12/08/2007

O Jantar

Ele entrou tarde no restaurante. Certamente ocupara-se até agora em grandes negócios. Poderia ter uns sessenta anos, era alto, corpulento, de cabelos brancos, sobrancelhas espessas e mãos potentes. Num dedo o anel de sua força. Sentou-se amplo e sólido.

Perdi-o de vista e enquanto comia observei de novo a mulher magra de chapéu. Ela ria com a boca cheia e rebri­lhava os olhos escuros.

No momento em que eu levava o garfo à boca, olhei-o. Ei-lo de olhos fechados mastigando pão com vigor e meca­nismo, os dois punhos cerrados sobre a mesa. Continuei co­mendo e olhando. O garçom dispunha os pratos sobre a toalha. Mas o velho mantinha os olhos fechados. A um ges­to mais vivo do criado, ele os abriu com tal brusquidão que este mesmo movimento se comunicou às grandes mãos e um garfo caiu. O garçom sussurrou palavras amáveis abaixan­do-se para apanhá-lo; ele não respondia. Porque, agora des­perto, virava subitamente a carne de um lado e de outro, examinava-a com veemência, a ponta da língua aparecendo — apalpava o bife com as costas do garfo, quase o cheira­va, mexendo a boca de antemão. E começava a cortá-lo com um movimento inútil de vigor de todo o corpo. Em breve levava um pedaço a certa altura do rosto e, como se tivesse que apanhá-lo em voo, abocanhou-o num arrebata­mento de cabeça. Olhei para o meu prato. Quando fitei-o de novo, ele estava em plena glória do jantar, mastigando de boca aberta, passando a língua pêlos dentes, com o olhar fixo na luz do tecto. Eu já ia cortar a carne de novo, quan­do o vi parar inteiramente.

E exactamente como se não suportasse mais — o quê? — pega rápido no guardanapo e comprime as órbitas dos olhos com as mãos cabeludas. Parei em guarda. Seu corpo respirava com dificuldade, crescia. Tira afinal o guar­danapo da vista e olha entorpecido de muito longe. Respira abrindo e fechando desmesuradamente as pálpebras, limpa os olhos com cuidado e mastiga devagar o resto de comida ainda na boca.

Daqui a um segundo, porém, está refeito e duro, apanha uma garfada de salada com o corpo todo e come inclinado, o queixo activo, o azeite humedecendo os lábios. Interrom­pe-se um instante, enxuga de novo os olhos, balança breve­mente a cabeça — e nova garfada de alface com carne é apanhada no ar. Diz ao garçom que passa: — Não é este o vinho que mandei trazer. A voz que esperava dele: voz sem réplicas possíveis pela qual via que jamais se poderia fazer alguma coisa por ele. Senão obedecê-lo.

O garçom se afastou cortês com a garrafa na mão. Mas eis que o velho se imobiliza de novo como se tives­se o peito contraído e barrado. Sua violenta potência saco-de-se presa. Ele espera. Até que a fome parece assaltá-lo e ele recomeça a mastigar com apetite, de sobrancelhas fran­zidas. Eu é que já comia devagar, um pouco nauseado sem saber porquê, participando também não sabia de quê. De repente ei-lo a estremecer todo, levando o guardanapo aos olhos e apertando-os numa brutalidade que me enleva... Abandono com certa decisão o garfo no prato, eu próprio com um aperto insuportável na garganta, furioso, quebrado em submissão. Mas o velho demora pouco com o guardana­po nos olhos. Desta vez, quando o tira sem pressa, as pupi­las estão extremamente doces e cansadas, e antes dele enxu­gar-se — eu vi. Vi a lágrima.

Inclino-me sobre a carne, perdido. Quando finalmente consigo encará-lo do fundo de meu rosto pálido, vejo que também ele se inclinou com os cotovelos apoiados sobre a mesa, a cabeça entre as mãos. E exactamente ele não supor­tava mais, As sobrancelhas grossas estavam juntas. A comi­da devia ter parado pouco abaixo da garganta sob a dureza da emoção, pois quando ele pôde continuar fez um gesto terrível de esforço para engolir e passou o guardanapo pela testa. Eu não podia mais, a carne no meu prato era crua, eu é que não podia mais. Porém ele — ele comia.

O garçom trouxe a garrafa dentro de uma vasilha de ge­lo. Eu anotava tudo, já sem discriminar: a garrafa era ou­tra, o criado de casaca, a luz aureolava a cabeça robusta de Plutão, que se movia agora com curiosidade, guloso e aten­to. Por um instante o garçom cobre minha visão do velho e vejo apenas as asas negras duma casaca: sobrevoando a me­sa, vertia vinho vermelho na taça e aguardava de olhos quentes — porque lá estava seguramente um senhor de boas gorjetas, um desses velhos que ainda estão no centro do mundo e da força. O velho engrandecido tomou um gole com segurança, largou a taça e consultou com amargura o sabor na boca. Batia um lábio no outro, estalava a língua com desgosto como se o que era bom fosse intolerável. Eu esperava, o garçom esperava, ambos nos inclinávamos sus­pensos. Afinal, ele fez uma careta de aprovação. O criado curvou a cabeça luzente com sujeição de agradecimento, saiu inclinado, e eu respirava com alívio.

Ele agora misturava à carne os goles de vinho na grande boca e os dentes postiços mastigavam pesados enquanto eu o espreitava em vão. Nada mais acontecia. O restaurante parecia irradiar-se com dupla forca sob o tilintar dos vidros e talhares; na dura coroa brilhante da sala os murmúrios cresciam e se apaziguavam em vaga doce, a mulher do cha­péu grande sorria de olhos entrefechados, tão magra e bela, o garçom derramava com lentidão o vinho do copo. Mas eis que ele faz um gesto.

Com á mão pesada e cabeluda, onde na palma as linhas eram cravadas com tal fatalidade, faz um gesto de pensa­mento. Diz com a mímica o mais que pode, e eu, eu não compreendo. E como se não suportasse mais — larga o gar­fo no prato. Desta vez foste bem agarrado, velho. Fica res­pirando, acabado, ruidoso. Pega então no copo de vinho e bebe de olhos fechados, em rumorosa ressurreição. Meus olhos ardem e a claridade é alta, persistente. Estou tomado pelo êxtase arfante da náusea. Tudo me parece grande e pe­rigoso. A mulher magra cada vez mais bela estremece séria entre as luzes.

Ele terminou. Sua cara se esvazia de expressão. Fecha os olhos, distende os maxilares. Procuro aproveitar este mo­mento, em que ele não possui mais o próprio rosto, para ver afinal. Mas é inútil. A grande aparência que vejo é des­conhecida, majestosa, cruel e cega. O que eu quero olhar, directamente, pela força extraordinária do ancião, não exis­te neste instante. Ele não quer.

Vem a sobremesa, um creme derretido, e eu me sur­preendo pela decadência da escolha. Ele come devagar, tira uma colherada e espia o líquido pastoso escorrer. Ingere tu­do, porém faz uma careta e, crescido, alimentado, afasta o prato. Então, já sem fome, o grande cavalo apoia a cabeça na mão. O primeiro sinal mais claro aparece. O velho co­medor de crianças pensa nas suas profundezas. Com palidez vejo-o levar o guardanapo à boca. Imagino ouvir um solu­ço. Ambos permanecemos em silêncio no centro do salão. Talvez ele tivesse comido depressa de mais. Porque, apesar de tudo, não perdeste a fome, hein!, instigava-o eu com iro­nia, cólera e exaustão. Mas ele se desmoronava a olhos vis­tos. Os traços agora caídos e dementes, ele balançava a ca­beça de um lado para outro, de um lado para outro sem se conter mais, com a boca apertada, os olhos cerrados, emba­lando-se — o patriarca estava chorando por dentro. A ira me asfixiava. Vi-o botar os óculos e ficar mais velho muitos anos. Enquanto contava o troco, batia os dentes projectan­do o queixo para a frente, entregando-se um instante à do­çura da velhice. Eu mesmo, tão atento estivera a ele, que não vira tirar o dinheiro para pagar, nem examinar a conta e não notara a volta do garçom com o troco.

Afinal tirou os óculos, bateu os dentes, enxugou os olhos fazendo caretas inúteis e penosas. Passou a mão qua­drada pêlos cabelos brancos, alisando-os com poder. Levan­tou-se segurando o bordo da mesa com as mãos vigorosas. E eis que, depois de liberto de um apoio, ele parece mais fraco, embora ainda enorme e ainda capaz de apunhalar qualquer um de nós. Sem que eu possa fazer nada, põe o chapéu acariciando a gravata ao espelho. Atravessa o aspec­to luminoso do salão, desaparece.

Mas eu sou um homem ainda.

Quando me traíram ou assassinaram, quando alguém foi embora para sempre, ou perdi o que de melhor me restava, ou quando soube que vou morrer — eu não como. Não sou ainda esta potência, esta construção, esta ruína. Empurro o prato, rejeito a carne e seu sangue.


Clarice Lispector, In Laços de Família