18/10/2007

Os Ladrões das Almas


Os Cletos começaram a romaria dos lavradores abastados do lugar, na vida de jornaleiros, à mercê do tempo e das estações. Joana ia também ganhar a jorna, ela que estava habituada a entreter as horas na esteira de junça, cosendo ou fiando, e a pouco mais que cevar o bacorinho para a matança do Santo André. Trajava agora muito desprezível, saia de burel e lenço de chita, sem uma migalha daquela garridice que, nos descantes, levava os rapazes a oferecer-lhe primeiro a caneca, persuasiva e rendidamente:
- Escabece lá, tia Joana.
A Isabel Carmela, que desmoçava todos os pimpões da aldeia, dizia, batendo as palmas, "que o varrão da vila não quisera mais contrato com aquela porca".
Ordinariamente despegavam todos três ao sair dos gados, deixando em casa a Luísa, de doze anos, com os dois pequenos, um de seis e outro de quatro, muito bonitos e louros, duma pelagem que não tirava nem ao Cleto nem a Joana. Quando voltavam à noite, após as Trindades, era para se estirarem na enxerga, insensíveis e moídos como a terra dos caminhos.
Naquele Inverno, o padre Claro ocupou-os semanas inteiras, nas sachas a princípio, depois no desmonte dum morro em que porfiava experimentar bacelo. Para isso mandara rogar numerosa chusma, pondo-lhe à testa práticos, expressamente chamados do vale.
E, durante um mês, a orquestra bárbara de pás e alviões espantou os gaios que forrageavam nas carvalheiras. De garnacha pelos ombros, fumando o cigarro e peitorreando, o padre fiscalizava. À sombra duma árvore, Isaac lia Zola, suspendendo-se de tempos a tempos a observar os trabalhadores. Entre os homens, coberto de pó e de suor, ninguém distinguiria Norberto, o filho mais novo do padre, se não fossem as objurgatórias e os recados repetidos do pai, que ele partia a executar aborrecidamente porque já não esperava galardão. Duas vezes, de sol a sol, vinha Joana trazer-lhes o comer. Estendia a estopa sobre a relva e, acocorados em volta ou de joelhos, troncos moldados na camisa branca, a malta deglutia de ar truculento e voraz, sendo como era à custa da barba longa. Ninguém era tolo que metesse obreiros a comer, se não queria ficar esburgado até os ossos. Mas o padre tinha a peito dar vazão à muita feijoada que colhia nas terras de regadio, e acalentava a santa ilusão, poupando ao salário, que assim lhe saía mais barato. O que valia - comentava o filho - era deitar contas às despesas ao fim da empreitada, senão paravam ali as obras, para nunca mais.
Ao lado, num toalhete, servia Joana os mesmos pratos ao abade e ao filho, apenas para estes o pão era do alveiro e trazia-lhes o vinho, em vez de cabaça, numa pichorra de Molelos.
Como era muito desembaraçada, acocorava-se no chão, e, lenço descaído sobre os ombros, repartia-se entre as duas mesas; dum lado, a debulhar batatas, a manejar a gadanha, ou trinchante; do outro, de rainha Santa Isabel, a apaziguar as testilhas entre Isaac e o pai, suscitadas por dá cá aquela palha, inclusive as vezes que tinham bebido, que a senhora Doroteia, dona de casa muito económica e regulada, mandava sempre uma escassa medida de vinho. Nunca os dois levavam a termo a refeição sem que barulhassem; isto divertia os operários e obrigava Joana a proferir na sua rude sinceridade:
- É uma vergonha para pessoas educadas! Vejam lá se acabam!
Ao fim, os homens punham-se a pé de um pulo, e o Zé Cleto, mais desembaraçado, chegava-se ao padre:
- O senhor Reitor hoje não tem um cigarrinho para a gente?
A resmungar, porque resmungar era próprio da sua índole, entregava-lhe dois maços de kentucky que Isaac já havia maquiado.
Joana arrumava a loiça, depois de varrer as migalhas para o Moiro que, de olhos fitos e cauda a abanar, estivera desde o princípio a fazer namoro à pitança. Ajudada pelo padre, que lhe punha o cesto de duas asas à cabeça, enfiava no braço direito a cesta-brez, onde ia o panelão do caldo, e, dando as boas-tardes, despedia.
Lá adiante, a coberto do tronco dum castanheiro, Isaac chamava-a:
- Olhe aqui, que lhe quero uma coisa!
Suspendia-se; aproximava-se num requebro, meia dissimulada, a parlamentar:
- Então que quer? Diga!
O moço buscava-lhe a boca com a boca e cingia-a pela cinta. Abandonando-se, murmurava:
- Olhe que podem ver! Dianhos, uma mulher da minha idade!
Mas só trocavam beijos, não era propícia a hora. E prosseguia, lépida e mais frescal, para casa do senhor padre, onde a esperava a gralhada dos filhos com mira nos sobejos. A senhora D. Doroteia, ainda que velha e com muita lida, era mulher para pôr tudo direito numa volta de mão. Num ápice vasculhava caçoilas e tachos, arranjando um bazulaque com que atestava uma almofia em que os pequenos se atufavam até às orelhas.
E ambas, enquanto lavavam a loiça, se entretinham de Isaac, um homem doido pelo mulherio, sem emprego e sem lei, que, por aquele caminho, acabava com uns alforges às costas a pedir esmola.
- Veja prò que a gente os cria, senhora Joana!
E, arrastada na adulação, sabendo que o grande axe de Isaac era o femeaço, Joana dizia:
- Pra consumição e trabalhos, senhora D. Doroteia! Ai, ele há lá gado mais ruim que as mulheres!?...

*

Ao cabo de um mês, a barreira foi saibrada e plantada vinha. Os Cletos passaram, então, para casa do Andrade, onde havia lenhas a cortar e grandes cepos de carvalho a desfazer em cavacos. Porém, se o Cleto velho era bom trabalhador, amargando quanto custava, o filho despedia duas machadadas e punha-se boquiaberto a ver para onde as nuvens corriam.
Além disso, era fidalgo nos comeres depois que voltara do regimento. Vinha, porém, à sombra do pai porque parecia mal rogar um sem rogar outro, e porque o pai, só, se negava. Sem esta circunstância, era bisca que os patrões desejariam ver por um óculo. Além de o não estimarem por calaceiro, mormente se cheirasse moça ao lado, era rebelde, não deixando passar sem retruque a mais pequena observação. E iam-lhe impondo lazareto.
- Olha, meu rico - dizia-lhe D. Doroteia, que era franca e boa mulher - quem é pobre humilha-se.
- Mas eu não hei-de deixar que me comam o caldo na cabeça! - respondia ele, desesperado.
- Mas curva-te, homem, curva-te a quem é mais que tu!
Uma vez que a senhora Maria Andrade não serviu vinho à ceia, levantou grande celeuma:
- Tratam-nos como negros! Julgam que os pobres são de ferro!
E, diante de quem o quis ouvir, acrescentou, descarado:
- Tenho de ir ao vendeiro para me dar meio quartilho.
Isto foi uma ofensa para a senhora Mariquinhas, em casa de quem os trabalhadores eram tratados como bispos.
- Uma desfeita destas - exclamava em voz patética - só porque uma vez não apareceu a botelha na mesa!...
Os Cletos, todavia, continuaram ao serviço do Andrade, porque não havia como o velhote para arrancar raízes de carvalho, e os rapazes, sãos e de alma, desertavam para os Brasis. Mas a senhora Maria Andrade tinha declarado:
- Esta escândula, cem anos que eu viva, cá me fica!
E, cheia de ódio, ia à boca pequena denegrindo os Cletos, sobretudo o Zé, vicioso e execrado:
- Aquele lascarinho, quando não tiver o vintém para cigarros, rouba.
Uma noite, depois de cear, quando as lenhas estavam cortadas e empilhadas, à mão da cozinheira, o menino veio dizer à mãe que os Cletos tinham metido, cada um, o seu tropeço de broa no bolso, grande como burro.
Mal viraram costas, a senhora Maria Andrade correu ao açafate a verificar. E, ainda que encontrasse comido o mesmo pão de sempre, desatou em altos brados:
- Excomungados, levaram-me um pão de quarta. Oh! lobos os devorem!
Ao outro dia, os Cletos cearam, espreitados por muitos olhos. E, antes de dar graças, todos viram que, sorrateiramente, cada um alforjava na véstia a sua fatia de centeio. A senhora Mariquinhas pôde exclamar, triunfante:
- Ah! que há muito eu notava a diferença no açafate! O inocentinho não mentia. Gatunos!
O senhor Andrade, para quem a desafronta conjugal era questão de faca ao peito, despediu os Cletos dois dias antes de terminar a arrumação das lenhas. E a toda a gente a sua senhora foi dizendo:
- Vejam lá que manhas eles têm! Ainda hão-de acabar por sair à estrada.
Entre os jornaleiros não houve outra coisa em que falar. Até mesmo o latagão do Sem-Tempo, molangueiro e lorpa, abria as queixadas de jacaré:
- Abrenúncia, eu cá antes queria morrer à fome!
- Hão-de ir morrer nas Pedras Negras! Ele é um grandessíssimo cornudo e o filho um valdevinos que só está bem ao pé das marafonas.
Ergueu-se grande burburinho no povo. O Zé Cleto andou a rondar-lhes a casa, de focinho torvo. Joana veio-lhes à porta perguntar quanto devia pelas côdeas que seu homem e seu filho levaram para os meninos.
A senhora Maria Andrade, que lá tinha os seus podres e teve medo da língua dela, afiada como lanceta, desdisse-se, não teve pejo de meter os pés pelas mãos, gaguejando um rosário de lampanas. Mas em voz alta, assim que Joana voltou as costas, perante este mundo e o outro, para que fossem todos muito boas testemunhas, foi clamando que, se aparecesse morta ou ferida, do filho do Cleto se queixassem.

*

As malhadas eram para os Cletos o período das vacas gordas. Quando do cimo das medas gritavam pela primeira vez: "à eira!", já tinham os dias encarreirados por todo o tempo em que zurrassem os manguais. No lugar, havia poucos que dessem à palha como o Cleto, nem se topavam mangueiras direitas que ombreassem com o Zé. Como nisto ia alarde e valentia, o farsola revelava-se. Ele a bater o mangual e a laje reboava como o ruir dum convento. E era por ali abaixo uma trovoada, de escantilhão, pírtigo no ar, pírtigo em terra, impelidos pelo Zé, que fendia todo o carvalho cerquinho ao cabo de duas eiradas! Os pimpões das aldeias limítrofes apontavam-no a dedo:
- Aquilo é o pedaço dum malhador.
Nos eirados era o primeiro. A sua má fama era atirada para trás das costas e regateavam-no, porque não havia como ele para animar o malhio.
Ao fim da carreira estendiam-lhe a botelha em voz aduladora:
- Encabeça, Zé...
Os Cletos traziam atrás deles, pelas malhas, toda a familagem: a Joana, reles coanheira, e os pequenos, que, à sombra quente das medas, jogavam com bugalhos e maçãs-cucas. Este séquito fazia dizer aos senhores da malhada:
- Com uma novena destas, os pimpões não ficam baratos.
O Zé granjeava neste período com que pagar na taverna e comprar um terno de saragoça; o Cleto com que adquirir umas fornadinhas de pão e vestidos de cotim para as crianças. O Zé, além disso, ficava armado para a festa da Lapa, que batia quase sempre ao fim das malhadas. Aí, então, pagava vinho como um brasileiro acabado de chegar e, embebedando-se, envolvia-se em rixas de que sempre saía com a cabeça rachada. E era pelo estendal de bazófias e filistrias que os moços na terra lhe tinham respeito e as raparigas o viam com olhos de ternura.
No Verão levavam os Cletos esta vida airada de cigarra. Mas chegava o Inverno e sentiam-se fora de si, fora do meio, como belos animais que acompanham o sol em matéria de dar ao mundo a quota de préstimo com que os dotou a natureza. Em vez de pulsos esforçados tornavam-se precisas mãos pacientes e maneirinhas. Quando no cabanal do padre Claro se acabavam os troncos de árvore, o pai Cleto punha-se a tecer palhoças, pouco buscadas e mal vendidas.
À noitinha, ia armar "ferros" nos tourais de coelho e fios às lebres na linha das demarcações. Saíam por via de regra frustradas as suas canseiras, e lá continuava a tecer os polainos de junco, indolentemente, ao lado do filho, que tocava harmónio, ou dormia de papo para o ar, tendo passado a noite na vida marota. Diante de dois tições, Joana remendava, e as semanas e os dias decorriam assim tremendamente vazios, mais fastidiosos que a chuva miúda, ping-ping-pang, ao cair do telhado para as escaleiras.
Às vezes o Zé ia pirangar, com as moças, pelas quintãs, e Joana saía ao mato. O Cleto, vendo-se só, com o apetite sempre desperto, passava busca à salgadeira e bifava o que lhe caía debaíxo da unha, naco de toucinho, ou chouriço reservado para os dias santos. E despedia a imolá-lo na taverna com este ou aquele súcio dos povos vizinhos, a quem tivesse vendido um par de polainos.
Debalde esporteirava Joana contra a gula do homem:
- Um alma do diabo destes, que não tem onde cair morto, e lambisqueiro como um abade! É preciso fechar tudo a sete chaves, senão... olho vê, pé vai e mão pilha.
A carmear o junco, o Cleto desatava a berrar e jurava pela sorte dos filhos que não havia tocado na salgadeira.
- Assim Deus me salve se pus dedo molhado na ucha da grande filha da puta!

*

Um dia o pão e as batatas faltaram de todo em casa. Comer de grilo. Não havia quem fiasse, devendo já quinze alqueires ao padre Claro e vinte e cinco tostões ao filho, afora os pequenos empréstimos a tutilimúndi. Estava um Inverno rigoroso e os rebanhos não saíam ao pasto, ficando a roer nos estábulos o feto seco de Primavera, de mistura com coanhos de centeio, quem tinha para lhos deitar. Caía neve e, pelos cômoros, mal se avistavam uns arrepios de erva que as ovelhas paridas, molhadas pingando e balindo, iam espontear, de relance, sob a chibata do pegureiro. Vezes a fio, apresentou Joana à sua gente caldo de hortelã-pimenta com duas areias de sal. O Cleto acabou por praguejar e o Zé, com a ira, por partir a malga no chão. A mãe voltou-se para ele, em voz de sarcasmo e ao mesmo tempo de dor:
- Olha, se queres ser regalão vai ganhá-lo. Onde não há, el-rei o perde!
Amarelos como a cera melada, os meninos berravam por todos os foles que tinham fome.
- Este vai-se para as malvas - dizia José pelo ìrmãozinho louro, o mais novo.
As malvas eram o cemitério, entre pinhais, onde pujavam as mil plantas mesquinhas, sem nome, no solo engordado pelo mortulho.
Joana, perante tanta miséria, vestiu-se dos melhores farrapos e deitou-se a Longa debaixo de neve. Havia muito que lá não punha pés, desenganada da vila como a vila estava olvidada dela, pobre e sem graças.
Ao anoitecer, os pequenos saíram-lhe ao encontro, com o faro nas bolas-milhas, que sempre lhes trazia para regalo, compradas no padeiro; a mãe sacudiu o avental, a chorar:
- Não vos trago nada, meus filhos!
O Cleto jungiu os ombros:
- O Loba mandou-te à tabua...! Não era de esperar outra coisa de semelhante macacão...
De porta em porta, ai tio, ai tio, bateram à do mestre-escola, diabo de homem que não ia à missa nem se confessava. E, contra a expectativa, encontraram ali uns tostões. Nesse dia, comeram batatas com azeite e pão de rala. E, mais comunicativo que de costume, o Zé declarou que a porca da vida assim ia mal, que partia a assentar praça se não arranjasse passagem para o Brasil.
- Para o Brasil! - exclamou Joana. - E que vais lá fazer? Tu não te domas ao trabalho!
O filho, que estava em hora de ternura, melindrou-se e desabridamente retorquiu:
- Vá para um raio!
A mãe rompeu em grande berreiro. Mas, conciliador e patriarcal, o Cleto puxou do açafate, em que haviam sobejado migalhas, para o meio da família. E sobre ele, descoberto à bênção da casa toda, louvou ao Senhor:
- Infinitas graças e muitos louvores devemos dar a Deus por tão altos benefícios: padre-nosso...
- Hás-de ir parar a uma cadeia, cão! - resmoneava Joana. - Se alguém tem uma linguagem destas para os pais... Safado!
- Ao mártir S. Sebastião que nos livre da peste, da fome e da guerra: padre-nosso...
- ...bem diz a mulher do Andrade! Inda hás-de sair aos caminhos...
Mas o Cleto voltou-se para ela, num acento raro de comando. E, vendo-se obedecido, prosseguiu nas devoções:
- S. Pedro e S. Paulo que nos abram as portas do Céu, quando morrermos: padre-nosso…
Sem erguer as mãos nem bulir os lábios, o Zé pregara olhos irados na fogueira. O gato farejava o açafate, miando.
- Santo Avelino que nos livre dos maus repentes: padre-nosso...
- S. Martinho que nos livre das maleitas: padre-nosso...
- Este judeu, António, não reza! - pronunciou Joana, indicando o filho.
O pai fitou-os a ambos num ar de censura e continuou na via-sacra:
- S. João Baptista que guarde as nossas searas: padre-nosso...
Quase no fim da oração, o Zé apanhou o sentido da súplica ao Baptista; e a chasquear, de lábios torcidos, proferiu:
- Onde tem as searas, homem?
Mas o pai, sem fazer reparo, continuou:
- Senhora da Conceição que não nos deixe morrer sem convicção: ave-maria...
- Santa Iuzia que nos dê vista e claridade no curpo e na alma: ave-maria...
- Ergue as mãos, mulher! - ordenou Joana à filha, que de cansaço deixara cair as mãos. - Ergue bem!
- Senhora da Corredoira que corra nossas almas para o Céu: ave-maria...
Por muito tempo as preces desfilaram, sibiladas e cheias ora de fé ora de reconhecimento. Na fogueira a corcódea do carvalho estalava, alimentando uma lumalha magra, sem calor. Vencido, ainda que com indolência, o Zé Cleto alçou as mãos.
- Nossa Senhora que peça e rogue ao seu amado filho por nós: salve-rainha...
Depois, quando se suspendeu o sopro sussurrante dos lábios de Joana, o Cleto rematou, mais grave, com maior unção:
- Senhor, estas orações são pouco, ditas na Terra, recebei-as vós no Céu por muito! Senhor, que estas orações cheguem até os pés de vossa divina majestade! Senhor, que aqui nos juntastes, juntai-nos um dia no vosso santo reino. Amém Jesus!
Persignaram-se ruidosamente; Joana espalmou a mão sobre a fronte dos pequenitos, a traçar-lhe o sinal-da-cruz, e, bamboleando a cabeça, disse para José:
- Não rezaste palavrinha, mas os santos hão-de-te ajudar...
- É por isso que você nada na fortuna - replicou ele numa gargalhada. - Que lhe preste!
E, traçando a capucha, foi-se rentar as moças pelos serões!

*

Em casa dos Cletos a fome assentou arraiais. Para não falecerem à míngua, os velhos saltavam às hortas, ao acaso dos donos, colher ora um olho de couve, ora a molhada de nabiças temporãs. À boca pequena começou a soprar-se que percorriam os campos, altas horas, o Zé com um bacamarte carregado de cabeças de prego, o velho com uma saca onde abismava tudo, couves tronchas, galinhas e cabritos transviados.
Todo o sumiço de animais era agora lançado à conta dos Cletos, quando antes era atribuído ao teixugo e aos arraianos que compram ovos pelas portas e passam o contrabando, cordão para isca, o seu corte de bombazina, brownings de 9 c. fabricadas em Bilbau. A sua nomeada de ratoneiros foi crescendo até chegar a vila e termo.
- Estes almas de cão - confessou uma vez o filho do Cleto a Isaac - só porque lá os velhos apanham de quando em quando uma folha de couve pelas hortas, fazem de nós uns Zés do Telhado! Um dia derranco-me!
Isaac bateu-lhe no ombro, em tom de confidência:
- Tudo vai em saber roubar, Zé. E o saber roubar está alguma coisa no modo, mas muito na cifra.
Se puderes palmar uma herança de muitos contos, fazem-te comendador. Serás rico e respeitado. Se não puderes roubar assim à valentona, arma em santanário e pede para as almas. E vive-se. O diabo é pilhar um pão ou uma abóbora pelos campos. Parece mal e vai malhar-se com os ossos às cadeias celulares...
- Nunca furtei uma agulha. É lá minha mãe que tem fome.
- Fome não tem lei. Nesse caso é roubar tudo o que cair debaixo dos cinco mandamentos. É tirá-lo a todos, a mim, ao burguês, ao cura. Com fome, há o direito de dinamitar uma padaria para apanhar um pão.
- E a costa de África?
- Na costa de África come-se o rancho do Estado.
Mas os Cletos, formados no respeito da propriedade, só com muita lazeira se atreviam a ripar uns folharecos de caldo, ou uns porros, no campo alheio. Também, de Inverno, não havia outra coisa que forragear... E à míngua de tudo iam passando os dias. Sempre teimoso, o pai continuava a lançar as armadilhas nas veredas onde a lebre é vezeira e nas encruzilhadas da serra, onde, com a geada, os coelhos vêm despejar o fole. E era toda uma trabalheira, à noite e ao amanhecer, para caçar, de tempos a tempos, um laparoto, ainda bisonho, pouco estreado nos ardis do bicho homem.
A mãe por vezes, deixando escurecer os agravos que, nas contínuas quezílias, recebia do filho, rogava-lhe em voz de piedade:
- Oh! Zé, se tu fosses pedir uma tigela de farinha para as migas...?!
Com maus modos, o filho recusava-se; mas, vendo-a soluçar, seca como as palhas, acabava por dizer que ia buscar uma braçada de verças à primeira horta que calhasse. Ela opunha-se, e por Deus Nosso Senhor lhe suplicava que o não fizesse à hora do dia, que ia morrer a uma cadeia. O Zé largava de repelão e, metendo para os quintais, à luz do sol, com mão tão lesta como descarada, fazia um molho, que trazia debaixo do braço, pelo povo acima, à vista de quem queria ver.
Uma ocasião a tia Javarda surpreendeu-o na fazenda e foi chamar o filho. Este largou tudo para plantar-se no caminho do Cleto:
- Onde apanhou as couves, seu Zé?
- Algumas na tua horta. Tens alguma coisa a dizer?
- Quem lhe deu licença?
O Cleto cresceu para ele, de olhar torvo, no jeito de esfregar-lhe o molho na cara regougando:
- Sai-me da vista, que te racho os chavelhos!
O outro baixou a voz. Bastava pedir, que ele, louvores a Deus, tinha hortas para não recusar nunca duas folhas de caldo a um pobre.
O Cleto despediu-lhe numa última arruaça:
- Então olha, leva-me todos os dias uma abada de couves. Lá em casa não há para que erguer olhos…
- Ora a maroteira! - rosnava-se no povo. - Todas as hortas são deles. Têm bom corpo, trabalhem, vão para a Terra Quente servir um amo.
Descoroçoada com tanto murmurar, a namorada do Cleto voltou-se para outro.
Cheio de desespero, o Zé enroscou-se mais na sua preguiça, entre a fome, duas tocatas de harmónio, e a fogueira sempre acesa, que andavam bem sortidas as tapadas do monte. O resto do tempo passava-o com o filho do Reitor, que lhe nutria o vício do cigarro e, encobertamente, trazia tudo o que podia arrebanhar em casa, toucinho, feijões secos, mesmo roupa branca. Só dinheiro não trazia, porque andava arredio dele como da graça de Deus - chalaceava Isaac.
Numa tarde de lazeira, em que não havia migalha no açafate, nem gota na almotolia, o Zé comunicou ao pai o projecto que ruminava há tempos, olhos sobre as brasas a esmoer- -se em farelo branco. O pai Cleto respondeu em modos desabridos:
- Homem, que ideia estuporada! Tu queres a nossa desgraça.
À noite o filho voltou à carga, procurando deslumbrá-lo. O pai manifestou a mesma relutância, em voz alta, mais mole apenas:
- És tolo, rapaz; és tolo!
O filho exasperou-se na sua boa fé:
- Já lhe disse, é um rufo, e dentro há uns bons pares de mil réis. De noite, vá lá saber-se quem foi!
O velho ficou calado e ele afirmou que, cerca de dois anos antes, pelos seus próprios olhos, vira contar obra de doze mil réis. Só após longo silêncio o pai respondeu:
- Não; é um pecado muito grande.
- Vossemecê é maluco; o padre é quem a esvazia! Não é pecado para ele e era pecado para nós?!
A mãe, desconfiada, veio espreitar à porta e os dois calaram-se.

*

À noite os Cletos deixaram Joana acocorada ao borralho, os filhos à roda, entanguidos e friorentos, como uma galinha com os pintos. Envergaram as véstias e o Zé pegou na machadinha de mato. A mãe perante este aparato clamou:
- Vejam lá o que vão fazer! Hão-de-me dizer aonde vão...
- Aonde vamos? - repontou o filho. - Já você aí vem. Vamos buscar um molho de estacas aos pinhais. Oue mais quer saber?
Joana tinha medo do filho, que um dia lhe dera um safanão porque lhe batera com as tenazes. Foi para o velho que se virou:
- Andem lá, andem, ninguém as faz que as não pague!
Os dois escorregaram silenciosamente no escuro, muito sorrateiros, de capucha traçada sobre o queixo. Estava a molinhar e no céu baço uma ou outra estrela brilhava como brasa amortiçada em monte de cinzas. Ruas e caminhos estavam empapaçados de lama e treva.
Tupa que tupa, meteram afoitos contra a cacimba, esquivando-se às pessoas que voltavam do forno com tabuleiros de pão à cabeça. Depois, cortaram à direita do cemitério, por entre as desgrenhadas brenhas dos castanheiros a escorrer água. O vento bramia nos pinhais, e, muito raro, breves ladridos dos cães chegavam esvaídos no ar.
Leva que leva sem dizerem palavra, chegaram à ermida do Senhor da Agonia, que a piedade dos homens tinha erguido à memória daqueles que mão vingativa ali fizera morder o pó da terra. Ficava assolapada numa baixa, de sentinela a quatro caminhos, ásperos e tortuosos. E, suja do tempo e com o telhado a esboroar, alçava naquele ermo a imagem pavorosa dos assassinados, agonizando e rebolando-se na areia empoçada de seu sangue.
Já perto, os Cletos estacaram. Reboavam tamancos pela frente e, cautelosos e escoteiros, escamugiram-se para trás duma parede. Os passantes vinham falando em voz alta:
- Minha mulher manda todos os anos aqui rezar uma missa para que Deus nos leve em paz da alma e sem que se sinta a morte... Eu cá nunca passo que não deite a esmola.
Disse o Zé para o pai:
- Olha que traste! O Andrade...
Aperceberam-se do ruído de dez réis tilintando no fundo do mealheiro... do instante de imobilidade do Andrade e do jeito de marcha. Quando os passos se perderam no caminho, os Cletos foram direitos à frontaria da capela. O velho pôs a boca a uma lucarna e berrou para dentro:
- Óóóó!
- Para que ronca, homem?
- Podia lá estar aninhado algum pobre.
- Ora! Morcegos.
O Zé chegou-se à caixa das almas e experimentou abaná-la. Presa por dois gatos de ferro e couraçada de ferro, pedia esmola nos quatro caminhos, como a mão hirta e infatigável dum ermitão. O Cleto deu-lhe um murro sobre o tampo, sacudiu-a com toda a força e, mal sentindo chocalhar, declarou:
- Está chocha.
Então o Zé, à mão-tente, descarregou-lhe uma pancada de baixo para cima com o olho da machadinha. E as moedas cuspidas contra o tampo falaram, soltaram cascalhadas zombeteiras.
- Não está tão chocha como isso!
- Olha, eu cá digo-te que vamos embora. É um grande pecado; já muita gente tem ficado tolhida. Além de que não tem cara de ter grande coisa dentro.
- Se quer, vá-se, eu não preciso de vossemecê.
O Zé insinuou o gume da machada entre o ferro e a grossa tábua de carvalho. Mas os ganchos seguravam-na como garras de avarento. Inutilmente tacteou a lâmina todas as juntas, sorrateira, capciosa, feroz. O velho, a tremer como um vime, agarrou da machada; mas em seus dedos, trémulos com a enormidade do cometimento, o ferro fugia, escorregava, acendia centelhas nas cabeças grossas dos cravos. E o filho safou-lha de repelão:
- Largue! Largue!
Num relâmpago o Zé alçou a machada, descarregou-a, animada de todo o alento. Em dois golpes a caixa estava arrombada, estripada, as guarnições de ferro e a madeira fendidas como por uma cunha tremenda, que caísse do céu.
Transido e com a pressa do medo, o Cleto meteu a mão; o filho empurrou-o com uma cotovelada:
- Tire lá a pata!
- Olha que pode vir gente...
O Zé esbandulhou bem o cofre; depois, dizendo ao pai que aparasse no chapéu, varreu com a mão em rodo.
Um punhado de moedas tiniu, mas numa secura que os fez praguejar:
- Estamos roubados; não tem para mandar cantar um cego.
O Zé Cleto arrecadou o dinheiro e, apontando a caixa das almas com o ventre à mostra, exclamou:
- O melhor da mamata foi para o padre. Não há-de haver muito tempo que lhe pôs os cinco mandamentos... Gatuno!
O velho teve também um soluço de cólera, espoliado, defraudado em suas esperanças:
- Gatuno!

*

A senhora Mariquinhas arreou-se com o fato de domingo, para ir à vila ver julgar os Cletos. E, muito contente com a justiça da terra, a cavalo na égua parideira, de colcha branca na albarda, passou por entre as hortas. Nas ricas, o caldo apodrecia, e era sagrado nas pobres. Apenas as galinhas continuavam a sumir-se mailos cabritos, e no Verão aquelas melancias rúbidas, que matavam a sede a um arraial. E, não se distinguindo a mão misteriosa destes furtos, opinava ela que era alguém da quadrilha dos Cletos que sobrevivia para desassossego do povo.
Os Cletos, esses, estavam há muitos meses à sombra, com bilhete tirado para a costa de África. Ia ver a cara desses malditos, que lhe bifavam todas as noites um pão de quarta e traziam a gente em sobressalto, e o focinho da porca cilhada que tinha uma língua tão comprida que chegava para varrer o forno.
Lá pôde arranjar um lugar na audiência, pouco frequentada, de resto. E, regalada já de lhes contemplar as caras magras e tristes de fome e de vergonha, a sua alma palpitou, agradecida ao Senhor, quando em bela voz de celebrante, o juiz leu, após muitos e variados considerandos, a sentença seguinte:
"Em virtude da resposta dos senhores jurados aos quesitos compreendidos nos artigos 421.°, n.° 3 - 426.°, n.° 4 - 428.°, n.° 4, e 442.° do Código Penal (crimes de ofensas à religião do Estado, arrombamento com dano e escândalo público) em que se acha pronunciado o réu António Anacleto, casado, 63 anos de idade, natural da freguesia de Rio Pardo, desta comarca, condeno-o na pena de quatro anos de prisão maior celular ou na alternativa de seis anos de degredo em possessão de I.a classe. Não condeno o réu nos selos e custas dos autos por ser pobre, como provou."
A senhora Maria não conseguiu ouvir o final da sentença. Um choro convulso rompeu no banco dos réus, a que se seguiu na galeria o clamor do pequeno de doze anos e dos dois meninos, que berravam para chegar à mãe e porque viam chorar.
O senhor Juiz intimou silêncio e toda a sua beca negra e austera flutuou. O oficial veio enxotar as crianças, que uma serrana trouxera para darem os últimos beijos à mãezinha.
A senhora Maria Andrade ouviu pronunciar igual sentença contra o Zé Cleto. E foi de coração cerrado que ouviu invocar as atenuantes no libelo de Joana. Todavia, também era condenada em seis meses de prisão correccional por cúmplice e receptadora.
E enquanto, dentro da teia, Joana se desfazia em gritos, o velho Cleto se arrepelava e o Zé mostrava um ar idiota e insensível, expandia ela seu contentamento:
- Bem haja o senhor Juiz, bem haja! Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele.
Os meirinhos e os circunstantes desataram às gargalhadas daquele desatino, e ela abalou para a aldeia, a alma cheia de gáudio, tocando com nervosos calcanhares a égua mazorreira, para levar depressa a novidade.


In RIBEIRO, Aquilino. Jardim das Tormentas