16/10/2007

Mãe!



Ao Dr. J. C. da Mota Prego


Bela cabra, a Ruça! – posso dizê-lo aos senhores. A melhor da manada, luzida e de pêlo macio, sem saliências de ossos como as outras, altiva de porte quando à frente do rebanho parecia comandá-lo, badalando cadencialmente o seu chocalho enorme – tlão! tlão! Era no rebanho a que mais dava que fazer ao pastor, requerendo vigilâncias particulares no seu atrevimento, pois que se a deixassem livre não havia árvore a que não trepasse, oliveira especialmente, nem rebento novo que não triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora.
E depois, ali onde a viam, estava cara só pelas coimas, que muitas vezes iludira ela a atenção do pastor, e se ficara por hortas e quintalórios, causando estragos que os louvados depois avaliavam caro. Por isso Alípio José, pastor a quem doíam as denúncias, ao pescoço da Ruça prendera o chocalhão, para dar do atrevido ani¬mal mais fácil rumor, pois era de timbre muito distinto dos demais, e muito mais grave.
Em pastagem pelos montados, a Ruça era de uma audácia extrema. Fazia gosto vê-la trepar às últimas cumiadas, subir destemidamente às arestas superiores dos rochedos, muito serena, erecta nas suas pernas delgadas, pescoço alto, ajoelhando destemida a retouçar as ervas dos declives alcantilados e escorregadios, não medindo perigos nem se importando com abismos, enquanto as companheiras se ficavam pelas encostas e córregos, saboreando as giestas, sem se atreverem a segui-la nas suas excursões arriscadas de touriste.
Se a miravam de baixo, sentia-se orgulhosa de superiores
audácias, e então cabriolava em saltos funambulescos, de rochedo em rochedo ou de garganta em garganta, pouco se lhe dando de perigos. Cobra que encontrasse por essas paragens era para ela um desespero – tamanha a fúria com que a perseguia, e a insistência com que se ficava às marradas na lura onde se lhe acoitava. O chocalho então badalava com força, e o Alípio, que dormia à sombra das azinheiras, de chapéu sobre a cara, levantava-se sobre um cotovelo e intimava para o alto, com o seu vozeirão que fazia eco: – Toma tento, Ruça!
E depois, de ventre para baixo, estirado sobre a manta, cotovelos fincados no chão, os queixos entre as mãos espalmadas, Alípio José ficava-se a olhar a cabra, invejoso daquela facilidade em subir aos últimos pináculos, admirado dos saltos que ela fazia para salvar gargantas pedregosas e perpendiculares, onde, se caísse, a morte seria infalível. E por lá andava dias inteiros a Ruça, naquela vagabundagem por sítios inacessíveis ao resto do rebanho, resguardando-se da chuva em recôncavos de rocha, onde as águias faziam ninho.

*

Foi num desses sítios que a Ruça teve o primeiro filho, por lá se deixou ficar, acho que dormindo ou toda a noite velando. Ao outro dia quis ela descer, e vir para o rebanho que a aguardava. Mais de cem vezes, fitando o topo da ladeira, Alípio José gritara cá de baixo, cada vez mais desesperado:
– Volta ao rebanho, Ruça!
E cuidando que mais lhe feria assim a atenção, punha-se a agitar com fúria o molho dos cho-calhos, gritando sem cessar:
– Ruça! Torna ao rebanho, Ruça!
Mas impossível! que a não deixava a quebreira em que toda ela ficara do parto, nem o pequeno poderia – pobrezinho! – descer por tais ladeiras, de pedregosas e ásperas que eram.
Mas de noite o frio era intenso naquelas alturas, e o filho congelava unindo-se à mãe que o bafejava para o aquecer, e a si o aconchegava mais e mais para lhe transmitir o natural calor do seu corpo enfraquecido e doente.
Por altas horas da noite, na solidão lúgubre daquele sitio, alcantilado e íngreme, entre penedias escarpadas onde o vento sibilava lugubremente, num como choro dolente e prolongado, o balido da mãe, traduzindo angústias e desesperos íntimos, respondia ao vagido fraco do filhinho, cuja vida parecia ir-se apagando de hora a hora e instante a instante, inteiriçando-se-lhe, com o frio, os membros delicados e tenros.
Eram assim as noitadas dos desgraçados. Por tais frios e doenças, impossível dormir. Toda a noite velavam e gemiam, achegando-se mais e mais num como abraço de eterna despedida – amigos que se iam apartar para uma longa viagem de trevas, com o coração alanceado pela saudade, soluçando e gemendo, num adeus! que era infinito, como o infinito amor que os unia...
E a cada momento, como um dobre de finados, o chocalho badalava lugubremente, assustando o animalzinho, como se aquele fora o sinal para o transe derradeiro...
Para maior desgraça, as noites eram sem lua. Encravadas na abóbada, as estrelas bocejavam dormentes, numa criminosa indiferença por aquela dor suprema de que eram as únicas tes-temunhas.
E balando muito, e balando sempre, a pobre cabra imprecava ao céu a vida do filho ao menos, – ora súplice em balidos de resignação que uma profundíssima dor ungia, ora desvairada e louca, em gritos que significavam blasfémias – blasfémias de desespero contra o céu que a não ouvia, e contra a morte que bem sentia aproximar-se para lhe estrangular o filhinho que ela amava tanto.
E a fazer-lhe mais viva a sua enorme dor – a ironia acerba da chocalhada longínqua das com-panheiras, que se iam pelos montes da outra banda, deixando-a a ela só com o filho, à espera da morte que era inevitável.
Então ergueu-se por instantes! Agitou convulsamente o pescoço, e pelo ar fora o som triste do chocalho espraiou-se lentamente, num – adeus! adeus! – de despedida às companheiras felizes que lá iam, num ruído longínquo de chocalhos...

*

Naquela solidão os dias eram melhores. Com os primeiros raios do sol entravam de reanimar-se os dois; pouco a pouco os membros desentorpeciam e o sangue circulava.
E o animalzinho sem poder ainda descer!...
De pé, ao lado do filho, a pobre cabra lançava olhos compungidos para as escarpas da ladei-ra, ia para um lado e outro, desvairada e trémula, como que a escolher o melhor caminho por onde levasse o filho. Mas eram todas horríveis! Silvedos e rocha viva era o que mais se via. E depois o rio, lá baixo, rugia nas cachoeiras, aumentando-lhe o receio.
Impossível! Impossível!
E sentia-se enfraquecer à míngua de sustento, pois a erva, por ali, estava comida e recomida pela pastagem miserável de três dias.
Num momento de desespero, quando os gemidos do filho eram mais dolentes e crebros, refez-se de coragem a cabra, e, segurando entre os dentes o filho, tentou o primeiro passo, arrastando-o pela ladeira, do lado em que o declive era menor. Mas em breve desanimou a pobre, que o filhito, assim arrastado, mais e mais gemia, convulsionado e trémulo...
Impossível! Impossível!
Nada que signifique a dor daquela mãe, e traduzir possa em linguagem toda a gama de senti-mentos e emoções no seu balar expressos. Atirou-se de joelhos sobre o corpinho do filho que hirto chorava e tremia, estendido para ali, na prostração pesada do último desalento; animava-o com carícias, aproximava-lhe da boca os úberes já flácidos e amolentados, convidando-o a mamar, como se aquele leite pudesse levar ao filho a coragem que a ela própria faltava em tamanho transe aflitivo...
Mas pouco a pouco a noite ia caindo. Tinha-se já apagado a última cambiante do poente e sobre as gargantas dos montes passavam subtilmente as primeiras névoas, alvadias e ténues. À medida que a treva se condensava, decresciam os ruídos em todo o horizonte, acentuando-se cada vez mais a melopeia sonolenta do rio nos açudes.
Perpassavam pelo ar as aves para os ninhos. Bandos de pombas, como flocos voláteis de arminho, cortavam em voos mansos a profundidade calma do céu, demandando os pombais e os povoados, onde se acolhessem da noite que vinha caindo. Revoadas de perdizes e de tordos passavam por ali alegremente, num chilrear sonoro, caindo de chofre sobre o monte, a esconderem-se nos estevais e nas urzes. Pelas ervagens secas rastejavam apressados os répteis, e sob os tojais bravios a lebre buscava a cama...
…E tudo tinha ninho – pombas que voavam e perdizada sonora, quem passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sardões, cobras, toda a colónia vagabunda de répteis e de aves, que passou alegremente o seu dia, e se ia recolher agora para recomeçar dia amanhã...
Só a desgraçada cabra, ali, junto do filho tenro, não mais fizera passo. Com as brumas da noite, as brumas da tristeza para o seu coração alanceado de mãe. Aí vinha o frio inclemente fla-gelar-lhe o filho... – o filho que já tremia a ela aconchegado – o triste pobrezinho!
Rompia de toda a banda o gri-gri sonoro dos grilos, vivo e cantante naquele silêncio que se definia. Cerrou de todo a noite. O céu era baixo e torvo de nuvens. Estrelejava a espaços a abóbada, irradiando uma luz mortiça e alvadia, que levava a pensar em últimos transes de crianças, em que a vida gradualmente se extinguisse, num latejar vagaroso de pálpebras sonolentas...
Mais álgida fazia a noite, e mais pesada de melancolias, essa torva aparência da atmosfera e do céu. Noite pior do que as outras, porém com menos balidos, pois que mãe e filho estavam extenuados de forças e nem gemer podiam. E a morte que não vinha arrancá-los do abraço em que se uniram, mal cerrara a noite!
A pequena distância, o monte era cortado de profundíssima garganta em rocha viva. Do lado oposto, e quase defronte dos moribundos, acenderam-se na treva dois pontos fosforescentes, de uma claridade esverdeada e rútila. E, imóveis, esses dois olhos estoirados de lobo, a que parecia terem arrancado as pálpebras, projectavam a sua luz sinistra na direcção do grupo que velava. A natureza inteira retraía-se num como pavor medonho, concentrado de íntimos terrores e silêncios lôbregos de horas altas. Cerrava-se mais no céu a falange muda das nuvens, densificando-se em tintas negras, impenetráveis e caliginosas, sem cintilas de estrelas, por fugidias e ténues que fossem...
E sempre, e constantemente imóveis na escuridão pesada, aqueles dois olhos flamejavam, de instante a instante mais vivazes, perscrutando a treva na direcção mais exacta do grupo. Tran-sida de susto, arquejando convulsamente no último paroxismo da sua enorme dor, a pobre mãe não ousava arriscar um único movimento, e mais e mais cerrava contra si o corpo inanimado do filhito que parecia adormecido.
Assim durante horas que aquele atrocíssimo suplício fez enormes, quase eternas, tumultuosas de acerbos sofrimentos e de indizíveis angústias, vazias de esperança na vida do seu pequeni-no filho.
De repente, aqueles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de novo os viu brilhar a cabra, mas já a maior distância. Estremeceu a pobre de súbita alegria, – e no abalo que sofreu o seu corpo, até então retraído, o chocalho badalou. Voltou a correr o lobo, e então a desgraçada viu errarem na treva, como dois grandes coleópteros de asas fosforescentes, os olhos até então imóveis do inimigo. E por ali levou a noite toda, farejando e uivando, até que, cansado de perscrutar o insondável, se foi ladeira abaixo, aos primeiros assomos da madrugada que vinha, docemente, alumiando píncaros e arestas.

*

Ao romper d’alva o céu era azul. Apenas de longe em longe penachos de nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se esfarpavam lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia desmaiando, diluindo-se na luz esbranquiçada que vinha do alto em gradações imperceptíveis e suaves.
Começavam de animar-se os longes da paisagem, e a retina acusava já as diferenças mais salientes dos campos e herdades, pedaços esbranquiçados de restolhos, tons pardos de olivais, terras plantadas de vinhedo, e pinheirais cerrados galgando desfiladeiros e investindo com o céu nos altos dos montados.
Pelas ladeiras de além, caminhos e atalhos corriam em torcicolos até ao areal da margem. Em turbilhões de espuma alvíssima precipitava-se a água nos açudes marulhando nos altos penedos marginais, denegridos e informes, de uma mudez contemplativa e perpétua. Do tecto do moinho, lá em baixo, uma coluna azulada de fumo elevava-se tranquilamente no ar sereno e doce, até se desfazer no espaço amplo e benigno, como uma ambição ou como um sonho...

*

Foi então que Alípio José, à frente do rebanho, de novo abordou àquelas paragens, no intuito de procurar a cabra tresmalhada.
– Ruça! Torna ao rebanho, Ruça!
Mas precisamente a essa hora, a Ruça exalava o último alento, pendida sobre o cadáver do pobre filhinho morto!...
E ao pino do meio-dia, quando o sol faiscava causticando nos rochedos – passava na direcção da montanha, crocitando lugubremente, a esfaimada legião dos amaldiçoados corvos...



In COELHO, Trindade. Os meus amores: Contos e baladas