11/06/2007

A Promessa



Fizera a promessa em Piauí, Minas, quando, depois de o rio Doce crescer, encher as margens de traíras e secar, se levantaram tais febres que não havia quem lhes resistisse. O engodo de terras a quem as quisesse cultivar arrancou o Lucas da mercearia Barros & Cia., em Juiz de Fora, e metera-o no comboio da Leopoldina Railway, a caminho da mata. Um fazendão, na verdade, que o Estado lhe ofereceu de mão beijada, a troco dum requerimento. Cada jacarandá, cada garapa, que o desgraçado abria os pulsos às machadadas ao toco, e as bichezas em pé. À custa de muito suor, lá conseguira fazer uma derrubada, plantar um cafezinho, e um migalho de cana, semear dois pés de milho, e poderia alargar mais ainda os alicerces da riqueza futura se aquele excomungado rio Doce se não põe para ali a inchar como uma mulher, e não acaba por parir tais sezões, que era tudo a eito.
O curandeiro da região, o Albino, um negro que metia medo às onças, bem jurou que os seus frascos de homeopatia curavam doenças deste mundo e do outro. Qual o quê! Se não se agarra à Senhora dos Aflitos com unhas e dentes, bem que batia a bota.
Que lhe fazia uma festa no seu dia, sozinho, sem a ajuda de ninguém, se ela lhe valesse. E como a santa o ouvira, e era homem de palavra, cinco anos depois, quando conseguiu arrancar daquele chão tropical com que viver gravemente em Ludares, vendeu as terras, meteu-se às ondas, atravessou o Marão, subiu a serra da Forca, abraçou toda a gente da aldeia e tratou de dar andamento à promessa.
Queria uma missa cantada com acompanhamento, um sermão do padre Gaspar arrancado das entranhas da alma, e uma procissão solene que testemunhasse publicamente a grandeza da hora em que tivera a vida por um triz. Homem simples, de coração sensível, o Lucas desejava que o seu voto fosse cumprido como tinha sido feito - em pureza. Esquecia-se de que a mulher, a pateta da Lucinda, desde que ele viera ardia em vaidades, e sonhava com um festão espaventoso que metesse arraial e comédias.
Ofendido na sua fé, disse redondamente que não. Mas o Brasil tivera-o desaninhado muitos anos. Como não era porco, nem gostava de sujar águas de ninguém, aguentara-se na sua virtude. Por isso, agora, a Lucinda, que lhe conhecia o fraco e o trazia pelo beiço, abusava. Ou ele lhe fazia a vontade, ou tinham o caldo entornado.
O Lucas acabou por ceder a respeito do arraial. Pois então, sim senhor, concordava. E pagava, claro está. Respeitava os usos da terra. Comédias, é que não. Só a ideia lhe parecia já um pecado. A promessa fora a sério. Sabe Deus em que aflição!
A mulher, feita com o resto do povo, emoldurava-o nos olhos ramalhudos e brejeiros, que o entonteciam, e continuava na dela. Ou tudo, ou nada. Que embirração!
- Mas eu não prometi comédias, com mil diabos! E que tinha lá isso? Um esquecimento qualquer pode ter. Eram mais quinhentos mil réis para trás ou para diante.
Coçava a cabeça, desesperado. Palavra de honra que não se tratava de ninharias materiais. Pelo contrário: só lhe daria prazer... Mas noutras circunstâncias. Agora num momento solene como aquele! Não. Até a santa se podia ofender.
A Lucinda é que não desarmava. A Senhora dos Aflitos não era parva nenhuma. Que mal lhe faziam lá no céu, as comédias? Pobre do Pinto, que andava com a cabeça em água... Nem se podia imaginar o que custava meter na tola do Silvino o papel de noivo! Que soco!
- O qué?! Mas então... Pois é claro que andavam a ensaiar! Não, estavam à espera das ordens dele! Há mês e meio. Por sinal, uma riquíssima peça. O Casamento Escandaloso. De a gente morrer. Havia lá uma cena!...
O Lucas já nem ouvia, aniquilado com aquele sacrilégio ao voto que fizera. A grosseira intromissão dum espectáculo profano na íntima religiosidade da sua gratidão doía-lhe no cerne da alma. Recuava ao momento da doença e via-se desamparado, a bater o queixo no meio da selva hostil. Nem a mulher, nem Ludares em peso, lá longe, lhe podiam valer. Só forças sobrenaturais são capazes de vencer os impossíveis deste mundo. E eram agora essas pobres incapacidades terrenas que tentavam diminuir o preço que toda a fragilidade mortal deve ao poder divino! Não. Santa paciência!
A Lucinda começou a chorar. E depois de muitos soluços, declarou-se incapaz de resistir à vergonha que ia ser. Por isso, saía de casa.
Diante duma reacção assim inesperada e bruta, que ameaçava destruir-lhe a felicidade, o Lucas não teve remédio senão resignar-se. Fosse tudo em desconto dos seus pecados.
Nas vésperas da festa ainda cuidou que Deus o quisesse ajudar. Estava ele no escritório a contar juros e a meditar nas misérias humanas, entra-lhe a mulher pela porta dentro trespassada.
O Ruela, um dos principais actores, adoecera.
Aliviado dum grande peso moral, fitou-a com ar de quem fora miraculado outra vez.
- Ah! sim? - Mas ela não compreendeu. - E agora?! Quem há-de fazer de regedor, não me dirás?
- Agora... é não haver comédias. Indignada com o disparate, a Lucinda bateu-lhe com a porta na cara. Ficasse sabendo que lá haver comédias havia, nem que estoirasse o mundo.
Voltou aos rendimentos e às congeminações. Que génio aquele!
Foi o Ruço, pau para toda a colher, que tapou o buraco. Em três dias, o ladrão aprendeu o papel.
Mas decididamente que alguma vontade providencial estava pelo lado do Lucas. No próprio dia do espectáculo, o Ruela morreu.
- Que azar! Parece praga! - lamentava-se a Lucinda, desorientada de todo.
Só o Lucas, apesar de ter sincera pena do Ruela, se sentia bem por dentro.
- Pronto. Faz-se a festa religiosa, e acabou-se. Foi o que eu prometi.
Se a razão comandasse as nossas acções, evitavam-se muitos dissabores. Infelizmente, não é assim. Para conseguir os seus fins, cada ser humano é capaz de passar por cima das coisas mais santas. Nem o corpo ainda quente do Ruela detinha aquelas consciências desvairadas.
- Não faltava mais nada! Lá por morrer um soldado não se acaba a guerra...
A Inês, a viúva do Ruela, que morava mesmo no largo onde o palco já estava armado, assim que soube que a representação ia por diante, cobriu o xaile e foi ter com o Lucas.
- Ouviu? Se você me faz pantominas à porta no dia da morte do meu homem, eu até a alma lhe como, seu galhudo!
Aflito e atónito com o remate da advertência, o brasileiro fez nova tentativa junto da mulher. Que tivesse dó daquela desgraçada. Considerasse que podia estar no lugar dela. Evitasse uma tal profanação. Até Deus os podia castigar a todos.
A Lucinda foi como uma pedra. O povo queria divertir-se; o melhor sítio era ali, no eiró; tivesse a Inês paciência. E acabasse lá com os maus agoiros!
Rilhado de desespero, o Lucas passou a tarde a arder numa fogueira de remorsos e dúvidas. Devia logo de entrada ter cortado o mal pela raiz. Não e não! Agora, claro, abusavam da fraqueza dele. Quanto à insinuação da Inês, seria possível?... Ou haveria ali apenas força de expressão, rudeza de maneiras? De qualquer modo, desassossego e aborrecimento.
E neste cenário triste, a representação começou. Antes, a música de Portela executou solenemente uma abertura. E o Lucas, sentado ao lado da mulher, não pôde deixar de reconhecer que, realmente, coisa asseada!
A Lucinda, essa, exultava. Quando é que em Ludares se ouvira nada que se comparasse? E voltava-se na cadeira para ver se alguém discordava. Ninguém. Aquele mar de gente, a olhar com avidez o palco, estava todo de acordo com ela. Subisse o pano. Dum mastro alto, apenas um candeeiro iluminava frouxamente o largo. O Lucas reparou nisso e doeu-se intimamente de semelhante descuido. Afinal a festa era sua. Não prometera comédias, é certo., mas já que se faziam... Que, diga-se a verdade, podia orgulhar-se. Dum bonito assim gabavam-se poucos. Pena o pobre do Ruela... Claro que não tinha culpa da desgraça de ninguém. Além disso o povo é que teimara... Bem, olha, adiante...
Estava na paz desta conclusão, quando soaram as três pancadas. Oh, oh! Ia começar, e ele com o juízo nos quintos! Arregalou os olhos. Já que pagava, ao menos aproveitar.
Ao som estridente dum solo do Pelotas, a grande vedeta da música da Portela, que na Vila, num concurso onde rebentaram três rivais, ganhara um cornetim de prata que lhe fora entregue solenemente pela esposa do Governador Civil, o pano começou a subir lentamente.
Lá estavam dois homens no palco. Mas tão disfarçados, que os não identificava. A mulher deu-lhe um breve esclarecimento, que o confundiu ainda mais. O da direita, a personagem principal, chamava-se Tic-Tac; o da esquerda, tio Barnabé. (Muito alto tocava o raio do cornetim!).
De repente, o mestre da banda fez um gesto. E tudo à volta, num silêncio sem respiração, ficou suspenso da boca de oiro do Marcolino!
Era ele, o Tic-Tac. Agora é que o reconhecia.
O ladrão não mudara! A mesma cara estanhada, os mesmos dentes de cavalo e a mesma voz de qualquer, fosse quem fosse. Ó Marcolino, como é que diz o Antunes? E logo a fala do Antunes a sair-lhe pelo nariz, muito arrastada, muito fanhosa: «- A puta da minha Margarida...». Uma risada. A representar, então, quando tinha um bom papel, ninguém lhe resistia. Cada resposta! Lá isso... De resto, bastava vê-lo naquele preparo: um bigode de polícia, calças de fantasia, coco e bengala. Descarado de todo.
Foi o justo, mais acanhado, que fazia de tio Barnabé, a dar a saída.
- Que me dizes, Tic-Tac, Da Pantufa ao casamento?
O Marcolino nem pestanejou:
- Não me agrada o seu sotaque, Porque o noivo é um jumento!
A réplica arrancou uma gargalhada geral da assistência. E o Lucas teve um arrepio. Mas o justo continuava:
- É que me diz um Fulano...
O que o Marcolino, lhe respondeu ainda foi melhor desta vez. O Lucas é que não ouviu bem.
- Que grande peça! - exclamou um velhote à sua frente.
E ele, tão lorpa, que fizera tudo para empatar uma maravilha daquelas! Realmente, quando lá na mata se vira em palpos de aranha, nem lhe passara semelhante coisa pela cabeça... Depois, o caso do Ruela... Coitado, podia estar ali também, feliz da sua vida... E afinal... Ninguém tenha ilusões neste mundo. Mas, com trezentos diabos, lá perdera o fio à meada!
Voltou-se para a mulher:
- Ele que diz? Ouviu protestos à volta. A própria Lucinda o mandou calar, com o cotovelo. Calculem! Puxava pelos cordões à bolsa, e ainda por cima... Felizmente que não gostava de armar questões. Calou-se. Pôs-se a ver e a ouvir.
Uma senhora, parecia-lhe a mulher do Aníbal, entrara já em cena e chorava. Por que raio choraria ela?
Agora grande estardalhaço nos bastidores. Ah! era o Ruço que entrava, a fazer de regedor.
- Autoridade!
O Justo fez de conta. E logo o outro:
- Cabos!
O Marcolino, claro, aproveitou a deixa:
- Por favor, cabos de quê? De enxadão ou de forquilha? Pois muito me maravilha Que seja vossemecê
O referido enxadéio, Ou a possível forquilha, Pai extremoso desta filha, Aliás bem boazinha...
Toda a gente se ria. Só ele, Lucas, não percebia nada. Apurou mais a atenção.
- Ai!...
Abriu muito os olhos. O regedor puxava por uma pistola, e a mulher do Aníbal, a seguir ao grito, desmaiava em cima do sofá. Nisto, ouviu-se um tiro e caiu alguém no chão.
- Morto!
O coração do Lucas estremeceu.
- Hã? Morto? A mulher deu-lhe nova cotovelada.
Morto! Morto quem eu amo!
A plateia uivava.
- Ouve, qual deles é que morreu? Já toda a gente estava indignada. Queriam ouvir. Pouco barulho!
Continuava no palco a lamentação:
Amado destas entranhas, Caído junto a meus pés, juro-te aqui por quem és...
O Roberto, estendido no soalho, não tugia nem mugia. E quando a amante, a Lídia, que fazia de filha do regedor, acabou a tirada, em vez dele, respondeu-lhe uma delirante ovação da assistência.
O Lucas, então, não pôde mais. Merda para aquilo tudo! Morto, mortes, e toda a gente a gostar!
Ergueu-se. Seria bom, seria. Ele é que não estava disposto a incomodar-se mais.
Com dificuldade, rompeu por entre a multidão, que nem o via, e saltou o taipal que rodeava a plateia. A palavra funérea batia-lhe dentro da cabeça. Morto. Morto...
Cá fora a lua dava em cheio na aldeia deserta. Uma solidão de cemitério cobria tudo.
Sentia-se rarefeito como aquelas casas vazias.
O chão fugia-lhe debaixo dw pés. No que dera uma pura e humilde devoção!
Pôs-se a andar à toa pelo largo adiante. Depois, como um sonâmbulo, começou a subir as escadas do Ruela.
Empurrou discretamente a porta e entrou. Quase ninguém. A Inês, o filho, o Lameiroto, a Amélia Gomes e o Concho Velho. O Ruela muito teso no caixão.
Avançou comprometido. Olhava tudo sem ver nada. Só a custo descobriu a caneca de água benta. Pegou no ramo de oliveira e deixou cair umas gotas em cruz sobre o defunto. Virou a cara. A viúva a olhá-lo, como uma fera. Com as pernas a pesarem-lhe arrobas, arrastou-se até junto dela. E tentou falar:
- Inês... Sentiu cravados nele dois olhos alucinados.
O morto cada vez mais severo, de rosário na mão. A voz prendeu-se-lhe na garganta. Ficou calado, à espera.
Subitamente, o som do cornetim do Pelotas entrou por um vidro quebrado da janela e fez estremecer tudo. Parou-lhe o sangue nas veias. Num grande esforço, lá conseguiu repetir:
- Inês...
Mas estava mesmo perdido.
- Por vergonha é que o não ponho daqui para fora a pontapés. Na mortalha do meu homem fazer-me esta pouca vergonha à porta! Seu badana! Seu grande corno!
A gaguejar, tentou chamá-la à razão. Que fora o povo e a mulher. Ele, por ele...
A Inês, desvairada, nem o ouviu:
- Consumido seja você nas profundas dos Infernos e mais a puta que o enfeita!
Ferido em todos os recantos da alma, olhou-a finalmente com firmeza. E havia no rosto dela tanta amargura, que baixou os olhos e só pôde responder:
- Olha: quando tive a má sorte de fazer esta promessa, antes a Senhora dos Aflitos me não tivesse ouvido e me deixasse morrer por lá como um cão.

Miguel Torga, Contos da Montanha