29/07/2007

Figurinhas de tapete

Nas antigas salas, sempre fechadas e cheirando a mofo, ha­via belas tapeçarias pelo chão e pelas paredes, como nos museus, vitrinas de loiças já desemparelhadas, armas de muito peso e pouco brilho, cestinhas de contas e de fitas desbotadas, flores em redomas, sofás mancos e até ninhadas de ratos.
A rapariguita que abria as janelas quando se arejava aquela parte do palácio, em cada ano que passava ia to­mando mais conhecimento de todas estas preciosidades. Num, toda a sua delícia foram as figurinhas de um pre­sépio, noutro as pedras das jóias, noutro os trajes e os penteados das damas pintadas, noutro, enfim, os panos das paredes. Reparou bem neles e tentou decifrá-los. Já estava quase uma mulher. Tudo a seu tempo chega, como é sabido.
Houve lá um pano que lhe despertou maior curiosi­dade. Formava muitos quadros. E ela tomou-o à sua conta. Estava que tempos de pé a estudá-lo. Parecia-lhe primeiro confuso, apesar de engraçado, mas uma semana inteira de limpezas deu-lhe azo a entendê-lo.
O pano era grande. À primeira vista nem se percebia bem o que significava: muitas figuras, árvores e flores... mas à força de atenção distinguiam-se umas coisas das outras, e até se viam cenas. As silvas e os bosques de ramagens tanto as reuniam como as separavam. As figu­rinhas vivas eram sempre as mesmas, repetidas aqui e ali; as suas situações é que variavam.
A rapariga, que era curiosa, tanto olhou e tanto pen­sou que chegou a deslindar o mistério. E como já era crescida e também maliciosa tirava grande prazer das suas descobertas. Ria-se baixinho e quando ia fechar as jane­las lançava sempre um derradeiro olhar para aquele lado. Tal como se dissesse: amanhã também é dia, a festa ainda não acabou.
O tapete, que devia ter sido composto por algum artista amável para distracção de famílias distintas, estava tendo um destino bizarro: entreter a filha de uma sim­ples caseira, esperta e impressionável. Tanto assim que ela chegava cá fora e se aborrecia. Vinha com saudades da vida do tapete! Já tinha achado até uma ordem para os seus pequenos quadros. Que não era má.
O primeiro era o de três meninas sentadas no banco de um jardim, a trabalhar. A do meio tinha um fato branco, a da esquerda um azul e a da direita um cor-de-rosa. Ainda se percebiam bem as cores. As saias das meninas eram tufadas. Aos seus pés estavam poisadas condessinhas, de onde saíam os fios dos trabalhos. As três faziam renda sem pestanejar. Os novelos eram redondos e muito lindos, também de cores. Perto delas corria um regato e por cima das suas cabeças as árvores abriam leque.
Logo pegado, noutro banco análogo, as mesmas meninas também debaixo das árvores, mas já sorrindo. O novelo de uma delas tinha saltado para o chão e um cãozinho de luxo brincava com ele. Coisa engra­çada!
Num terceiro quadro elas conversavam com as mãos poisadas no regaço, e à sua frente surgira uma coisa... uma figura que se mexia. As três, porém, nem a notavam. Mas fechando-se um pouco os olhos via-se que tudo ganhara animação: as meninas davam aos lábios e a figura saltava e abria os braços, rabiava.
Mais adiante as meninas permaneciam um pouco de lado, sempre sentadas no seu banco, e a tal figura esten­dia belas coisas pelo chão... Havia muitas caixas abertas. Era um mágico. Outra coisa não podia ser. Dava à cabeça, fazia cabriolas, estendia as mãos carregadas... E as meni­nas sem verem nada! Nem um só olhar lhe dispensavam. Noutro quadro o mágico tapava a cara com os cabe­los, enchia as bochechas e punha-se a soprar, a soprar. Soltava-se um vendaval medonho. Só se viam troncos rachados e folhas em remoinho. Até um pássaro cai morto aos pés das donzelas! A do meio vai mesmo para o apa­nhar.
Num último quadro tudo volta à primitiva, por feli­cidade. O mágico está atrás de uma árvore com as mãos na cara, à espreita. As lindas meninas vêem-se paradas. Têm lindos penteados e canudos. Sapatinhos de cetim com laços e lencinhos de renda na mão. As três olham para o mesmo ponto... Pois! Vêm subindo três formo­sos mancebos de meia alta e de casaca de seda. Três perfeições! Cada um deles empunha o seu ramalhete de flores. Eis por quem elas esperavam... Podia-se moer e matar o mágico.
E a filha da caseira desembaraçando toda esta meada sente-se maravilhada. Chega mesmo a apostrofar aquele doido que perdia o seu tempo a inquietar as donzelas. Também dava um nome ao cãozinho e, sem falar, esco­lhia para si o mais belos dos jovens.
Ela sabia que não tinha rivais a sério e que nem aquilo era namorar, mas gostava de se entreter.



Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma