16/09/2007

O caixão de cristal

Eu devia ser lançada ao mar num caixão de cristal, como rezam as histórias... e fui.

O mar baloiçava-me.

Quem jamais teve esta sensação?

Baloiçava-me. Eu ia estendida ao comprido e de olhos muito abertos, perfeitamente imóvel. O meu caixão era cómodo. E foi correndo, seguindo. Lá muito longe, no mar alto, começou a ser sacudido e perdeu de todo a cal­ma. Entrou-me o medo no coração e olhei para os lados. Terríveis animais do mar se batiam à minha roda. Eu via eminentes espadas, medonhas, de água viva, e sentia uma chocalhada azoadora.

Quem jamais teve esta sensação?

O mar até perdera a cor, aquele azul e aquele verde que nos encantam. Era baço e sombrio, coberto de espuma suja e escamudo como um peixe. Mas não sei como tive um impulso salvador e escapei-me. Tornei a correr e a seguir livre de perigo. Pelo mar fora, sempre de olhos abertos, um murmurinho muito doce me emba­lava.

Quem jamais teve esta sensação?

O meu caixão era de puro cristal, transparente. A todo o momento me parecia que o mar e o céu se junta­vam para me engolirem. Era uma ilusão, uma curiosa ilusão.

Cobras de água, muito longas e esguias, enlaçavam-se no meu caixão. Eu nãos as temia. Suportava-lhes bem o olhar e sorria quando as via desfalecer. De outras vezes perse­guiam-me cisnes monstros, de asas em canoa. Eram espíri­tos castigados, eu sabia-o. Tanta coisa sabia, de ter ouvido em terra, aos serões! E os saltos e cabriolas dos peixes, uns que voavam, outros que mergulhavam, outros que desliza­vam. .. uns em forma de leque, outros de palma, outros de fuso... nem sei! Nada me cansava; tudo maravilhas.

Ai, quem jamais teve destas sensações?

Não sei como, uma corrente talvez, me trouxe para a costa. Choveram estrelas e eu entrei a bordejar no meio delas. Mas a chuva de estrelas era do sol... raiara a manhã. Vi grandes rochas entrando pelo mar dentro. O meu cai­xão evitava-as. Passei ao rés de um castelo. Três donzelas de luto estavam ao mirante. Choravam. Quis mandar--Ihes beijos. E elas viram-me. Coitadas, debruçaram-se a acenar-me, todas aflitas.

Mas eu ia sempre fugindo. Corria à flor do mar, com os olhos postos nas pobres. Talvez vivessem constrangidas. Teriam madrasta ou pai tirano. Sequestradas dos seus namorados, quem sabe?

Por fim os seus lenços encharcados de lágrimas caíram ao mar e vieram atrás de mim, como uns peixes, como uns pássaros...

Eu continuei, mas sempre à vista da costa, ora mais longe, ora mais perto. Que doce é a areia! Lençóis e len­çóis de brancura.

Quem jamais teve esta sensação?

Acentuou-se a calmaria e o meu caixão de manso baloiçava. Quase ia cerrando os meus olhos quando vejo, mas eu que vejo?

Um mancebo muito belo, bem vestido e bem armado, que me fitava com enlevo. Levava a mão ao coração e parecia querer arrancá-lo. Sorria-me, balbuciava... e eu que o não podia ouvir! Que pensar daquilo tudo? Se ao menos me pudesse erguer! Senti tamanha dor que dos olhos me começou a correr o pranto. Dois fios de lágri­mas contínuos, que me foram encharcando.

Ai, tornar à terra! era só o meu desejo.

Mas... e o mar que começou recuando, recuando? Traiçoeiro!

Vi luzir uma espada tão bela, tão bem temperada, tão formosa, que brilhava inteirinha ao sol. Era dele, do meu amado, que acometia o mar.

E que me parecia afinal o mar? Um monstro cobarde a negar-se.

Escarvava a areia e recuava, recuava...

Eu já estava inteiramente ensopada em lágrimas. Empalideceram-me as mãos e cerrei os olhos. Amor! ainda me dizia, já devagar, o coração.

Quando tornei a mim era noite alta e fazia um lindo luar. Nereidas, como julgo que se chamam, uns seres muito caprichosos, levantavam-me nos braços.

Quem jamais teve esta sensação?

Eu era oferecida em holocausto à lua.

Tão fria e tão rígida me pus que o peso do meu cai­xão venceu as nereidas, as adoradoras do pálido astro.

Senti-me descair, descair; eram os seus braços que des­faleciam, até que cheguei ao fundo do mar e lá fiquei.



Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma