18/09/2007

Para a Escola


No velho casarão do convento é que era a aula. Aula de primeiras letras. A porta lá estava, amarela, com fortes pinceladas vermelhas, ao cimo da grande escadaria de pedra, tão suave que era um regalo subi-la. Obra de frades, os senhores calculam... Já tinha principiado a aula quando a Helena entrou comigo pela mão. Fez-se um silêncio nas bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua tabuada, num ritmo cadenciado e monótono, cantarolando. E ouviu-se então a voz da Helena dizer para o senhor professor, um de óculos e cara rapada, falripas brancas por baixo do lenço vermelho, atado em nó sobre a testa:
– Muito bons-dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a encomendinha.


Oh! Oh! A encomendinha era eu, que ia pela primeira vez à escola. Ali estava a encomendinha!
– Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão?
E enquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia metido nem eu sabia o quê. Meu pai é que lá sabia... E ali estava eu entre os joelhos do senhor professor, com o boné numa das mãos e a saquinha vermelha na outra, muito comprometido. A Helena, que sorria contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus.
Choraminguei, quis sair na companhia dela.

– Não, agora o menino fica – disse-me a Helena. – Isto aqui é a escola, é onde se aprende a ler. – E agachando-se, diante de mim: – Olhe tanto menino, vê?
– Mas fica tu também... – disse-lhe eu então.
Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir, iracundo:
– Caluda, sua canalha! Não vêem que está gente de fora? Caluda, que vai tudo raso com bolaria!
Foi então que reparei em toda aquela rapaziada. Ah, eles eram todos meus conhecidos! Vivam lá vocês! E estavam todos alegres, pelos modos. Reanimei-me. Então já eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes; cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estêvão principalmente.
– Isto é preciso muita paciência, senhora Helena, muita soma de paciência. Um mestre precisa de ser um santo. – (Pausa. Olho duro sobre as bancadas). – Mas está bem, diga lá que a encomendinha cá fica. Em boa hora entrasse...
– Entrou, ele há-de estudar. Ora há-de, Josézinho?
Das bancadas alguns acenavam-me que não, arregalando muito os olhos.
– É verdade, – insistiu por sua vez o senhor professor – o menino há-de estudar as suas lições, não é assim?
– Diga: sim senhor – ensinou-me então a Helena. – Hei-de estudar muito e ser sossegadinho na aula: diga. – E a meia voz para o professor: – isto em casa é o vivo mafarrico; faz lá ideia?
Ele riu, já sabia. As crianças são todas assim, enquanto estão no mimo das mães. Mas uma vez metidas na escola, as coisas mudavam um pouco. E piscando o olho, designou a palmatória. A Helena ficou transida!
– Faz milagres, senhora Helena. Digam lá o que disserem, olhe que faz milagres.
Eu tinha percebido. Começava de novo a embezerrar, com vontade de sair quando a Helena saísse. Aquilo sabia eu para que servia, a palmatória...
– Mas para o nosso Zézito não há-de ser precisa, ora não?
– Diga assim: não senhor, porque eu hei-de cumprir com as minhas obrigações, diga.
– Ora aí é que está! – atalhou o senhor professor. – Vê, senhora Helena? Aqui já os pequenos têm a sua obrigaçãozinha, os seus deveres a cumprir, as suas coisas...
– Sim senhor, sim, enquanto que em casa...
– Em casa é o que nós sabemos. Tudo são mimos: meu menino isto, meu menino aquilo. Vão assim criados à lei da natureza, sabe vossemecê? É mau isso, péssimo! Porque é que os rapazes são todos teimosos? – E bateu num «Monteverde» pousado sobre a mesa dizendo: – Olhe, aqui está neste livro: «de pequenino...
– ...é que se torce o pepino» – concluiu rápida a Helena, orgulhosa de saber o que estava no livro, coitada!
– Nem mais. A modos que isto faz rir. Um pepino é uma coisa que se cria na horta...
Risota dos rapazes!


– Ora vê isto, senhora Helena! Vê estes brutinhos?! – E com entono, de palmatória alta, fazendo-se carrancudo:
– Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peço licença à senhora Helena, começo numa ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos, tudo, mas o que se chama tudo!
E fitou-os altivo, sereno, minaz. Sob aquela ameaça, os rapazes ficaram transidos, cabisbaixos, olhos pregados nos livros. É verdade que ele podia pedir licença à Sr.ª Helena, e mesmo diante dela cascar de rijo... Uma sombra de terror passou por toda a sala, sossegaram; até o Estêvão deixou de me fazer caretas.
– É o que se vê, senhora Helena – disse então vitorioso, a sorrir-se, o bom do senhor professor. – É o que vê! Um mestre sem palmatória é um artista sem ferramenta, não faz nada. Santa Luzia milagrosa! Aqui onde a vê tem feito muitos doutores.
– Essa? – perguntou ingenuamente a Helena, disposta a venerar aquele pedaço de pau de buxo, se na verdade ele tivesse feito muitos doutores.
– Não, mulher, se não foi esta, outras como esta; essa é boa! Isso não faz ao caso.


Pela resposta bem se vê que foi indiscreta a pergunta da pobre Helena. Também ele, velho naquele ofício, muitas vezes investigara com mágoa o motivo por que a sua palmatória não fazia um único doutor... Morreria sem ter essa «glória», decerto! Forte martírio que a Helena veio recordar-lhe!...
Houve uma interrupção: um rapaz que se levantou e de braço no ar pedia para ir lá fora.
– Licete! – foi como ele disse, arremedando o latim licet. Outros havia que diziam, por troça, Aniceto!
– Ora já a mim me admirava, – tornou-lhe o professor. – Se tu não havias de pedir para ir lá fora, tu... – E ficou-se a fitá-lo, meneando pausadamente a cabeça. – Ora vá você lá fora.
O rapaz saiu apressado, com grande estrupido de pés.
– Olá? – chamou zangado o senhor professor.
O outro assomou à porta, contrafeito.
– Para a outra vez faz-se menos barulho com esses pés, ouviu? Não sei se percebes... Ora já que tem tanta pressa, eu não tenho nenhuma; faça favor de esperar um pouco.
Pôs-se então a correr a vista pelas bancadas, resmungando:
– Tu não... Tu não... Tu não... Tu, olá, venha cá!
Levantaram-se uns poucos; foi um barulho!
– Canalha! – gritou-lhes então, batendo o pé. – Corja de atrevidos! Sentados, já!
Grande silêncio nas bancadas. Um perguntou de lá, humilde, se era ele, apontando para o peito.
– Sim, és tu, para que queres os olhos? Avance e perfile-se.
Mediu-o de alto a baixo. Depois:
– Isso mesmo. Essa mão no bolso é que não é do regulamento, fora com ela. Agora, sim senhor. Ora vês além aquele sujeito? o tal das pressas?...
– Vejo, sim senhor.
– Bem sei que vês, se o não visses é porque eras cego; que tal está o palerma? Ora acompanhe-o; já sabe para quê. E sempre quero ver se tenho de vos ir lá buscar pelas orelhas.
Saíram. Mal tinham salvado a porta, gritou-lhes o senhor professor:
– Olá?
Eles assomaram outra vez, atrapalhados.
– Então, seus cabeças de avelã, torres de vento, então não falta nada?
Os dois puseram-se a coçar a cabeça, muito comprometidos. Faltava com efeito alguma coisa...
– Então é aí?
Eles avançaram até ao meio da sala, tropeçando um no outro.
– Ora passa por esta vez, em atenção a estar aqui a senhora Helena. – E enrugando o sobrolho, comandou em tom marcial: – Ordinário! marche!
Faltava aquilo. Em obediência aos velhos hábitos de militar, dava o senhor professor aquela voz, sempre que mandava algum aluno cumprir ordens suas:
– Ordinário! marche!
Sentou-me então no joelho e perguntou:
– Olha lá, Josézinho, tu queres ser militar, queres? Assim como o senhor capitão do destacamento, que lá está aboletado em casa, queres?
– Corneta, mais queria ser corneta. Ou então como o senhor prior: dizer missas.
Riram-se. Quem sabia lá o que dali sairia? Mas o senhor professor fez notar que era bom que os pequenos tivessem já assim uma tendência qualquer. E pôs-se a puxar-me o nariz, a dar-me palmadinhas nas bochechas.
– Corneta ou prior, hem? Pois isso é que é preciso escolher. – E para a Helena: – Pois olhe que os tenho conhecido, senhora Helena, que respondem a pés juntos que não querem ser nada! Mau sinal, péssimo, senhora Helena. Quando eles assim dizem, de ordinário assim fazem, depois. Nunca são gente. – E virando-se para mim: – Mas então, Josézinho, em que ficamos? Corneta ou prior?
Preferia ser prior. Sempre me parecia melhor, mais bonito, especialmente em dias de festa, com aquela capa toda dourada...
– Muito bem, escolheste bem. «Telha de igreja...
– ...sempre goteja» – concluiu a Helena que ainda hoje é forte em adágios.
O bom do professor tinha finalmente chegado onde queria.
– Prior, então! Está muito bem, seu reverendo. Pois olha, Josézinho, para ser prior é preciso estudar, saber ler no missal, ora é?
– É.
– Ah!... Não é assim que se diz. É, sim senhor – emendou a Helena.
O senhor professor teve um gesto de indulgência.
– Mas tu não sabes ainda, ora não?
– Não senhor.
Ele então, fingindo uma grande surpresa, perguntou se o que eu trazia na saca era um livro.
– Querem ver que é um livro?!...
– Diga – ensinou a Helena – é o meu livro para aprender a ler. Mostre-o lá ao senhor professor, tome.
Houve na sala um murmúrio, ao verem a capinha verde, toda lustrosa, do meu livro.
– Muito bem! muito bem! – aplaudiu o senhor professor. – Mas este livro é mesmo para aprender a prior... O menino já tinha dito lá em casa que queria ser prior, ora já?
Fiz que sim com a cabeça. Era verdade aquilo; mas como é que ele o sabia?
– Bem se vê por este livro. É livro para prior. Queres então principiar, não queres?
– Quero, sim senhor, – ensinou ainda a Helena e eu repeti. – O que eu quero é dizer missa quanto mais cedo melhor, diga.
– Primeiro do que aqueles? – perguntou voltando-me para as bancadas.
Então fui eu mesmo que respondi: – «Sim senhor!» – contente com a lembrança de vir a dizer missa, e de a vir a dizer primeiro do que todos aqueles. Até podia acontecer que o Estêvão das caretas me ajudasse a alguma...
– Ora então está muito bem, estamos entendidos! – E com intenção, ferindo muito as palavras, para mas gravar no espírito: – A primeira coisa que é precisa para prior é saber bem isto, vês? – E punha-me diante dos olhos o livro, aberto na primeira página. – Isto aqui é já missa, chama-se o a b c, e é aquilo que os priores dizem quando vão para o altar.
– Ito? – inquiri curioso, furando a página com o dedo.
– Sim, isto. E amanhã já mo hás-de trazer sabido daqui até ali. Hem? Valeu?
– Diga que sim, menino, diga. Valeu, sim senhor.
Eram as seis primeiras letras, ainda me lembro bem. A minha primeira lição!
A B C D E F.
A minha primeira lição!


– Ora sabe vossemecê o que isto é, senhora Helena, isto que eu tenho estado a fazer?
– Sim senhor, sei... É assim... como quem diz... É...
– Não sabe, não admira, – disse complacente o senhor professor. – Puxar o gosto, senhora Helena, puxar o gosto é que isto é. Nem todos os mestres o fazem, todos o deviam fazer. O pequeno, assim, até já vai estudar com mais gosto, digo-lho eu; olé se vai!
«Mas ele não a queria demorar mais; tinha lá em casa as suas obrigações, as suas voltas, e deviam ser horas.»
– Pois isso é verdade, senhor professor; mas não sei que é, custa-me a separar do menino... – disse a boa da Helena, quase a chorar.
– Foi ama, deu-lhe o leite, aí é que está a coisa. Pois tenha paciência. Aprender é tão preciso como mamar – concluiu numa prosa que é mesmo poesia.
– Pois é preciso, é!...
E a pobre Helena beijou-me, para se ir embora. Quando me beijou, senti na minha cara as lágrimas daquela boa amiga. Retirava-se, deixando-me ainda sobre o joelho do meu velho professor, quando este a chamou:
– Senhora Helena?
– Meu senhor! – respondeu, levando aos olhos o avental.
– Já agora, espere mais um instante.


Percorreu com a vista, minuciosamente, as bancadas todas da aula. Depois, intimou:
– Tu, Francisco, olá, chega acima. E tu do lado, como te chamas, abaixo um pouco. – E virando-se para a pobre mulher lacrimosa: – Ora é ali, senhora Helena ali é que é o lugar do pequeno. Leve-o lá, ande, que lhe não deve pesar.
E dos braços do meu professor passei para os braços da ama. Novo beijo, lágrimas mais quentes, e saiu a boa da Helena, deixando-me no meu lugar... – o meu primeiro posto na arriscada milícia das letras...
Depois, só vi isto: o mestre a sorrir-se para a porta e a conversar por acenos com a pessoa que estava de fora. Pequeno como era, percebi, no entanto.
O mestre vinha a dizer na sua mímica:
– Bolos?!... Não?!... Perdoe a senhora Helena, mas isso, quando forem precisos... Pois sim... lá isso sim... pequeninos... Han? mesmo com a mão?... Está bem... Descanse... Mesmo com a mão...
E ela devia sorrir por entre lágrimas, porque foi também por entre lágrimas que o bom velho se sorriu, dizendo adeus...

***

…Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que principiei nesse dia. Não volto mais à escola! Venho hoje restituir-te, querida amiga, aquele beijo – dulcíssimo beijo aquele! – que tu então me deste. E afinal não fui prior, ora vê!... Mas ainda bem. Se o fosse, acho que parecia mal beijar-te, minha boa e santa amiga! Pois ainda bem que não fui prior, ainda bem... Não é verdade, Helena?



Em Coimbra, no dia do meu acto de formatura.
Trindade Coelho,Os meus amores