18/08/2007

Justiça



Por mais ordeiro que um povo seja, sempre há coisas. É uma asneira que se diz, um marco que o arado arranca, uma cabra lambisqueira que salta à vinha de alguém, duas maçãs que uma criança rouba. Mas tudo isso não vale nada. As mulheres engaleiam-se, o falatório no tanque anima-se, discute-se nas cavas, e acaba tudo em águas de bacalhau. No tempo do Leonardo, porém, Deus nos livrasse! Aquele cobardola só sabia dizer:
- Embargo! Ou fazes o que eu digo, ou vou à Vila e enrolo-te em meia folha de papel selado.
- Se tem assim tanta razão, salte! Salte para aqui, e tiram-se as teimas de homem para homem. Olha lá não saltasse! Metia o rabo entre as pernas, e tribunal.
Ora, o que a justiça quer é comer. Certo e sabido: vai-se ter com o Dr. Valério a Murça, e é logo:
- Você está cheio de razão, alma de Deus! Ponha a questão, que não há ninguém que lha perca. Se quiser, passe-me uma procuração, deixe trezentos mil réis para preparos, e o resto é comigo.
Um céu aberto. Até parece que a gente já está a ouvir o juiz. Mas depois é que são elas! Começa um moedoiro, de dinheiro, que não há bolsa que chegue. O advogado só diz:
- Então agora, que isto vai tão bem encaminhado, é que você se quer compor?!
E cantem para aqui mais cinco notas! O pior é que daí a um mês, zás: uma cartinha. «Senhor Fulano, é favor comparecer no meu escritório». Desce a gente de escantilhão pela serra abaixo, numas ânsias, a cuidar mil coisas. E o que há-de ser? «Tenha, paciência, isto não anda sem a mola real...»
Até que chega o dia da audiência. Aí, então, é como quem quer livrar um filho. Presente a este, presente àquele, tia Preciosa, pelo amor de Deus, diga a verdade e beba mais uma pinga. E para nada, afinal de contas, porque o outro advogado, que é um bandalho da mesma raça, embrulha tudo. «Ora explique-me lá isso bem explicado! Não minta...» A gente, quando se senta naquelas cadeiras, fica logo como há-de ir. Fazem-nos falar, apertam, apertam, e quem é que não cai? Tiram de nós o que eles querem. «Diga. Diga! Ora assim, sim! Vê como é tudo ao contrário do que pensava?!» Só visto! Ao fim, sai uma sentença que não é carne nem peixe, uma pessoa fica borrada, empenhada até às orelhas, e a dever favores até às pedras da rua.
Mas o Leonardo queria lá saber! O tribunal, para ele, era como a igreja para as beatas. Tivesse razão ou não tivesse. Sentiam-lhe dinheiro no bolso, claro, venha a nós... Todos mais a mim, mais a mim. E o lorpa a cuidar que lhe davam tantos améns por causa dos seus belos predicados! Com que biscas! Mas, como quem o tem é que o troca, ora viva o nosso amigo, o que é que o traz por cá, às suas ordens, mande! E o filho de quem o pariu, de costas quentes, trazia o povo numa apertadinha.
- Ou esbarrondas a parede, ou ainda hoje te vou fazer a cama!
- Farto seja você de tribunais nas profundas dos infernos! Não tem olhos nessa cara? Não vê que isto é meu, seu ladrão?!
A coitada da Maria Ambrósia, de raiva, até espumava, e o caso não era para menos. Ter a gente uma coisa sua, e de repente aparecer-nos um larinhoto e levá-la de mão beijada!
- Lembre-se ao menos destas crianças, que ficam desgraçadas...
Qual o quê! Sentimentos não eram com ele.
- Sejam então muito boas testemunhas... E pronto, começava o calvário. Coisas de fazer tremer a passarinha. Numa ocasião processou o Garrido só porque lhe atravessava uma leira quando ia namorar! O pai da Belmira não queria o casamento. Aqui-del-rei que matava o rapaz se o encontrasse a desencaminhar-lhe a filha. Que remédio tinha o coitado senão cortar-lhe as voltas e fazer-lhe o ninho atrás da orelha! Ia ao redor da casa, metia-se no meio do milhão, e era um regalo. Pois o badana do Leonardo deu com aquele arranjo em pantanas, e por um triz que não metia o pobre do desgraçado na cadeia.
- Ó homem do Senhor, tu parece que não tiveste vinte anos! - clamava o Pinto, indignado, a lembrar-se com saudades dos tempos da mocidade.
- Quem quer cainça, vai para os baldios. Naquilo que é meu, não!
- Estragou-te alguma coisa, porventura?
- Não quero cá saber. Sevandejava-me a propriedade, e não é pouco! Fica o aviso feito: a mim, quem me pisar o risco, vai malhar com os ossos no chilindró.
Um castanheiro à borda da extrema, que pingasse para o lado dele, era uma carga de trabalhos. Mais valia atirá-lo abaixo. Os marcos, então, andavam sempre numa fona!
Nem já ninguém queria terras ao pé das dele. Os donos punham-nas à venda, os compradores chegavam-se, mas desistiam.
- É um bom bocado, realmente, dá aqui um rico milhão, e não se pode dizer que seja caro. O pior é a má vizinhança... Não. Meter-se a gente em trabalhos escusadamente!
Foi por Deus o Abrunhosa ir ao Brasil, ganhar por lá bem contos, aprender como as bandalheiras se fazem, e vir pôr termo àquilo. De contrário, quem havia de viver em Celeirós com um justiceiro assim?
O Abrunhosa, apenas regressou do Rio - todo lorde -, pôs-se a arejar as notas. Comprou o Tapado, limpou a mina do Reguengo, e queria aumentar a casa. Bem tolo não empregar tanto dinheiro em fragas que lhe rendessem mais! Mas lá diz o ditado: pobre pássaro que nasce em ruim ninho. Segue-se que era amigo da sua terra, e a ele se sabe, tinha empenho em fazer as coisas a gosto dele. Abrir uma varanda do lado do sol, altear a cozinha, ajeirar um quarto de banho, arranjar comodidades. Mas logo por sorte quem havia de ter um palheiro em frente? O Leonardo. Os pedreiros a darem começo à obra, e o Leonardo rente com duas testemunhas.
- Embarga, tio Leonardo?
- Embargo.
- Muito bem. Ide-vos então, rapazes. E descansai. Quem paga é aqui o nosso milionário...
- Não sou milionário, mas ainda tenho o suficiente para me bater com qualquer.
- Ora essa! Que dúvida! Com quem ele se foi meter! Isto de mijar no mar tem o seu quê!
A arrotar postas de pescada, o Leonardo logo no outro dia que tinha o melhor advogado da comarca, e que ganhava, desse por onde desse.
O Abrunhosa, muito calado, que no fim se veria.
De bico amarelo! Pela mansa, manobrou as coisas de tal maneira, que comprou testemunhas, comprou advogados, comprou juizes, comprou tudo. Mas a sério! Nada de conversa fiada. Todos ali comprometidos e firmes. E sem o Leonardo sonhar sequer! Na audiência, quando contava com um p-a-pá-Santa-Justa a seu favor, sai-lhe a coisa furada. O Felizardo, o Úniico que verdadeiramente podia fazer prova, por ser a pessoa mais velha da terra, que não sabia, que ao certo, ao certo, não podia afirmar. A Bernarda, que também ao cabo e ao resto não conhecia a questão. E o Freitas, esse então disse redondamente que quem tinha razão era o Abrunhosa.
O Leonardo parecia um bicho, a bufar. Era vê-lo pelo corredor a cabo, para cá, para lá, sem parança, como um lobo num fojo. Dantes, naquelas ocasiões, espanejava-se todo, de mãos atrás das costas, como se estivesse em sua casa. Agora, com o rabo entalado, gemia. Traidores! Mas que os metia a todos na cadeia! Se metia! Com quem cuidavam eles que estavam a brincar? De resto, a procissão ia ainda no adro. Não cantasse lá o sr. Abrunhosa vitória antes do fim da festa! Então o Dr. Vaz não valia nada? Deixassem-no falar, e veriam. Esperassem-lhe pela resposta.
E aqui é que foi a bomba. O Dr. Vaz tinha a língua vendida como os outros. Nas alegações, que sim, que não, que torna, que deixa, e, para encurtar razões, que pedia justiça. Claro, os Juizes fizeram-lhe a vontade. Deram direito ao Abrunhosa.
O Leonardo, ainda a sentença estava no meio, que apelava. Havia de ir até ao cabo do mundo.
Farroncas tem a minha Joana, mas obras... Ali era meter a viola no saco e nem tugir nem mugir. Pois se até um cego via que o vento mudara de feição! Voga bem. Quando o demónio atenta uma pessoa...
O Abrunhosa, ao saber que a questão continuava, riu-se. Era de força, o tio Leonardo! Mas com valentões assim é que ele gostava de se divertir. Para o brasileiro aquilo até o distraía. Quem não tem que fazer, faz colheres.
No Porto, o Leonardo ganhou. Santo Deus! Só lhe faltou deitar foguetes. Um lorpa, que não via que era tudo combinação. Porque em Lisboa, foi de caixão à cova.
A gente não se deve rir do mal de ninguém. Mas, quando as coisas passam as marcas, é humano gostar de ver o nariz achatado a certos figurões.
- Então, tio Leonardo, sempre ganhou a questão? A modos que vi hoje os pedreiros outra vez na obra do Abrunhosa...
O Campeã era dos que em tempos fora também cosido e mal pago pelo Leonardo. E gozava a desgraça do facínora sem dó nem piedade...
- Perdi esta, mas posso ganhar outras, que tem lá isso ?
Coitado! Teve quase sempre que ir adiante. E, nisto de tribunais, quem vai à frente é que geme. Depois, com advogados do Porto e de Lisboa não se brinca. Comem muito. Não há quem os vede. Aquilo não é gente de duzentos ou trezentos mil réis. É logo às boladas de vinte ou trinta contos! -
Segue-se que quando o Leonardo se viu livre da enrascada, tinha tudo em pantanas. Hoje um lameiro, amanhã uma mata... 
- Desgraçadinho. Pobre como Job.
- Mas foi um descanso. Todos lhe podiam arregalar os olhos quando metia a mão no alheio, e cantar-lhas.
- Olhe que agora a justiça são duas lombeiradas com um estadulho! Ponha aí o que não é seu, se quer os ossos inteiros.
Lá fazia das tripas coração, pois que remédio! Mas tão danado, tão viciado na chicanice, que a ver-se naquela miséria em que os tribunais o tinham posto, não suspirava por outra coisa. Nos dias de feira da Vila, já velho e atoleimado, sentava-se na soleira da porta a ver passar o povo. Como toda a gente lhe conhecia o fraco, puxavam-lhe pela língua.
- Quer vir, tio Leonardo? 
- Não tenho pernas. Se não, bem gostava! Está um dia bendito.
- Bom para semear batatas...
- Quais batatas! Bom mas é para ir pôr uma demanda. Com um sol destes, eram favas contadas...

Miguel Torga, Contos da Montanha