04/10/2007

A Ladainha



Mal o pessegueiro da horta do Manuel Rosa se cobriu de flores e a sineta da capela se derreteu a chamar, jurjais despegou dos campos e foi responder às rogações do padre Lourenço.

- Sancta Dei Genitrix...
- Ora pro nobis...
- Sancta Vírgo Vírginum...
- Ora pro nobis...

Era a ladainha da primavera. A voz do abade, grossa, sonora, sozinha, sala do caminho, metia-se às matas, enrodilhava-se na rama dos pinheiros, passava, e ia perder-se ao longe numa encosta de centeio. E atrás dela, torrencial, a cilindrar o que resistira à passagem da primeira levada, a do povo, feita de quantas bocas de caldo havia no lugar.

- Santa Maria Magdalena...
- Ora pro nobis...

Lenta, a mole de gente arrastava-se pela serra acima a esmoer a corte celestial. E deixava atrás de si uma densa atmosfera de som, de paz, de coisa purificada.

- Sancta Agatha ...
- Ora pro nobis...

Os montes era um gosto vê-los. Cobertos de urze, roxos, tinham perdido a força bruta que o Janeiro lhes dera. O céu, sem nuvens, varrido, cobria-os como um tecto de cetim. E os ribeiros, que os sulcavam de frescura, pareciam veias fecundas dum grande corpo deitado.

- Saneta Lucia...
- Ora pro nobis...

Ao ritmo cadenciado de cada invocação, o cortejo ia seguindo. E a atrasar um passo aqui e além, no meio dele, alheios àquele rol de bem-aventurados que gozavam no paraíso, tolinhos de amor um pelo outro, cegos, o filho da Etelvina, o Carlos, e a filha do Zebedeu, a Rita.

- Sancta Caecilia...
- Ora pro nobis...

O rio de povo, como um Doiro de som, continuava a subir. Depois do moinho dos Seixos, a mata da Lamarosa; passada a bouça do Infantado, os amieiros da Fonte Fria.

- Sancta Catharina...
- Ora pro nobis...

As primeiras casas de Arcã, cobertas de colmo, surgiram subitamente na volta do talefe.

- Sancta Anastasia...
- Ora pro nobis...

O badalo frenético que os reunira calara-se há muito. Mas acordava de novo, agora a ladrar alarmado no campanário da terra visitada. A avalanche entrava na povoação.

- Per sanctam ressurrectionem tuam...
- Libera nos, Domine...

A voz do padre mudou de tom.

- Ut fructus terrae dare et conservare digneris...

Qualquer coisa que adormecera, embalada pela melopeia benta, estremeceu. Foi preciso o coro subir dois pontos para a harmonia voltar.

- Te rogamus, audi nos...

A ladainha chegava ao fim. A sineta parecia doida. Aos que vinham, juntavam-se os que esperavam. E o mar humano invadiu a igreja.

- Agnus Dei, qui toffis peccata mundi...
- Miserere nobis...

Seguiu-se um salmo de David. E ao cabo dele, e de algumas orações complementares, no momento em que todos se dispunham a voltar pela serra abaixo à procura de pútegas, quem é que tinha visto o filho da Etelvina, o Carlos, e a filha de Zebedeu, a Rita, que o Amarante encontrara dias antes no caminho de Alcaria, uns fedelhos, ele ainda a pintar, a sair da casca, ela com dois ovinhos no lugar dos seios, tontos, tontos, que até dava vontade de rir?
Ninguém. Por alturas de Santa Inês, reparara neles o Lapadas. Depois...
Depois, muito sorrateiros, esgueiraram-se por detrás duma fraga, e quando foram a dar conta estavam entre duas giestas floridas, tão chegados, tão alheados do mundo, que só mesmo um milagre...
Descobriu-os o Jaime, por acaso. Ela chorava, ele chorava, mas que se lhe havia de fazer?

Miguel Torga, Contos da Montanha