22/07/2007

O cavaquinho



O Ronda era o homem mais pobre de Vilela. Mas teve uma tal alegria quando o filho, o Júlio, fez o primeiro exame com óptimo, que prometeu pela sua salvação que lhe havia de dar uma prenda no Natal. O rapaz ouviu-lhe a jura desconfiado. Apesar dos dez anos, já conhecia a vida. Uma prenda, se nem dinheiro havia para broa! Em todo o caso, pelo sim, pelo não, foi pondo de vez em quando uma acha na lembrança do pai, e em Dezembro, na véspera da feira dos 23, avivou a chama:
- Então sempre vai à Vila?
- Pois vou. 
- E traz-me a prenda?
- Trago.
Fez-se silêncio. A ceia tinha sido caldo de couves e castanhas cozidas. Mais nada. A noite estava de invernia. Sobre o telhado caíam bátegas rijas de chuva. E como a casa era de pedra solta e telha vã, cheia de frestas, o vento, que parecia o diabo, de vez em quando entrava por um buraco a assobiar, passava cheio de humidade pela chama da candeia, que se torcia toda, e sumia-se por debaixo da porta como um fantasma. Mas a murra de castanheiro a arder e aquela firmeza com que o Ronda garantiu a promessa, doiravam tudo de fartura e aconchego.
- E o que é quemevai dar?
- Isso agora...
- O que é?! Foi preciso a mãe arrumar o assunto com as rezas e a cama.
- Infinitas graças vos sejam dadas, meu Deus e meu Senhor...
As palavras saíam-lhe da boca límpidas, quentes, solenes. E o pequeno, que já ouvira aquela lenga-lenga milhentas vezes, sempre a cair de sono, pôs-se, muito espevitado, a tentar compreender o sentido íntimo de cada invocação.
- Santo André Avelino nos livre de morte repentina...
Pai e filho respondiam à uma:
- Padre-nosso, que estais no céu...
- São Bartolomeu nos livre das tentações do demónio, dos maus vizinhos à porta, das más horas...
- Padre-nosso... Contudo,, a atenção do garoto não tardou a cansar-se. No terceiro mistério a sua voz cambaleava. E na Salve-Rainha, abóbada do solene ritual, parecia que levara com uma moca na cabeça. Ia já a tombar no preguiceiro, quando o amém definitivo o fez voltar à vida. Escorou então as pálpebras com toda a força que pôde, e lá conseguiu fitar o pai numa derradeira pergunta:
- Certo, certo, que traz? A mãe é que lhe não deixou arrancar a última confirmação desejada. Pegou-lhe no braço adormecido, ergueu-o, quase que o arrastou até ao quarto, e daí a nada o Júlio caía num sono fundo, toldado apenas pela incerteza em que adormecera.
De manhã, quando acordou já o pai tinha partido. A Vila ficava a três léguas e a feira começava cedo. O costume. Foi então prender a cabra, numa preocupação gostosa, morna, que lhe dava vagares em todas as encruzilhadas, enlevado a olhar as silvas e as pedras.
- Tu parece que andas parvo, rapaz! A mãe não podia compreender o que significava para ele receber uma prenda - estender a mão e ver nela, não a malga de caldo habitual, mas qualquer coisa de inesperado e gratuito, que fosse a irrealidade da riqueza na realidade duma pobreza conhecida de lés a lés. Por isso se arreliou tanto quando o viu, ao almoço, virar a cara aos carolos, e ao meio-dia comer apenas o rabo de uma sardinha.
Pronto, só lhe faltava agora mais essa desgraça! Que o filho ficasse doente. Um dentinho real a deixar o caldo!
Coitada, via-se bem que gostava dele...
O que é... E tão fácil de perceber!
Quando a noite veio caindo dos lados de S. Cibrão, cansado de guardar o caminho velho por onde desde que o mundo é mundo se regressa da Vila, pediu à mãe que o deixasse ir esperar o pai. Só até à Castanheira...
Se não via a névoa a cobrir tudo! Se não ouvira as Trindades! Tivesse juizinho.
Olhou a mãe mais demoradamente. Tão sua amiga, tão boa, e não ser capaz de entender!
Resignou-se. Ficaria ali até o pai apontar ao fundo da Silveirinha. E logo que o descortinasse, ó pernas! Mas que seria a prenda? Que seria?
O nevoeiro, que quando a mãe falou cobria apenas o monte de S. Romão, descera agora espesso e molhado sobre o povo. E com ele viera também a noite.
Da Porta já se não enxergava nada. Além de que a chuva, o vento e o frio, que se juntaram naquela hora, enregelavam tudo. A tremelicar, foi-se chegando à lareira.
- O pai demora-se... 
- Não que ir à Vila e voltar tem que se lhe diga...
Via-se bem que também ela estava inquieta. Seria que, como ele, esperasse por uma prenda?
Cerrou-se a escuridão. O aguaceiro agora cala a cântaros. Pelas frinchas da casa o vento ia dando punhaladas traiçoeiras.
- Valha-me Deus!
O lamento da mãe acabou de encher a cozinha, já meia testa de fumo.
- Que noite! E aquele homem por lá! Olhou-a com os olhos vermelhos da fogueira de lenha verde.
De súbito, à ideia da prenda, que, alegre, o acompanhara todo o dia, juntou-se-lhe uma outra, triste, imprecisa, que lhe meteu medo.
- O tio Adriano também foi> pois foi?
- Foi. Novamente um grande silêncio caiu entre eles. Mas durou pouco.
- Vais cear e dormir, que são horas.
- Eu queria esperar pelo pai!
- Vais cear e dormir... Embora obrigado, nem o caldo lhe passou pela garganta, nem o sono, na cama, lhe fechava os olhos. No escuro ouvia a mãe chorar, suspirar, e as bátegas grossas e pesadas a martelar o telhado.
De repente sentiu passos no quinteiro. Até que enfim! Era o pai! O que seria a prenda ?
A pessoa que vinha bateu de leve e chamou baixo:
- Maria...
- Quem é? - perguntou a mãe.
- Sou eu, o Adriano...
O coração deu-lhe um baque. Então o tio Adriano voltava sozinho?!
Pôs-se a ouvir, como um bicho aflito. E daí a nada sabia que o pai fora morto num barulho, e que no sítio onde caíra com a facada lá ficara ao lado dum cavaquinho que lhe trazia.

Miguel Torga, Contos da Montanha