10/06/2007

Maria

Convidaram-me para o casamento do Zé Mocho. Fui. Era no campo.
A noiva não chorou; no sítio não existia essa praxe.
O jantar teve muitos pratos e estava tanta, tanta gente que duas grandes mesas não chegavam.
No fim da boda, quando todos nos levantámos, depois dos vivas e dos apertos de mão aos noivos é que as rapari­gas da lida da cozinha puderam ir comer. Eram todas ami­gas da noiva. Entre elas havia uma tão bonita, tão bonita...
Já andava o povo todo pelo pátio e pela rua e as rapa­rigas, sozinhas, comiam e riam na cozinha. Alguns dos convidados já tinham ido para o baile. Eu fui para o pé delas. Maria, a tal rapariga bonita, mal dizia palavra. Era loira e nem parecia tão queimada como as outras. Não andaria nos trabalhos do campo? Parece que sim. No entanto...
As outras pegavam com ela e faziam-na rir. Trazia um vestido de florinhas que era uma graça.
Maria daqui, Maria dali... Não sei lá o que tinha a Maria que nunca a largavam. Talvez também estivesse para casar.
O cabelo fazia-lhe uma espécie de coroa na cabeça. Era muito basto e ela sabia-o pentear bem.

Quando as raparigas acabaram de comer foram-se enfeitar para o quarto. E eu dirigi-me para a casa do baile. Os músicos, uni mais novo e outro mais velho, estavam sentados numa arca das altas a afinar os ins­trumentos: uma rabeca e uma viola. Já bailava muita poeira no ar. A noiva, cabisbaixa, parecia um poste ao lado do noivo. Os gaiatos da terra andavam pelo meio da casa aos pulos. Quando começaria a dança? Já tar­dava, sentia-se a impaciência.
Os músicos puseram-se lá na sua faina, mas os pares não se decidiram. Entram finalmente as amigas da noiva. Maria não vinha... E começou o baile. Que desengraçado! Â roda, à roda, à roda; só parecia que andavam a varrer a casa.
Encostei-me para trás e distraí-me com o lampião que pendia do tecto.
Olhem para a Maria, oiço então dizer ao meu lado, nem parece ela. Tanto oiro! De quem será? Blusa de seda... e os sapatos?
A Maria, muito clara, chegou-se então às outras rapa­rigas, que se puseram também a olhar para ela. Só me pareciam as suas servas. Nisto vieram os rapazes tirá-las todas para a dança.
Entretanto, ou eu me distraí ou não sei o que se pas­sou, que o baile me pareceu acabado. Toda a gente se arredara para as paredes e um par único andava no meio a dançar, a Maria e o namorado. Por fim este mesmo a deixou e a Maria sempre a dançar, a dançar, não parava. Só o rabequista tocava. Reparei nele. Parecia-me uma criança; tinha uns pés tão pequeninos! Mal chegava com eles ao chão. A sua cabeça, de banda, virada para a rabeca, fazia a vista de uma medalha. E tocava com gosto! Tocava! A Maria sempre a dançar, sempre a dançar... ninguém a largava de vista.
Ó Maria não pares! Isto disse-lhe eu. Ou disse ou jul­guei dizer, e ou disse ou ouvi.
As saias dela levantavam um pó brilhante. E ora batia palmas ora dava os braços. Que graça, que lindeza! Como ela sabia dançar! Uma rapariga que não dava palavra...
Nisto o músico salta da arca e vem tocar para o pé dela. E a Maria a bailar, a bailar, só lembrava um fuso. Já até nos fazia doer a vista. Andavam coisas à roda, à toa, cabelos, fitas...
Maria! Mas a Maria já não podia ouvir ninguém. E o pobre rabequista, levado por ela a tocar cada vez mais depressa, cada vez mais depressa...
Ai!
Credo, que grande ai! Quem é que o deu?
Pudera! Estalou a rabeca e a Maria caiu no chão. Não quis ver mais nada. Saí para a rua a correr. E aos ais; era eu quem dava os ais. Veio o povo atrás de mim para saber o que é que eu tinha.
Não tinha nada, queria voltar sozinha para casa.
Deixaram-me e eu então olhei para a Lua. Que sere­nidade, que paz! Aquela paz triste e doce das noites do campo, quando faz luar! Sosseguei.
Na casa do baile continuava a dança. A música tocava e as sapateias rijas dos barrões raspavam o chão.
E a Maria?
Escusam de perguntar por ela porque eu também não perguntei. E nada mais soube.



Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma