26/07/2007

Um filho



Contemplado do alto da Mantelinha, o mundo parece tudo menos um vale de lágrimas. Em janeiro, então, quem não é cego da alma e, de lá, vê tudo em redor coberto de neve pura, mesmo que seja pastor e tenha o gado na loja morto com fome, acaba por acreditar que a terra foi gerada só para ser possível uma brancura assim. Por isso não admira que em Provezende ninguém tivesse entendido a simplicidade com que o Rebel um dia desceu do monte, falou à filha do Jaime, a pediu em casamento, a recebeu, e com ela e a maluquice se foi. O Rebel era a fraga cimeira da Mantelinha, lavada todos os dias pelo bafo do céu; e Provezende fica nos fundegos da Ribeira, aonde até o ar chega por favor. De forma que não podia de nenhum modo ter olhos para tamanha claridade. Ã própria Júlia, à noiva, valeu-lhe ser dona dum coração feito de confiança, e os seus vinte anos poderem mais do que todas as razões sensatas. De contrário, ali ficaria a chorar a mãe, que morrera há anos, a ralhar com o pai, sempre metido no vinho, sem nunca conhecer sequer o perfume das giestas da Mantelinha.
O velho, numa hora de bebida regrada, ainda lhe disse:
- Quem bem fizer a cama...
Mas ela ouviu-o a pensar na desgraça em que viviam. E como era animosa, e a idade lhe pedia um homem a cheirar a urzes e com ar de lobo, gostou do rapaz, casou-se, pôs à cabeça as duas mantas que herdara, e a seu lado meteu-se pela encosta acima à ventura.
Quem bem fizer a cama...
De pouco valia o eco das palavras paternas a persegui-la! Levada nas asas da imaginação, chegou leve de preocupações à porta do ninho, e, com cinco réis e um prego, fez tal barulho, que daí a dias o casebre solitário da Mantelinha parecia o Palácio da Ilusão. E o Rebel, ao meio-dia, depois de regressar das lombas e comer o caldo, debruçava-se à janela, punha os olhos no craveiro a estalar de cravos e nas dez léguas à volta cobertinhas de sonho, e dizia à mulher:
- Nem há riqueza como a nossa, ó Júlia!
E não havia mesmo. A Mantelinha era já de si um paraíso; mas agora a Júlia cozinhava, varria a casa, ameigava os cordeiros, e aqueles cerros de pedra ressumavam ternura. Depois, nem de propósito, a primavera pegava-se a tudo, e o Barbas, o chibo, e o Roberto, o carneiro, não paravam.
- Pronto. O pessoal rachado do rebanho está coberto... - disse uma noite o Rebel à mulher. - Só faltava a Rucinha, e foi hoje. Vai ser um céu aberto de criação.
- Pois eu também...
- O quê?! Era o que ela lhe dizia. A Mantelinha ia ter que contar.
O Rebel já não pôde dormir. Um filho! Um filho seu, ali, no alto das fragas, a saltar como um cabrito!
De manhã, pela primeira vez na vida, deixou a cama sem vontade. Como que lhe doía já separar-se dele, do menino, que a imaginação quente lhe fazia ver nado e criado, muito parecido consigo, dentro do corpo adormecido da Júlia. Mas lá se ergueu. Com jeito, para não acordar a mãe e a criança, saltou do catre, vestiu-se, abriu a porta, desceu a escada, tirou o gado da loja, e, meio sonâmbulo de felicidade, meteu pela serra a cabo, nimbada àquela hora da indecisa luz do Sol que vinha vindo.
Regressou mais cedo que de costume. E, mal fechou a Porta do quinteiro ao rebanho, e a mulher lhe apareceu com o ar de maçã camoesa que tinha, pegou nela em peso nos braços, balouçou-a ao de leve, e pôs-se a cantar o Dorme, dorme, meu menino... A Júlia ria-se. E ao almoço, enquanto o via engolir as batatas com uma fome esgalgada começou a deitar contas à vida. Tudo muito bonito, mas faltava o melhor. Precisava de lençóis, de toalhas, de faixas, de cueiros...
Como bom pastor que era, o Rebel, em matéria de partos, não passava da simplicidade dos das Ovelhas. E ainda ela estava a meio do rol das necessidades, já ele corria pelas quebradas na companhia do garoto, que havia de ser um rapagão e amigo dos ares da Mantelinha.
A Júlia é que não desistia. Visse lá bem! Não podia Parir como as reses do monte... Tinham de ir a Provezende fazer algumas compras.
O Rebel acabou por ouvir, e prometeu que sim, que iriam. Levavam quatro cabritos, e o que eles rendessem... Mas não havia pressa... Quando nascia o Pequeno? O quê?! Em janeiro?! No pino do inverno?! Juizinho! Ao menos deixasse vir o Março. Não via como as crias da Peluda tinham morrido de frio? Em Março. Em Março é que estava bem.
A Júlia ouvia-o com um sorriso no olhar. Muito gostava ela daquele demónio! Agora lunático, isso era. O cachopo subira-lhe à cabeça. Estava cada vez pior. O menino, o menino, e não saía dali. Pensar a sério nos precisos do parto, isso não era com ele. Largar a Mantelinha, só para casar, e nem ela sabia que santo o encaminhara... Mas agora as coisas mudavam de figura.
- Quando vamos? Estou aqui, estou de cama... - começou a ameaçar.
- Lá para a feira dos nove. Levam-se os dois cabritos da Riscada, o da Arisca, o da Mocha, vendem-se... Até podias ir tu sozinha. Quem há-de ficar com o gado? Mas não vale a pena afligir. Temos tempo...
E houve realmente tempo para o Rebel se perder em devaneios pelos montes., a propósito de tudo e de nada. Um filho! E enchia tanto o peito de ar, que parecia que engolia o mundo. Um filho!
Em Dezembro, a mulher, de grossa, parecia um odre.
- Não te resolvas, e eu quero ver depois... E o Rebel a sonhar. Calma! Antes de Março não queria gente nova na Mantelinha... Vinha aí um janeiro!...
- Só tenho medo que me chegue a hora...
- Deixa passar o inverno. E a hora chegou inesperadamente, depois de um grande nevão caiar a serra enquanto eles dormiam.
- Vai-me buscar alguém pelo amor de Deus, homem! Vai-me buscar alguém! - pedia a Júlia, no pânico das primeiras dores. - E o meu pai que te empreste o que puder. Tanto te disse...
Desorientado, o Rebel não ouvia nada. Ia, ia, não se afligisse. Trazia tudo. Mas quê?! Nascia já? Já de repente? Com o frio que estava? Ela sabia lá! As dores é que eram de matar... Cada guinada!
As ovelhas na loja comiam-se de fome e
berravam. O Rebel foi-lhes cortar uns ramos’ a ver se as calava. Qual o quê! Queriam monte. Monte num dia daqueles! E lá estava a mulher outra vez...
- Vai-me buscar alguém, homem! Vai-me buscar alguém...
O Rebel chegou-se à janela. Tudo tão branco, tão puro, e o gado a berrar, a mulher a berrar... Que tristeza de mundo!
- Vai-me buscar alguém... Voltou-se.
Olhou a parturiente aterrado. Inexplicavelmente, sentiu-se estranho ali e acovardado como diante de. um fenómeno sobrenatural que fosse acontecer. E perguntou de novo e a medo:
- Mas nasce já, já?
A Júlia, porém, respondeu-lhe com um grito tão lancinante, que ele, atarantado, agarrou no chapéu, abriu a porta de repelão e, sem saber bem o que fazia, meteu-se pela neve fora.
Quando chegou a Provezende era quase noite. Com ar de quem tinha visto lobo, entrou em casa do sogro a gaguejar. A Júlia estava para ter um filho... Ficara deitada, comidinha de dores...
Se não se envergonhava de a deixar sozinha num ermo daqueles?!
Envergonhar, verdadeiramente... Fora ela que o mandara buscar alguém, e pedia até se fazia o favor de lhe emprestar alguns precisos...
Precisos... precisos... Onde tinha o Jaime os precisos ? Um rico chefe de família que o genro lhe saíra, não haja dúvida! As ovelhas, as ovelhas ... Bem que dissera à filha: como fizeres a cama ... Fora fazer a cama na Mantelinha com semelhante maluco, recebia o pago... E quem queria ele levar? A mãe estava debaixo da terra; as irmãs eram novas e nunca tinham visto sequer... Bem adiante. Só a Joana Pedra. Mas a Pedra ia lá a tais horas à Mantelinha! De mais a mais numa noite assim! Em todo o caso, fosse falar com ela. Morava mesmo no largo...
Saiu atordoado. No seu entendimento simples não cabia tanta lógica. O filho, de que já conhecia as próprias feições, sempre nascera sem nenhuma complicação. O milagre de ele existir tinha-se dado já, no momento em que a mulher lhe anunciara a gravidez. Depois disso, a espera de meia dúzia de meses fora uma espécie de tempo de purificação. Mais nada. Por isso nem entendera a Júlia a pedir auxílios alheios, nem o sogro a descompô-lo, nem a Joana Pedra, agora, a prolongar-lhe o desespero.
- Não fervas em pouca água, rapaz! O primeiro demora sempre muito. Só lá para amanhã... Anda-me chamar, então.
O céu parecia de breu. Levantara-se vento e chovia. E pela serra acima, o Rebel, alagado em água, tentava romper as bátegas e a negrura daquela hora.
Um filho... A palavra e o significado dela tinham tal nitidez, tal simplicidade, que não conseguia partir dali para a sua aflição.
Insistia: Um filho...
E cada vez estava mais longe da mulher a gritar, do sogro a tratá-lo mal, da Joana Pedra a largar sentenças.
Chovia sempre. A neve, a derreter-se, descia em enxurradas pelos valeiros e ensopava os caminhos. Mas nem toda a água e todo o frio do céu conseguiriam arrefecer a imaginação do pastor.
Um filho... No alto da Mantelinha... E o calor da alucinação aquecia tudo. A escuridão apertava-o como um nó. E o Rebel acabou por encontrar no esforço físico dos olhos a síntese do que sentia na alma. Muito negra era a vida, afinal!
Um filho... E parecia tão clara, aquela palavra!
O vento, que no vale apenas assobiava, no planalto, onde a choupana se erguia, uivava como um cão agoirento...
Culpado e vencido, aproximou-se do vulto atarracado do lar. Voltava de mãos vazias... Mas ninguém o atendera!...
Subiu as escadas, pasmado com o silêncio que vinha de dentro da casa. Até o gado na loja parara de berrar[
Empurrou a porta a medo. Um filho...
E tinha realmente um filho nos braços da mulher adormecida. Um filho simples, natural, sem precisos, sem Joana Pedra, sem faixas, sem cueiros, sem nada.
Um filho que o acordou cedo a gritar com a mesma fome do gado, e que, à tarde, quando regressou do monte, lhe fez dizer à mulher, depois de pegar nele ao colo e de olhar da janela o mundo outra vez coberto de sonho:
- Nem há riqueza como a nossa, ó Júlia!

Miguel Torga, Contos da Montanha