08/08/2007

A volta do marido pródigo


Traços biográficos de Lalino Salãthiel ou a volta do marido pródigo


"Negra danada, siô, é Maria.
ela dá no coice, ela dá na guia,
lavando roupa na ventania.
Negro danado, siô, é Heitó
de calça branca, de paletó,
foi no inferno, mas não entrou!"

(cantiga de batuque, a grande velocidade)


- Ó seu Bicho-Cabaça!? Viu uma
velhinha passar por aí? ...
- Não vi velha, nem velhinha,
corre, corre, cabacinha.. .
Não vi velha nem velhinha!
Corre! corre! cabacinha .. .

(de uma estória.)


Nove horas e trinta. Um cincerro tilinta. É um burrinho, que vem sozinho, puxando o carroção. Patas em marcha matemática, andar consciencioso e macio, ele chega, de sobremão. Pára, no lugar justo onde tem de parar, e fecha imediatamente os olhos. Só depois é que o menino, que estava esperando, de cócoras, grita: - "Íssia!..." - e pega-lhe na rédea e o faz volver esquerda, e recuar cinco passadas. Pronto. O preto desaferrolha o taipal da traseira, e a terra vai caindo para o barranco. Os outros ajudam, com as pás. Seis minutos: o burrinho abre os olhos. O preto torna a aprumar o tabuleiro no eixo, e ergue o tampo de trás. O menino torna a pegar na rédea: direita, volver! Agora nem é preciso comandar: - "Vamos!"... - porque o burrico já saiu no mesmo passo, em rumo reto; e as rodas cobrem sempre os mesmos,sulcos no chão.

No meio do caminho, cruza-se com o burro pêlo-de-rato, que vem com o outro carroção. É o décimo terceiro encontro, hoje, e como ainda irão passar um pelo outro, sem falta, umas três vezes esse tanto - do aterro ao corte, do corte ao aterro - não se cumprimentam.

No corte, a turma do seu Marra bate rijo, de picareta, atacando no paredão pedrento a brutalidade cinzenta do gneiss. Bom trecho, pois, remunerador. Acolá, a turma dos espanhóis cavouca terra mole, xisto talcoso e micaxisto; e o chefe Garcia está irritado, porque, por causa disso, vão receber menos, por metro quadrado e metro cúbico. Adiante, uns homens colocando os paus no mata-burro. Essa outra gente, à beira, nada tem conosco: serviço particular de seu Remígio, dono das terras, que achou e está explorando uma jazida de amianto. E, mais adiante, o pessoal do Ludugéro, acabando de armar as longarinas da ponte.
Dez horas da manhã. A temperatura do ar prolonga a do corpo. Só se sabe do vento no balanço dos ramos extremos do eucalipto. Só se sabe do sol nas arestas dos quartzos - cada ponta de cristal irradiando em agulheiro. Cantos de canarinhos e pintassilgos, invisíveis. E cheiro de mato moço. Tudo muito bom. E isto aqui é um quilômetro da estrada-de-rodagem Belorizonte-São Paulo, em ativos trabalhos de construção.

Seu Marra fiscaliza e feitora. De vez em quando, pega também no pesado. Mas não tira os olhos da estrada.
Bem, buzinou. É o caminhão da empresa. Vem de voada. Diminuiu a marcha... Seu Waldemar, o encarregado, na boléia, com o chauffeur... O caminhão verde não pára... Mas, lá detrás, escorregando dos sacos e caixotes que vêm para o armazém, dependura o corpo para fora, oscila e pula, maneiro, Lalino Salãthiel.
Os trabalhadores cumprimentam seu Waldemar, seu Marra esboçou qualquer coisa assim como uma continência, seu Waldemar bateu mão e passou.
Agora seu Marra fecha a cara. Lalino Salãthiel vem bamboleando, sorridente. Blusa cáqui, com bolsinhos, lenço vermelho no pescoço, chapelão, polainas, e, no peito, um distintivo, não se sabe bem de quê. Tira o chapelão: cabelos pretíssimos, com as ondas refulgindo de brilhantina borora.
Os colegas põem muito escárnio nos sorrisos, mas Lalino dá o aspecto de quem estivesse recebendo uma ovação:
- Olá, Batista! Bastião, bom dia! Essa força como vai?!...
- Boa tarde!
Lalino tem um soberbo aprumo para andar.
- Ei, Túlio, cada vez mais, hein?
- An-han...
Lalino nunca foi soldado, mas sabe unir forte os calcanhares, ao defrontar seu Marra. E assenta os olhinhos gateados nos olhos severos do chefe.
- Bom dia, seu Marrinha! Como passou de ontem?
- Bem. Já sabe, não é? Só ganha meio dia.
E seu Marra saca o lápis e a caderneta, molha a ponta do dedo na língua, molha a ponta do lápis também, e toma nota, com a seriedade de quem assinasse uma sentença.
(Lá além, Generoso cutuca Tercino:
- Mulatinho descarado! Vai em festa, dorme que-horas, e, quando chega, ainda é todo enfeitado e salamistrão!...)
- Que é que eu hei de fazer, seu Marrinha... Amanheci com uma nelvralgia... Fiquei com cisma de apanhar friagem...
- Hum...
- Mas o senhor vai ver como eu toco o meu serviço e ainda faço este povo trabalhar...
- Não se venha! Deixa os outros em paz...
(Tercino apóia o pé no ferro da picareta; o que é que diz:
- Trabalhar é que não trabalha. Se encosta p'ra cima, e fica contando história e cozinhando o galo...
- Também, no final, ganha feito todos, porque, os que são mão, dão trela!
E Pintão golpeia com o dorso da pá, sem dó nem piedade, fazendo-a rilhar nos torrões.)
Lalino passa a mão, ajeitando a pastinha, e puxa mais para fora o lencinho do bolso.
- Vou p'r'a luta, e tiro o atraso!... Mas, que dia, hein, seu Marra?!
- Tu está fagueiro... Dormiu mais do que o catre...
- Falar nisso, seu Marrinha, eu me alembrei hoje cedo de outro teatrinho, que a companhia levou, lá no Bagre: é o drama do "Visconde Sedutor"... Vou pensar melhor, depois lhe conto. Esse é que a gente podia representar...
(Pintão suou para desprender um pedrouço, e teve de pular para trás, para que a laje lhe não esmagasse um pé. Pragueja:
- Quem não tem brio engorda!
- É... Esse sujeito só é isso, e mais isso... - opina Sidú.
- Também, tudo p'ra ele sai bom, e no fim dá certo... - diz Correia, suspirando e retomando o enxadão. - "P'ra uns, as vacas morrem... p'ra outros até boi pega a parir...”)

Seu Marra já concordou:
- Está bem, seu Laio, por hoje, como foi por doença, eu aponto o dia todo. Que é a última vez! ... E agora, deixa de conversa fiada e vai pegando a ferramenta!
- Já, já, seu Marrinha. "Quem não trabuca, não manduca"!...

Seu Marra sente-se obrigado a dar as costas. Opor carranca não adianta. Lalino vai para o meio dos outros, assoviando. Leva minutos para arregaçar bem as mangas. E logo comenta, risonho e burlão:
- Xi, Correia!...
- Que é, comigo?
- P'ra que é que você põe tanto braço no braçal? Com menos força e mais de jeito, você faz o mesmo serviço, sem carecer de ficar suando, pé-de-couve no chuvisco!
- É... Mas, muito em-antes de muita gente nascer, eu...
- Você já penava que nem duas juntas de bois, p'ra puxar um feixinho de lenha, não é, fumaça?... Qual, eu estou é brincando... (Correia tinha feito uma cara ruim...) Lá até -que é um arraial supimpa, com a igrejinha trepada, bem no monte do morro... E as terras então, hein, Correia?! P'ra cana, p’ra tudo! (Correia se praz)... Eu acho que- nunca vi espigas de milho tão como as de lá...
- É. A terra é boa...
- Caprichada! E ainda estou por conhecer lugar melhor para se viver. Essa gente da Conquista é que diz que lá só tem fumaça de pretos... Mas isso é inveja, mas muita! (Lalino passou a declamar:) Qual!... Criação de cavalo, é no Passa-Tempo... Povo p'ra saber discurso, no Dom Silvério... E, festa de igreja, no Japão... Mas, terra boa, de verdade, e gente boa de coração, isso é só lá no Rio-doPeixe!
- Serve... Serve, seu Laio...
- Ah, eu ainda hei de poder arranjar dinheiro p'ra comprar uns dez alqueires ali por perto, só de mato-de-lei... Ui, que você é um mestre neste serviço, que até dá gosto ver!... (Correia descuidou sua tarefa, e agora bate picareta para Lalino, que põe mão na cintura e não pára de discorrer...) É isso! Mando levantar casa, com jardim em redor, mas só com flor do mato: parasitas, de todas... E uma cerquinha de bambu, com trepadeira p'ra alastrar e tapar, misturadas, de toda cor... Onde foi mesmo que eu vi, assim?... Bom, depois compro mais terra... Imagina só: quero um chiqueiro grande, bem fechado, e nele botar pacas... Vou criar! Aquilo é fácil... Ficam mansinhas e gordas, que nem porco... Levando lá no Belorizonte, faço freguesia... Um tanque grande... Criar capivaras também: o óleo, só, já dá um dinheirão!...
- Tu é besta, Correia! Cavacando, aí, p'ra outro... - zomba Generoso, que parou para enrolar um cigarro.
- Te sara de invejas, siô! Pode ver ninguém com amizade, que já começa intrigando?... Caroço! ... Ah, há-te, espera: hoje eu tenho uma marca boa... - E Lalino estende o maço de cigarros. - Pode tirar mais. Vocês, eh, também?... (Generoso aceita, calada a boca, porque é Bovino razoável e sabe ser grato, valendo a pena.) Estou contando aqui um arranjo... Vocês, eu aposto que nunca pensaram em ter um galinheiro enorme, cheio de jacus, de perdizes, de codornas... Mas hei de plantar também uma chácara, como ninguém não viu, com as qualidades de frutas... Até azeitona!
- Ara, azeitona de lata não pega! não dá!
- Ora se dá! Vocês ainda hão... Compro breve meus alqueirinhos, e há de ser no Brumadinho, beira da estradade-ferro...
- Oh, seu Laio!... Pois, no começo, não estava dizendo que era lá na minha terra, no Rio-do-Peixe?!...
- Sim, sim, é no Rio-do-Peixe mesmo, Correia! Falei variado, foi por esquecimentos... Mas, melhor é o ror de enxertos que vou inventar: laranja-de-abril em goiabeiras... Limão-doce no pé de pêssego... Vai ver, cada fruta, diferente de todas que há...
- Não pega!
- Pega! Deve de ser custoso, mas tem de se existir um jeito...
Mas Tercino, que é dono de um relógio quase do tamanho de um punho, olha as horas e olha depois o sol, para ter bem a certeza, e grita:
- Vamos boiar, gente... Está na hora do almoço!
A turma vem para as marmitas. Tercino acende um foguinho, para aquentar a sua. Lalino trouxe apenas um pão-com-lingüiça.
- Isso de carregar comida cozinhada de madrugadinha, p'ra depois comer requentada, não é minha regra. O coisa, ô Sidú! Por que é que você está triste, homem?... Falar nisso, hoje de noite, se seu Marrinha arranjar o merenguém, eu meio que pago cerveja. Feito?... A gente podia chamar o Lourival, com a sanfona. Isto aqui está ficando choroso demais... Viva, Conrado! Tu veio espiar o que a gente está comendo? Foi a espanholada quem mandou você vir bater panela aqui?
Generoso e Correia se afastaram, catando gravetos. Generoso tem maus bofes:
- O que esse me arrelia, com o jeito de não se importar com nada! Só falando, e se rindo contando vantagens... Parece que vê passarinho verde toda-a-hora... Se reveste de bobo!
- É, mas, seja não: é só esperto, que nem mico-estrela... E Correia se volta, para rever furtadamente o mulatinho, que lá gesticula, animado, no meio da roda.
- Prosa, só... Pirão d'água sem farinha! ... Era melhor que ele olhasse p'r'a sua obrigação... Uns acham um assim sabido, que é muito ladino; mas, como é que não enxerga que o Ramiro espanhol anda rondando por perto da mulher dele?!
- Séria ela é, seu Generoso. Ela gosta dele, muito...
- É, mas, quem tem mulher bonita e nova, deve de trazer debaixo de olho... - E Generoso estalou um muxoxo: - Eu, tem hora que eu acho que ele é sem-brio, que não se importa... Mas agora eu vou falar com ele, vou chamar à ordem...
- Acho que o senhor devia de não mexer com essas coisas, de família-dos-outros, seu Generoso. Isso nunca que dá certo!
- Tem perigo não... Só dar as indiretas!
Lalino tinha-se sentado num toco, perto das soqueiras das bananeiras, e os outros rodeavam-no, todos de cócoras. Mas chega Generoso, com a língua mesmo querente:
- Então, seu Laio, esse negócio mesmo do espanhol...
- Ara, Generoso! Vem você com espanhol, espanhol!... Eu já estou farto dessa espanholaria toda... Inda se fosse alguma espanhola, isto sim!
- Mas, escuta aqui, seu Laio: o que eu estou falando é outra coisa...
- É nada. Mas, as espanholas!... Aposto que vocês nunca viram uma espanhola... Já?... Também, - Lalino ri com cartas - também aqui ninguém não conhece o Rio de janeiro, conhece? ... Pois, se algum morrer sem conhecer, vê é o inferno!
- Ara, coisa!
- Tem lugar lá, que de dia e de noite está cheio de mulheres, só de mulheres bonitas!... Mas, bonitas de verdade, feito santa moça, feito retrato de folhinha... Tem de toda qualidade: francesa, alemanha, turca, italiana, gringa... É só a gente chegar e escolher... Elas ficam nas janelas e nas portas, vestindo de pijama... de menos ainda... Só vendo, seus mandioqueiros! Cambada de capiaus!...
Desta vez a turma está anzolada. Alargam as ventas, para se caber, rebebem as palavras. Lalino acertou. Faz um silêncio, para a estupefação. E principalmente para poder forjar novos aspectos, porque também ele, Eulálio de Souza Salãthiel, do Em-Pé-na-Lagoa, nunca passou além de Congonhas, na bitola larga, nem de Sabará, na bitolinha, e, portanto, jamais pôs os pés na grande capital. Mas o que não é barra que o detenha:
- Em nem sei como é que vocês ficam por aqui, trabalhando tanto, p'ra gastarem o dinheirinho suado, com essas negras, com essas roxas descalças... Me dá até vergonha, por vocês, de ver tanta falta de vontade de ter progresso! Caso que não podem fazer nem uma idéia... Cada lourinha, upa!... As francesas têm olho azul, usam perfume... E muitas são novas, parecendo até moça-de-família... Pintadas que nem as de circo-de-cavalinho...
E tudo na seda, calçadas de chinelinhos de salto, vermelhos, verdes, azuis... E é só "querido" p'ra cá, "querido" p'ra lá... A gente fica até sem jeito...
- Ó seu Laio! Faz favor!
É seu Marrinha chamando. Lalino se levanta, soflagrado, e os ouvintes resmungam contra o chefe-da-turma, assim com caras.
- Acabou de almoçar, seu Laio?
- Estou acabando... Meu almoço é isto aqui...
E Lalino ferra os dentes no seu sanduíche, que, por falta de tempo, está ainda intacto.

Seu Marra tem noção de hierarquia e tacto suficiente. Começa:
- Olha, seu Laio, eu lhe chamei, para lhe aconselhar. A coisa assim não vai!... Seu serviço precisa de render...
- Pois, hoje, eu estou com uma coragem mesmo doida de trabalhar, seu Marrinha!...
- É bom... Carece de tomar jeito!... O senhor é um rapaz inteligente, de boa figura... Precisa de dar exemplo aos outros... Eu cá, palavra que até gosto de gente assim, que sabe conversar... que tem rompante... Até servia para fazer o papel do moço-que-acaba-casando, no teatro...

Seu Marra foi muito displicente no final. Deu a deixa, e agora olha para o matinho lá longe, esperando réplica.
Mas não pega. Não pega, porque, se bem que Lalino esteja cansado de saber o que é que o outro deseja, não o pode atender: do Visconde Sedutor mal conhece o título, ouvido em qualquer parte.
- Qual, isso é bondade sua, seu Marrinha... São seus olhos melhores...
- Não. Eu sou muito franco... Quando falo que é, é porque é mesmo... (Pausa)... Quem sabe, a gente podia representar esse drama, hem seu Laio?... Como é que chama mesmo?... "O Visconde Sedutor"... Foi o que você disse, não foi?
- Isso mesmo, seu Marrinha.
Definição, amável mas enérgica:
- Bem, seu Laio. Vamos sentar aqui nestas pedras e você vai me contar a peça.
Agora não tem outro jeito. Mas Lalino não se aperta: há atualmente nos seus miolos uma circunvoluçãozinha qualquer, com vapor solto e freios frouxos, e tanto melhor.
- O primeiro ato, é assim, seu Marrinha: quando levanta o pano, e uma casa de mulheres. O Visconde, mais os companheiros, estão bebendo junto com elas, apreciando música, dançando... Tem umas vinte, todas bonitas, umas vestidas de luxo, outras assim... sem roupa nenhuma quase...
- Tu está louco, seu Laio!?... Onde que já se viu esse despropósito?!... Até o povo jogava pedra e dava tiro em cima!... Nem o subdelegado não deixava' a gente aparecer com isso em palco... E as famílias, homem? Eu quero é levar peça para famílias... Você não estará inventando? Onde foi que tu viu isso?
- Ora, seu Marrinha, pois onde é que havia de ser?!... No Rio de Janeiro! Na capital... Isso é teatro de gente escovada...
- Mas, você não disse, antes, que tinha sido companhia, lá no Bagre?
- Cabeça ruim minha. Depois me alembrei... No Bagre eu vi foi a "Vingança do Bastardo"... Sabe? Um rapaz rico que descobriu que a...
- Espera! Espera, homem... Vamos devagar com o terço. Primeiro o "Visconde Sedutor". Acaba de contar.
- Bem, as mulheres são francesas, espanholas, italianas, e tudo, falando estrangeirado, fumando cigarros...
- Mas, seu Laio! Onde é que a gente vai arranjar mulher aqui para representar isso?... De que jeito?!
- Ora, a gente manda vir umas raparigas daí de perto...
- Deus me livre!
- Ou então, seu Marra, os homens mesmo podem fantasiar de mulher... Fica até bom... No teatro que seu Vigário arranjou, quando levaram a...
- Aquilo nem foi teatro! Vida de santo, bobagem! Bem, conta, conta seu Laio... Depois a gente vai ver.
- Bom, tem uma francesa mais bonita de todas, lourinha, com olhos azulzinhos, com vestido aberto nas costas... muito pintada, linda mesmo... que senta no colo do Visconde e faz festa no queixo dele... depois abraça e beija...
- Espera um pouco, seu Laio...
É o caminhão da empresa, que vem de volta. Parou.
- Alguma coisa, seu Waldemar? - pergunta seu Marra.
- Nada, não. Quero só lembrar a esse seu Lalino, que ele não deixe de ir hoje. Está ensinando a patroa a tocar violão, mas já tem dias que ele não aparece lá em casa...
- Foi por doença, seu Waldemar... E, trasantontem, umas visitas, que me empalharam de ir...
- Bem, bem, mas seja, hoje não tem desculpa. E, olhe: um dia é um dia: pode chegar para jantar... No em-ponto!

Seu Marra se lembrou de qualquer assunto:
- Bem, seu Laio, o senhor agora pode ir. Eu tenho uma conversa particular, aqui com seu Waldemar.
- Pois não, seu Marrinha, depois o resto eu conto. Adeusinho, seu Waldemar, até mais logo!
Lalino se afasta com o andar pachola, esboçando uns meios passos de corta-jaca, e seu Waldemar o acompanha, com olhar complacente.
- Mulatinho levado! Entendo um assim, por ser divertido. E não é de adulador, mais sei que não é covarde. Agrada a gente, porque é alegre e quer ver todo-o-mundo alegre, perto de si. Isso, que remoça. Isso é reger o viver.

- É o que eu acho... Só o que tem, que, às vezes, os outros podem aprovar mal o exemplo...

- Concordo. Já pensei, também. Vou arranjar para ele um serviço à parte, no armazém ou no escritório... E é o que convém, logo: veja só...

Lalino, que empunha a picareta, comandando o retorno à lida, e tirando, para que os outros o acompanhem, desafinadíssimo, um coco:


"Eu vou ralando o coco,
ralando até aqui.. .
Eu vou ralando o coco,
morena,
o coco do ouricuri!...”

E, aí, com a partida de seu Waldemar, a cena se encerra completa, ao modo de um final de primeiro ato.

II

Nessa tarde, Lalino Salãthiel não pagou cerveja para os companheiros, nem foi jantar com seu Waldemar. Foi, sim, para casa, muito cedo, para a mulher, que recebeu, entre espantada e feliz, aquele saimento de carinhos e requintes. Porque ela o bem-queria muito. Tonto, que, quando ele adormeceu, com seu jeito de dormir profundo, parecendo muito um morto, Maria Rita ainda ficou longo tempo curvada sobre as formas tranqüilas e o rosto de garoto cansado, envolvendo-o num olhar de restante ternura.
Na manhã depois, vendo que o marido não ia trabalhar, esperou ela o milagre de uma nova lua-de-mel. Enfeitou-se melhor, e, silenciosa, com quieta vigilância, desenrolava, dedo a dedo, palmo a palmo, o grande jogo, a teia sorrateira que às mulheres ninguém precisa de ensinar.
Mas, agora, Lalino andava pela casa e fumava, pensando, o que a alarmava, por inabitual. Depois ele remexeu no fundo da mala. No fundo da mala havia uns números velhos de almanaques e revistas.
E Lalino buscava as figuras c fotografias de mulheres. É, devia de ser assim... Feito esta. Janelas com venezianas... Ruas e mais ruas, com elas... Quem foi que falou em gringas, em polacas?... Sim, foi o Sizino Baiano, o marinheiro, com o peito e os braços cheios de tatuagens, que nem turco mascate-de-baú... Mas, os retratos, quem tinha era o Gestal guarda-freios: uma gorda... uma de pintinhas na cara... uma ainda quase menina... Chinelinhos de salto, verdes, azuis, vermelhos... Quem foi que falou isso? Ah, ninguém me disse, foi ele mesmo quem falou... E aquela gente da turma, acreditando em tudo, e gostando! Mas, deve de ser assim. Igual ao na revista, claro...

Maria Rita, na cozinha, arruma as vasilhas na prateleira. Não sabe de nada, mas o arcanjo-da-guarda das mulheres está induzindo-a a dar a última investida, está mandando que ela cante, com tristeza na voz, o: "Eu vim de longe, bem de longe, p'ra te ver..."

... Bem boazinha que ela é... E bonita... (Agora, como quem se esconde em neutro espaço, Lalino demora os olhos nos quadros de guerras antigas, nessas figuras que parecem as da História Sagrada, no plano de um étero-avião transplanetário, numa paisagem africana, com um locomovente rinoceronte...) Mas, são muitas... Mais de cem?...

Mil?!... E é só escolher: louras, de olhos verdes... É, Maria Rita gosta dele, mas... Gosta, como toda mulher gosta, aí está. Gostasse especial, mesmo, não chorava com saudades da mãe... Não ralhava zangada por conta d'ele se rapaziar com os companheiros, não achava ruim seu jeito de viver... Gostasse, brigavam?

E na revista de cinema havia uma deusa loira, com lindos pés desnudos, e uma outra, morena, com muita pose e roupa pouca; e Maria Rita perdeu.

... Bom, quem pensa, avéssa! Vamos tocar violão...

Depois do almoço, saiu. Andou, andou. E se resolveu.

Foi fácil. Tinha algum saldo, pouco. João Carmelo comprava o carroção e o burrinho. Seu Marra fez o que pôde para dissuadi-lo; depois, disse: - "Está direito. Você é mesmo maluco, mas mais o mundo não é exato. Se veja..."

- O pagamento, porém, tinha de ser em apólices do Estado, ao menos metade.

- Sim sim, está direito, seu Marrinha. Em ótimo! - Porque a ação tinha de ser depressinha, depressa, não de dúvidas... E Lalino dava passos aflitos e ajeitava o pescoço da camisa, sem sossego e sem assento.

Com seu Waldemar, foi mais árduo, ele ainda perguntou: - "Mas que é que já vai fazer, seu Lalino?... Quer a vagabundagem inteirada?" - Vou p'ra o Belorizonte... Arranjeizinho lá um lugar de guarda-civil... O senhor sabe: é bom ir ver. Mas um dia a gente volta! - "Mentira pura, a mim tu não engana... Mas deve de ir... Em qualquer parte que tu 'teja, tu 'tá em casa... Podem te levar denoite p'r'a estranja ou p'r'a China, e largar lá errado dormindo, que de-manhã já acorda engazopando os japonês!"...

- Adeus, seu Waldemar!

Mas, dez passos feitos, volta-se com uma micagem:

- Adeus, seu Waldemar!... "Fé em Deus, e... unha no povo!"...

Tinha oitocentos e cinqüenta mil-réis. Mas, vendidas as apólices para o Viana, deram seiscentos. Bom, agora era o pior... E, até chegar perto de casa, escarafunchava na memória todos os pequenos defeitos da mulher...

Mas, quem é aquele? Ah, é o atrevido do espanhol, que está rabeando. Bem... Bem.

Seu Ramiro, quis, mas não pôde esquivar-se. Bestalhão e bigodudo, arranja um riso fora-de-horas, e faz, apressado, um rapapé:

- Como lhe vão as saúdes, senhor Eulálio? Estava cá aguardando a sua vinda, a perguntar-lhe se há que haver mesmo uma festinha hoje, donde os Moreiras... É dizer, a festa, sei que vai ser, mas queria saber... queria saber se o senhor também...

(Nada importa. Foi o diabo quem mandou o espanhol aqui... Ele tem muito dinheiro junto, é o que o povo diz.)

- Seu Ramiro, se chegue. Escuta: tenho um particular, muito importante, com o senhor...

- Mas, senhor Eulálio, eu lhe garanto... À ordem, senhor Eulálio... Que há? O senhor sabe, que, a mim, eu gosto de estimar e respeitar os meus amigos e, grande principalmente, as suas famílias excelentíssimas...

(É preciso um sorriso, um só, senão o espanhol fica com medo. Mas, depois, fecha-se a cara, para a boa decência...)

- Eu sei, eu sei. Olhe aqui, seu Ramiro: eu quero é que o senhor me empreste um dinheiro. Uns dois contos de réis... Feito?

- Mas, senhor Eulálio... O senhor sabe... As posses não dão... As coisas...

- Olhe, seu Ramiro... a estória é séria... Eu vou-m'embora daqui. A mulher fica... Vou me separar... Ela não sabe de nada, porque eu vou assim meio assim, de

fugido... O senhor me empresta o dinheiro, que é o que falta. Senão, eu não posso ir... É só emprestado. Daqui a uns seis meses, lhe pago. Mando. Tenho um emprego bom, arranjei - vou ser tocador de bonde, no Rio de Janeiro... Se não, eu não posso ir... (Agora é a hora de uma série de ares.) Sem dinheiro, não vou. Não vou ir... Como é que posso?!...

O espanhol está com os beiços trêmulos e alisa a dedos a aba do paletó.

- Com que... mas, o senhor está declarando, senhor Eulálio? Por se acaso, não vai se arrepender... Nunca mais voltará aqui, o afirma?

- De certo que não. Não seja! (Lalino tem outro acesso de precipitação:) Ixe, já viu sapo não querer a água?! Então, arranja o cobre, não é? Mas tem que ser é p'r'agorinha...

- Mire: um conto eu posso... Fazendo um sacrificiozinho, caramba!

- Serve, serve. Mas é de indo já buscar, que o caminhão sai em pouco p'ra o Brumadinho... A já!

Agora, entra ou não entra em casa? Não tem que levar nada, senão a mulher desconfia... Mas entra: o coração está mandando que ele vá se despedir... E pega a brincar. Maria Rita está no diário, está normalmente. Brincando, brincando, Lalino lhe dá um abraço, apertado.

- Você é bobo... Laio... - ela diz, enjoosa.

Agora, disfarçando, ele póe uma nota de quinhentos em cima da mesa... vamos! Senão a coragem se estraga.

- Você já vai sair outra vez?

- Vou ali, ver o-quê que o Tercino quer...

O Ramiro espanhol, soprando de cansado, já está lá debaixo do tamarindeiro. Trouxe, certo, um conto, em cédulas de cem.

- Tudo num santiamén, senhor Eulálio... Mire o que digo...

- Té quando Deus quiser! O dinheiro eu lhe mando, seu Ramiro.

Vai afadigado. Sobe para o lado do chauffeur.

- Não carece de buzinar, seu Miranda... Vamos ligeiro...

Brumadinho, enfim. Ainda não estão vendendo passagens. - Vem tomar uma cerveja, seu Miranda. Oi! Que é aquilo, meu-deus? Ah, é a ciganada que está indo embora. Pegaram um dinheirão, levando gente de automóvel p'r'a Santa Manoelina dos Coqueiros, que agora está no Dom Silvério. Olha: tem uma ciganinha bem bonita. Mas isto é povo muito sujo, seu Miranda. Não chegam aos pés das francesas... Seu Miranda, escuta: vou lhe pedir um favor.

- Que é, seu Laio?

- Olha, fala com a Ritinha que eu não volto mais, mesmo nunca. Vou sair por esse mundo, zanzando. Como eu não presto, ela não perde... Diz a ela que pode fazer o que entender... que eu não volto, nunca mais...

- Mas, seu Laio... Isso é uma ação de cachorro! Ela é sua mulher! ...

- Olha, seu Miranda: eu, com o senhor, de qualquer jeito: à mão, a tiro, ou a pau, o senhor não pode comigo - isto é - não é?... Então, bem, eu sei que não é por mal, que o senhor está falando. E agora eu não quero me amofinar, não tenho tempo p'ra estragar a cabeça com raiva nenhuma à toa-à toa. Sou boi bravo nem cachorro danado, p'ra me enraivar? Mas, é bom o senhor pensar um pouco, em antes de falar, hem?

- Bom, eu não tenho nada com coisas dos outros...

- E, é. Quiser dar o recado, dá. Não quiser, faz de conta.

Apitou. O trem.

- Adeus, seu Miranda!... Me desculpe as coisas pesadas que eu falei, que é porque eu estou meio nervoso...

- Inda está em tempo de ter juízo, seu Laio! O senhor pode merecer um castigo de Deus...

- Que nada, seu Miranda! Deus está certo comigo, e eu com ele. Isto agora é que é assunto meu particular... Alegrias, seu Miranda!

- Não vai, não, seu Laio! Pensa bem...

Nos pântanos da beira do Paraopeba, também os sapos diziam adeus. Ou talvez estivessem gritando, apenas: - Não! Não! Não! ... Bão! Bão! Bão!... - em notável e aquática discordância.

E foi assim, por um dia haver discursado demais numa pausa de hora de almoço, que Eulálio de Souza Salãthiel veio a tomar uma vez o trem das oito e cinqüenta e cinco, sem bênçãos e sem matalotagem, e com o bolso do dinheiro defendido por um alfinete-de-mola. Procurou assento, recostou-se, e fechou os olhos, saboreando a trepidação e sonhando - sonhos errados por excesso - com o determinado ponto, em cidade, onde odaliscas veteranas apregoavam aos transeuntes, com frinéica desenvoltura, o amor: bom, barato e bonito, como o queriam os deuses.

III

Um mês depois, Maria Rita ainda vivia chorando, em casa.

Três meses passados, Maria Rita estava morando com o espanhol.

E todo-o-mundo dizia que ela tinha feito muito bem, e os que diferiam dessa opinião não eram indivíduos desinteressados. E diziam também que o marido era um canalha, que tinha vendido a mulher. E que o Ramiro espanhol era um homem de bem, porque estava protegendo a abandonada, evitando que ela caísse na má vida.

Mas, no final dos coméhtários, infalível era a harmonia, em sensata convergência:

- Mulatinho indecente! Cachorro lambeu a vergonha da cara dele! Sujeito ordinário!... Eu em algum dia me encontrar com ele, vou cuspindo na fuça!... Arre, nojo!... Tem cada um traste neste mundo!...

E assim se passou mais de meio ano. O trecho da rodovia ficou pronto. O pessoal de fora tomou rumo, com carroções e muares, famílias e ferramentas, e bolsos cheios de apólices, procurando outras construções.

Mas os espanhóis ficaram. Compraram um sítio, de sociedade. E fizeram relações e se fizeram muito conceituados, porque, ali, ter um pedaço de terra era uma garantia e um título de naturalização.

IV

As aventuras de Lalino Salãthiel na capital do país foram bonitas, mas só podem ser pensadas e não contadas, porque no meio houve demasia de imoralidade. Todavia, convenientemente expurgadas, talvez mais tarde apareçam, juntamente com a estória daquela rã catacega, que, trepando na laje e vendo o areal rebrilhante à soalheira, gritou - "Eh, aguão!..." - e pulou com gosto, e, queimando as patinhas, deu outro pulo depressa para trás.

Portanto: não, não fartava. As húris eram interesseiras, diversas em tudo, indiferentes, apressadas, um desastre; não prezavam discursos, não queriam saber de românticas histórias. A vida... Na Ritinha, nem não devia de pensar. Mas, aquelas mulheres, de gozo e bordel, as bonitas, as lindas, mesmo, mas que navegavam em desafino com a gente, assim em apartado, no real. Ah, era um outro sistema.

Aquilo cansava, os ares. Haia mal o sossego, demais. Ah, ali não valia a pena.

Ir-se embora? Não. O ruim era só no começo; por causa da inveja e das pragas dos outros, lá no arraial... Talvez, também, a Ritinha estivesse fazendo feitiços, para ele voltar... Nunca.

Caiu na estrepolia: que pândega! Antes magro e solto do que gordo e não... Que pândega!

Mas, um indivíduo, de bom valor e alguma idéia, leva no máximo um ano, para se convencer de que a aventura, sucessiva e dispersa, aturde e acende, sem bastar. E Lalino Salãthiel, dados os dados, precisava apenas de metade do tempo, para chegar ao dobro da conclusão.

O dinheiro se fora. Rareavam os biscates. Veio uma espécie de princípio de tristeza. E ele ficou entibiado e pegou a saudadear.

Foi quando estava jantando, no chinês:

- E se eu voltasse p'ra lá? É, volto! P'ra ver a cara que aquela gente vai fazer quando me ver...

Deu uma gargalhada de homem gordo, e, posto de lado o dinheiro para a passagem de segunda, organizou o programa de despedida: uma semaninha inteira de esbórnia e fuzuê.

A semana deu os seus dias.

Quando entrou no carro, aconteceu que ele teve vontade de procurar um canto discreto, para chorar. Mas achou mais útil recordar, a meia-voz, todas as cantigas conhecidas. Um paraibano, que vinha também, gostou. Garraram a se ensinar, letras e tons, tudo ótimo.

E, tarde da madrugada, com o trem a rolar barulhento nas goelas da Mantiqueira, no meio do frio bonito, que mesmo no verão ali está sempre tinindo...:

- Quero só ver a cara daquela gente, quando eles me enxergarem!...

Riu, e aquele foi o seu último pensamento, antes de dormir. Desse jeito, não teve outro remédio senão despertar, no outro dia, pomposamente, terrivelmente feliz.

V

Quando Lalino Salãthiel, atravessado o arraial, chegou em casa do espanhol, já estava cansado de inventar espírito, pois só com boas respostas é que ia podendo enfrentar às interpelações e as chufas do pessoal.

- Eta, gente! Já estavam mesmo com saudade de mim...

Ramiro viu-o da janela, e sumiu-se lá dentro.

Foi amoitar a Ritinha e pegar arma de fogo... - Lalino pensou.

Já o outro assomava à porta, que, por sinal, fechou meticulosamente atrás de si. E caminhou para o meio da estrada, pálido, torcendo o bigode de pontas centrípetas.

- Com'passou, seu Ramiro? Bem?

- Bem, graças... O senhor a que vem?... Não disse que não voltava nunca mais?... Que pretende fazer aqui?

- Tive de vir, e aproveitei para lhe trazer o seu dinheiro, para lhe pagar...

(Ainda bem! - o espanhol respira. - Então, ele não veio para desnegociar.)

- Mas, não é nada... Não é necessário. Nada tem que me pagar... Em vista de certos acontecidos, como o senhor deve saber... eu... Bem, se veio só por isso, não me deve mais nada, caramba!

(Agora é Lalino - que não tem tostão no bolso - quem se soluciona:)

- Bem, se o senhor dá a conta por liquidada, eu lhe pego da palavra, porque "sal da seca é que engorda o gado!..." O dinheiro estava aqui na algibeira, mas, já que está tudo quites, acabou-se. Não sou homem soberbo!... Mas, olha aqui, espanhol: eu não tenho combinado nenhum com você, ouviu?! Tenho compromisso com ninguém!

- Mas, certo o senhor Eulálio não vai a quedar-se residindo aqui, não é verdade? Ao melhor, pelo visto, estou seguro de que o senhor se vai...

- Que nada, seu espanhol!... Não tenho que dar satisfação a ninguém, tenho?... E agora, outra coisa: eu quero-porque-quero conversar com a Ritinha!

Lalino batera a mão no cinturão, na coronha do revólver, como por algum mal, e estava com os olhos nos do outro, fincados. Mas, para surpresa, o espanhol aquiesceu:

- Pois não, senhor Eulálio. Comigo perto, consinto... Mas não lhe aproveita, que ela não o quer ver nem em pinturas!

Lalino titubeia. Decerto, se o Ramiro está tão de acordo, é porque sabe que a Ritinha está impossível mesmo, em piores hojes.

- Qual, resolvi... Bobagem. Quero ver mais a minha mulher também não... O que eu preciso é do meu violão... Está aí, hem?

- Como queira, senhor Eulálio... vou buscar o instrumento... Um momentito.

Lalino se põe de cócoras, de costas para a casa, para estar já debochando do espanhol, quando o cujo voltar.

- Aqui está, senhor Eulálio. Ninguém lhe buliu. Não se o tirou do encapado... Há mais umas roupas e algumas coisitas suas, de maneiras que... Onde as devo fazer entregar?...

- Depois mando buscar. Não carece de tomar trabalho. Bem, tenho mais nada que conversar. Espera, o senhor está tratando bem da Ritinha? Ahn, não é por nada não. Mas, se eu souber que ela está sendo judiada...! Bem. Até outro dia, espanhol.

- Passe bem, senhor Eulálio. Deus o leve...

Mas Lalino não sabe sumir-se sem executar o seu sestro, o volta-face gaiato:

- O espanhol! Quando tu vinha na minha porta, eu te mandava entrar p'ra tomar um café com quitanda, não era?

- Oh, senhor Eulálio! Me desculpe... mas...

- Você é tudo, bigodudo!... Não vê que eu estou é arrenegando?!

Sobre o que, Ramiro vê o outro se afastar, sem mais, no gingar, em arte de moleque capadócio.

E talvez Lalino fosse pensando: - Está aí um que está rezando p'ra eu levar sumiço... Eu quisesse, à força, hoje mesmo a Ritinha vinha comigo... E se... Ah, mas tem os outros espanhóis, também... Diabo! É, então vamos ver como é que a abóbora alastra... e deixa o tiziu mudar as penas, p'ra depois cantar...

Olhou se o pinho estava com todas as cordas.

- Vou visitar seu Marrinha...

No caminho, cruza com o Jijo, que torce a cara, respondendo mal ao cumprimento.

- Onde é que vai indo, seu Jijo?

- Vou no sítio. Estou trabalhando p'ra seu Ramiro mais seu Garcia.

- E p'ra seu Echeviro e seu Saturnino e seu Queiroga, e p'r'a espanholada toda, não é? Mas, então, seu Jijo, você não tem vergonha de trabalhar p'ra esses gringos, p'ra uns estranjas, gente essa, gente à-toa?!

- Eu acho pouca-vergonha maior é...

- Olha, seu Jijo, pois enquanto você estiver ajustado com esse pessoal, nem me fale, hein?!... Nem quero que me dê bom-dia!... Olha: eu estou vindo da capital: lá, quem trabalha p'ra estrangeiro, principalmente p'ra espanhol, não vale mais nada, fica por aí mais desprezado do que criminoso... É isso mesmo. E nem espie p'ra mim, enquanto que estiver sendo escravo de galego'azedo!

O Jijo quase corre. Se foi. Lalino, já que parou, contempla os territórios ao alcance do seu querer.

- Bom, pousei no bom: estou vendo que já tem melancias maduras... Roça do Silva da Ponte... Melancia não tem dono!... Depois eu vou no seu Marrinha.

Toma a trilha da beira do córrego. Mas, que lindeza que e isto aqui! Não é que eu não me lembrava mais deste lugar?!

Somente a raros espaços se distingue a frontaria vermelha do barranco. O mais é uma mistura de trepadeiras floridas: folhas largas, refilhos, sarmentos, gavinhas, e, em glorioso e confuso trançado, as taças amarelas da erva-cabrita, os fones róseos do carajuru, as campânulas brancas do cipó-de-batatas, a cuspideira com campainhas roxas de cinco badalos, e os funis azulados da flor-de-são-joão.

Lalino depõe o violão e vai apanhar uma melancia. Tira o paletó, lava o rosto. Come. Faz travesseiro com o paletó dobrado, e deita-se no capim, à sombra do ingá-açu, namorando a ravina florejante. Corricaram, sob os mangues-brancos; voou uma ave; mas não era hora de canto de passarinhos. Foi Lalino quem cantou:

"Eu estou triste como sapo na lagoa..."

Não, a cantiga é outra, com toada rida:

"Eu estou triste, como o sapo na água suja..."

E, no entanto, assim como não se lembrava do lugar das trepadeiras, não está pensando no sapo. No sapo e no cágado da estória do sapo e do cágado, que se esconderam, juntos, dentro da viola do urubu, para poderem ir à festa no céu. A festa foi boa, mas, os dois não tendo tido tempo de entrar na viola, para o regresso, sobraram no céu e foram descobertos. E então São Pedro comunicou-lhes: "Vou varrer vocês dois lá para baixo. Jogou primeiro o cágado. E o concho cágado, descendo sem pára-quedas e vendo que ia bater mesmo em cima de uma pedra, se guardou em si e gritou "Arreda laje, que eu te parto!" Mas a pedra, que era posta. e própria, não se arredou, e o cágado espatifou-se em muitos pedaços. Remendaram-no, com esmero, e daí é que ele hoje tem a carapaça toda soldada de placas. Mas, nessa folga, o sapo estava se rindo. E, quando São Pedro perguntou por que, respondeu: "Estou rindo, porque se o meu compadre cascudo soubesse voar, como eu sei, não estava passando por tanto aperto..." E então, mais zangado, São Pedro pensou um pouco, e disse:

- "É assim? Pois nós vamos juntos lá em-baixo, que eu quero pinchar você, ou na água ou no fogo!" E aí o sapo choramingou: "Na água não, Patrão, que eu me esqueci de aprender a nadar..." - "Pois então é para a água mesmo que você vai!..." - Mas, quando o sapo caiu no poço, esticou para os lados as quatro mãozinhas, deu uma cambalhota, foi ver se o poço tinha fundo, mandou muitas bolhas cá para cima, e, quando teve tempo, veio subindo de-fasto, se desvirou e apareceu, piscando olho, para gritar: "Isto mesmo é que sapo quer!..."

E essa é que era a variante verdadeira da estória, mas Lalino Salãthiel nem mesmo sabia que era da grei dos sapos, e já estava cochilando, também.

Daí a pouco, acordou, com um tropel: é o seu Oscar, que anda consertando tapumes e vem vindo na égua ruça.

- O-quê! ? seu Laio! ... Tu está de volta?!... Não é possível!

- "Terra com sede, criação com fome", seu Oscar...

- E chegou hoje?

- Ainda estou cheirando a trem... Vim de primeira...

- O-ôme!

- Só o que não volta é dinheiro queimado, seu Oscar!

- E agora?

- Enquanto um está vivendo, tem o seu lugar.

- E a sua vida?

- Moída e cozida...

- Já se viu?! Então, agora, ainda vai atrapalhar mais as coisas? Decerto vai querer tornar a tomar a mulher que você vendeu, ahn? Não deve de fazer isso. Piorou!

- Que nada, seu Oscar. Eu estou querendo é sossego.

- A-hã? ... Uê... Então... Mas, então, tu não vai cobrar teu direito do espanhol? Vai deixar a sã Ritinha com o Ramiro?... Malfeito! Isso é ter sangue de barata... Seja homem! Deixar assim os outros desonrando a gente?!...

- Ara, ara, seu Oscar! Uai! Pois o senhor não estava dizendo primeiro que era errata eu querer me intrometer com eles? Pois então?!

- Ora, seu Laio, não queira me fazer de bobo, hom'essa!... Bem que sabe o-quê que eu quero dizer... Eu mesmo gosto de gente aluada, quando são assim alegres e têm resposta p'ra tudo. Por isso é que estou dando conselho...

- Eu sei, seu Oscar... Lhe fico até agradecido... Mas, o senhor repare: se eu for agora lá, derrubo cinza no mingau! A Ritinha, uma hora destas, há-de estar me esconjurando, querendo me ver atrás de morro... E a espanholada, prevenida, deve de estar arreliada e armada, me esperando. Sou lá besta, p'ra pôr mão em lagarta-cabeluda?! Eu não, que não vou cutucar caixa de mangangaba...

- É, isso lá é mesmo. Mas, e ela?

- Vou chamar no pio.

- E o espanhol?

- Vai desencostar e cair.

- Mas, de que jeito, seu Laio?

- Sei não.

- E você fica aí, de papo p'ra riba?

- Esperando sem pensar em nada, p'ra ver se alguma idéia vem...

- Hum-hum!

- É o que é, seu Oscar. Viver de graça é mais barato... É o que dá mais...

- E os outros, seu Laio? A sociedade tem sua regra...

- Isso não é modinha que eu inventei.

- Ta varrido!

- Pode que seja, seu Oscar. Dou água aos outros, e peço água, quando estou com sede... Este mundo é que está mesmo tão errado, que nem paga a pena a gente querer consertar... Agora, fosse eu tivesse feito o mundo, por um exemplo, seu Oscar, ah! isso é que havia de ser rente!... Magina só: eu agora estava com vontade de cigarrar... Sem aluir daqui, sem nem abrir os olhos direito, eu esticava o braço, acendia o meu cigarrinho lá no sol... e depois ainda virava o sol de trás p'ra diante, p'ra fazer de-noite e a gente poder dormir... Só assim é que valia a pena! ...

- Cruz-credo! seu Laio. Toma um cigarro, e está aqui o isqueiro... Pode fumar, sem imaginar tanta bobagem... Essa pensação besta é que bota qualquer um maluco, é que atrapalha a sua vida. Precisa de tomar juízo, fazer o que todo-o-mundo faz!... Olha: tu quer, mas quer mesmo, de verdade, acertar um propósito? Se emendar?

- Pois então, seu Oscar! Quero! Pois quero! Eu estou campeando é isso mesmo...

- Bom, prometer eu não prometo... Não posso. Mas vou falar com o velho. Vou ver se arranjo p'ra ele lhe dar um serviço.

- Lhe honro a letra, seu Oscar! Não desmereço...

- Eu acho de encomenda, p'ra um como você, tomar uma empreitada com essa política, que está brava...

- Isto! seu Oscar... O senhor já pode dizer ao velho que eu agaranto a parte minha! Ah, isto sim! Agora é que essa gente vai ver, seu Oscar... Vão ver que eleiçãozinha diferente que vai ter... Arranja mesmo, seu Oscar... Já estou aflito ... Já estou vendo a gente ganhando no fim da mão!

- Não pega fogo, seu Laio. Vou indo...

- Seu Oscar...

- Que é mais?

- Como vai passando o seu Marrinha?

- Se mudou. Foi p'ra o Divinópolis...

- Ara! foi?

- Ganhou bom dinheiro... Disse que quer pôr um teatro lá...

- Me agrada! Ô homem inteligente!

VI

Além de chefe político do distrito, Major Anacleto era homem de princípios austeros, intolerante e difícil de se deixar engambelar. Foi categórico:

- Não me fale mais nisso, seu Oscar. Definitivamente! Aquilo é um grandissíssimo cachorro, desbriado, sem moral e sem temor de Deus... Vendeu a família, o desgraçado! Não quero saber de bisca dessa marca... E, depois, esses espanhóis são gente boa, já me compraram o carro grande, os bezerros... Não quero saber de embondo!

Seu Oscar falou manso:

- Está direito, pai... Não precisa de ralhar... Eu só pensei, porque o mulatinho é um corisco de esperto, inventados de tretas. Vai daí, imaginei que, p'ra poder com as senvergonheiras do Benigno com o pessoal dele, do pior... Mas, já que o senhor não quer, estou aqui estou o que não. Agora, mudando de conversa: topei com outro boi ervado, no pastinho do açude...

Esse "mudando de conversa", com o Major Anacleto, era tiro e queda: pingava um borrão de indecisão, e pronto. Mas seu Oscar, pouco hábil, vinha ultimamente abusando muito do ardil. Por isso o Major soube que o filho estava sabendo e esperando a reação. E ele nunca dava nem um dedo a torcer.

Mas, aí, Tio Laudônío - sensato e careca, e irmão do Major - viu que era a hora de emitir o seu palpite, quase sempre o derradeiro.

Porque, Tio Laudônio, quando rapazinho, esteve no seminário; depois, soltou vinte anos na vida boêmia; e, agora, que deu outra vez para sisudo, a síntese é qualquer coisa de terrível. Devoto por hábito e casto por preguiça, vive enfurnado, na beira do rio, pescando e jogando marimbo, quando encontra parceiros. Pouquíssimas vezes vem ao arraial, e sempre para fins bem explicados: no sábado-da-aleluia, para ajudar a queimar o judas; quando tem circo-de-cavalinhos, por causa da moça - nada de comprometedor, apenas gosta de ter o prazer de ir oferecer umas flores à moça, no meio do picadeiro, exigindo para isso grande encenação, com a charanga funcionando e todos os artistas formando roda; quando há missões ou missa-cantada, mas só se por mais de um padre; ou, então, a chamado do Major, em quadra de política assanhada, porque adora trabalhar com a cabeça. Fala sussurrado e sorrindo, sem pressa, nunca repete e nem insiste, e isso não deixa de impressionar. Além do mais, e é o que tem importância, Tio Laudônio "chorou na barriga da mãe" e, como natural conseqüência, é compadre das coisas, enxerga no escuro, sabe de que lado vem a chuva, e escuta o capim crescer.

- Um mulato desses pode valer ouros... A gente esquenta a cabeça dele, depois solta em cima dos tais, e sopra... Não sei se é de Deus mesmo, mas uns assim têm qualquer um apadrinhamento... É uma raça de criaturas diferentes, que os outros não podem entender... Gente que pendura o chapéu em asa de corvo e guarda dinheiro em boca

de jia... Ajusta o mulatinho, mano Cleto, que esse-um é o Saci.

O Major sabia render-se com dignidade:

- Bem, bem, já que todos estão pedindo, que seja! Mandem recado p'ra ele vir amanhã. Mas é por conta de vocês... E nada de se meter com os espanhóis! Isso eu não admito. Absolutamente!...

Deu passadas, para lá e para cá, e:

- Seu Oscar!?

- Nhôr, pai?

- E avisa a ele para não vir falar comigo! Explica o-quê que ele tem de fazer ... Eu é que não abro boca minha para dar ordens a esse tralha, entendeu?!

- O senhor é quem manda, pai.

VII

Entretanto, Eulálio de Souza Salãthiel parecia ter pouca pressa de assumir as suas novas funções. Não veio no dia seguinte. E quando apareceu na fazenda, só quarta-feira de tarde, foi na horinha mesmo em que o Major se referia à sua pessoa, caçoando do seu Oscar e de Tio Laudônio, dizendo que o protegido deles começava muito final, e outras coisas mais, conformemente.

E, quando o mulatinho subiu, lépido, a escadinha da varanda, Major Anacleto, esquecido da condição ditada em hora severa, dispensou o intermédio de seu Oscar, e chofrou o rapaz:

- Fora! Se não quer tomar vergonha e preceito, pode ir sumindo d'aqui! O senhor está principiando bem, hein?! Está pensando que é senador ou bispo, para ter seu estado?

Mas teve de parar, porque Lalino, respeitosamente erecto, desfreou a catarata:

- Seu Major, faz favor, me desculpe! Demorei a vir, mas foi por causa que não queria chegar aqui com as mãos somenos... Mas, agora, tenho muita coisa p'ra lhe avisar, que o senhor ainda não sabe... Olhe aqui: todo-o-mundo no Papagaio vai trair o senhor, no dia da eleição. Seu Benigno andou por lá embromando o povo, convidando o Ananias p'ra ser compadre dele, e o diabo!... Na Boa Vista, também, a coisa está ruim: quem manda mais lá é o Cesário, e ele está de palavras dadas com os "marimbondos". Lá na beira do Pará, seu Benigno está atiçando uma briga do seu Antenor com seu Martinho, por causa das divisas das fazendas... Todos dois, mesmo sendo primos do senhor, como são, o senhor vai deixar eu dizer que eles são uns safados, que estão virando casaca p'ra o lado de seu Benigno, porque ele é quem entende mais de demandas aqui, e promete ajudar a um, p'ra depois ir prometer a mesma coisa ao outro... Seu Benigno não tem sossegado! E é só espalhando por aí que seu Major já não é como de em-antes, que nem agüenta mais rédea a cavalo, que não pode com uma gata p'lo rabo... Que até o Governo tirou os soldados daqui, porque não quer saber mais da política do senhor, e que só vai mandar outro destacamento porque ele, seu Benigno, pediu, quando foi lá no Belorizonte... Seu Benigno faz isso tudo sorrateiro. E, olhe aqui, seu Major: ele não sai da casa do Vigário... Confessa e comunga todo dia, com a família toda... E anda falando também que o senhor tem pouca religião, que está virando maçom... Está aí, seu Major. Por deus-do-céu, como isto tudo que eu lhe contei é a verdade!...

- Espera, espera aí, seu Eulálio... Espere ordens!

E o Major, estarrecido com as novidades, e furioso, chamou Tio Laudônio ao quarto-da-sala, para uma conferência. Durou o prazo de se capar um gato. Quando voltaram, o Major ainda rosnava:

- E o Antenor! E o Martinho Boca-Mole! ... E eu sem saber de coisa nenhuma!

- Não é nada, mano, isto é o começo da graça... Dá dinheiro ao mulatinho, que a corda nele eu dou... Cem mil-réis é muito, cinqüenta é o que chega, p'ra principiar...

Mas, na hora de sair, Lalino fez um pedido: queria o Estêvam - o Estêvão -, para servir-lhe de guarda. Podia alguém do Benigno querer fazer-lhe uma traição... Depois, esse povo andava agora implicando com ele, por demais. Não queria provocar ninguém... Era só para se garantir, se fosse preciso.

O Major fechara a cara, mas, a um aparte cochichado de Tio Laudônio, acedeu:

- Pode levar o homem, mas olhe lá, hem! Não me cace briga com pessoa nenhuma, e nem passe por perto da casa dos espanhóis. Eles são meus amigos, está entendendo?!

E, como agora estivesse de humor melhor, o Major ainda fez graça:

- Vendeu a mulher, não foi?!... Nem que tivesse vendido ao demo a alma... E só não arranjar barulho, que eu não vou capear malfeito de ninguém.

- Isto mesmo, seu Major. Com paz é que se trabalha! Amanhã, vou dar um giro, de serviço... Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, seu Major!

E, no outro dia, Lalino saiu com o Estêvam - o Estêvão -, um dos mais respeitáveis capangas do Major Anacleto, sujeito tão compenetrado dos seus encargos, que jamais ria.

E, quando alguém vinha querendo debicá-lo, Lalino ficava impassível. Mas, como bom guarda-costas, o Estêvão se julgava ali na obrigação de escarrar para um lado, com ronco, e de demonstrar impaciência. E o outro tal se desculpava:

- Estava era brincando, seu Laio...

Porque, ainda mais, o Estêvão era de Montes Claros, e, pois, atirador de lei, e estava sempre concentrado, estudando modos de aperfeiçoar um golpe seu: pontaria bem no centro da barriga, para acertar no umbigo, varar cinco vezes os intestinos, e seccionar a medula, lá atrás.

E Lalino fazia um gesto vago, e continuava com o ar de quem medita grandes coisas. E assim o povo do arraial ficou sabendo que ele era o cabo eleitoral de seu Major Anacleto, e que tinha de receber respeito.

E tudo o mais, com a graça de Deus, foi correndo bem.

VIII

Com o relatório de Lalino, o Major compreendeu que não podia ficar descansado. Tinha de virar andejo. Mandou selar a mula e bateu para a casa do Vigário. Mas, antes da sua pessoa, enviou uma leitoa. Confessou-se, deu dinheiro para os santos. O padre era amigo seu e do Governo, mas, com o raio do Benigno chaleirando e intrigando, a gente não podia ter certeza. Felizmente, estava vago o lugar de inspetor escolar. Ofereceu-o ao Vigário.

- Mas, Major, não me fica bem, isso... Meu tempo está tomado, pelos deveres de pároco...

- É um favor aceitar, seu Vigário! Precisamos do senhor. Não é nada de política. É só pelo respeito, para ficar uma coisa mais séria. E é para a religião. Comigo é assim, seu Vigário: a religião na frente! Sem Deus, nada!...

O padre teve de aceitar leitoa, visita, dinheiro, confissão e cargo; e ainda falou:

- Sabe, Major? Quem esteve aqui ontem foi esse rapaz que agora está trabalhando para o senhor. Também se confessou e comungou, e ainda trocou duas velas para o altar de Nossa Senhora da Glória... E rezou um terço inteiro, ajoelhado aos pés da Santa. O caso dele, com a mulher mais o espanhol, é muito atrapalhado, e por ora não se pode fazer coisa alguma... Mas, havendo um jeito... Como bom católico, o senhor não ignora: a gente não deve poupar esforços visando à reconciliação de esposos. Aliás, só lhe falo nisso porque é do meu dever. O moço não me pediu nada, e isso prova que ele tem delicadeza de sentimentos. Depois, assim com tanta devoção à Virgem Puríssima, ninguém pode ser pessoa de todo má...

- Com a Virgem me amparo, seu Vigário!

- Amém, seu Major!

E Major Anacleto tocou pelas fazendas, em glorioso périplo, com Tio Laudônio à direita, seu Oscar à esquerda, e um camarada atrás.

Passaram em frente da chácara dos espanhóis. Seu Ramiro baixou à estrada, convidando-os para uma chegada. Mas isso era contra os princípios do Major. Então, seu Ramiro, ali mesmo, fez suas queixas: que o senhor Eulálio, apadrinhado pelo Estêvão, viera por lá, a cavalo, somente para o provocar... Não o saudara, a ele, Ramiro, e dera um "viva o Brasil!" mesmo diante da sua porta. E, como a Ritinha estivesse na beira do córrego, lavando roupa, o granuja, o sem-vergonha, tivera o atrevimento de jogar-lhe um beijo ... Ele, mais os outros patrícios, podiam haver armado uma contenda, pois se achavam todos em casa, na hora. Mas, como o maldito perro agora estava trabalhando para o senhor Major, não quiseram pegá-lo com as cachiporras... Agora, todavia, tinha que pedir-lhe justiça, ao distinguido Senhor Major Dom Anacleto...

Nisso, o Major, vendo que Tio Laudônio fazia esforços para não rir, ficou sem saber que propósito tomar. Mas o espanhol continuou:

- E creia, senhor Major, não o quero molestar, porém o canalha não lhe merece tantas altas confianças... Saiba o senhor, convenientemente, que ele se há feito muito amigo do filho do senhor Benigno. Foram juntos à Boa Vista, todos acá o hão sabido... Com violões, e aguardente, e levando também o Estêvão, que vive, carái! o creio, à custa do senhor Major...

Aí, foi o diabo. Major Anacleto ficou peru, de tanta raiva. Então, o Lalino, andando com o filho do adversário, e indo os dois para a Boa Vista, um dos focos da oposição? Bem feito, para a gente não ser idiota! E, pelo que disse e pelo que não disse, seu Oscar teve pena do seu protegido, seriamente.

E, uma semana depois, quando, encerrada a excursão eleitoral, regressaram à fazenda, a apóstrofe foi violentíssima. Lalino tinha chegado justamente na véspera, e estava contando potocas aos camaradas, na varanda, o que foi uma vantagem, porque o Major gritou com ele antes de ter de briquitar para tirar as botas, o que geralmente aumenta muito a ira de um cristão.

- Então, seu caradura, seu cachorro! O senhor anda agora de braço dado com o Nico do Benigno, de bem, para me trair, hein?!... Mal-agradecido, miserável!... Tu vendeu a mulher, é capaz de vender até hóstias de Deus, seu filho de uma!

- Seu Major, escuta, pelo valor do relatar! Eu juntei com o filho do seu Benigno foi só p'ra ficar sabendo de mais coisas. Pra poder trabalhar melhor para o senhor... E mais p'ra uma costura que eu não posso lhe contar agora, por causa que ainda não tenho certeza se vai dar certo... Mas, seu Major, o senhor espere só mais uns dias, que, se a Virgem mais nos ajudar, o povo da Boa Vista, começando por seu Cesário, vai virar mãe-benta para votar em nós...

Aí, Tio Laudônio fez um sinal para o Major, que se acalmou, por metade. Afinal, o diabo do seu Eulálio podia estar com a razão. Mas o Major tinha outros motivos para querer desabafar:

- Eu não lhe disse que não fosse implicar com os espanhóis? Não falei?! Que tinha o senhor de passar por lá, insultando?

- O diabo! Não é que já foram inventar candonga?! ... Não insultei ninguém, seu Major...

- Tu ainda nega, malcriado? O Ramiro me fez queixa...

- Seu Major, só se aqueles estrangeiros acham que a gente dar viva ao Brasil é mexer com eles. Mas eu nunca ouvi ninguém dizer isso... A gente na política tem de ser patriota, uai! O senhor também não é?!

- Deixe de querer se fazer! Mais respeito!... O senhor não pode negar que foi se engraçar com a dona Ritinha, que estava lá quieta na fonte, esfregando roupa...

- Ora, seu Major, o senhor não acha que a gente vendo a mulher que já foi da gente, assim sem se esperar, de repente, a gente até se esquece de que ela agora é de outro?

Foi sem querer, seu Major. Agora, o senhor me deixa contar o que foi que eu fiz nestes dias...

- Pois conta. Por que é que ainda não contou?!

- Primeiro, fui no Papagaio, assustei lá uns e outros, dando notícia de que vem aí um tenente com dez praças... Só o senhor vendo, aquele povinho ficou zaranza! As mulheres chorando, rezando, o diabo!... Depois sosseguei todos, e eles prometeram ficar com o senhor, direitinho, p'ra votar e tudo!...

- Hum...

- Depois, fui'dar uma chegada lá no Mucambo, e, com a ajuda de Deus, acabei com a questão que o seu Benigno tinha atiçado...

Tio Laudônio se adianta, roxo de curiosidade profissional:

- Como é que você fez, que é que disse?

- Ora, pois foi uma bobaginha, p'ra esparramar aquilo! Primeiro, fiz medo no seu Antenor, dizendo que seu Major era capaz de cortar a água... Pois a aguada da fazenda dele não vem do Retiro do irmão do seu Major?... Com seu Martinho, foi mais custoso. Mas inventei, por muito segredo, que o senhor dava razão a ele, mas que era melhor esperar até depois das eleições... Até, logo vi que o seu Benigno não tinha arranjado bem a mexida... A briga estava sendo por causa daqueles dois valos separando os pastos... O senhor sabe, não é? Tem o valo velho, já quase entupido de todo, e o novo. Levei seu Martinho lá, mais seu Antenor... Expliquei que, pela regra macha moderna do Foro, o valo velho não era valo e nem nada, que era grota de enxurrada... E que o valo novo é que era velho... E mais uma porção de conversa entendida... Falei que agora tinha uma nova lei, que, em caso de demandas dessas, tinha de vir um batalhão todo de gente do Governo, p'ra remedarem tudo... E o pagamento saía do bolso de quem perdesse... Quando falei nos impostos, então, Virgem! Só vendo como eles ficaram com medo, seu Major! Então, resolveram partir a razão no meio. Ajudei os dois a fazerem as pazes...

- Valeu. O que você espalhou de boca, de boca o Benigno ajunta... Fazer política não é assim tão fácil... Mas, alguma coisa fica, no fundo do tacho...

- Pois, não foi, seu Laudônio? Faço o melhor que posso, não sou ingrato. Mas, como eu ia contando... Bem, como seu Martinho é homem enjerizado e pirrônico, eu, na volta, fui na cerca que separa a roça dele do pasto do pai do seu Benigno... Dei com pedras e cortei com facão, abri um rombo largo no arame... e toquei tudo o que era cavalo e vaca, p'ra dentro da roça. Ninguém não viu, e vai ser um pagode! Assim, não tem perigo: quem é pra ficar brigado agora é o seu Martinho com o pai do outro e, decerto, depois, com seu Benigno também...

- Não tenho tanta esperança... - opinou o Major, já conforme.

E Lalino concluiu, com voz neutra, angelical:

- Está vendo, seu Major, que eu andei muito ocupado com os negócios do senhor, e não ia lá ter tempo p'ra gastar com espanhol nenhum? Gente que p'ra mim até não tem valor, seu Major, pois eles nem não votam! Estrangeiros... Estrangeiro não tem direito de votar em eleição...

IX

Correram uns dias, muito calmos, reinando a paz na fazenda, porque o Major teve a sua enxaqueca, e depois o seu mal de próstata. Já sem dores, mas ainda meio perrengue, passava o tempo no côncavo generoso da cadeira-de-lona, com pouco gosto para expansões.

O comando político estava entregue agora quase completamente a Tio Laudônio, que transitava com pouco alarde e se deitava na cama quando queria pensar melhor. De vez em quando, apenas, vinha comentar qualquer coisa, fazendo o Major enrugar mais a testa e pronunciar um murmúrio de interjeições integérrimas. Mas isso poucas vezes acontecia, por último. Da curva da cadeira, ia o Major para em-frente da cômoda do quarto-de-dormir, e lá ficava, de-pé, armando paciências de baralho - conhecia muitas variedades mas só cultivava uma, prova de alta sabedoria, pois um divertimento desses deve ser mesmo clássico, o mais possível.

Enquanto isso, Lalino Salãthiel pererecava ali por perto, sempre no meio dos capangas, compondo cantigas e recebendo aplausos, porque, como toda espécie de guerreiros, os homens do Major prezavam ter as façanhas rimadas e cantadas públicas.

E, vai então pois então, Lalíno teve um momento de fraqueza, e pediu a seu Oscar que procurasse a Ritinha e falasse, e dissesse, mas não dissesse isso, e calasse aquilo, mas dando a entender que... mas sem deixar que ela pensasse que... e aquil'outro, e também etc., e pronto.

Na manhã seguinte, seu Oscar, prestativo e bom amigo, foi. Rabeou redor à casa do espanhol, e fez um acaso, atravessando na frente da mulher, quando ela saía para procurar ninhos de galinha-d'angola no bamburral.

Mas Maria Rita tinha olhos, pernas e cabelos tentadores, e seu Oscar se atarantou. E, se chegou a se perturbar, é claro que foi por ter tido inspiração nova, resolvendo, num átimo, alijar a causa do mulatinho e entrar em execução de própria e legítima ofensiva.

Em sã consciência, ninguém poderia condená-lo por isso, mas Maria Rita desconfiou do contrário - do que antes, fora para ser, mas que tinha deixado agorinha mesmo de ser - e foi interpelando:

- Já sei! Foi aquele bandido do Laio, que mandou o senhor aqui para me falar; não foi, seu Oscar?

Seu Oscar era jogador de truque e sabia que "a primeira é a que vai à missa!" Assim, achou que estava na hora de não perder a vaza, e disse:

- Pois não foi não, sã Ritinha... Aquele seu marido é um ingrato! A senhora não deve nem de pensar nele mais, porque ele não soube dar valor ao que tem... Não guardou estima à prenda de ouro dele! É um vagabundo, que vive fazendo serenata p'ra tudo quanto é groteira e capioa por aí...

Maria Rita perdeu o aprumo:

- Então, ele nem pensa mais em mim, não é?... Faz muito bem... Porque eu cá tenho sentimento! Nem vestido de santo, não quero ver!

- Está muito direito, sã dona Ritinha! Assim é que deve ser. Olha, a senhora merece coisa muito melhor do que ele... e do que esse espanhol também... Eu juro que nunca vi moça tão bonitonazinha como a senhora, nem com um jeito tão bom p'ra agradar à gente...

Maria Rita sorria, gostando.

- É assim mesmo, dona Ritinha... Esses olhos graúdos... Essa bocazinha sua... A gente até perde as idéias, dona Ritinha...

Chegou mais para perto.

- Não ri, não, dona Ritinha! Tem pena dos outros... Ah! Se eu pedisse um beijinho à senhora...

Mas Maria Rita pulou para trás, vermelha furiosa:

- O senhor é um cachorro como os outros todos, seu Oscar! Homem nenhum não presta!... Se o senhor não sumir daqui, ligeiro, eu chamo o Ramiro para lhe ensinar a respeitar mulher dos outros!

Seu Oscar, desorganizadíssimo, quis safar-se. Mas, aí, foi ela quem o reteve, meio brava meio triste, agora em lagrimas:

- E, olhe aqui: o senhor está enganado comigo, seu Oscar! O senhor não me conhece! Eu procedi mal, mas não foi minha culpa, sabe? Eu gosto é mesmo do Laio, só dele! Não presta, eu sei, mas que é que eu hei de fazer?!... Pode ir contar a ele, aquele ingrato, que não se importa comigo... Fiquei com o espanhol, por um castigo, mas o Laio é que é meu marido, e eu hei de gostar dele, até na horinha d'eu morrer!

Seu Oscar se foi, quase correndo, porque não suportava aquele choro consentido e aqueles gritos de louca. E nem soube que, por artes das linhas travessas da boa escrita divina, se tinha saído às mil maravilhas da embaixada que Lalino Salãthiel lhe cometera.

Chegou em casa com uma raiva danada de Lalino, e, para se despicar, foi decepcionando a sôfrega expectativa do mulatinho:

- Pode tirar o cavalo da chuva, seu Laio! Ela gosta mesmo do espanhol, fiquei tendo a certeza... Vai caçando jeito de campear outra costela, que essa-uma você perdeu!

Lalino suspirou...:

- É, mulher é isso mesmo, seu Oscar... Também, gente que anda ocupada com política não tem nada que ficar perdendo tempo com dengos... Mas, muito obrigado, seu Oscar. O senhor tem sido meu pai nisso tudo. Quer escutar agora o hino que estou fazendo p'ra o senhor?

Mas seu Oscar não queria escutar coisa nenhuma. Deixou Lalino na varanda, e foi falar com o velho, aproveitando a oportunidade de Tio Laudônio no momento não estar lá.

Major Anacleto relia - pela vigésima-terceira vez - um telegrama do Compadre Vieira, Prefeito do Município, com transcrições de um outro telegrama, do Secretário do Interior, por sua vez inspirado nas anotações que o Presidente do Estado fizera num anteprimeiro telegrama, de um Ministro conterrâneo. E a coisa viera vindo, do estilo dragocrático-mandológico-coactivo ao cabalístico-estatístico, daí para o messiânico-palimpséstico-parafrástico, depois para o cozinhativo-compadresco-recordante, e assim, de caçarola a tigela, de funil a gargalo, o fino fluido inicial se fizera caldo gordo, mui substancial e eficaz; tudo isto entre parênteses, para mostrar uma das razões por que a política é ar fácil de se respirar - mas para os de casa, que os de fora nele abafam, e desistem. Major Anacleto tomava pó, comicha em punho.

Seu Oscar foi de focinho:

- Agora é que estou vendo, meu pai, que o senhor é quem tinha razão. Soubesse...

- Pois não foi? Se o Compadre Vieira não abrir os olhos, com o pessoal das Sete-Serras, nós ficamos é no mato sem cachorro... Eu já disse! Bem que eu tinha falado com o Compadre, que isso de se querer fazer política por bons modos não vai!

- Isso mesmo, pai. O senhor sempre acerta. É como no caso do mulatinho, desse Lalino... Olha, eu já estou até arrependido de ter falado em trazer o...

- Seu Major! Seu Major! - (Lalino invadira a sala, empurrando para a frente um curiboca mazelento e empoeirado, novidadeiro-espião chegado da Boa Vista num galope de arrebentar cavalo.)

- Que é? Que houve? Mataram mais algum, lá na Catraia?

E o Major se levantava, - tirando óculos e enfiando óculos, telegrama, comicha e lenço, na algibeira, - aturdido com o alarido, se escapando da compostura.

- Não senhor, seu Major meu padrinho... Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo... - e o capiauzinho procurava a mão do Major, para o beijo de bênção. - ...Foi na Boa Vista... Seu Cesário virou p'ra nós!

- Como foi isso, menino? Conta com ordem!

- O povo está todo agora do lado da gente... Não querem saber mais do seu Benigno... Tudo vota agora no senhor, seu Major meu padrinho!

- Eu já sabia... Mas conta logo como foi!

- Foi porque o filho do seu Benigno, o Nico... que desonrou, com perdão da palavra, seu Major meu padrinho ... que desonrou a filha mais nova do seu Cesário... Os parentes estão todos reunidos, falando que tem de casar, senão vai ter morte... E matam mesmo, seu Major! Seu Cesário vai vir aqui, p'ra combinar paz com o senhor, seu Major meu padrinho...

Lalino, por detrás, fazia sinais ao Major, que mandasse o mensageiro se retirar.

- Está direito, Bingo. Vai agora lá na cozinha, p'ra ganhar algum de-comer. Depois, você volta p'ra lá, e fica calado, escutando tudo direito.

Mal o outro se sumira, e Lalino Salãthiel gesticulava e modulava:

- Eu não disse, seu Major? Não falei? No pronto, agora, o senhor está vendo que deu certo... Pois foi p'ra isso que eu levei o Nico na Boa Vista, ensinando o rapaz a cantar serenata e botar flor, e ajeitando o namoro com a Gininha! Estive até em perigo de seu Benigno mandar darem um tiro em mim, porque ele não queria que o filho andasse em minha má companhia... Ah, com o amor ninguém pode!

- Pois o senhor fez muito mal. Pode dar e pode não dar certo... Se o rapaz casa com a moça, tudo ainda fica pior...

- Ele não casa, seu Major! Eu sabia que ele não casava, porque o seu Benigno quer mandar o filho p'ra o seminário... E eu aconselhei o Nico a quietar no mundo... Ele está revelio, seu Major, seu Oscar, está em uns ninhos!

- É... Eu não gosto das coisas tão atentadas... Não sei se isto é como Deus manda... A moça, coitadinha, vai sofrer?! Ninguém tem o direito de fazer isso...

- Há-de-o, que eu já deduzi também, seu Major, não arranjo meio sem mais a metade. Depois do que for, das eleições, a gente rege o rapaz, se faz o casório... Tem de casar, mas só certo... Eu sei onde é que o Nico está amoitado... Aí a raiva do seu Benigno vai ser cheia. E as festas!...

- Está direito, seu Eulálio. O senhor tem galardão.

- Só quero servir o senhor, seu Major! Com chefe bom, a gente chega longe!

- Bem, pode ir... E guarde segredo da trapalhada que o senhor aprontou, hem?!

E, ficando só com seu Oscar, Major Anacleto retomou a conversa, justo no ponto em que fora interrompida:

- Bem o senhor estava me dizendo, agorinha mesmo, que ele é levado de ladino! Foi um servição que o senhor me fez, trazendo esse diabo para mim. Gostei, seu Oscar. O senhor tem jeito para escolher camaradas, meu filho.

- Às vezes a gente acerta... Era isso mesmo que eu vinha lhe falar, meu pai...

- Está direito... Agora o senhor vá no arraial, mandar um telegrama meu para o Compadre Prefeito: Um vê, não vê estes tantos constantes trabalhos que a política dá... Passa no Paiva, e na farmácia...

Seu Oscar saiu e o Major se assoou, voltou para a cadeirade-lona. Mas, daí a pouco, chegava Tio Laudônio, trazendo uma grande notícia: tinham recebido aviso, no arraial, de que nessa mesma tarde devia passar de automóvel, vindo de Oliveira, um chefe político, deputado da oposição. Seu Benigno tinha ido para a beira do rio, para vir junto. Não sabiam bem o nome.

- Se chegarem por aqui, nem água para beber eu não dou, está ouvindo? Inda estumo cachorro neles! - rugiu o Major.

- Qual, passam de largo... Que é que eles haviam de querer aqui?

- Pau neles, isto sim, que era bom! Por isto é que eu não gosto de estrada de automóvel! Serve só para pôr essa cambada trançando afoita por toda a parte... E o cachorro do Benigno vai ficar todo ancho. Decerto há-de fazer discurso, louvar as lérias... Olha, o Eulálio podia ir no arraial, hem? Para arranjar um jeito de atrapalhar, se tiver ajuntamento.

- Não vale a pena, mano Cleto.

- É, então pode deixar... A gente já está ganhando, longe! Ah, esse seu Eulálio fez um... Já sabe?... O Oscar contou?

Aí o Major se levantou e foi até à janela. E, quando ele ia assim à janela, não era sempre para espiar a paisagem. Agora, por exemplo, era para apurar alguma ideiazinha. Tio Laudônio sabia disso, e esperava que ele se voltasse com outra pergunta. E foi:

- Escuta aqui, mano Laudônio: é verdade que espanhol não vota?

- Não. Não podem. São estrangeiros... A coisa agora está muito séria.

- Ahn... Sim... Olha: manda levar mais madeira para o seu Vigário... Para as obras da capelinha do Rosário...

- Já mandei.

- Diabo! Vocês, também, não deixam nada para eu pensar!...

E foi para a espreguiçadeira, dormir.

Quando acordou, horas depois, foi a sustos com uma matinada montante: o mulherio no meio da casa; os capangas, lá fora, empunhando os cacetes, farejando barulho grosso; e muita gente rodeando uma rapariga bonita, em pranto, com grandes olhos pretos que pareciam os de uma veadinha acuada em campo aberto.

Com a presença enérgica do patriarca, amainou-se o rebuliço, e a moça veio cair-lhe aos pés, exclamando:

- Tem pena de mim, seu Coronel, seu Major!... Não deix'eles me levarem! Pelo amor de suas filhas, pelo amor de sua mulher dona Vitalina... Não me desampare, seu Major...

- Pois sim, moça... Mas, espera um pouco... Sossega. Daqui ninguém tira a senhora por mal, sem minha ordem... Conta primeiro o que é que houve... A senhora quem é?...

- Sou a mulher do Laio; seu Major... Me perdoe, seu Major... Eu sei que o senhor tem bom coração... Sou uma infeliz, seu Major... É o Ramiro, o espanhol, que me desgraçou... Desde que o Laio voltou, que ele anda com ciúme, só falando... Eu não gosto dele, seu Major, gosto é do Laio!... Bom ou ruim, não tem juízo nenhum, mas eu tenho amor a ele, seu Major... Agora o espanhol deu para judiar comigo, só por conta do ciúme... Viu o seu Oscar conversando comigo hoje, e disse que o seu Oscar estava era levando recado... Quis me bater, o cachorro! Disse que me mata, mata o Laio, e depois vai se suicidar, já que está mesmo treslouco... Então eu fugi, para vir pedir proteção ao senhor, seu Major. Pela Virgem Santíssima, não me largue na mão dele, seu Majorzinho nosso!

- Calma, criatura! - Levanta, vai lavar esses olhos...

Ó Vitalina, engambela ela, dá um chá à coitadinha... Afinal... afinal não tem culpa de nada... É uma história feia, mas... Nem o Eulálio não tem culpa também, não... Foi só falta de juízo dele, porque no fundo ele é bom... Mas, que diabo! O espanhol é boa pessoa... Arre! Só o mano Laudônio mesmo é quem pode me aconselhar... Bem, fala com as meninas para tomarem conta dela, para ver se ela fica mais consolada... E a senhora pode dormir hoje com descanso, moça, não lhe vai acontecer coisa nenhuma, ora! - Ó Estêvam! Qu'é-de seu Eulálio?

- Seu Laio saiu... Foi p'ra a beira do rio...

- Mande avisar a ele, já! Fala que a mulher dele está aqui...

- O Juca passou inda agorinha no caminhão, e disse que o seu Laio estava lá, numa cachaça airada, no botequim velho que foi da empresa, com outros companheiros, fazendo sinagoga. Diz que chegou um doutor no automóvel e parou para tomar água, mas ficaram conversando e ouvindo as parlas do seu Laio, achando muita graça, gostando muito...

- Ra-ch'ou-parta! diabos dos infernos! Maldito! Referido!

Em fel de fera, Major Anacleto sapateava e rilhava os dentes. Os homens silenciaram, na varanda, pensando que já vinha ordem para brigar. E as mulheres, arrastando Maria Rita, se sumiram no corredor. Só Tio Laudônio, que entrava, de caniço ao ombro, vindo do corguinho, foi quem continuou calmo, pois que coisa alguma poderia pô-lo de outro jeito.

O Major bramia:

- Cachorrão! Bandido!... Mas, tu não está entendendo, mano Laudônio?! É o diabo do homem, do tal, o deputado da oposição!... Parou... Decerto! Tinha de gostar...

Pois encontra o mulatinho bêbedo, botando prosa, contando o caso da Boa Vista, e tudo... Nem quero fazer idéia de como é que vai ser isto por diante... Cachorro! Agora vai dar tudo com os burros n'água, só por causa daquele cafajeste! Mal-agradecido! E logo agora, que eu ia proteger o capeta, fazer as pazes dele com a mulher, mandar os espanhóis para longe... Mas, vai ver! Me paga! Leva uma sova de relho, não escapa!

- Calma, mano Anacleto... A gente não deve de esperdiçar choro em-antes de ver o defunto morrer...

- Qual! história... Vitalina! Ó Vitalina!... Não deixa as meninas ficarem mais junto com essa mulher! Não quero mau exemplo aqui dentro de casa!... Mulher de dois homens!... Imoralidade! Indecência!

A muito custo, Tio Laudônio conseguiu levar o Major para o quarto, e encomendou um chá de flor-de-laranjeira.

- Calma. Pode, no fim, não ser tão ruim assim.

E foi comer, qualquer coisa, pois já estava com atraso.

Principiou a escurecer. A gente já ouvia os coaxos iniciais da saparia no brejo. E os bate-paus acenderam um foguinho no pátio e se dispuseram em roda. Tio Laudônio, já jantado, chamou o Major para a varanda.

- Lá vem um automóvel...

- São eles, Laudônio... Manda vigiarem e não olharem! Manda não se estar, fecharem as janelas e portas! Ah, mulatinho - para cá, e arrastado com pancada grossa!...

- Espera... Olha, já parou, por si.

Lalino saltou primeiro e ajudava os outros a descerem. Três doutores. Um gordo... um meio velho... um de óculos... Lalino guiava-os para a escada da varanda.

- Só eu indo ver quem é, mano Cleto.

- Mas, que é que essa gente vem fazer, aqui!?... Eu quero saber de oposição nenhuma, mano Laudônío! Eu desfeiteio! Eu...

- Quieto, homem, areja! Vamos saber, só, primeiro. Se entrarem, é porque são de paz... Vem p'ra dentro. Eu vou ver.

Mas, daí a um mijo, Tio Laudônio gritava pelo Major:

- Depressa, mano, que não é oposição nenhuma, é do Governo! Depressa, homem, é Sua Excelência o Senhor Secretário do Interior, que está de passagem, de volta para o Belorizonte.

O Major correu, boca-aberta, borres, se aperfeiçoando, abotoando o paletó. Os viajantes já estavam na sala, com Lalino - pronto perto, justo à vontade e falante.

E nunca houve maior momento de hospitalidade numa fazenda. O Major se perfazia, enfim, quase sem poder bem respirar:

- Ah, que honra, mas que minha honra, senhor Doutor Secretário do Interior!... Entrar nesta cafua, que menos merece e mais recebe... Esteja à vontade! Se execute! Aqui o senhor é vós... Já jantaram? ô, diacho... Um instantinho, senhor Doutor, se abanquem... Aqui dentro, mando eu - com suas licenças -: mando o Governo se sentar... P'ra um repouso, o café, um licor... O mano Laudônio vai relatar! Ah, mas Suas Excelências fizeram boa viagem?...

Mas, não: Suas Excelências tinham pressa de prosseguir. O cafezinho, sim, aceitavam. Viagem magnífica, excursão proveitosa. Um prazer, estarem ali. E o titular sorria, sendo-se o amistoso de todos, apoiando a mão, familiar, no ombro do Major. Ah, e explicava: tinha recebido o convite, para passar pela fazenda, e não pudera recusar. O senhor Eulálio - e aqui o Doutor se entusiasmava - abordara o automóvel, na passagem do rio. O que fora muito gentil da parte do Major, haver mandado o seu emissário esperá-los tão adiante. E, falando nisso, que magnífico, o Senhor Eulálio! Divertira-os! O Major sabia escolher os seus homens... Sim, em tudo o Major estava de parabéns... E, quando fosse a Belorizonte, levasse o Eulálio, que deveria acabar de contar umas histórias, muito pândegas, da sua estada no Rio de Janeiro, e cantar uns lundus...

Tomado o -café, alegria feita, cortesia floreada, política arrulhada, e o muito mais - o estilo, o sistema, - o tempo valera. Daí, se despediam: abraço cordial, abraço cordial...

E o Doutor Secretário abraçou também Lalino, que abria a portinhola do carro.

- Adeus, Senhor Eulálio. Continue sempre ao serviço do Senhor Major Anacleto, que é ótimo e digno chefe. E, quando ele vier à capital, já prometeu trazê-lo também...

Lalino pirueteava, com risco de cair, conforme dava todos os vivas.

O automóvel sumiu-se na noite.

E, no brejo, os sapos coaxavam agora uma estória complicadíssima, de um sapo velho, sapo-rei de todos os sapos, morrendo e propondo o testamento à saparia maluca, enquanto que, como todo sapo nobre, ficava assentado, montando guarda ao próprio ventre.

- "Quando eu morrer, quem é que fica com os meus filhos?"...

- "Eu não... Eu não! Eu não!... Eu não!"...

(Pausa, para o sapo velho soltar as últimas bolhas, na água de emulsão.)

- "Quando eu morrer, quem é que fica com a minha mulher?"

- "É eu! É eu! É eu! É eu! É eu!"...

Major Anacleto chama Lalino, e as mulheres trazem Maria Rita, para as pazes. O chefão agora é quem se ri, porque a mulherzinha chora de alegria e Lalino perdeu o jeito. Mas, alumiado por inspiração repentina, o Major vem para a varanda, convocando os bate-paus:

- Estêvam! Clodino! Zuza! Raimundo! Olhem: amanhã cedo vocês vão lá nos espanhóis, e mandem aqueles tomarem rumo! É para sumirem, já, daqui!... Pago a eles o valor do sítio. Mando levar o cobre. Mas é para irem p'ra longe!

E os bate-paus abandonam o foguinho do pátio, e, contentíssimos, porque de há muito tempo têm estado inativos, fazem coro:

"Pau! Pau! Pau!

Pau de jacarandá!...

Depois do cabra na unha,

quero ver quem vem tomar!...

E os sapos agora se interpelam e se respondem, com alternâncias estranhas, mas em unanimidade atordoante:

- Chico? - Nhô! - Você vai? - Vou!

- Chico? - Nhô! - Cê vai? - Vou!...

No alto, com broto de brilhos e asterismos tremidos, o jogo de destinos esteve completo. Então, o Major voltou a aparecer na varanda, seguro e satisfeito, como quem cresce e acontece, colaborando, sem o saber, com a direção-escondida-de-todas-as-coisas-que-devem-depressa-acontecer. E gritou:

- Olha, Estêvam: se a espanholada miar, mete a lenha!

- De miséria, seu Major!

- E, pronto: se algum quiser resistir, berrem fogo!

- Feito, seu Major!

E, no brejo - friíssimo e em festa - os sapos continuavam a exultar.

João Guimarães Rosa, In Sagarana