13/10/2007

O Pássaro e a Pedra




Era uma montanha à beira-mar, alta, tão alta que parecia tocar o céu, áspera, abrupta, medonha, com ravinas negras, cheias de rochas escalvadas onde não nascia uma árvore, nem uma flor, c onde não chegavam homens nem animais.
Todos os dias, fizesse sol ou tempestade, com vento ou chuva, um pássaro, tão negro como as ravinas, voava constantemente da terra para o mar e do mar para as rochas, onde parecia impossível qualquer ave procurar abrigo ou fazer ninho.
Talvez por isso ele era o único pássaro que vivia nessas paragens solitárias, pairando lá no alto. Cão alto que mal se via do chão, como se quisesse alcançar o infinito.
E olhando lá de cima tudo quanto abarcava o seu voo e o seu olhar agudo e penetrante sete léguas em redor, o pássaro dizia para com as suas penas:
- Sou senhor de tudo isto, deste reino imenso de pedra e água.
Ninguém me pode fazer sombra, atacar-me ou roubar os meus domínios. Por isso sou forte, e poderoso e único.
- E grasnava, grasnava, com uma voz rouca que parecia a gargalhada de um ser diabólico.
Havia na mesma montanha à beira-mar uma pedra tão negra como o pássaro que, arrancada às rochas abruptas, viera a rolar aos trambolhões por ali abaixo, e ficara em equilíbrio entre dois pedregulhos, em risco de cair à menor enxurrada ou sopro de vento.
E pelos dois buracos disformes que lhe serviam de olhos, a pedra observava o pássaro que todos os dias voava cada vez mais alto, descrevendo curvas cada vez maiores para aumentar os seus domínios.
Sem se poder desviar nem um palmo do sítio onde o acaso a pusera, a pedra invejava aquela coisa voadora, a vida voadora, que podia ir onde quisesse, sem dar satisfações a ninguém.
- Maldito sejas, pássaro do mar e das tempestades - gritava a pedra pelo buraco disforme que lhe servia de boca. - Ave de mau agoiro, que voas em redor como se fosses dona de tudo isto, enquanto eu não sou ninguém, e às vezes até chego a pensar que não existo. - E chorava baixinho: - Ai, quem me dera ter asas que me levassem daqui para fora a correr mundos que devem existir para além desta montanha e deste mar!
Quando passava perto dela, o pássaro orgulhoso ouvia às vezes estes queixumes, e, grasnando com a tal voz rouca, dizia-lhe:
- Não voa quem quer, minha rica! É um dom da natureza. E mesmo assim, não é nada fácil. É preciso fazer esforço. Tu, alguma vez te esforçaste por alguma coisa?
-Eu? Como é que eu posso? - lamentava-se a pedra. - Sem patas nem asas, nem coisa parecida, nem alguém que me ajude?
- Nunca tentaste fazer nada pêlos teus próprios meios, sempre à espera que te empurrem, aos trambolhões da sorte. Ainda por cima és pequena, feia, disforme...
- É dos encontrões que tenho levado - gemeu a pedra.
- Enquanto eu, com as minhas asas abertas, lá no alto, sou forte, belo, superior, e invulnerável.
- Não és tão invulnerável como julgas - tornou-lhe a pedra. - Também estás sujeito à tua sorte, e não sabes qual possa ela ser quando menos esperas. Eu própria, apesar de pequena, posso matar-te com uma pedrada.
- Tu? Grande atrevida! - grasnou o pássaro. - Não sabes, minha parva, que para uma pedrada não basta a pedra? É preciso haver quem a atire. E por estes sítios, desde que eu me lembro, nunca passou ninguém.
- E ria, ria, fazendo muita troça da pedra.
- Ah, que se eu um dia te puder ser boa - rosnou a pedra entre dentes -, conta com a minha pedrada.
E eram sempre conversas deste género, cheias de ódio, inveja, orgulho, ironias e ameaças, quando afinal um pássaro do mar ou uma pedra da montanha não valem grande coisa, porque existem na terra e no mar mil outras coisas mais importantes, e o tempo tudo destrói.
E o tempo que tudo destrói foi passando, até que um dia apareceu por ali um homem vindo não se sabe de onde nem porquê.
Viu o pássaro, num sítio onde não havia mais nenhum e quis caçá-lo. Mas como não levava qual¬quer arma, apanhou uma pedra - a tal pedra - e, segurando-a com força, esperou que o pássaro lhe ficasse ao alcance quando descesse para pousar nas rochas. Fez a pontaria e, zás!, assobiando ao vento e descrevendo uma curva no ar como se voasse, a pedra foi bater em cheio no coração do pássaro.
Berrou o pássaro com a dor, e a pedra riu desta vez, satisfeita porque chegara a hora da vingança.
- Então - gritou a pedra -, qual de nós dois é agora o mais forte?
A história podia acabar aqui. Mas não, porque o pássaro, embora ferido, continuou o seu voo alto, enquanto a pedra caiu na vertical sobre as rochas mais além, onde rolou um bocado, e ficou outra vez parada, não sabemos para quanto tempo mais. E depois de o homem se ir embora, o pássaro descreveu uma larga curva, e com os olhos agudos viu onde tinha caído a pedra. E descendo sobre ela numa fúria, segurou-a nas garras e, afastando-se outra vez para o largo, deixou-a cair no abismo, onde ela mergulhou, descendo devagar, devagar, durante muito tempo, até ao fundo do mar, que era dos mais fundos.
E a pedra lá ficou, desta vez para sempre, e agora nem sequer vê a luz do Sol, nem ouve o assobio do vento, nem a tempestade, e muito menos pássaros ou homens.
A história também podia acabar aqui.
Não acaba. O pássaro, ferido de morte, ainda voou o mais alto que pôde, numa despedida, soltando gritos de dor - desta vez não ria - até esgotar as forças e cair também, longe, lá longe, devagarinho até ao fundo do mar, onde ficou para sempre, e onde não se vê o céu, nem as montanhas, nem as pedras, e onde muito menos pode voar.
Agora sim, acabou a história. É uma história triste. Se o pássaro e a pedra quisessem, não poderia ter sido tudo de outra maneira?


Ricardo Alberty, Fábulas que Ninguém me Contou