13/09/2007

O Vinho



Era no Agosto, à tardinha. O Abel descia aos bordos pelos montes da Borralheda abaixo, a falar sozinho:
- Sempre vais muito bêbado, Abel! Muito bêbado vais tu! Metes-te nele, bote lá mais um, ti Margarida, bote lá mais um, pronto... Agora pareces um milhafre a peneirar. E o pior é o resto: chegas a casa e já sabes: ninguém a atura. «Olha em que estado vem este excomungado! Dinheiro para comprar os precisos, não há; mas para encher os cornos de vinho, que não falte!» Há? É bonito, não é ? Claro, dás-lhe a resposta que merece:
«Cala-me essa boca, que já nem te enxergo bem, mulher! Deixa-te de cantigas, se não queres saber o gosto que o fado tem! Se bebo, bem haja eu.
Quanto mais, que é que eu bebi?! Dois quartilhos. Olha a grande coisa!...» Fica danada, e continua a ladrar: «Se vês que não estás farto, eu vou-te buscar mais à venda!...»
Riu-se.
- Que me dizes à piada, Abel? Que me dizes? Aquilo é que é uma bisca!
Parou. Encostou-se a um pinheiro e abriu a braguilha. Ficou uns segundos calado, feliz, a sentir-se aliviado. De repente, alarmou-se:
- Estás-te a mijar, Abel! Estás-te a mijar pelas pernas abaixo.
Compôs-se.
- Assim, sim! Ao som da urina a cair no chão, começou a cantar:

Caninha verde, ó minha verde caninha...

Passou gente.
- Isso é que é boa disposição!
- Regular. Emprenhei esta noite a patroa... Riu-se outra vez. Fechou a braguilha e continuou a cantar:

ó de encanar, 
Encanei para o teu peito, 
Quem me há-de de lá tirar?...

Arrastado pelo ritmo da própria voz, pôs-se a dançar. Mas, apenas deu duas voltas, enrodilharam-se-lhe as pernas e estatelou-se.
- Eu bem te digo que vais muito bêbado! Não acreditas...
Tentou levantar-se.
- Quê?! Não és capaz?! Essa agora! Coçou a cabeça, num exame de consciência. - É o vinho! É o ladrão do vinho. Não tenhas dúvidas.
Penitente, deu a mão à palmatória.
- Foi sempre o teu fraco, a pinguita! Coçou de novo a cabeça.
- Sabe-te bem... E afogas as mágoas... Ela é que não vai em cantigas, e a estas horas já te rezou o responso. Por isso, trata de te erguer.
Nada.
- Ai - ai, ai - ai! Estás a desconversar!
Num pânico inconformado, apelou para os seus brios.
- Então que raio de coragem é essa, camarada? Se dás parte de fraco, deixas-me ficar mal!
Insuflado de energia, iniciou terceira tentativa:
- Upa! Arriba, burro velho, que é maré. Upa!
Estava já quase em pé, mas não se susteve e caiu. Zangou-se: 
- Raios te partam e às pernas que tens! Podes ir à merda e mais elas!
Estendeu-se ao comprido no chão e deu um suspiro fundo, de bem-estar. Mas repreendeu-se logo.
- Sabia-te bem a coisa, não?! Isso sei eu! E depois ? E lá em casa, a senhora D. Maria?
Apesar da advertência, deixou-se ficar de barriga para o ar, a olhar o céu. Dos lados da Delegada vinha nascendo a lua cheia. Avivou a atenção:
- Já viste, Abel? já viste a lua? Ali, pedaço de asno! Mesmo em frente. Que grande lua! E corada, a figurona! Até parece que também lhe cascou...
Contente da chalaça, e de olhos muito arregalados, esqueceu-se do tempo, a namorar aquela congestão suspensa, espapaçado na doce almofada que era o caminho duro, ainda quente da torreira do dia. De repente, perguntou:
- Mas isto é vida, companheiro? Diz lá, francamente, se isto é vida?! Não é? Então, ala, toca a andar...
Depois dum grande esforço, conseguiu sentar-se.
- Ora vês?! A coisa vai. O que é preciso é calma.
Apesar das boas palavras da razão, o corpo não foi mais além.
- É o que eu digo: estás bêbado! Queres, mas não podes.
Abanou a cabeça, desiludido.
- Sempre cuidei que eras mais valente... Compadecido daquela miséria, numa voz íntima, terna, de quem fala a um amigo, procurou tirar alento da força da própria realidade.
- Ouve. Bebeste, bebeste, pronto: deu-te na fraqueza. Está certo. Mas a verdade é que tens de voltar para casa. Por isso, o remédio agora é fazer das tripas coração...
Nem se mexeu.
- Mau! Temos o caldo entornado! Assim, não! A ameaça de nada valeu. A lassidão que sentia era cada vez maior. E armou-se de paciência:
- Vá lá uma cigarrada, a ver se animas. Arranjas-me cada sarilho! Não tens juízo... Depois dá este resultado.
Desenterrou do bolso do colete uma pirisca, acendeu-a e lançou para longe o fósforo de cera ainda a arder.
Com o peito cheio de fumo, consolado, voltou à carga:
- A sério, a sério, que não es capaz? Tens a certeza, Abel? A certeza certezinha?
O fósforo que atirara fora pegou fogo ao panasco seco do monte. Uma brisa ligeira que se levantara avivou a chama e pô-la a caminhar.
Conscienciosamente, alarmou-se: 
- Vês? Vês o que fizeste? Agora não trates de apagar aquilo! Se te parecer, deixa queimar tudo!...
Disse, mas continuou como estava, a olhar uma touça de carqueja que começava a fumegar. Quando a labareda se abriu, excitou-se:
- Ó Abel! meu badana! Levanta-te! Reage, alma do diabo!
Pois sim. Ficou no mesmo sítio, incapaz dum gesto.
Teve um rebate de sincera contrição:
- Não vales a ponta dum corno! Andas para aí a presumir, e não há pandilha maior nas redondezas. Com meia canada de tinto, estás como hás-de ir!
O incêndio, tocado pelo vento que crescia, lavrava já pelo monte a cabo.
- Olha que arde tudo, Abel. Se não lhe acodes, é um ar que lhe dá! A secura é muita... E és tu o Único causador!
A lua, agora, vista através da borracheira e da sebe de lume, era uma brasa redonda. O Abel é que não se deixou corromper pela sugestão da imagem.
- Foste tu, não cuides lá! A lua está assim vermelha, mas não pega fogo ao mundo...
As labaredas não tinham parança. Sôfregas, corriam à porfia sobre o palhiço. Depois, lambido o chão, chegavam-se à casca dos pinheiros, agarravam-se a ela e trepavam pelos troncos acima como cobras. No alto, na rama, era duma bocada só.
O Abel assistia impotente àquela fúria destruidora. E, embora os olhos já lhe doessem e sentisse uma parte de si responsável perante não sabia que justiça, admirou o espectáculo.
- Lá que é bonito, é, sim senhor. Linda coisa. Um arraial e pêras!
Quebrou o enlevo para limpar a alma de qualquer conivência.
- É bonito, mas... Escusas de querer encobrir. Se alguém me perguntar, já sabes, digo a verdade.
Passou um coelho espavorido.
- Viste um coelho?! Aquilo é que levava uma
pressa! Ia com o rabo quente!...
O incêndio cada vez era maior. Num tojal, as lambras pareciam cabras às turras. Anoitecera, e, à medida que se toldava a luz, avivava-se mais o brasido. Os olhos do borracho, que o vinho e o clarão cegavam, fechavam-se numa teima de cortinas insubmissas. Contudo, mesmo nessa escuridão dos sentidos, o coitado lutava ainda:
- Ó criatura de Deus, lembra-te de que tens responsabilidades... Que és um pai de família... Que contas hás-de dar em casa, amanhã?
Os montes da Borralheda estavam agora transformados numa fornalha. A lua cheia, no céu, tinha uma cara larga, de abóbora iluminada por dentro.
Aos ouvidos do bêbado começaram a chegar, indistintos, sons tresmalhados. Prestou atenção. Eram gritos de gente que vinha acudir ao fogo. Ele é que infelizmente não podia fazer nada, por mais que quisesse...
Nisto, o estalo seco de uma corcódea a arder foi como um aguilhão que lhe espetassem. Sem consciência sequer do que fazia, num salto de mola, pôs-se em pé.
Esteve assim uns segundos, cego., pétreo, maciço, no limbo, opaco do ser e do não ser. Por fim, num relâmpago de libertação, abriu os olhos. O mar vermelho submergiu-o então como uma vaga. Deslumbrado, caiu redondo no chão.
Um sono fundo, pesado, começou a quebrá-lo todo. E daquela doçura que o invadia, uma célula só, fiel à dignidade da espécie, refilou ainda:
- Ao que chega um homem! É preciso não ter vergonha na cara... Ficar para aqui, num ermo destes, a dormir ao relento como um animal! E não cuides que é lá por causa dela que me incomodo. Que se lixe! É por ti, desgraçado...

Miguel Torga, Contos da Montanha