15/08/2007

A Ressurreição



Não há em toda a montanha terra tão desgraçada e tão negra como Saudel. Aquilo nem são casas, nem lá mora gente. São tocas com bichos dentro.
Apesar disso, Cristo Nosso Senhor, aos domingos, digna-se visitar a aldeia na pessoa do padre Unhão, que vem rezar missa ao nascer do sol.
O padre apeia-se da égua, assoa-se a um lenço tabaqueiro encardido, tesse, dá duas badaladas no sino, e entra numa igreja tão escura e tão gelada que se lembra sempre duma pneumonia dupla. Diz o intróito com muita solenidade, sobe as escadas de granito, lê, treslê, vira-se, volta-se, benze-se, e, por fim, prega. É sempre uma descompostura de cima abaixo. Que ninguém presta. Que os pais são assim, que as mães são assado, que as filhas são porcas, que os filhos são brutos, que é tudo uma miséria.
Saudel, abismado, ouve. Depois, à saída, põe-se a ruminar. Quem irá dizer lá em cima tão mal do povo ? Os homens cavam de manhã à noite, as mulheres parem quantas vezes a Virgem Maria quer, os rapazes e as raparigas vão com o gado... Quem irá meter coisas daquelas nos ouvidos de Deus?
Seja quem for, o certo é que no domingo seguinte, Nosso Senhor, sempre pela boca sem dentes do abade, recomeça a ralhar. Que o fim do mundo está perto e que não haja ilusões. Todos para as profundas dos infernos! Os velhos, as velhas e os novos. Ficam só as ovelhas.
Saudel, ai, desespera. Chora umas lágrimas negras, barrentas, e geme como quem uiva. Os rebanhos na serra sem pastor! O que não teriam dito de Saudel no céu!
E o pior é que nem o próprio padre Unhão descortina saída para semelhante calamidade, depois da falência do remédio que tentou. Seguro de que a misericórdia divina tudo pode, resolveu salvar o desterrado lugarejo e a sua endemoninhada gente, através dum acto colectivo de expiação. Endoenças. Estava a Semana Santa à porta. Realizasse o povo endoenças, e remisse os pecados na dor e na oração.
Saudel, lanzudo como os carneiros, nem sequer percebeu. O que eram endoenças?
E foi preciso o pároco explicar. Eram a
Paixão e a Morte do Nosso Senhor Jesus Cristo, representadas ao natural. Vinham o Senhor padre Gaspar, o senhor padre Abel, o senhor padre Artur, o senhor padre Rego... De Cristo, Nosso Senhor, fazia o Coelho, que nem de encomenda para o papel.
- O Coelho?!!! - e Saudel olhou, assombrado, o homem da Joana Perra.
- Tem semelhanças...
- Com Nosso Senhor Jesus Cristo!! - e a mulher, que nunca dera dez réis pelo marido, um lingrinhas que nem filhos lhe fizera, media o consorte de cima abaixo.
- Tanto quanto possível... - esclareceu o prior.
- De Herodes, talvez o Daniel. De Judas...
- Eu não! - defendeu-se o Albino. - Tu mesmo. De Centurião, o Roque. De soldados, os quatro filhos do Zeferino. De Verónica, a Isabel...
Saudel deu com a cabeça nas fragas, a matutar no caso. Repentinamente, viam-se todos transfigurados, já nenhum seguro da sua própria realidade. E quando, depois de alguns dias de ensaio, o Seara foi à Vila alugar saiais, e regressou com uma carrada de capacetes, de lanças, de togas, de turbantes, de asas, de vestidos de veludo, cada qual, a tomar conta e a experimentar os adereços que lhe pertenciam, sentia-se realmente outro, por fora e por dentro. De capa vermelha, coroa de espinhos e cana verde na mão, quem é que reconhecia o Coelho de outrora? Nem ele.
Segue-se que na Quinta-feira Santa, à noite, a povoação mudara inteiramente de fisionomia.
O seu nome, agora, era Jerusalém, e a multidão assistia de coração alanceado ao martírio do Salvador. E que martírio! O Armindo, a Caifãs, duro como um chavelho. O Arranca, a testemunha, ninguém queira saber. A Rosa, uma coninhas de Maria Madalena, se havia de agarrar num estadulho e começar a eito, não senhor. A chorar, a adorá-lo, meu Deus, meu Jesus, e mais nada. O Carlos, a negá-lo três vezes.
Com gente assim, que havia o pobre do Coelho fazer ?
Olha, deixar-se imolar como um cordeiro inocente. Apenas os juízes, do Pretório, deram a sentença, então os filhos do Zeferino não lhe atiram com uma cruz de castanho para cima do lombo, que pesava para aí quatro arrobas, não o fazem subir o cerro do Calvário, e lá não o pregam, não o içam, e não lhe metem pela boca dentro uma esponja de fel?! Só a tiro. Palavra de honra que só a tiro! Três horas naquele suplício, enquanto o padre Gaspar, dum púlpito armado debaixo de uma carvalha, berrava que parecia maluco.
Diante de um tal sofrimento, Saudel olhava o Coelho e via-o Cristo mesmo a valer, a dar a vida por nós. E foi com orgulho que a Perra, às tantas, o viu inclinar a cabeça e ficar-se. Os soluços que ouvia à volta eram palmas doutra maneira.
Ufana da auréola que nimbava já o marido, e a envolvia na mesma glória, numa aberta de lágrimas foi à sacristia tomar providências domésticas. Afinal, como era? O seu homem estava praticamente em jejum. Queria saber se lhe poderia chegar qualquer coisa. Um migalho de trigo com queijo, ao menos...
O seu homem acabava de morrer. Iam descê-lo e fazer-lhe o enterro.
De rabo entre as pernas, voltou ao lugar e ao pranto, enquanto o Coelho, muito amarelo, sem dar acordo de si, todo bambo do corpo, era despregado pelos dois Rós, que faziam de José de Arimateia e Nicodemos.
Apararam-no as Trindades, muito asnas no papel de Santas mulheres, e deram-lhe sepultura numa eça armada no meio da igreja. Entraram com ele pela porta lateral, estendido na mortalha, cada uma a pegar na sua ponta, e encafuaram-no no buraco da urna. Os Zeferinos, claro, apenas elas o depositaram lá no fundo, logo ali como corvos a guardá-lo.
- Ordem de Pilatos!
O Senhor Verruma! Não contente com lavar as mãos numa rica bacia - que não tinha culpas naquela morte -, punha-lhe agora soldados de plantão!
Ao fim da tarde, a Perra e Saudel estavam secos, de tanto chorar. Mas de que valia ? Os padres, no altar, não acabavam as mesuras e o cantochão. E olha lá que os Zeferinos, entretanto, largassem o sepulcro. Ali, especados, como guardas republicanos.
À noite, num dos intervalos das cerimónias, a Perra foi ter novamente com o prior. O homem morria-lhe mesmo, sem uma pinga de caldo há tanto tempo.
- Se morrer, rezo-lhe o responso. Começou, tem de acabar.
Resignada, foi ela meter um cibo à boca e dar penso aos bois.
Mas de manhã não pôde mais. De joelhos, chegou-se ao túmulo.
- Manuel... A resposta foi um empurrão do filho mais novo do Zeferino.
- Tire-se daí! Fariseus! Até que bateu o meio dia. O padre Unhão deu o sinal, e começou a cantar.
- Ale... ale... ale... lu... ia... 
A Matilde, que fazia de anjo, apareceu, sem se saber como, à beira da sepultura, levantou-lhe o tampo, e mostrou-a aberta e vazia.
- Non est hic... Quê?! Não estava lá?! Não estava lá o Coelho?
De olhos arregalados, atónita, a multidão não queria acreditar no que via. Nem vivo, nem morto?!
Como o prior ensinara, mal o anjo disse o latim, os filhos do Zeferino puseram-se em fuga pela nave fora. E foi então que a Perra, saída do estupor em que ficara, gritou aqui-del-rei pelo seu homem.
Solidário com aquele desespero fastigiado, Saudel em peso caiu como um abutre em cima dos quatro facínoras e da tropa fandanga por conta de quem estavam a soldo. Não faltava mais nada! Faziam-lhe trinta judiarias, crucificavam-no, davam-lhe sumiço, e ao fim 6 pernas para que vos quero! Ora ali tinham. Eles e o resto da comandita.
Transformada num campo de guerra, a igreja era um lago de sangue. De nada valia o furor do padre Unhão, a clamar em altos berros do altar contra aquele remate selvagem da santa cerimónia. Surdos às razões do abade, só atentos à voz íntima da indignação, todos vingavam como podiam a injustiça cometida, numa viril ressurreição do sagrado humano, que apenas o hino, a repicar lá fora, parecia compreender e festejar.

Miguel Torga, Contos da Montanha