03/07/2007

O Rei Sendal!

E se fosse naquela noite? Porque numa noite assim é que havia de ser. Estava escrito, dizia a tia Eufémia. Feliz daquele que visse... Se quisesse até podia entrar no cortejo. Entregavam-lhe logo uma espada, um manto e umas esporas. E ele iria com os outros, de espada na mão à desfilada...
À frente o rei Sendal. Era um rei que andava à pro­cura da sua noiva, parece que desde que o mundo era inundo. E havia de a encontrar numa encruzilhada de caminhos a fiar, à espera dele.
Tudo isto era sabido de Joaquim, que em todas as noi­tes de lua se punha também à espera.
Seria naquela? Os cavaleiros do rei Sendal eram tantos que formavam uma nuvem. Apenas lhe faltava um, con­tava a tia Eufémia. Um que pertencia à terra, porque os outros eram do céu, do ar. Passariam à desfilada sem ninguém os ouvir. O cavalo do tal é que ia metido no cortejo, sem levar o dono em cima.
Tantas negaças lhe fez a lua que o Joaquim se levantou.
Nessa dita noite faria uma lua como o sol... Tão clara, tão clara que as mulheres poderiam coser e fazer renda sentadas à porta.
O rapaz enfiou a roupa de mansinho, pôs o capote às costas e pegou nos sapatos. Atravessou toda a casa descal­ço. Ao passar pelo quarto da mãe deu um suspiro. Adeus, rninha rica mãe! Se me calha ir com o rei Sendal... Mas nada lhe saiu dos lábios. Fora calçou os sapatos e atraves­sou o pátio. O chão batido luzia. Era tanto o luar! O Joa­quim coseu-se com as paredes para que nem a sombra se lhe visse. Sempre há gente que se levanta de noite... Ao passar junto das arribanas veio-lhe à cara o bafo morno dos bois e tornou a suspirar, mas não se deteve. Rei Sen­dal, rei Sendal, rei Sendal! repetia-lhe uma voz interior.
A Lua já ia tão alta! Sobressaltou-se com a remexida dos cães. E se eles se pusessem a latir? Estava tudo per­dido. O rei Sendal passaria e ele não o havia de ver. Que tristeza! O Joaquim atravessou então ligeiro como uma folha para o lado da vinha, meteu-se por entre as cepas que formavam ruas tortas e desatou a andar. Mal olhava para o chão, mas nunca tropeçava. Pregou os olhos na Lua e pôs-se a correr.
Ai Lua, ai Lua, porque me vais tu a fugir! E o rei Sen­dal? Iria rodeado de cavaleiros, à desfilada. No meio deles, era certo, o tal cavalo sem dono...
Acabou-se a vinha e o Joaquim passou para o olival. Por baixo das oliveiras, que estavam encarreiradas, ele procurava sempre a Lua. Ela é que lhe daria o sinal.
Ó rei Sendal! Onde é que tu paras?
A fugir e a cogitar o Joaquim já deixou as oliveiras para trás. Vai seguindo por uma chã fora, mal desterroada. Apesar disso corre, corre como se voasse. E a Lua no céu também corre. O capotinho dá-lha nas pernas. Ó rei Sendal!
A Lua a fugir-lhe e ele a correr sempre atrás dela. Ó rei Sendal! Este grito sai-lhe sem ele mesmo querer. Até já vai por cima de vidraça. É que faz muito frio. Ó rei Sçndal!
Vidros e silvas e carantonhas feias, só para o ame­drontarem. Parece impossível. Ó rei Sendal! Ainda bem que estava ali uma árvore. O Joaquim encostou-se a ela, muito bem enrolado no seu capotinho, sem tirar os olhos da Lua. Ó rei Sendal!
Que silêncio! A Lua gela tudo. Tão fria! E um céu tão claro, tão claro... A tia Eufemia estaria a coser ou a fazer renda à sua porta. O Joaquim baixou a vista. Como é que ele nunca tinha dado pela grande chapa de água que além havia? Era um lago de pesca. Os pescadores até vinham do outro lado sem darem palavra. A força com que eles empurravam as canoas para a água! Lá se iam embora. Ele já vira uma coisa assim, pintada realmente. Mas nunca estivera ao pé do mar.
O Joaquim tem vontade de soltar um grande grito. Porém, não pode. Apitam-lhe os ouvidos. Sente-se amar­rado àquela árvore. Amarraram-no, só para ele não ir ter com o rei Sendal. A Lua manda-lhe fechar os olhos, mas ele abre-os e volta-se. Vai sempre atrás dela. E descobre que a Lua, afinal, é uma grande sala. Lá está o rei Sendal.
Que bulha, que extraordinária bulha! Isto que era agora? Pareciam-lhe uivos.
Ó minha rica mãezinha, os lobos! Minha rica mãezinha... que eles me saltam em cima!
O Joaquim cobre-se de suores. O que lhe vale é ter um capotinho de ferro. Os lobos deixam-no.
Ó rei Sendal! Ó rei Sendal!
Alguém o ouviu. Põem-no de pé e dizem-lhe assim: vai-te embora que esse rei já passou. Mas não tinha pas­sado. Lá ia a Lua a correr e a chamá-lo. O seu mal todo, no fim de contas, era já não ter pernas. Não se podia mexer, como os cortiços. Gritou, gritou, gritou. Nisto desatam os mochos a cantar. Estava tudo perdido. A tia Eufémia bem lhe dissera: se os pássaros piam naquela noite...
Ó rei Sendal! Ó rei Sendal! Não vens, nem virás?
O Joaquim põe-se de conversa com o rei Sendal. Está-lhe perguntando: deixas-me ir no cavalo sem dono? O rei Sendal deita a cabeça por trás da Lua e responde-lhe:
Eu levo a espada na mão? Pobres dos lobos! E vou de esporas? Onde pára a tua noiva? Que frio que ela anda a passar! São muitos os teus cavaleiros? E já foram à guerra?
O rei Sendal diz-lhe a tudo que sim.
Esta conversa durou até de manhã, durou até que o sol deu nos olhos do Joaquim e o mandou sem-cerimónias para casa.


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma