15/09/2007

Sidney Poitier na barbearia de Firipe Beruberu Império: em pé, rio a bandeiras despregadas.






A barbearia do Firipe Beruberu ficava debaixo da grande árvore, no bazar do Maquinino. O tecto era a sombra da maçaniqueira (Maçaniqueira - árvore da maçanica, cujo fruto é vulgarmente designado por maçã-da-índia.). Paredes não havia: assim ventava mais fresco na cadeira onde Firipe sentava os clientes. Uma tabuleta no tronco mostrava o custo dos serviços. Estava escrito: "cada cabeça 7$50". Com o crescer da vida, Firipe emendou a inscrição: "cada cabeçada 20$00".
Na velha madeira balançava um espelho e, ao lado, amarelecia um cartaz de Elvis Presley. Sobre um caixote, junto ao banco das esperas, sacudia-se um rádio ao sabor do chimandjemandje (Chimandjemandje - ritmo musical, dança. (3) Bula-bula - conversa fiada.).
O Firipe capinava as cabeças em voz alta. Conversa de barbeiro, isto-aquilo. Contudo, ele não gostava que a bula-bula (3) amolecesse os fregueses. Quando alguém adormecia na cadeira, o Beruberu aplicava uma taxa no preço final. Até na tabuleta, em baixo dos escritos, acrescentou: "Cabeçada com dormida - mais 5 escudos".
Mas na sombra generosa da maçaniqueira não havia zanga. O barbeiro distribuía boas disposições, dáká maus (Dákámaus - apertos de mão.). Quem passeasse seus ouvidos por ali só ouvia conversa sorridente. Propaganda do serviço, Firipe não demorava:
- Estou-vos a dizer: sou mestre dos barbeiros, eu. Podem andar aí, em toda a volta, procurar nos bairros: todos vão dizer que Firipe Beruberu é o maior.
Alguns clientes toleravam, pacientes. Mas outros lhe provocavam, fingindo contrariar:
- Boa propaganda, mesire (Mesire - tratamento de respeito. (3) Mezungo - branco, senhor.) Firipe.
- Chii, propaganda? Realidade! Se até cabelo fino de branco já cortei.
O quê? Não diga que um branco já chegou nessa barbaria...
- Eu não disse que chegou aqui um branco. Disse que cortei cabelo dele. E cortei, palavra da minha honra.
- Explique lá, ó Firipe. Se o branco não chegou até aqui como é que lhe cortou?
- É que fui chamado lá na casa dele. Cortei dele, cortei dos filhos também. Razão que eles tinham vergonha de sentar aqui, nessa cadeira. Só mais nada.
- Desculpa, mesire. Mas esse não era branco-mezungo. Era um xikaka (Xikaka - colono, português de categoria social dita inferior.).
Firipe fazia cantar a tesoura enquanto a mão esquerda puxava da carteira.
- Uáá! Vocês? Sempre duvidam, desconfiam. Já mostro prova da verdade. Espera aí, onde é que...? Ah, está aqui.
Com mil cuidados desembrulhava um postal colorido de Sidney Poitier.
- Olhem essa foto. Estão a ver esse gajo? Apreciam o cabelo dele: foi cortado aqui, com essas minhas mãos. Tesourei-lhe sem saber qual era a importância do tipo. Só vi que falava inglês.
Os fregueses faziam crescer as suas dúvidas. Firipe respondia:
- Estou-vos a dizer: esse gajo trouxe a cabeça dele desde lááá, da América até aqui na minha barbaria...
Enquanto falava ia olhando para a copa da árvore. Espreitava cautelas para se desviar dos frutos que caíam.
- Merda dessas maçanicas! Só me suja a barbaria. Depois estão sempre aí os miúdos, tentarem apanhar essas maçã-da-índia. Se vejo aqui um, desfaço-lhe com pontapés.
- Então, mesire Firipe? Não gosta as crianças?
- O quê? Se ainda outro dia um muana (Custumunha - testemunha) trouxe uma fisga e apontou a porcaria da árvore, objectivo de abater maçanica. A pedra chocou-se nas folha, mbááá, caiu na cabeça do cliente. Resultado: em vez desse cliente cortar cabelo aqui, foi rapado lá no posto de socorro.
Mudava cliente, repetia a conversa. Do bolso do mestre Firipe saía o velho postal do actor americano a dar verdade às suas glórias. Porém, o mais dificultoso era o Baba Afonso, um gordo de coração muito penteado que demorava a arrastar as partes traseiras. Afonso duvidava:
- Esse homem esteve aqui? Desculpa, mesire. Não acredito nem tão-pouco.
O barbeiro indignado, assentava as mãos nas ancas:
- Não acredita? Se ele sentou nessa cadeira onde você está.
- Mas um homem rico como aquele, estrangeiro ainda para mais, havia de ir no salão dos brancos. Não sentava aqui, mesire. Nunca!
O barbeiro fingia-se ofendido. A sua palavra não podia ser posta em dúvida. Ele então usava o seu derradeiro recurso:
- Tem dúvida? Então vou apresentar testemunha. Vocês vão ver, esperem lá.
E saía, deixando os clientes na expectativa. O Afonso era calmado pelos restantes.
- Baba Afonso, não fique sério. Essa discussão é uma brincadeira, só mais nada.
- Não gosto que falem mentiras.
- Mas isso nem mentira não é. É propaganda. Faz conta a gente acredita, pronto.
- Para mim é mentira - repetia o gordo Afonso.
- Está certo, Baba. Mas é mentira que não aleija ninguém.
O barbeiro não tinha ido longe. Afastara-se apenas uns tantos passos para conferenciar com um velho vendedor de folha de tabaco. Regressavam os dois, o Firipe e o velho:
- Está aqui o velho Jaimão. Virando-se para o vendedor, Firipe ordenava: - Fala lá você, ó Jaimão.
O velho tossia toda a rouquidão antes de confirmar.
- Sim. Na realmente, vi o homem da foto. Foi cortado o cabelo dele aqui. Sou custumunha choviam as perguntas dos clientes:
- Mas você chegou a ouvir esse estrangeiro? Falava qual língua?
- Shingrese (Shingrese - inglês.).
- E pagou com qual dinheiro?
- Com kóbiri (Kóbiri - moeda (adulteração do termo "cobre").).
- Mas qual, escudo?
- Não. Era dinheiro de fora.
O barbeiro satisfeitava-se, peito em proa. De vez em quando, Jaimão ultrapassava o combinado e arriscava suas iniciativas:
- Depois, esse homem foi no bazaro comprar coisas.
- Que coisas?
- Sabola (Sabola - cebola.), raranja (Raranja - laranja), sabau (Sabau - sabão.). Comprou fódia (Fódia - folha de tabaco), também.
O Baba Afonso saltava da cadeira, apontando com sua mão gorda:
- Agora é que te apanhei: um homem desses não compra fódia. É história isso. Um tipo dessa categoria fuma tabaco de filtro. Jaimão, você só está a contar mentira, canganhiça (Canganhiça - vigarice.), só mais nada.
O Jaimão admirava-se com a súbita teima. Olhava, receoso, o barbeiro e ainda tentava um último argumento:
- Uááá (Uááá - interjeição de espanto.), não é mentira. Até me lembro: foi um sabudu.
Depois, eram risos. Porque aquela não era batalha séria, a razão daquela dúvida era pouco mais que brincadeira.
O Firipe fingia-se amuado e aconselhava os duvidantes que escolhessem outra barbearia.
- Pronto, não precisa zangar, nós acreditamos, aceitamos sua testemunha.
E até o Baba Afonso se rendia, prolongando o jogo:
- Com certeza até esse cantor, o Elvis Presley, também esteve aqui no Ma quinino, cortar cabelo...
Mas o Firipe Beruberu não trabalhava sozinho. Gaspar Vivito, um rapaz todo aleijado, ajudava nas limpezas. Varria as areias com cuidado para não poeirar. Sacudia, longe, os panos.
Firipe Beruberu sempre ordenava precauções com os cabelos cortados.
- Enterra-lhes bem no fundo, Vivito. Não quero brincadeiras com o n' uantché-cuta.
Referia-se a um passarinho que rouba cabelos de gente para fabricar o ninho. Diz a lenda que, na cabeça do proprietário lesado, já não volta a crescer mais nem um pêlo. Firipe via no desleixo de Gaspar Vivito a causa de todas as baixas na clientela.
No entanto, muito não se podia pedir ao ajudante. Porque ele, completo, se anormalizara: as pernas bambas, marrabentavam (Marrabentar - verbo constituído a partir do termo "marrabenta", dança do Sul de Moçambique, em que as pernas executam constantes bamboleios.) a toda a hora. A cabeça pequenita coxeava sobre os ombros. Babava-se nas palavras, salivando nas vogais, cuspindo nas consoantes. E tropeçava quando tentava espantar as crianças que apanhavam maçãzinhas-da-índia.
Ao fim da tarde, quando já restava só um cliente, Firipe ordenava a Vivito que arrumasse as coisas. Essa era a hora que chegavam as reclamações. Se o Vivito não tinha jeito de ser gente, o Firipe se aplicava mais nas piadas que nas artes de barbeirar.
- Desculpe, mesire. Meu primo Salomão me mandou vir apresentar queixa da maneira como foi cortado o cabelo dele.
- Como foi cortado?
- É que não sobrou nem um pêlo, ficou completamente depenado. A cabeça dele está descalça, até brilha como se fosse um espelho.
- E não foi ele que pediu assim?
- Não. Ele agora até tem vergonha de sair. Foi por isso me mandou a mim reclamar.
O barbeiro recebia a queixa de bom humor. Fazia soar a tesoura enquanto falava:
- Olha pá: diz lá ele para deixar ficar assim. Careca, poupa nos pentes. Depois, se cortei de mais é saguate (Saguate - gorjeta.).
Rodava em volta da cadeira, afastava-se para apreciar os seus talentos.
- Vá, vaza a cadeira, já terminou. Mas é melhor olhar-se bem no espelho, senão depois ainda manda o primo reclamar.
O barbeiro sacudia a toalha, espalhando cabelos. Invariavelmente, o cliente juntava os seus protestos ao queixoso.
- Mas, mesire, o senhor me cortou quase tudo na frente. Já viu minha testa até onde vai?
- Uáá, isso na testa nem mexi. Fala com seu pai, sua mãe, se quer reclamar da forma da sua cabeça. Eu não tenho nenhuma culpa.
Os queixosos juntavam-se, lamentando a dupla carequice. Era o momento para o barbeiro filosofar sobre as desgraças capilares:
- Sabem o que faz uma pessoa ficar careca? É usar chapéu do outro. É isso que faz uma pessoa ficar careca. Eu, por exemplo, nem camisa que não conheço de onde vem, não uso. Quanto mais calças. Olha, meu cunhado comprou cueca em segunda mão, veja lá...
- Mas, mesire, não posso pagar esse corte.
- Nem precisa pagar. E tu, diz lá ao teu primo Salomão, para passar aqui amanhã: vou devolver matambira (Matambira - dinheiro.). Dinheiro, dinheiro... era assim: cliente descontente ganhava direito de não pagar. O Beruberu só cobrava satisfações. De manhã até ao anoitecer, o cansaço já lhe pesava nas pernas.
- Charra, desde manhã: tinc-tinc-tinc. Já é de mais! Viver custa, Gaspar Vivito.
E sentavam os dois. O mestre na cadeira, o ajudante no chão. Era o poente de mesire, hora de meditar suas tristezas.
- Vivito? Desconfio que você não anda a enterrar bem os cabelos. Parece que o passarinho n'uantché-cuta me está a roubar cliente.
O rapazito respondia só uns sons engasgados, defendia-se numa língua que era só dele.
- Cala-te, Vivito. Vê lá se fizemos muitos dinheiros.
Vivito agitava a caixa de madeira e dentro tilintavam as moedinhas. O riso espalhava-se no rosto de ambos.
- Como cantam bem! Esta minha loja vai crescer, palavra da minha honra. Até estou a pensar montar um telefone aqui. Pode ser no futuro vou fechar ao público. Hein, Vivito? Dedicarmos só serviço de encomendas. Está ouvir, Vivito?
O ajudante espreitava o patrão que se levantara. Firipe discursava em redor da cadeira, gozando os futuros. Depois o barbeiro encarava o aleijado e era como o seu sonho quebrasse as asas e tombasse naquela areia escura.
- Vivito: você agora devia perguntar: mas fechar como, se este lugar nem tem parede? Era assim que você devia falar, ó Gaspar Vivito.
Mas não era acusação, a sua voz estava deitada por terra. E ele se aproximava de Vivito e deixava a sua mão suspirar sobre a cabeça bamboleante do rapaz.
- Estou ver que você precisa cortar esse seu cabelo. Mas você não pára com a cabeça quieta, sempre quetequê-quetequê.
Aos custos, Gaspar lá subia para a cadeira e ajeitava o pano à volta do pescoço. O moço, aflito, apontava a escuridão à volta.
- Ainda dá tempo de apanhar umas tesouradas. Agora vê se fica quietíssimo, para despacharmos.
E os dois se retratavam, debaixo da grande árvore. Todas as sombras já tinham morrido àquela hora. Os morcegos riscavam o céu com seus gritos.
Era aquele o momento em que a vendedeira Rosinha passava por ali, de regresso a casa. Ela surgia e o barbeiro ficava suspenso, todo ele no olhar ansioso.
- Viu aquela mulher, Vivito? Bonita, bonita até de mais. Costuma passar aqui, a essas horas. Às vezes penso se estas demoras não faço de propósito: arrastar o tempo até o momento dela passar.
Só então o mesire se confessava triste, um outro Firipe surgia. Mas ele se confessava a ninguém: o Vivito calado, será que entendia a tristeza do barbeiro?
- É, Vivito, estou cansado de viver sozinho. Faz tempo a minha mulher me abandonou. Sacana de gaja, deixou-me com outro. Mas esta profissão de barbeiro, também. Um gajo está aqui amarrado, nem pode sair dar uma espreitadela lá em casa, controlar a situação. Resultado é este.
Ele então disfarçava a sua raiva. Subtraía da gente aquele peso e somava nos bichos. Apedrejava os ramos, tentando bater nos morcegos.
- Porcaria de bichos! Não vêem que isto é minha barbaria? Isto tem dono, propriedade de mestre Firipe Beruberu.
E corriam os dois atrás de imaginários inimigos. Acabavam por se tropeçarem, sem jeito para se zangarem. E cansados, ofegavam um ligeiro riso, como se perdoassem ao mundo aquela ofensa.
Foi num dia. A barbearia continuava seu sonolento serviço e essa manhã, como todas as outras, se sucediam as doces conversas. O Firipe explicava a tabuleta avisando a taxa de dormida.
- Só paga os que adormecem na cadeira. Acontece muito-muito com esse gordo, o Baba (Baba - senhor, pai, forma de tratamento que se reserva aos mais velhos.) Afonso. Começo a pôr toalha e logo ele começa a sonecar. Não gosto disso, eu. Não sou mulher de ninguém para adormecer cabeças. Isto é barbaria séria...
Foi então que apareceram dois estranhos. Só um entrou na sombra. Era um mulato, quase branco. As conversas desmaiaram ao peso do medo. O mulato se dirigiu ao barbeiro e ordenou que mostrasse os documentos.
- Porquê, os documentos? Eu, Firipe Beruberu, sou duvidado?
Um dos clientes aproximou-se de Firipe e segredou-lhe:
- Firipe, é melhor você obedecer. Esse homem é o Pide.
O barbeiro baixou-se sobre o caixote e retirou os documentos:
- Estão aqui os meus plásticos homem passou em revista a carteira. Depois, amarrotou-a e atirou-a para o chão.
- Falta uma coisa nesta carteira, ó barbeiro.
- Falta alguma coisa, como? Se todos os documentos já entreguei.
- Onde está a fotografia do estrangeiro? - Estrangeiro?
- Sim, desse estrangeiro que você recebeu aqui na barbearia.
O Firipe duvida primeiro, depois sorri. Entendera a confusão e prontificava-se a explicar:
- Mas senhor agente, isso do estrangeiro é história que inventei, brincadeira... mulato empurra-o, fazendo-lhe calar.
- Brincadeira, vamos ver. Nós sabemos muito bem que vêm subversivos da Tanzânia, da Zâmbia, de onde. Turras! Deve ser um desses que recebeste aqui.
- Mas receber, como? Eu não recebo ninguém, não mexo com política.
O agente vai inspeccionando o lugar, desouvindo. Pára em frente da tabuleta e soletra em surdina:
- Não recebes? Então explica lá o que é isto aqui: "Cabeçada com dormida: mais 5 escudos". Explica lá o que é essa dormida...
- Isso é só por causa de alguns clientes que dormecem na cadeira.
O polícia já cresce na sua fúria.
- Dá-me a foto.
O barbeiro retira o postal do bolso. O polícia interrompe o gesto, arrancando-lhe a fotografia com tal força que a rasga.
- Este aqui também adormeceu na cadeira, hein?
- Mas esse nunca esteve aqui, juro. Fé-de-Cristo (Fé-de-Cristo - forma de juramento.), senhor agente. Essa foto é do artista do cinema. Nunca viu nos filmes, desses dos americanos?
- Americanos, então? Está visto. Deve ser companheiro do outro, o tal Mondlane que veio da América. Então este também veio de lá?
- Mas esse não veio de nenhuma parte. Isso tudo é mentira, propaganda.
- Propaganda? Então deves ser tu o responsável da propaganda da organização...
O agente sacode o barbeiro pela bata, os botões caem. Vivito tenta apanhá-los mas o mulato dá-lhe um pontapé.
- Para trás, sacana. Ainda vai é tudo preso.
O mulato chama o outro agente e fala-lhe ao ouvido. O outro parte pelo atalho e regressa, minutos depois, trazendo o velho Jaimão.
- Já interrogámos este velho. Ele confirma que recebeste aqui o tal americano da fotografia.
Firipe, de sorriso frouxo, quase nem tem força para se explicar.
- Vê, senhor agente? Outra confusão. Eu que paguei ao Jaimão para ele servir de testemunha da minha mentira. Jaimão está combinado comigo.
- Está combinado, está.
- O Jaimão diz lá: não foi uma maneira que combinámos?
O pobre velho, desentendido, rodava dentro do seu casaco esfarrapado.
- Sim. Na realmente eu vi o cujo homem. Estava aqui, nesse cadeira.
O agente empurrou o velho, amarrando os seus braços aos do barbeiro. Olhou em volta, com vistas de abutre magro. Enfrentava a pequena multidão que assistia a tudo silenciosamente. Deu um pontapé na cadeira, partiu o espelho, rasgou o cartaz. Foi então que Vivito se meteu, gritando. O aleijado segurou o braço do mulato mas cedo se desequilibrou, caindo de joelhos.
- E este quem é? Que língua é que ele fala? Também é estrangeiro?
- Esse rapaz é meu ajudante.
- Ajudante? Então também vai dentro. Pronto, vamos embora! Tu, o velho e este macaco dançarino, tudo a andar à minha frente.
- Mas o Vivito...
- Cala-te barbeiro, já acabou o tempo das conversas. Vais ver que, lá na prisão, há um barbeiro especial para te cortar o cabelo a ti e aos teus amiguinhos.
E, perante o espanto do bazar inteiro, Firipe Beruberu, vestido de sua imaculada bata, tesoura e pente no bolso esquerdo, seguiu o último caminho na areia do Maquinino. Atrás, com sua antiga dignidade, o velho Jaimão. Seguia-se-lhe o Vivito de passo bêbado. Fechando o cortejo, vinham os dois agentes, vaidosos da sua caçada. Calaram-se então os pequenos milandos (Milandos - brigas, discussões.) do quanto custa, o mercado rendeu-se à mais funda melancolia.
Na semana seguinte, vieram dois cipaios. Arrancaram a tabuleta da barbearia. Mas, olhando o lugar, eles muito se admiraram: ninguém tinha tocado em nenhuma coisa. Ferramentas, toalhas, o rádio e até a caixa de trocos continuavam como foram deixados, à espera do regresso de Firipe Beruberu, mestre dos barbeiros do Maquinino.


Mia Couto, Cada Homem é uma Raça