19/08/2007

A Bailarina

Era uma vez uma bailarina, mas unia bailarina de pape­lão, daquelas que mexem simultaneamente os braços e as pernas. Nunca se cansava, e era bonita, bonita a valer. Tinha saias de papel frisado.

Um dia penduraram-na numa parede. O rapazito (como se chamava ele?) Gustavo, que cos­tumava ir àquela casa, adorava-a, mas ninguém o sabia. Nem a tia mais velha nem a mais nova. Julgava-o ele. Entrava na sala, dizia duas palavras aos gatos de veludo que estavam, um de cada lado do espelho, com belos olhos de contas de vidro a olhar para ele, dava mais uns passos e levantava o braço. Anda cá tu, minha beleza! Tirava a bailarina do prego e zás-que-zás, zás-que-zás... Ela dançava, levantava as pernas de lado, dava aos bra­ços... Que tentação! Gustavo, puxava-lhe freneticamente pelo cordel. Dança, minha menina, dança! mais, mais, mais! Gustavo foi crescendo e a bailarina sempre na parede. Coitadita, mas não se sabe como, envelhecia... Desbota­ram-lhe as saias, encheu-se de riscos. E esqueceu, tor­nou-se esquecida. Nem alegre nem triste, porém sempre de braços no ar e de pernas penduradas.

Lá veio um dia mais tarde em que Gustavo tornou a reparar nela. Já ele era um tamanhão.

Como a bailarina das tias o tinha entretido! E riu-se desdenhoso. Antigamente tinha uma saia cor-de-rosa.

A carinha dela é que ainda era bonita. Até lhe lembrava a da bailarina do Salão Foz.

Que bailarina! Como ela dançava! Dava às pernas e aos braços quase como aquela.

Ele ia tornar a experimentar. Não estava ninguém, a porta encostada... tirou a boneca para baixo e, como antigamente, sentou-se no chão.

Já não tinha cordel para se puxar, bolas! Levantou-lhe um braço, depois o outro. Juntou-lhe as mãos. A marota tinha graça! Como a outra... Mas a do Foz corria de cá para lá e dava umas palmadas e umas gargalhadas que ale­gravam toda a gente. Quando ela se ria riam-se todos. Havia de ir tornar a vê-la.

E quando ela se sentava no chão a fingir que estava amuada? Parecia mesmo uma garota...

Gustavo sorria àquelas ideias.

A porta, encostada, entreabre-se mansamente e a tia mais nova, já de cabelos grisalhos, pergunta-lhe, amável:

Ainda gostas da bailarina, Gustavo? Foi os teus encantos. E eu não ta dei nunca com medo de que tu a rasgasses.

Não, minha tia, já não gosto. Estava distraído.

Não tenhas vergonha! Se quiseres dou-ta por recor­dação.

Muito obrigado, minha tia, não é preciso.


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma