12/06/2007

A princesa russa



"[...] Bastou correr fama que em Manica havia ouro e anunciar-se que para o transportar se construiria uma linha férrea, para logo aparecerem libras, às dezenas de milhar, abrindo lojas, estabelecendo carreiras de navegação a vapor, montando serviços de transportes terrestres, ensaiando indústrias, vendendo aguardente, tentando explorar por mil formas não tanto o ouro, como os próprios exploradores do futuro ouro [...]"

António Ennes, Moçambique, Relatório Apresentado ao Governo,
Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1946, pp. 27-30.




Desculpa, senhor padre, não estou joelhar direito, é a minha perna, o senhor sabe: ela não encosta bem junto com o corpo, esta perna magrinha que uso na esquerda.
Venho confessar pecados de muito tempo, sangue pisado na minha alma, tenho medo só de lembrar. Faz favor, senhor padre, me escuta devagar, tenha paciência. É uma história comprida. Como eu sempre digo: carreiro de formiga nunca termina perto.
O senhor talvez não conhece mas esta vila já beneficiou de outra vida. Houve os tempos em que chegava gente de muito fora. O mundo está cheio de países, a maior parte deles estrangeiros. Já encheram os céus de bandeiras, nem eu sei como os anjos podem circular sem chocarem-se nos panos. Como diz? Entrar direito na história? Sim, entro. Mas não esqueça: eu já pedi um muitozito do seu tempo. É que uma vida demora, senhor padre.
Continuo, então. Nessa altura, chegou também na vila de Manica uma senhora russa, Nádia era o nome dela. Diziam era uma princesa lá na terra de onde viera.
Acompanhava seu marido Júri, russo também. O casal chegou por causa do ouro, como os outros todos estrangeiros que vinham desenterrar riquezas deste nosso chão. Esse Júri comprou as minas, na espera de ficar rico. Mas conforme dizem os mais velhos: não corras atrás da galinha já com o sal na mão. Porque as minas, padre, eram do tamanho de uma poeira, basta um sopro e o quase fica nada.
No entanto, os russos traziam restos dos sustentos deles, luxos de antigamente. A casa deles, se o senhor só visse, estava cheia das coisas. E empregados? Eram mais que tantos. E eu, assimilado como que era, fiquei chefe dos criados. Sabe como me chamavam? Encarregado-geral. Era a minha categoria, eu era um alguém. Não trabalhava: mandava trabalhar. Os pedidos dos patrões era eu que atendia, eles falavam comigo de boa maneira, sempre com respeitos. Depois eu pegava aqueles pedidos e gritava ordens para esses mainatos (Mainatos - empregados domésticos.). Gritava, sim. Só assim eles obedeciam. Ninguém desempenha canseiras só por gosto. Ou será Deus, quando expulsou Adão do Paraíso, não lhe despachou com pontapés?
Os criados me odiavam, senhor padre. Eu sentia aquela raiva deles quando lhes roubava os feriados. Não me importava, até que gostava de não ser gostado. Aquela raiva deles me engordava, eu me sentia quase-quase patrão. Me disseram que este gosto de mandar é um pecado. Mas eu acho é essa minha perna que me aconselha maldades. Tenho duas pernas: uma de santo, outra de diabo. Como posso seguir um só caminho?
Às vezes, eu apanhava conversas dos criados nas cubatas. Raivavam muita coisa, falas cheias de dentes.
Eu aproximava e eles calavam. Desconfiavam-me. Mas eu me sentia elogiado com aquela suspeita: comandava medo que lhes fazia tão pequenos. Eles se vingavam, me gozavam. Sempre, sempre me imitavam no coxo-coxo. Riam-se, os sacanas. Desculpa, usar palavralhões num lugar de respeito. Mas essa zanga antiga me permanece actual. Nasci com o defeito, foi castigo que Deus me reservou mesmo antes de eu me constituir em gente. Eu sei que Deus é completamente grande. Contudo, padre, contudo: o senhor acha que Ele me foi justo? Estou a injuriar o Santíssimo? Bom, estou a confessar. Se ofendo agora, o senhor depois aumenta nos perdões.
Está certo, me prossigo. Nessa casa os dias eram sempre iguais, tristes e calados. Manhã cedinho, o patrão despegava para a mina, machamba do ouro, era assim que chamava. Só voltava à noite, noitíssima. Os russos não tinham visitas. Os outros, ingleses, portugueses, não paravam lá. A princesa vivia fechada na sua tristeza. Vestia com cerimónia mesmo dentro de casa. Ela, posso dizer, visitava-se a ela própria. Falava sempre murmúrios, para ser escutada tínhamos que levar a orelha perto. Eu aproximava do seu corpo fino, pele tão branquíssima nunca vi. Essa branqueza muito me frequentou os sonhos, ainda hoje estremeço do perfume dessa cor.
Ela costumava demorar-se numa pequena salinha, olhando um relógio de vidro. Escutava os ponteiros a pingar o tempo. Era um relógio da sua família, só a mim ela confiava a sua limpeza. Se esse relógio partisse, Fortin, era a minha vida que toda se partia. Ela sempre me dizia assim, conselhando cuidados.
Uma noite dessas eu estava na minha cubata (Cubata - pequeno quarto onde eram alojados os empregados domésticos.), a acender o xipefo. Foi quando uma sombra me assustou à minha trás. Olhei, era a senhora. Trazia uma vela e aproximou devagarinho. Espreitou o meu quarto, conforme a luz dançava nos cantos. Fiquei todo atrapalhado, envergonhado até. Sempre ela me via naquela farda branca que eu usava no serviço. Agora, eu estava ali de cabedula (Cabedula - calções.), sem camisa nem respeito. A princesa circulou-se em volta e depois, com meu espanto, sentou na minha esteira. Já viu? Uma princesa russa sentada numa esteira? Ela ficou ali uma quantidade de tempo, só sentada, permanecida. Depois, perguntou, com aquela maneira dela falar o português:
- Afinhal, vaciê vive àqui?
Eu não tinha resposta. Comecei de pensar que ela estava doente, a cabeça dela estava a trocar os lugares.
- Minha senhora: é melhor voltar na sua casa. Este quarto não é bom para a senhora.
Ela não deu resposta. Voltou a perguntar:
- E par si é bom?
- Para mim chega. Basta um tecto a tapar-nos do céu.
Ela corrigiu minhas certezas. Os bichos, disse, é que usam tocas para esconder. Casa de pessoa é lugar de ficar, o sítio onde semeamos as nossas vidas. Perguntei se na terra dela havia pretos e ela fartou de rir: ó Fortin, você faz cada perguntas! Admirei: se não havia pretos quem fazia os trabalhos pesados lá na terra dela? São brancos, respondeu. Brancos? Mentira dela, pensei. Afinal, quantas leis existem nesse mundo? Ou será que a desgraça não foi distribuída conforme as raças? Não, não estou a perguntar a si, padre, só estou a discutir-me sozinho.
Foi assim que conversámos aquela noite. À porta, ela me pediu de ver o compounde (Compounde - dormitório, camarata) onde dormiam os outros. Primeiro, neguei. Mas, no fundo, eu desejava ela fosse lá. Para ela ver que aquela miséria era muito inferior da minha. E, assim, me aceitei: saímos no escuro a ver o lugar desses com patente de mainato. A princesa Nádia se encheu de tristeza assistindo àquelas vivências. Ficou tão expressionada que começou a trocar as falas, a saltitar do português para o dialecto dela. Ela só agora entendia o motivo do patrão não lhe deixar sair, nunca autorizar. É só para eu não ver toda esta miséria, dizia ela. Reparei que chorava. Coitada da senhora, senti pena. Uma mulher branca, tão longe dos da raça dela, ali, no pleno mato. Sim, para a princesa, tudo aquilo devia ser mato, arredores de mato. Mesmo a grande casa, arrumadinha segundo a vontade dos seus costumes, mesmo a sua casa era residência dos matos.
No regresso, eu me espetei num desses picos de micaia. O espinho me entrou fundo no pé. A princesa me quis ajudar mas eu lhe afastei:
- Não pode mexer. Esta minha perna, senhora...
Ela compreendeu. Começou de me dar um consolo, que aquilo nem era defeito, o meu corpo não merecia nenhuma vergonha. Ao princípio, não gostei. Suspeitei que sentisse pena, compaixonada, só mais nada. Mas, depois, me entreguei naquela doçura dela, esqueçi a dor no pé. Parecia aquela perna ambulante já nem era minha.
Desde essa noite a senhora começou sempre a sair, visitar as redondezas. Aproveitava as ausências do patrão, mandava que lhe mostrasse os caminhos. Um dia destes, Fortin, havemos de partir cedo e ir até às minas. Me assustavam aqueles desejos dela. Eu conhecia as ordens do patrão, proibindo as saídas da senhora. Até que, uma vez, a coisa estalou:
- Os outros empregados me disseram que andas a sair com a senhora.
Sacanas, me queixaram. Só para mostrarem que eu, como eles, me baixava diante da mesma voz. A inveja é a pior cobra: morde com os dentes da própria vítima. E, então, nesse momento, eu me recuei:
- Não sou eu que quero, patrão. É a senhora que manda.
Viu, senhor padre? Num instante, eu estava ali denunciando a senhora, traiçoando a confiança que ela me punha.
- É a última vez que acontece, ouviste, Fortin?
Deixámos de ruar. A princesa me pedia, insistia. Só por um bocadinho de distância, Fortin. Mas eu não tinha espírito. E, assim, a senhora voltou a ficar, prisioneira da casa. Parecia estátua. Mesmo quando o patrão chegava, já noite, ela se mantinha, parada, olhando o relógio. Ela via o tempo que só se mostrava aos que, na vida, não têm presença. O patrão nem se incomodava com ela: marchava direito para a mesa, ordenava por bebida. Ele comia, bebia, repetia. Nem reparava a senhora, parecia ela era subexistente. Não batia nela. Porrada não é coisa para principe. Pancada ou morte eles não executam, encomendam os outros. Somos nós a mão das suas vontades sujas, nós que temos destino de servir. Eu sempre bati por mando de outros, espalhei porradarias. Só bati gente da minha cor. Agora, olho em volta, não tenho ninguém que eu posso chamar de irmão. Ninguém. Não esquecem esses negros. Raça rancorosa esta que eu pertenço. O senhor também é negro, pode entender. Se Deus for negro, senhor padre, estou frito: nunca mais vou ter perdão. E que nunca mais! Como diz? Não posso falar de Deus? Porquê, padre, será que ele me ouve aqui, tão longe do céu, eu tão minúsculo? Pode ouvir? Espera, senhor padre, me deixa só endireitar esta minha posição. Raios da perna, sempre nega me obedecer. Pronto, já posso me confessar mais. Foi como eu disse. Dizia, aliás. Não havia história em casa dos russos, nada não acontecia. Só silêncios e suspiros da senhora. E o relógio batucando aquele vazio. Até que, um dia, o patrão me apressou com gritarias:
- Chama os criados, Fortin. Rápido, todos lá para fora.
Juntei os moleques (Moleque - empregado doméstico.), mainatos e também o cozinheiro gordo, o Nelson Máquina.
- Vamos para a mina. Depressa, subam todos na carroça.
Chegámos à mina, fomos dados as pás e começámos a cavar. Os tectos da mina tinham caído, mais outra vez. Debaixo daquela terra que pisávamos estavam homens, alguns já muito mortos, outros a despedirem da vida. As pás subiam e desciam, nervosas. Víamos aparecer braços espetados na areia, pareciam raízes de carne. Havia gritos, confusão de ordens e poeiras. Ao meu lado, o cozinheiro gordo puxava um braço, preparando toda a força dele para desenterrar o corpo. Mas o quê, era um braço avulso, já arrancado do corpo. O cozinheiro caiu com aquele pedaço morto agarrado em suas mãos. Sentado sem jeito, começou de rir. Olhou para mim e aquele riso dele começou a ficar cheio de lágrimas, o gordo parecia uma criança perdida, soluçando.
Eu, senhor padre, não aguentei. desconsegui. Foi pecado mas eu dei costas naquela desgraça. Aquele sofrimento era demasiado. Um dos mainatos me tentou segurar, me insultou. Eu desviei o rosto, não queria que ele visse que eu estava a chorar.
Naquele ano, a mina caía pela segunda vez. Também da segunda vez eu abandonava os salvamentos. Não presto, eu sei, senhor padre. Mas um inferno assim o senhor nunca viu. Rezamos a Deus para depois de falecermos, nos salvar dos infernos. Mas afinal os infernos já nós vivemos, calcamos suas chamas, levamos a alma cheia de cicatrizes. Era como ali, aquilo parecia uma machamba de areia e sangue, a gente tinha medo só de pisar. Porque a morte se enterrava nos nossos olhos, puxando a nossa alma com os muitos braços que ela tem. Que culpa tenho, diga-me com sinceridade, que culpa tenho de desconseguir peneirar pedaços de pessoa?
Não sou homem de salvar. Sou pessoa de ser acontecida, não de acontecer. Tudo isso eu pensava enquanto regressava. Meus olhos nem pediam caminho, parecia eu caminhava em minhas próprias lágrimas. De repente, lembrei da princesa, parecia que escutava a sua voz pedindo socorro. Era como se ela estivesse ali, à esquina de cada árvore, suplicando de joelhos como eu estou agora. Mas eu, mais outra vez, negava dispensar ajudas, me afastava das bondades.
Quando cheguei na cubata custava-me ouvir aquele mundo em volta, cheio dos sons bonitos do anoitecer. Escondi-me nos próprios meus braços, fechei o pensamento num quarto escuro. Foi então que as mãos dela chegaram. Vagarmente, desenrolaram aquelas cobras teimosas que eram os meus braços. Falou-me como se eu fosse criança, o filho que ela nunca teve:
- Foi desastre na mina, não foi?
Respondi só com a cabeça. Ela proferiu maldições na sua língua e saiu. Fui com ela, sabia que sofria mais que eu. A princesa sentou-se na sala grande e, em silêncio, esperou o marido. Quando o patrão chegou, ela levantou-se devagar e nas mãos dela apareceu o relógio de vidro. Esse que ela tanto me recomendava cuidados. Subiu o relógio bem acima da cabeça e, com força máxima, atirou-lhe no chão. Os vidros se espalharam, brilhantes grãos cobriram o chão. Ela continuou partindo outras louças, tudo fazendo sem pressas, sem gritos. Mas aqueles vidros cortavam a alma dela, eu sabia. O patrão, sim, gritou. Primeiro em português. Deu ordem para que parasse. A princesa não obedeceu. Ele gritou na língua, ela nem ouviu. E, sabe o que ela fez? Não, o senhor não pode imaginar, mesmo a mim me custa testemunhar-me. A princesa descalçou os sapatos e, olhando a cara do marido, começou a dançar em cima dos vidros. Dançou, dançou, dançou. O sangue que deixou, senhor padre! Eu sei, fui eu que limpei. Levei o pano, passei no chão como se cariciasse o corpo da senhora, consolando as tantas feridas. O patrão me ordenou que saísse, deixasse tudo como que estava. Mas eu recusei. Tenho que limpar este sangue, patrão. Respondi com voz que nem parecia minha. Desobedecia eu? De onde vinha aquela força que me segurou no chão, preso na minha vontade?
E foi assim, o impossível verídico. Muito tempo se passando num súbito repente. Não sei se por motivo dos vidros, no seguinte dia, a senhora se adoeceu. Ficou deitada num quarto separado, dormia sozinha. Eu fazia arrumação da cama enquanto ela descansava no sofá. Falávamos. O assunto não variava: recordações da sua terra, embalos de infância dela.
- Essa doença, senhora, com certeza são saudades.
- Tode minha vide eshtá lá. O homem que amo eshtá na Rússia, Fartin.
Eu me oscilei, fingido. Nem não queria entender. - Chame-se Anton, esse é único sanhor de meu caração.
Estou a imitar as falas dela, não é fazer pouco. Mas eu guardo assim a confissão dela, desse tal amante. Seguiram-se confidências, ela sempre me entregando lembranças desse amor escondido. Eu tinha medo que as nossas conversas fossem ouvidas. Despachava o serviço às pressas só para sair do quarto. Mas, um dia, ela me entregou um envelope fechado. Era assunto de máximo segredo, ninguém nunca podia suspeitar. Me pediu para entregar aquela carta no correio, lá na vila.
Daquele dia em diante, ela sempre me entregava cartas. Eram seguidas, uma, outra, mais outra. Escrevia deitada, as letras do envelope tremiam com a febre dela.
Mas padre: quer saber a verdade? Eu nunca entreguei as tais cartas. Nada, nem uma. Este pecado tenho e sofro. Era o medo que travava as devidas obediências, medo de ser apanhado com aquelas provas ardendo em plena mão.
A pobre senhora me encarava com bondade, acreditando um sacrifício que eu nem fazia. Ela me entregava as correspondências e eu começava a tremer, parecia os dedos seguravam lume. Sim, digo certo: lume. Porque foi esse mesmo o destino de todas aquelas cartas. Todas eu deitei no fogareiro da cozinha. Ali foram queimados os segredos da minha senhora. Eu ouvia o fogo e parecia eram os suspiros dela. Caramba, senhor padre, estou a suar só de falar estas vergonhas.
Assim, passou-se o tempo. A senhora só piorava das forças. Eu entrava no quarto e ela muito me olhava, quase me furava com aqueles olhos azuis. Nunca perguntou se tinha chegado resposta. Nada. Só aqueles olhos roubados do céu me inquiriam em mudo desespero.
O médico, agora, vinha todos os dias. Saía do quarto, abanava a cabeça, negando esperanças. Toda a casa se penumbrava, as cortinas sempre fechadas. Só sombras e silêncios. Uma manhã vi a porta abrir-se quase uma fresta. Era a senhora que espreitava. Com um aceno, fez-me entrar. Perguntei as suas melhorias. Ela não respondeu. Sentou em frente do espelho e espalhou aquele pó cheiroso, aldrabando a cor da morte na cara dela. Pintou a boca mas demorou a acertar a tinta nos respectivos lábios. As mãos tremiam tanto que o vermelho riscava o nariz, o queixo todo em volta. Se eu fosse mulher ajudava mas, sendo homem, fiquei-me só olhando, reservoso.
- A senhora vai sair?
- Vou à estecão. Vamos os dois. - Na estação?
- Sim. Anton vai chagar neste camboio.
E, abrindo a saca mostrou uma carta. Disse que aquela era a resposta dele. Tinha demorado mas acabara por chegar, ela abanava o envelope como fazem as crianças quando têm medo que tirem suas fantasias. Disse alguma coisa em russo. Depois falou em português: o tal Anton vinha no comboio da Beira, vinha levar ela dali para muito longe.
Delírio dela, com certeza. A senhora só estava a fingir uma ideia. Como podia ter chegado uma resposta? Se era eu que levantava toda a correspondência? Se a senhora há mais de muitos dias nunca saía de casa? E, para mais: se as letras da senhora se endereçaram no fogo?
Segurada nos meus braços, ela se meteu na estrada. Fui bengala dela até perto da estação. Foi aqui, senhor padre, que cometi um máximo pecado. Sou muito duro comigo, não me admito. Sim, de tudo eu me defendo menos de mim. Por isso, me rouba peso esta confissão. Já conto com Deus na minha defesa. Não será estou certo, padre? Então, escute.
A pele da princesa estava encostadinha no meu corpo, eu transpirava o suor dela. A senhora estava no meu colo, total, abandonada. Comecei de sonhar que ela, afinal, estava a fugir comigo. Quem era eu senão esse tal Anton? Sim, eu me autenticava escritor da carta. Fui intrujeiro? Mas eu, na altura, me concordei. Afinal se a vida da senhora já não tinha validade, o que importava era ajudar aqueles delírios dela. Talvez, quem sabe, pudessem essas loucuras sarar a ferida que roubava o corpo dela. Mas já viu, senhor padre, o que eu me fui fingir? Eu, Duarte Fortin, encarregado-geral dos criados, fugir com uma branca, princesa ainda para mais? Como se algum dia ela quisesse comigo, um tipo dessa cor e com pernação desigual. Não há dúvida, tenho alma de minhoca, hei-de rastejar no outro mundo. Os meus pecados pedem muitíssima reza. Reze-me, senhor padre, reze-me tanto! Porque o pior, o pior ainda não contei.
Eu carregava a princesa num caminho desviado. Ela nem deu conta desse desvio. Levei a senhora para a margem do rio, deitei-lhe sobre a relva macia. Fui ao rio buscar um pouco de água. Molhei a cara dela e o pescoço. Ela respondeu um arrepio, aquela máscara de pó começou de desmanchar. A princesa respirava aos custos. Olhou em volta e perguntou:
- A estação?
Resolvi mentir. Disse que era ali, mesmo ao lado. Estávamos naquela sombra só para esconder dos outros que esperavam no pátio da estação.
- Não podemos ser vistos, é melhor esperar o comboio neste esconderijo.
Ela, coitada, me agradeceu os cuidados. Disse que nunca tinha visto um homem tão bondoso. Pediu que lhe acordasse quando fosse a hora; estava muito cansada, precisava repouso. Fiquei a olhar para ela, apreciar sua tão próxima presença. Vi os botões do seu vestido, adivinhei toda a quentura que estava em baixo. O meu sangue ganhou pressas. Ao mesmo tempo, eu sofria medo. E se o patrão me apanhasse, ali no meio dos capins com a sua senhora? Era só apontar o focinho escuro da espingarda e disparar-me. Foi esse receio de ser espìngardado que me travou. Fiquei demorado, só olhando aquela mulher no meu colo. Foi então que o sonho, mais uma vez, me começou a fugir. Sabe o que senti, senhor padre? Senti que ela já não tinha o seu próprio corpo: usava o meu. Está a perceber, padre? Ela tinha a pele branca que era a minha, aquela boca dela me pertencia, aqueles olhos azuis eram ambos meus. Era como se fosse uma alma distribuída em dois corpos contrários: um macho, outro fêmea; um preto, outro branco. Está-se a duvidar? Fique a saber, padre, que os opostos são os mais iguais. Não acredita, veja: o fogo não é quem se parece mais ao gelo? Ambos queimam e, nos dois, só através da morte o homem pode entrar.
Mas se eu era ela, então, estava eu a morrer no meu segundo corpo. Assim, me senti enfraquecido, desistido. Caí ao lado dela e ficámos os dois sem mexer. Ela, de olhos fechados. Eu evitando a sonolentidão. Sabia que se fechasse os olhos, nunca mais havia de abrir-me. Eu já estava muito interno, não podia descer mais. Há momentos que ficamos muito parecidos com os mortos e essa semelhança dá força aos defuntos. É isso que eles não perdoam: é nós, os vivos, sermos tão parecidos com eles.
E sabe como salvei, padre? É porque enfiei os braços na terra quente, como faziam aqueles mineiros moribundos. Foram as minhas raízes que me amarraram à vida, foi isso que me salvou. Levantei, todo suado, cheio das febres. Resolvi sair dali, sem demora. A princesa ainda estava viva e fez um gesto para me parar. Desprezei o pedido. Voltei para casa enquanto sentia aquele mesmo aperto de quando abandonei os sobreviventes na mina. Quando cheguei, disse ao patrão: encontrei a senhora já morta, numa árvore perto da estação. Acompanhei-lhe para ele mesmo confirmar. Na tal sombra, a princesa ainda respirava. Quando o patrão se baixou, ela agarrou os ombros dele e disse:
- Anton!
O patrão ouviu aquele nome que não pertencia-lhe. Mesmo assim beijou a testa dela, carinhoso. Fui buscar a carroça e, quando a levantamos, ela já estava morta, fria como as coisas. Do vestido dela caiu, então, uma carta. Eu tentei apanhar mas o patrão foi mais rápido. Olhou com admiração o envelope e depois me espreitou o rosto. Fiquei, de queixo no peito, receando ele me perguntasse. Mas o patrão machucou o papel e meteu-lhe no bolso. Fomos em silêncio até casa.
No dia seguinte, eu fugi para Gondola. Até agora estou lá, no serviço dos comboios. De vez em quando, venho até Manica e passo no velho cemitério. Joelho-me na campa da senhora e peço desculpa nem eu sei de quê. Não, por acaso, até sei. Peço perdão de eu não ser aquele homem que ela esperava. Mas esse é só um fingimento de culpa, o senhor sabe como é mentira esse meu joelhamento. Porque enquanto estou ali, frente à campa, só lembro o sabor do corpo dela. Por isso lhe confesso este azedo que me rouba o gosto da vida. Já pouco falta para eu sair deste mundo. Mesmo já pedi licença a Deus para morrer. Mas parece Deus não escuta esses pedidos. Como diz, padre? Não devo falar assim, desistido? Se é assim que eu me lembro de mim, viúvo de mulher que não tive. É que já me sinto tão pouco. A única alegria que me aquece, sabe qual é? E quando saio do cemitério e vou passear nas poeiras e cinzas de antiga mina dos russos. Aquela mina já fechou, faleceu junto com a senhora. Eu caminho-me lá sozinho. Depois sento num velho tronco e olho para trás, para esses caminhos onde pisei. E sabe o que vejo, então? Vejo duas pegadas, diferentes, mas ambas saídas do meu corpo. Umas de pé grande, pé masculino. Outras são marcas de pé pequeno, de mulher. Esse é o pé da princesa, dessa que caminha ao meu lado. São pegadas dela, padre. Não há certeza maior que eu tenho. Nem Deus me pode corrigir desta certeza. Deus pode não me perdoar nenhum pecado e eu arriscar o destino dos infernos. Mas eu nem me importo: lá, nas cinzas desse inferno, eu hei-de ver a marca desses passos dela, caminhando sempre a meu lado esquerdo.



Mia Couto, Cada Homem é uma Raça