21/10/2007

Os brincos da princesa

Esta princesa vivia na serra, era uma princesa serrana. Não vestia sedas nem púrpuras, que lá se não conhe­ciam. Mas como a flor da giesta, do tojo ou do cardo, ostentava uma beleza delicada e bravia. Isto só o entende quem conhece as coisas do mato.

A princesa, na sua qualidade real, é bem de ver que tinha damas e aias, mas todas elas serranas.

De manhã, mal despertavam punha logo toda a corte em reboliço. Queria que umas a vestissem, que as outras a penteassem e que outras a entretivessem. O seu favo­rito, que era um cachopito de palmo e meio, ranhoso e esperto, saltava-lhe logo como um rafeiro aos pés.

A princesa, depois de bem tratada e enfeitada, ia então para onde lhe apetecia: para os cerros atirar pedrinhas ao ar ou pêlos barrocais abaixo, ver as águias e os gaviões, e até armar aos pássaros, como a canalha. Ria muito sem ter bem de quê e batia as palmas. O seu favorito não raro a acompanhava. Apanhava-lhe bagas gostosas, seixinhos redondos, flores de cheiro e panasquinho doirado, tudo que lá havia de melhor e mais engraçado. E a princesa com isso delirava.

Mas veio um dia em que ela começou a entristecer. Tinha tido um sonho. Já ninguém mais a ouvia cantar nem dar gritos de alegria. E perdeu o sossego; queria à viva força que lhe explicassem o seu sonho.

Era assim:

Vinha pela serra fora uma figura branca que a arreba­tava, mas ela não sentia pena nem dor. Apertava-lhe a boca, fechava-lhe os olhos e levava-a. Para onde, e o que era?

As velhas da corte, sabidas em sonhos, fartavam-se de cogitar e só diziam ser coisa má.

Mas a princesa batia então o pé e exaltava-se. Qual coisa má! Era uma figura que a levava sem que ela sentisse pena nem dor, para muito longe, muito longe, muito longe...

As velhas ouviam-na pesarosas e entreolhavam-se Coitadinha! — diziam entre dentes, lá na sua linguagem de trapos, e batiam com o dedo na testa.

A princesa perdeu o comer e o dormir a olhar sem­pre para a Lua e para as estrelas de noite, e de dia para um ponto fixo da serra. E até criou mau génio: batia o pé por tudo e por nada. Achava mal feitas as coroas de flores que lhe davam para ela pôr nos cabelos, os seus cola­res de pouca vista e a roupa desajeitada. Queria mais luxo, requintes. Endoidecia as damas e as aias com as suas exigências. Coitadinha dela! — dizia o povo. Que demudada que está! E todos batiam com o dedo na testa, querendo-se explicar.

A princesa entrou a ter apetites de solidão. Fugia então para sítios escusos e longínquos. Mirava-se nas bochechas de água que via e punha-se para a sua própria imagem: não sou bonita, não sou? De outras vezes levantava os braços para o ar e gritava: quem me dera voar! E sem ter de quê chorava, chorava...

Estava ela um dia nisto quando lhe apareceu o favo­rito. Vinha alegre, aos saltos e com uma canastrinha na mão.

Que é que tu aí trazes? — pergunta-lhe a princesa.

Vede... e o gaiato ajoelha-se-lhe aos pés.

Olha, flores! De onde são? Ai, que lindas! aos pares! assim nunca eu vi!

A princesa despeja logo a canastrinha e farta-se de rir. Pega nas flores e leva-as à cara, ao peito, à cinta, abana--as e por fim dependura-as nas orelhas. Que linda estou, que linda hei-de estar! brada ela. Se agora me aparecesse o tal vulto branco... eu ria com ele. Nunca ninguém mais me havia de aqui ver! Como esta princesa ainda nunca se viu outra, diria ele, tão bonita e tão bem enfei­tada! E levava-me para muito longe, muito longe, muito longe...


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma