23/08/2007

Prelúdios de Festa


A Alberto Braga


Esse ano, a festa da Senhora das Dores devia ser coisa de estalo. A começar pelo juiz, todos os da mesa eram de respeito – abonados e decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que afinal era o melhor da festa, vinha lá de Chaves, longe que nem seiscentos diabos. Mas era obra de jeito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse coisa que representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava mesmo a entender que traria mais animalejos, uma bicharada, – talvez um macaco, se tivesse tempo de o acabar.
– Homem de uma cana! – resumiu o juiz quando acabou de ler a carta. E correu a espalhar a notícia, orgulhoso de que «no seu ano» a coisa fosse de arromba! Depois, era um despique. No ano atrás, o José da Loja, que tinha sido juiz, gabara-se do seu fogo, só porque vinha lá uma peça que era um castelo a dar tiros, assim: – Fff! Pum!
– Ora deixa estar que eu te arranjo! – murmurou com os seus botões o António Fagote. E sorria, satisfeito de se lembrar que na noite do arraial todo o povo o havia de aclamar, dar-lhe vivas pelo fogo que apresentara. Espalhou-se a novidade. Uma hora depois, na vila, ninguém falava noutra coisa.
– Então você já sabe?
– Já sei. A cegonha.
– A cegonha e o mais: um cavalo, um bezerro...
– O que eu quero ver é o camelo. Feio bicho, já viu?
– Pintado. No Monteverde, se me não engano. Logo adiante do Valente Rei Arauto Fiel.
Enganava-se.
O escrivão da Câmara, que tinha laracha, encontrou-se na rua com o Alves aferidor.
– Até que enfim, amigo Alves! Até que enfim vou ter o gosto de o ver arder.
O outro não percebeu: – «Que se explicasse...»
– Um urso, no arraial queima-se um urso.
– Então ardemos ambos, – redarguiu embezerrado o Alves. – Também se lá queima um burro.
Às duas por três, o António Fagote viu a casa cheia de gente. Quem não ia, mandava recado: todos queriam saber se vinha o animalejo da sua predilecção.
O homem começava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a porta, por dentro.
– Põe a tranca, se for preciso!
Mas então era cá da rua:
– Ó senhor António!
E na porta as pancadas ferviam:
– Truz! truz! truz! Senhor António!
– Ena! c’um raio de diabos! – fazia lá de dentro o homem, furioso.
– O senhor faz favor? É só uma palavrinha!
À janela assomava então o António Fagote, com os óculos na ponta do nariz e a carta do fogueteiro na mão.
– O camelo? – perguntava zangado. – O urso?! Camelos me parecem vocês, ouviram? O que o homem diz é isto...
E lia a carta, rematando:
– Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe lá o que serão, e talvez o macaco, se houver tempo de o acabar. E agora, sabem que mais?... – Tirava os óculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos. – Irra!
E lá de si para si pensava que era melhor ter guardado segredo. Não fosse ele burro... Mesmo porque cada um começou logo a inventar animais, e todos é que não podiam vir. Claro! E não vindo todos, aí tínhamos nós descontentes. E havendo descontentes, quem lucrava era o José da Loja!
– Temos o caldo entornado! – pensava aflito o Fagote, amedrontado com aquele espectro do José da Loja, o seu rival! Demais a mais, já lhe tinha chegado aos ouvidos que o outro agourava mal do negócio...
– Farófias! – tinha dito o José da Loja. – Farófias!
– Pois se mo diz na cara, arrebento-o! – vociferava o Fagote, quando tal soube.
E arrebentava, que o Fagote era homem para isso; tinha pulso. Desde rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de eleições. Depois, bom olho para a caçadeira. De uma ocasião que foi preciso dar montaria aos ladrões, portou-se como um leão, foi ele que deu voz de preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lha deu? A frase ficou lendária:
– Como-te a alma se te mexes!
– E o outro não se mexeu, que ele comia-lhe a alma! – comentavam convictos.
Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua figura adquiriu para a velhice o jeito desempenado que tinha. Estava com 60 anos e a sua atitude viril impressionava ainda agora. Não era nutrido, mas era sanguíneo, tez morena, cara rapada, olhos pequenos, uma largura de ombros que era o principal indício de força. Pescoço curto. Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e arremetia com força, conhecia-se-lhe a rijeza dos músculos naquele movimento sacudido.
– Safa! que isso aí é de ferro! – diziam os rapazes. – Duma cana, hem?
Mas bom homem, de uma grande franqueza de modos, simples e afável. Para se sair era preciso picá-lo. E uma vez, quando era juiz ordinário, uma testemunha tanto o picou em audiência, que ele desceu lá da cadeira, foi-se a ela e quebrou-lhe a cara. Por isso falava sério quando prometia arrebentar o José da Loja. A mulher interveio, pacificadora:
«Que não desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, que não era tão mau como o pintavam.»
– Ó mulher! Cala a caixa e não me defendas esse velhaco! – redarguiu o Fagote. – Do que ele é capaz sei eu.
Mas nessa ocasião, de todas as velhacarias do José da Loja, só lhe lembrava uma: ter sido juiz o ano atrás!
Isto parecia-lhe com efeito uma velhacaria feita a ele, que era juiz este ano.
– Pois tu que pensas? – dizia ele para a mulher. – Quem me meteu a festa em casa foi ele. Ele é que se lembrou de me escolher, como quem diz: «entrego-te a vara, sempre quero ver como te arranjas...»
– Nome do Padre, do Filho... – A mulher benzia-se «das ideias do seu António».
– Sejam ideias que não sejam! – teimou o Fagote. – Isto foi tal e qual, assim me Deus salve!
– Mas quem to disse, homem? Quem foi que to disse?
E então desabafou: – «que não pensasse, o José da Loja, que o havia de levar à parede. Agora levava! A festa há-de-se fazer, e festa de arromba; nanja como a dele que só levava seis anjos, e não sei quantos andores, acho que meia dúzia!»
– Ó mulher! Então é para que saibas onde chega o brio de um homem! Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo preciso até vendia a camisa do corpo! Nem trinta sanfonas como o sanfona do José da Loja! – E espipava olhos de cólera para a mulher que remendava uns sacos, compungida de ver assim o seu António.
E pôs-se então a renovar ordens, recomendações que a mulher já estava farta de ouvir. – «Mas com tempo é que as coisas se pensavam, não era ao atar das sangrias!»
– Leitões, se os cá não houver, manda-se o Miguel à cata deles, por esses povos à roda. Querem-se de quatro semanas, três pelo menos:

Leitão de mês,
Cabrito de três.

A mulher contraveio: – «dois seriam bastantes...»
– Mau, que aí principiamos nós! – E pôs-se a assobiar e a rufar com o pé no soalho, arreliado. – Três é que hão-de ser! Não quero cá dois, porque dois eram os do outro, o ano passado!
A esta razão, a mulher calou-se. O António Fagote gostou do silêncio da mulher, que o lisonjeava nos seus despeitos contra o outro.
– Agora não fanfas tu... – insistiu ele, risonho. – É assim mesmo que eu gosto. Sinal é que tens vergonha. A outra tamém não é mais que a ti!
A outra era a mulher do José da Loja, está visto.
– Nem mais, nem tanto! – emendou a Luísa Fagote, abespinhada.
– Isso mesmo! – abundou o juiz da festa. – Não me lembrava agora que antes de se casarem...
– E olha que depois de casada... – insinuou a Sr.ª Luísa, de venta no ar, enfiando a agulha. – Cala-te, boca!
Façamos de conta que a boca se calou, com efeito. Que não se calou. Mas, neste particular, o resto do diálogo convém que se omita, mesmo porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal à mulher do José da Loja. Há-de perdoar-me o António Fagote, mas nisto não lhe faço a vontade. O pudor acima de tudo! E ademais ele bem sabe que eu sou conhecido da mulher. Adiante. Basta que lhes diga que por uma associação lógica de ideias a conversa veio parar em vitelas...
– É preciso vermos como há-de ser isso da vitela – disse o António Fagote. – Sem vitela é que se não faz nada. Uma perna sempre se gasta.
Combinaram falar com tempo ao Manuel Cortador, segurar esse negócio. Demais a mais sabia-se que o pregador dava o cavaco por um pedaço de vitela assada.
– O pregador é que arrasta aí muita gente! – observou a Sr.ª Luísa. – Para um bocado de sentimento não há como ele. Quando foi das missões, o que ele dizia daquele púlpito abaixo! É quanto se pode!
– A mim o devem, se cá vem! – disse orgulhoso o Fagote. – Que o homem não queria vir, desculpava-se com a saúde: que tinha de ir a umas caldas, e 14 léguas a cavalo por estas canículas eram de acabar com ele.
– Isso desaba aí o poder do mundo! Em se sabendo que é o missionário...
Estavam nisto, quando bateram à porta. O Fagote foi ver à janela.
– ... Bem, muito obrigado. E a senhora Mestra? Estimo, estimo.
Era a criada da mestra régia, foram abrir.
– A senhora Mestra que manda muitos recadinhos, saber como está a Sr.ª Luísa, e este bilhetinho para o Sr. António.
Entraram todos na saleta. Como era já tarde, o António Fagote foi acender uma luz.
«Que conversassem, enquanto ele via se tinha resposta».
– Muito calor – começou a Sr.ª Luísa.
– E então a casa da senhora Mestra que é mesmo um forno – disse por demais a criada.
E antes que a conversa pegasse, avisou a Sr.ª Luísa, ao ouvido, de que queria dar uma palavrinha.
Foram para uma varanda que havia nas traseiras. A tarde descaía, numa serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares.
– Está-se aqui bem! – exclamou consolada a Sr.ª Luísa.
– Está. E então bonitas vistas. Mas o que eu queria dizer era pedir-lhe um favor – disse atrapalhada a criada.
– Se estiver na minha mão...
A outra começou: – «A Sr.ª Luísa estava ao facto do que se dizia dela com o criado do inglês. Decerto estava ao facto. Mas era mentira. Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era redonda mentira». – Estamos para casar! é o que estamos! – «Ele já mandara vir os papéis lá da terra, não podiam tardar». – Está claro que eu tenho afeição ao rapaz...
– Ele esteve aí doente uma temporada – interveio a Sr.ª Luísa para dizer alguma coisa.
– Esteve. Umas quartãs que o iam arrebanhando! Mas é ai que eu quero chegar.
– Que experimente o limão azedo – aconselhou a Sr.ª Luísa. – É milagroso nas quartãs. Não se aflija, que não há-de ser nada. – E dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que sabia de bom para matar quartãs, pensando que era o que ela queria, afinal.
– Não senhora. O rapaz está melhor. Caso é que não recaia. Mas é por via disso que eu lhe quero pedir um favor.
Chegou para ela o banco de cortiça e confidenciou:
– Já o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a bandeira, qualquer noite! E ele vai, prometeu que sim! Mas veja, naquele estado! inda não há nada que saiu da cama!
– Pelos modos, os rapazes vão este ano longe pelo pau! – disse com pompa a Sr.ª Luísa. – Muito longe!
– Ouvi que à Ribeira Velha, ao lameiro do Canelas. E logo com quem eles se vão meter, o Canelas! Se desconfia, vai para lá de clavina e faz alguma desgraça. Mais ele, que é atrevido!
Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que «lá onde eles iam pelo pau é que ela não sabia...»
– A outra noite é que para aí estiveram a combinar, o meu António mais os mordomos. Não ouvi.
– Pois é lá! – exclamou a criada. – Mas o que eu queria, Sr.ª Luísa, é que o seu marido me não deixasse ir o rapaz na malta! – suplicou aflita a rapariga.
– Lá isso, esteja descansada, não vai! – prometeu com grande autoridade a Sr.ª Luísa. – Digo-lhe eu que não vai. E se não quer mais nada...
– Era só isto, muito agradecida à senhora.
Nesse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os óculos para a testa.
– Ora pois então aqui vai a resposta. Má letra, a senhora Mestra que desculpe. Mas enfim que leia como puder.
– Então muita maçada com a festa? – inquiriu solícita a rapariga.
– Muita. Faz lá ideia?! Maçada e despesa. Olhe que se faz despesa. Todos os dias são precisas coisas, mais isto, mais aquilo. Aí está que já hoje mandei pedir para o Porto uma palheta para o clarinete do Alves.
– Chh! – fez admirada a rapariga.
– Pois é verdade. Fora o mais! fora o mais! Nicas! – E depois de uma pausa: – Só com o que se gasta no jantar, e é verdade que há muita coisa de casa, mas só com o que se gasta no jantar, a bem dizer que se fazia uma horta, além no prado.
– Muita gente... – disse a rapariga.
– Muita! e depois de certa aquela... À mesa talvez vinte e quatro pessoas...
A rapariga benzeu-se!
– Vinte e quatro, para mais que não para menos, – insistiu o António Fagote. – Olhe: o pregador...
– Isso dizem que é coisa asseada! – interrompeu a rapariga.
– É. Não o há melhor. Missionário... – explicou o juiz. – Pois o pregador, um; com mais quatro padres, cinco; com quatro músicos, nove; o compadre, os pequenos, dois, doze.
– A comadre não vem! que pena! – fez do lado a Sr.ª Luísa.
– Não. O compadre e os pequenos já disse. Doze. O Morgado da Fonte e o António Capador, catorze. O Teles, é verdade, o Teles escrivão, quinze. (Pausa). Com mais alguém que venha, vinte e quatro. Pode-se contar com mais de vinte e quatro pessoas à mesa. – E a rir-se: – Mas há-de sobrar muita coisa, graças a Deus... E depois os pobres?!
– Isso então é uma praga! – exclamou a Sr.ª Luísa. – Até parece que vêm do chão: assim... – E colocava em pinha os dedos todos das mãos ambas. – Assim...
Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se. – «Adeusinho! o que havia de estimar é que tudo corresse como desejavam.» – E se for preciso qualquer coisa... – ofereceu-se. – As minhas fracas posses...
– Obrigada. Não faltarão ocasiões. Muitos recadinhos à senhora Mestra...
– E que hei-de estimar que o mano chegue de saúde, – concluiu o António Fagote.
E então explicou à mulher: – «Aquele bilhete da mestra era a mandar-lhe perguntar se sempre era certo vir o macaco de fogo».
– «Diz que o irmão, o brasileiro, assim que souber que há macaco de fogo no arraial, não tem mão em si que não venha». E Deus o queira, porque o ponho ao pálio. Como três e dois serem cinco.
A Sr.ª Luísa quis saber a resposta que lhe mandara.
– Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero cá é o brasileiro. Sempre é homem que sabe dar o merecimento às coisas... Mas o diabo agora é o macaco! – ponderou muito apreensivo. – Está para aí meio mundo à espera do macaco...
A Sr.ª Luísa quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o bicho não viesse.
– Tate! – fez o António Fagote, batendo uma palmada rija na testa. – Dá cá daí a minha véstia. Manda-se uma «parte» ao homem.
– Também pode ser – concordou a Sr.ª Luísa. – Mas hoje é que não, aquilo já está fechado, o fio.
– Vai amanhã: «Agradeço favores. Traga macaco sem falta.» Isto. Talvez acrescente: «Não se olha a dinheiro.» Mas é que acrescento, por via das dúvidas!
Então, a Sr.ª Luísa confidenciou, quase ao ouvido do homem:
– Ouves? Já se não pode ir ao lameiro do Canelas pelo pau.
– Han? Qual pau?
– O da bandeira. Todo o mundo já sabe.
Ele riu-se.
– Todo o mundo, hem?... Melhor! Oh! oh! todo o mundo!...
E como ela ficasse estupefacta:
– Nunca ouviste dizer que se põe o ramo numa porta e que se vende o vinho noutra?
– Ah!...
– Mas são verdes. Pois aí é que vai a história! – E cantarolou, satisfeito:

O ladrão do negro melro
Onde foi fazer o ninho!

***

Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando, logo de manhãzinha, o António Fagote sentiu bater à porta, de rijo.
– Vai lá ver o que será, ó Luísa! – disse da cama o Fagote, sobressaltado.
Não tardou nada que o José Manco lhe entrasse de rompante pelo quarto.
– Vista-se, homem! Ande daí depressa! Vista-se!
– Há novidade?! – perguntou logo o Fagote, sobressaltado.
– Vista-se! com dez milhões de diabos! – insistiu o outro.
– Homessa! – fez espantado o Fagote. – Alguém à morte?!
– Pior do que isso! – resumiu o José Manco.
– Pior do que isso, então não sei...
– Não tardará que o saiba! Avie-se, que eu cá o espero na rua.
O António Fagote vestiu-se à toa, aparvalhado. Foi já na rua que acabou de enfiar a jaqueta. As correias dos sapatos iam de rastos, não levava chapéu.
– Pronto! cá estou!
– Venha comigo, avie-se! Abotoe as calças, se faz favor.
E rodaram, rua acima.
– Diabo! mas então...?! – ia perguntando o Fagote.
– Aguarde, que já vai saber! Não tarda!
De quatro escanchadas foram dar ao adro da igreja.
– Roubaram Nosso Pai, aposto?
– Pior! – redarguiu o outro. – Pior! Alto aí! Ora arregale-me esses olhos e veja vossemecê isto, esta porcaria!
E tragicamente, o José Manco apontou para meia folha de papel pegada na torre, com miolo de pão centeio mastigado. Era um pasquim! Vários desenhos de animais, sobressaindo um burro de grandes orelhas, aos coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:–Farófias!
Por um pouco, António Fagote, de mãos atrás das costas, amarasmou-se, com os olhos fitos no papel.
E quando o outro pensava que ele ia romper desaustinadamente numa escamação, aos lábios do António Fagote aflorou apenas um sorriso.
– Hum! – resmungou. – Bem sei...
– Não tem que saber – fez o outro.
– O patife do José da Loja.
– Pois está visto.
– Bem, levará quatro lambadas – epilogou com grande sossego o Fagote. – Arranque lá isso, e venha você daí, se quer ver.
O José Manco não queria ver, fazia ideia. Mas opinou prudentemente que era melhor botar o patife ao desprezo.
– Pois sim – disse o António Fagote, dobrando em quatro o papel e metendo-o na algibeira de dentro – Pois sim!
Mas o outro, que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos arrancados do código penal. – «Que não fosse agora pagar por bom semelhante estafermo! Como mordomo, também era com ele a ofensa, com ele José Manco. Mas fazia de conta… como o outro que diz, vozes de burro não chegam ao céu.»
– Bem, levará só uma lambada, atendendo a que mais ninguém viu isto – disse num grande ar de condescendência o Fagote. – E você vá lá regar a horta.
Foi-se dali direito à casa do José da Loja. Estava ainda fechada. Pôs-se à coca, de longe, com a ira muito exulcerada pela arrelia daquela demora...
– Grande cão! Grande cão! – monologava.
Até que enfim reparou que a porta se abria. Era o tendeiro em pessoa, de casaco de lona e chinelos de trança, muito fresco. Não deu pelo António Fagote senão quando se viu ao pé dele, cara a cara entre o balcão e a porta.
– Ó senhor José.
– Dirá.
– Venho aqui saber dum caso.
– Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e, depois de lho pôr ao pé da cara:
– Foi o senhor José que fez isto?
O outro olhou-o, atónito.
– Sim! se foi o senhor José que fez isto?
– Nada, eu não senhor.
– Jura pela boa sorte dos seus filhos?
Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado.
– Jura pela boa sorte dos seus filhos? – repetiu mais de rijo o Fagote.
O José da Loja, moita! Então o juiz explicou-lhe:
– É porque se jura, muito bem. Se não jura, o caso é outro.
– É outro, que outro?! – disse arrogante o José da Loja, num ímpeto, barriga panda sob o casacório de lona.
– Isto! – E foi-lhe uma bofetada para a cara. – E muito caladinho, que eu também não digo nada. Agora o papel, olhe! – Fê-lo em pedaços, e atirou-lhe com eles à cara aparvalhada.
Saiu dali e foi matar o bicho, tranquilamente, como quem vem de cumprir uma obra de misericórdia.

***

Na véspera da festa, um sábado às 10 horas da manhã, o fogueteiro passava enfim num deslado da vila direito à capela da Senhora das Dores. Largou um foguete, que estrondeou no ar galhardamente.
– O fogueteiro! Chegou o fogueteiro!
Por toda a vila passou um longo frémito de entusiasmo quando se ouviu o foguete. Desabituados, os cães ladravam, em correria doida pelas ruas. O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do fogueteiro, a admirá-lo, a oferecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se ordens já dadas. Aquele foguete era a bem dizer o primeiro ruído da festa, não havia tempo a perder. De casa dos mordomos saíam esbaforidas as criadas, com ordem de se informarem do que precisaria «o sr. fogueteiro». Alguns mais previdentes mandaram almoço, e que dissesse o que queria para o jantar.
Solenemente, o juiz da festa atravessou quase a correr a vila, perguntando a todo o mundo se o que estoirara tinha sido efectivamente um foguete.
– Foi foguete! pois que dúvida! – diziam-lhe radiantes. – Prometia, sim, senhor! prometia! Se fossem todos assim... Caramba! que estoiro! Pum!
– Pra que saibam! – clamava o António Fagote. – E então isto? – e punha-se a girar de volta com o braço – o que é fogo do chão? – Mas tinha-se visto em calças pardas para que o homem não faltasse. Complicações! Pelos modos tinham-no convidado para outra festa, com mais bagalhoça, está claro! O caso tinha estado sério!
Mentia.
– Hem? mas não o enganavam?
– Qual? era o fogueteiro, sem tirar nem pôr! Lá ia ele a atravessar as eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas cargas de fogo!
O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abade, gritou cá da rua:
– Senhor abade! Ó senhor abade!
– Que é lá?
– Chegue à janela, faz favor?
– Mas está muito sol, entre você se quer.
– Só duas palavras.
O abade, um rapaz novo, assomou à janela.
– Que é?
– Chegou o homem!
– O homem! que homem?
– O fogueteiro, quem há-de ser?
– Ah, sim – disse o abade a rir-se, velhaco. – E você vai ter com ele?
– De cara.
– Faz-me então um favor?
– Dirá.
– Dê-lhe recados meus.
E retirou-se da janela, a rir, enquanto o António Fagote prosseguia no seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente «se aquilo tinha sido o fogueteiro!»
– Grande homem! com seiscentos diabos!
Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao fogueteiro, com fúria:
– Esses ossos! – e abraçou-o arrebatado, enternecido, chamando-lhe «seu amigo, seu grande amigo».
– Rapazes! – gritou ele então. – E tirou o chapéu da cabeça, muito solene. – Viva o senhor fogueteiro!
– Viva! …Isso não juro, porque não reparei. Mas estou em dizer aos senhores que o António Fagote – chorou!...


Trindade Coelho,Os meus amores