22/09/2007

O Violinista





Era inegável que Lars Larsson, o tocador de Olerud, na sua velhice, era humilde e modesto. Porém, não fora sempre assim. Na mocidade, tinha sido de tal maneira vaidoso e soberbo que fazia pena.
Dizem que foi numa só noite que se transformou completamente. Foi assim:

Passeava Lars Larsson, com o seu violino debaixo do braço, numa linda noite de sábado, já bastante tarde. Regressava de uma festa onde ao som do seu violino tinha feito dançar novos e velhos. Ia por isso muito alegre.
Ninguém tinha podido parar enquanto o seu arco estava em movimento. Havia por toda a casa um entusiasmo tal, que lhe parecia ver mesas e cadeiras fazerem parte da dança.
- Com certeza que nunca houve por aqui um músico assim - pensava ele. - Mas quantos obstáculos tive de vencer para chegar ao que hoje sou! Na minha infância, não era nada agradável os meus pais mandarem-me guardar carneiros e vacas. Eu, num sonho, tudo esquecia para fazer vibrar as cordas do meu violino. Que pobreza! Na minha casa não queriam comprar-me um violino autêntico. O meu instrumento era urna caixinha de madeira com umas cordas esticadas. Durante o dia ficava só na floresta e assim não era muito digno de pena; porém, à noite, ao voltar, era diferente com o rebanho extraviado. Quantas vezes o meu pai me disse que eu era um maroto, que nunca faria nada com jeito!
No sítio da floresta que Lars Larsson atravessava, um regato buscava caminho. Era a custo que avançava em terreno tão ruim: dividia-se em pequenas cascatas e no entanto dava a ideia de não chegar a qual quer parte. Ao contrário, o caminho pelo qual o músico seguia era o mais direito possível. Assim, tinha ele, de vez em quando, de atravessar uma pequena ponte sobre o regato sinuoso. O músico era portanto forçado a cruzar constantemente o regato, o que de certo modo lhe agradava. Tinha a sensação de não estar sozinho na floresta, de ir acompanhado.
A noite estava clara; o sol ainda não tinha nascido, mas mesmo assim a luz era muita. Sentia-se, porém, que ainda não era bem de dia. As coisas tinham outra cor. As árvores estavam acinzentadas e o céu todo branco, mas via-se tão bem como se fosse meio dia. Lars Larsson, parado numa das pontes, olhando o riacho, podia ver perfeitamente qualquer bolha de ar que subisse do fundo da água.
- Revejo a minha própria vida, olhando um regato selvagem como este - pensou o músico. Ao abrir caminho por entre os obstáculos que se levantaram diante de mim, mostrei a mesma firmeza. Meu pai, duro como uma rocha, embargava-me o caminho. Minha mãe envolvia-me carinhosamente, como entre verdura, tentando reter-me. Porém, consegui desprender-me de ambos e parti para a vida.
«Decerto! Julgo que minha mãe ainda chora por mim. Não me importo! Não se pusesse no meu caminho; devia perceber que eu queria ser alguém.
Deitou ao riacho umas folhas que tirou de uma moita, com um gesto nervoso.
- Foi assim que me soltei de tudo o que me prendia - disse, olhando as folhas que a corrente levava. - A minha mãe saberá que sou agora o melhor violinista de toda a Vermlândia?
Deu uns passos apressados até encontrar outra vez o regato. Parou de novo para ver a água.
O regato aqui, fazia um barulho ensurdecedor. O músico ficou muito admirado de, por ser de noite, se ouvirem sair da água sons diferentes dos que se ouviam de dia.
Nem o mais leve ruído de folhas, nem um gorjeio de aves. Nem o tilintar de campainhas na floresta, nem ranger de rodas na estrada. Apenas se ouvia a queda da água e mais distintamente do que de dia. Parecia que se mexiam no fundo da água as coisas mais extraordinárias. Primeiro, o som de mós enormes moendo trigo; depois, vinha um som cristalino como o embater de copos numa festa, outras vezes um sussurro dava a ideia que se estava no largo duma igreja, à saída, quando as pessoas travam entre si conversas animadas.
Isto é realmente uma espécie de música - disse para consigo Lars Larsson - ainda que não valha muito. Acho eu que a ária que compus noutro dia tinha mais interesse.
Mas quanto mais ouvia a cascata, mais lhe apreciava a música.
- Fazes progressos - gritou ele. - Com certeza percebeste que quem te ouve é o melhor violinista de toda a Vermlândia.
Precisamente no momento em que dizia estas palavras, julgou ouvir sons metálicos, saídos do fundo da água, como se lá em baixo alguém afinasse um instrumento.
- Oh! É o Neck em pessoa que aí vem! Ouço-o afinar o violino. Pois agora veremos se tocas melhor do que eu! gritou Lars Larsson a rir. - Mas não posso ficar aqui o resto da noite à espera que te resolvas a começar - continuou, virado para a cascata. - Por agora tenho de ir, mas paro na primeira ponte para ver se tens coragem de te medir comigo.
Seguiu o seu caminho e enquanto o regato prosseguia também o seu na floresta, o músico voltou a pensar nas coisas antigas:
- Pergunto a mim mesmo o que será feito do córrego que rodeia o pátio da nossa granja. Bem gostava de tornar a vê-lo. De vez em quando devia ir a nossa casa para saber como vive minha mãe agora sem o meu pai, que já não existe. Mas tenho tantos afazeres que me parece que não é possível. Devido às minhas ocupações de agora, acho eu, não consigo interessar-me por mais nada além do meu violino; durante toda a semana não há uma noite em que esteja disponível.
Pouco depois encontrou de novo o regato, o que lhe fez mudar o rumo às ideias. Aparecia agora em ondas profundas e calmas em vez de cascata tumultuosa. Parecia, sob a folhagem cinzenta da noite, de um negro luzente, levando ainda tufos de espuma branca, recordação das cascatas passadas.
O músico deteve-se no meio da ponte e começou a rir; só ouvia sair da água um ruído muito fraco, intervalado.
- Eu bem dizia que o Neck não vinha para o desafio; não há duvida que é um músico de valor, mas o que há a esperar de um ser que fica impassível no seu regato sem nunca ouvir nada de novo? Ele sabe que está aqui alguém que percebe disso melhor do que ele e assim mantém-se reservado.
Depois de dizer isto, seguiu o seu caminho perdendo de vista o regato.
Entrou numa parte da floresta que sempre lhe tinha parecido sinistra. O chão estava coberto por montões de pedras onde se moviam raízes de pinheiros torcidas e nuas. Era com certeza ali que estavam escondidos os espíritos maus e perigosos, se é que os havia na floresta.
Metendo-se por aquelas pedras de aspecto bravio, arrepiou-se de medo e pensou que não tinha sido muito acertado ufanar-se ante o Neck.
Teve a impressão de que as raízes, muito grossas, lhe faziam gestos como se o ameaçassem.
- Tem cuidado! Tu que supões ter mais força do que Neck! - diziam elas.
Lars Larsson sentiu que o coração se lhe apertava de aflição. Quase não podia respirar e tinha as mãos frias. Parou no meio do caminho e tentou falar consigo mesmo:
- Não houve músico algum na cascata. Isso não passa de conversa. Assim, não tem importância o que eu disse.
E olhava à volta da floresta como se esperasse a confirmação das suas palavras.
Se já fosse dia, talvez que uma pequenina folha lhe dissesse, numa piscadela de olho, que não há perigo na floresta; mas, como ainda era noite, as árvores silenciosas e mal encaradas pareciam esconder toda a espécie de perigos.
Lars Larsson pensava, horrorizado, que tinha uma vez mais de atravessar o regato que não se separava do caminho a não ser mais adiante. Perguntava a si mesmo o que lhe faria o Neck, quando passasse a última ponte. Era possível que saísse da água uma enorme mão negra para o levar para o fundo.
Estava de tal maneira exaltado que achava preferível voltar; mas encontraria de novo o regato e se deixasse o caminho para se embrenhar na floresta, tão complicado era o seu curso, mesmo assim o encontrava.
Não sabia o que fazer, estava desorientado. Enleado por aquele regato terrível, não via possibilidade de lhe escapar.
Avistou, por fim, lá ao longe a última ponte. Na margem oposta, em frente, via-se um moinho que dava a ideia de estar abandonado. Via-se a grande mó suspensa sobre a água; as janelas cobertas de musgo, a comporta estragada no chão e nas águas-furtadas, vazias, tinham crescido mimosos fetos.
- Antigamente encontraria gente aqui e assim não correria perigo - pensou o músico.
Contudo, acalmou ao ver que andara ali a mão do homem e, ao atravessar o regato, quase não tinha medo. Nada lhe aconteceu; o Neck não lhe queria mal e irritou-se consigo mesmo por se ter exaltado por coisa nenhuma.
Sentindo-se absolutamente seguro, mais alegre ficou ao ver que se abria a porta do moinho e de lá saía uma jovem que vinha agora ao seu encontro.
Tinha o aspecto de uma camponesa: blusa larga, saia curta, lenço de algodão na cabeça e pés descalços. Abeirou-se do músico e disse-lhe com simplicidade:
- Dançarei para ti, se quiseres tocar para mim.
- Da melhor vontade – respondeu ele, voltando-lhe a boa disposição, visto não haver perigo. - Não há inconveniente algum; nunca deixei de tocar para uma bela rapariga que quer dançar.
À beira da represa, ajeitou-se sobre uma pedra e, ajustando o violino ao queixo, começou a tocar.
A rapariga deu uns passos, mas parou de repente.
- O que estás a tocar não anima a gente.
O músico substituiu a ária; mudou para outra mais viva, mas a rapariga continuava descontente.
- Com uma ária tão fraca, como poderei dançar?
Lars Larsson começou então a tocar a ária mais viva que sabia.
- Se esta não te satisfizer, será necessário chamar um músico mais competente do que eu.
Ao dizer isto, teve a sensação de que uma mão começava a manejar o arco, acelerando o ritmo.
Saiu então do instrumento uma ária como nunca se tinha ouvido. O movimento era tal, que se se lançasse uma roda a toda a velocidade, não o poderia acompanhar.
- Isso é que é uma ária para dançar! - gritou a rapariga, começando a girar.
Mas o músico nem a olhava. A ária que ele próprio tocava surpreendeu-o de tal maneira que cerrou os olhos para escutar melhor.
Quando pouco depois os abriu, a rapariga tinha desaparecido, mas não ficou muito admirado por isso: continuou a tocar por tempo indefinido porque nunca ouvira música como aquela.
- Agora julgo que devo parar - disse ele, que¬rendo largar o arco.
Porém, este continuava em andamento. Ia para cá e para lá sobre as cordas, obrigando a mão e o braço a seguirem o seu movimento. E a mão que segurava o violino e manejava as cordas também não se podia desprender.
- Como será o fim disto? Serei forçado a ficar aqui até ao dia de juízo final? - perguntava a si mesmo, exasperado.
E o arco continuava a dançar desenfreadamente lembrando, como por encanto, árias sem fim. Surgia um trecho novo, constantemente, de tanta beleza, que o pobre do músico era forçado a concordar que a sua sabedoria de nada valia. E isso atormentava-o muito mais do que o cansaço.
- O que usa o meu violino é muito competente e eu não tenho passado de um trapalhão. Agora é que eu sei o que é tocar!
Por breves instantes, com o entusiasmo da música, esqueceu a sua pouca sorte, mas de súbito sentiu os braços doridos de fadiga e o desespero tomou, de novo, conta dele.
- Hei-de tocar este violino até morrer, não o poderei largar! Bem compreendo que é esse o desejo de Neck.
E, sempre a tocar, começou a chorar com pena de si mesmo.
- Era melhor ter ficado na casota de minha mãe. Para que serve todo o meu valor, se tenho de acabar assim?
Ficou na mesma horas sem fim. Chegou a manhã, rompeu o sol, os passarinhos começaram a cantar e ele tocava sem descanso.
O dia que se seguiu era domingo; por isso Lars Larsson teve de ficar só ao pé do velho moinho. Ninguém seguiu a estrada da floresta: iam todos para as aldeias que ornavam a estrada real ou para a igreja do vale.
O sol ia cada vez mais alto no céu; passou-se a manhã. Os pássaros não can-tavam, mas ouvia-se o ruído das agulhas dos pinheiros.
Lars Larsson tocava, tocava; nem o calor daquele dia de verão o detinha.
O sol desapareceu, a noite chegou, mas o seu arco não precisava de descanso e o braço continuava em movimentos febris.
- Não há dúvida que isto só acabará com a morte e será o justo castigo do meu orgulho.
Já noite alta viu que uma pessoa se aproximava por entre a floresta; era uma velhinha curvada, de cabelos brancos e rosto enrugado.
Que coisa extraordinária! - pensou o músico. Julgo conhecer esta velha. - É possível que seja a minha mãe? É possível que ela esteja tão branca, tão velha?
Para faze-la parar, chamou-a em voz alta:
- Mãe, mãe, chega aqui!
- Certifico-me agora, com os meus próprios ouvidos, que és o melhor violinista de toda a Vermlândia - disse ela - e compreendo que não te importes com uma velha como eu.
- Mãe, mãe, não passes! - gritou Lars Larsson. Não sou exímio tocador, não passo de um patife. Chega aqui para eu te falar!
Então a mãe ao aproximar-se viu como se encontrava, mortalmente pálido, os cabelos ensopados em suor e das unhas corria-lhe sangue.
- Mãe, caí em desgraça, devido à minha vaidade e agora tenho de morrer a tocar.
Todo o ressentimento que tinha contra o filho desapareceu e a mãe sentiu então uma grande pena dele.
- Perdoo-te, sim!
Mas querendo provar-lhe que lhe perdoava sinceramente, invocou o nome do Senhor para confirmar o perdão:
Lars Larsson sentiu então a testa cobrir-se-lhe de suor frio e tomou conta dele um medo horrível.
- Perdoo-te em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Então o arco parou, o violino caiu por terra e o violinista, salvo e liberto, levantou-se.
Quebrara-se o encanto na altura em que a sua velha mãe cheia de pena por vê-lo tão desgraçado, pronunciou o nome do Senhor.


Selma Lagerlöf


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