito de segredo. Andava por ali caça grossa, um turra. O administrador alertara os machambeiros sobre de um mulato, perigoso escapafúrdio.
Abre-me esses olhos, Bene. Fungula masso (Fungula masso - abre os olhos.)...
Não fala assim... patrão.
- Ora que esta?! E porquê não, me dirá Sua Excelência?
- Esse nem é seu dialecto.
Tavares riu-se, preferindo o desprezo. Concedeu as despedidas. Antes de fechar a porta, porém, se dirigiu a Chiquinha.
- Nós ficamo-nos assim, ouviste?
E foi-se. Nenhuma palavra coloriu aquele espaço. Constante consultava a janela, recebia os mudos recados da paisagem. Parecia que era o cachimbo que lhe fumava a ele. Ao cabo de muito silêncio, o guarda chamou o filho.
- Você sabe onde fica esse mulato. Vai lá dizer que eu estou a chamar, preciso ele venha aqui.
Mas é tão noite, arrepiou-se Chiquinha. Ele acarinhou o cabelo da menina, atendendo-lhe a aflição.
- Tu vai com João. Dão mensagem ao mulato, depois vão para o monte, me esperam lá nas pedras. - Vamos no Paralém?
Chiquinha se arregalava, excitada. O pai sorriu, complacente:
- Vai, acompanha seu irmão. E tapa o meu neto com esta manta. Me esperem lá, eu hei-de ir.
Os meninos se portaram com obediência. Aprontaram um cesto, provisórias provisões.
Tu, João: deixa ficar esse sacudu do misto.
Os dois filhos saíram, carreirando por capins. Evitavam os cacimbos que, reza a lenda, fazem minguar as pernas. Um mocho piou, incriminando o porvir. No escuro, o mundo perdia ângulos e arestas. Chiquinha seguia por mão de seu irmão. Respectivinho lhe pareceu, no instante, promovido à idade. Ele já havia cumprido o mando do pai, recadoando o mestiço.
Chegaram aos penedos, sentaram. Chiquinha apertava o bebé, em materna compustura. Ela falou:
- Vocês não gostam o Tavares, eu sei. Mas ele, em si, é de bom coração.
Respectivo não percebeu. Então, o xikaka lhe manchara, somando abusos. Que merecia esse branco senão os ferros da vingança?
- Cala-se, João. Você nem sabe como que aconteceu.
Chiquinha se levantou, recortando-se no luar. Aos olhos do irmão, ela surgia como nuvem em contra-lua. Chiquinha desceu a voz:
- Tavares nem merece castigo. Fui eu lhe provoquei.
O irmão não queria ouvir mais. Ela queria explicar, ele não deixava. A montanha se estremunhava na dupla berraria. A raiva de Chiquinha se sobreimpôs:
- Eu lhe queria dar um pai. Um alguém para tirar-nos desta miséria.
Foi quando ouviram as medonhas crepitâncias. Olharam o vale, parecia um fogo suspenso, chamas voantes que nem necessitavam de terra para acontecer. Só depois, eles entenderam: o completo pomar ardia.
Então, sobre o horizonte todo vermelho, os dois irmãos viram, no mastro da administração, se erguer uma bandeira. Flor da plantação de fogo, o pano fugia da sua própria imagem. Pensando ser do fumo, os meninos enxugaram os olhos. Mas a bandeira se confirmava, em prodígio de estrela, mostrando que o destino de um sol é nunca ser olhado.


Mia Couto, Cada Homem é uma Raça