16/06/2007

O desamparo de S. Frutuoso



Não tinha nenhuma razão particular para estar grata a Deus ou a qualquer dos membros da sua corte celestial. A não ser que considerasse um favor o simples facto de viver... Esse privilégio, porém, fora dado a tantos, inclusivamente a toda a casta de bichos e ervas, que francamente! Não desfazia na obra de ninguém, é claro... Malucava, apenas. Zorra, criada aos baldões, sempre arrastada, mal se poderia considerar uma pessoa humana, quanto mais uma criatura reconhecida ao criador! Sabia que S. Frutuoso não metia prego nem estopa nesse capítulo da geração dos mortais. A regedoria dele era outra.
Mas também não sentira ainda que os poderes de que ele dispunha a beneficiassem. Pedira-lhe ajuda na ocasião em que uma pragana lhe cegara uma vista, e nada! Prometera-lhe uma vela na altura da pneumónica, e foi o que se viu: ia deitando os bofes pela boca. Nascera-lhe não sei quê num seio, rogara-lhe entre o cálice e a hóstia a esmola da cura, e o caroço cada vez crescia mais. De maneira que, a falar franco, não devia favores a ninguém. Em todo o caso, doera-se de ver o pobre do santo naquele preparo. Que, considerando bem, a chuva caía de cima... E como parece que no céu é que estava o governo do mundo, não custava nada a quem lá morava... Além de ser uma obra de caridade para com os que viviam em corpo e alma cá neste vale de lágrimas. Quatro meses de invernia, sem uma aberta, sem uma réstia de sol, nevões, nevões, e, agora, aquele dilúvio seguido! O gado a morrer de fome nas lojas, a povoação sem um graveto de lenha para se aquecer e enxugar, o rio Torto a levar os lameiros... Um lindo serviço, não haja dúvida!
Como não era de arcas encoiradas, falara ao prior no destempero duma coisa assim.
- E que queres que te faça? Sabia lá! Mas já que ele representava Cristo na terra, podia, talvez... Bem, a gente entende-se por palavras...
- Não há nada que ande tanto à vontade de Deus como o tempo, mulher! Nunca ouviste dizer?
- Eu não senhor!
- Pois é pena. Pronto! Se era assim... 
Ao menos ficava esclarecida. Em todo o caso, punha as suas dúvidas quanto às vantagens, humanas e divinas, de tanto frio, tanto vento e tanta chuva. E chamassem-lhe maluca à vontade. Não concordava, não concordava! Se vivia da caridade alheia, tinha de pedir. Ora, se até os novos e sãos se acovardavam de pôr o nariz fora de casa, que diria ela, velha e doente, e sem um trapo de confiança a cobrir-lhe o corpo! Em Reboredo já se sabia que nada feito: negavam-se todos. Que tivesse paciência, que Deus a favorecesse, como se os ouvidos fossem as tulhas da barriga!... Portanto, se queria escorar o estômago, tinha de navegar. Mas quem se ia meter a um temporal daqueles?! Olha, deixava-se estalar com fome engrunhada no cortelho do Canavezes, a fazer companhia às ovelhas. Era, de resto, a única regalia de que gozava: nos dias em que o forno do povo não cozia, e dentro dele se gelava como ao luar, podia dormir nas cortes, sem licença dos donos. Nisso, honra seja feita aos de Reboredo. Chegava das suas peregrinações, desandava o gravelho da loja de qualquer, entrava, e tinha sempre às ordens uma cama enxuta de palha e o bafo do rebanho a cobri-la como um cobertor. Mais: nem sequer a acordavam de manhã, quando abriam a porta ao gado, o que, infelizmente, já não sucedia há muito. A água era tanta, que só quem se quisesse afogar e afogar os vivos. O que ela zoava, lá fora! Como havia o desgraçado do S. Frutuoso resistir àquilo! Fiada na caridade humana, fartara-se de pregar, a pedir providências. Mas quê, ninguém quisera saber! Que se governe, respondiam-lhe todos. Tem a faca e o queijo na mão... Talvez por não terem visto o que ela vira... Vinha a passar, abrigara-se duma bátega mais valente no alpendre da capela, dera uma olhadela lá para dentro, e até os olhos se lhe arrasaram de lágrimas ao encarar o mísero, alagadinho, encolhido como um pito riço. Sempre era um santo, com mil diabos! Pois chovia-lhe em cima como se estivesse no meio da rua. Metia dó! Os pingos batiam-lhe na careca, escorriam-lhe pela cara abaixo, derretiam-lhe a pintura, transformavam-lhe o hábito num borrão esverdeado, e alastravam aquela nojeira pela toalha do altar.
Dera imediatamente o alarme. Valeu bem! Foi o mesmo que nada.
- Se vê que está mal, que se mude. Ou então que componha os astros... - respondera-lhe o Faustino, que, embora fosse mesário, não perdoava ao orago o atraso em que tinha as sementeiras.
O abade também nada adiantou. Como de costume, mijou sentenças. Que torna, que deixa, e por aqui me sirvo. Ora, se os responsáveis procediam assim, não lhe competia a ela incomodar-se, de mais a mais estonada de fome e sem culpas no cartório. Evidentemente que era crente. Pudera! Acreditava que há-de haver uma lei que nos governe. Desobrigava-se na
Quaresma, ia à missa quando podia, persignava-se ao deitar - estava em regra. 
Isso, porém, não queria dizer que tivesse de se meter em brios de zeladora. Mas o coração às vezes também manda. E o dela compadecera-se humanamente da sorte daquele desinfeliz que nem um cortelho vedado avezava para se abrigar. Apenas por essa razão se tirara de cuidados e dera andamento à ideia de o acautelar de qualquer modo. Tecer a croça, francamente, custara-lhe pouco: até lhe servira de entretém. Agora subir a serra aos empurrões ao vento e a furar as bátegas, isso sim, chegara para afligir! Mas acabou-se. Lá vestira o gabinardo ao miserável, e, apesar de encharcada, podia finalmente dormir em paz. O coitado, metido no varino de junco, parecia mais um pastor do que outra coisa. Paciência. Honra e proveito... Chuva no corpo não lhe entrava mais, que lho garantia ela. Agora a respeito de apresentação... De resto, isso mesmo tinha remédio. Enquanto durasse o temporal, ninguém o ia visitar, estivesse sossegado; e, logo que o tempo melhorasse, podia despir o capote e pôr-se outra vez bonito para atender a freguesia.

Miguel Torga, Contos da Montanha