19/06/2007

A história do califa cegonha



Esta alegre e graciosa história da Arábia é contada com leveza e espírito. Destina-se a pro-vocar o riso e as duas aves escolhidas para inspirarem esse esta¬do de espírito - a cegonha e a coruja - integram-se bem no seu papel. O diálogo é alegre, não há notas trágicas de mágoa e as relações humanas entre califa e vizir são divertidas e, implicitamente, prazenteiras. Na verdade, toda a história decorre no ritmo de uma apresentação musical.


Numa bela tarde, o califa Chasid de Bagdade descansava confortavelmente no seu divã. Fumava por um longo cachimbo e, de vez em quando, sorvia um pouco de café, que um escravo lhe estendia, e depois de cada gole afagava a comprida barba, com ar feliz. Em resumo, bastava olhar para ele para se compreender que estava com excelente disposição. Na realidade, aquele era o momento do dia mais propício para tratar com ele, pois encontrava-se sempre bem-disposto, o que explicava que a visita diária do grão-vizir Mansor se efectuasse a essa hora.
Naquela tarde chegou, como de costume; mas, contrariamente ao que era habitual, trazia uma expressão perturbada.
- Porque vem com um ar tão preocupado, grão-vizir? - perguntou-lhe o califa, tirando o cachimbo da boca.
Mansor cruzou os braços no peito e curvou-se profundamente diante do amo, enquanto respondia:
- Oh, meu senhor, não sei se venho com ar preocupado, mas sei que, no pátio do palácio, is se encontra um bufarinheiro com tão belas coisas que, mesmo que não queira, não posso deixar de entristecer por possuir tão pouco dinheiro.
O califa, que desejava havia algum tempo oferecer um presente ao seu grão-vizir, ordenou ao escravo que trouxesse imediatamente o bufarinheiro à sua presença. O escravo obedeceu e, pouco depois, trazia o bufarinheiro, um homem baixo e atarracado, de cara morena e vestido 20 de farrapos. Transportava uma caixa com toda a espécie de mercadorias: colares de pérolas, anéis, pistolas ricamente adornadas, taças e pentes. O califa e o vizir examinaram tudo e aquele escolheu umas belas pistolas para si e para Mansor e um pente cravejado de pedras preciosas para a mulher deste. Quando o bufarinheiro ia a fechar a caixa, o califa reparou numa gavetinha e perguntou-lhe se não continha nada para venda. O homem abriu a gaveta e mostrou-lhes uma caixa com um pó preto e um pergaminho cheio de estranhos caracteres que nem o califa nem o seu vizir perceberam.
- Comprei estes dois artigos a um mercador que os encontrou numa rua de Meca - respondeu o bufarinheiro. - Ignoro qual seja o seu valor, mas, como não me servem para nada, de bom grado lhos venderei por uma bagatela.
O califa, que gostava de ter antigos manuscritos na sua biblioteca, embora não os soubesse ler, comprou o manuscrito e a caixa e mandou embora o vendedor. Depois, sentindo curiosidade de saber o que diriam os estranhos caracteres, perguntou ao vizir se conhecia alguém capaz de os decifrar.
- Muito gracioso senhor e amo - respondeu Mansor -, perto da Grande Mesquita vive um homem chamado Selim, o Sábio, que conhece todas as línguas existentes debaixo do Sol. Mande-o chamar, pois talvez saiba decifrar estes misteriosos caracteres. O sábio Selim foi imediatamente chamado.
- Selim - disse o califa -, sei que és um sábio. Olha bem para este manuscrito e vê se o consegues ler. Se conseguires, oferecer-te-ei um traje de honra, mas se não conseguires ordenarei que te dêem doze palmadas nas faces e vinte e cinco nas solas dos pés, pois falsamente te intitulas Selim, o Sábio.
Selim prosternou-se e respondeu:
- Seja de acordo com a tua vontade, senhor! - Depois olhou durante muito tempo para o manuscrito e, de súbito, exclamou:
- Eu morra, ó meu senhor, se não é latim!
- Bem, se é latim, ouçamos o que diz - replicou o califa. Selim começou a traduzir:
- "Tu que achastes estes objectos, louva Alá pela sua misericórdia. Todo aquele que aspirar o pó desta caixa e pronunciar, ao mesmo tempo, a palavra Mutabor, transformar-se-á em qual- quer criatura que deseje e compreenderá a fala de todos os animais. Quando desejar reassumir a forma humana, bastar-lhe-á curvar-se três vezes na direcção do Oriente e repetir a mesma palavra. Contudo, quando adquirir a forma de animal ou ave, deve ter o cuidado de não se rir, pois se o fizer esquecerá com certeza a palavra mágica e ficará para sempre animal."
Depois de Selim, o Sábio, ler o pergaminho, o califa sentiu-se encantado. Obrigou o letrado a jurar que não contaria o caso a ninguém, ofereceu-lhe um traje esplêndido e mandou-o embora.
- É a isto que chamo um bom negócio, Mansor - disse, quando ficou só com o vizir.
-Anseio pelo momento em que poderei transformar-me num animal. Espero-o cedo, amanhã de manhã; iremos para o campo, aspiraremos o pó da caixinha e ouviremos o que se diz no ar, e na terra e no mar!
Na manhã seguinte, mal o califa Chasid acabou de se vestir e de tomar o pequeno-almoço, o grão-vizir apareceu, de acordo com as ordens recebidas, para o acompanhar na sua expedição. O califa meteu a caixinha no cinto e, depois de ordenar aos criados que ficassem no palácio, pôs-se a caminho, na companhia de Mansor. Atravessaram primeiro os jardins do palácio, mas procuraram em vão uma criatura que os tentasse a servirem-se do pó mágico. Por fim o vizir sugeriu que andassem um pouco mais, até um tanque que ficava fora da cidade e onde vira muitas vezes diversas criaturas, sobretudo cegonhas, cujo aspecto grave e digno e constante pakice lhe despertara a atenção.
O califa assentiu e dirigiram-se para o referido tanque.
Assim que chegaram viram uma cegonha a passear de um lado para o outro, com um ar imponente, a caçar rãs e, de vez em quando, a murmurar - assim parecia, pelo menos! - qualquer coisa. Viram também outra cegonha, mas esta a voar muito alto, no céu, e a dirigir-se para o mesmo local.
- Apostaria a minha barba, gracioso amo - disse o grão-vizir -, em como estas duas pernaltas vão travar uma boa conversa! Que tal se nos transformássemos em cegonhas?
- Bem dito! - exclamou o califa.
- Mas, primeiro, lembremo-nos cuidadosamente do que precisaremos de fazer para voltarmos a ser homens, indinamo-nos três vezes na direcção do Oriente, dizemos Miitabor e eu serei outra vez o califa e você o meu grão-vizir. Mas, pelo amor de Alá, não se ria, pois de contrário estaremos perdidos!
Enquanto falava, o califa viu a cegonha que voava descrever um círculo sobre a sua cabeça e descer gradualmente. Sem perda de tempo, tirou a caixa do cinto, deu uma boa fungadela, ofereceu outra a Mansor e gritaram juntos:
-Mutabor
Acto contínuo, as suas pernas ressequiram-se e tornaram-se finas e vermelhas, os seus s belos sapatos amarelos transformaram-se em toscas patas de cegonha, os braços em asas e o pescoço começou a alongar-se-lhes entre os ombros, ao mesmo tempo que as barbas lhes desapareciam e os seus corpos se cobriam de penas.
- Tem um belo bico comprido, vizir! - exclamou o califa, após um longo momento de espanto. - Pelas barbas do Profeta, nunca vi uma coisa assim na minha vida!
- Os meus muito humildes agradecimentos - respondeu o vizir, arqueando o comprido pescoço -, mas se vossa alteza me permite, acho-o ainda mais perfeito como cegonha do que como califa! Se assim deseja, aproximemo-nos dos nossos camaradas e certifiquemo-nos se compreendemos, de facto, a sua fala.
Entretanto, a cegonha que voava pousara. Primeiro raspou o bico com a pata e alisou as s penas, e depois aproximou-se da outra cegonha. As duas novas cegonhas aproximaram-se também e, surpreendidas, ouviram a seguinte conversa:
- Bons-dias, dona Pernalta. Esta manhã saiu muito cedo!
- É verdade, meu caro Bico-Tagarela! Vim procurar o pequeno-almoço. É servido de uma articulação de lagarto ou de uma coxa de rã?
- Muitíssimo obrigado, mas esta manhã não tenho apetite. Estou aqui com um objective muito diferente. Hoje terei de dançar para os convidados do meu pai e, por isso, vim até cá para me treinar um pouco, sossegadamente.
E a cegonha começou a executar passos maravilhosos. O califa e Mansor observaram-na surpreendidos, e quando, por fim, a ave se equilibrou numa perna, numa atitude pitoresca, bateu graciosamente as asas, não puderam conter-se mais: soltaram uma prolongada gargalhada e só passado algum tempo conseguiram recuperar a compostura. O califa foi o primeiro a serenar e confessou:
- Nunca na minha vida vi coisa mais engraçada! Foi uma pena o nosso riso ter assustado as estúpidas criaturas, pois provavelmente acabariam por cantar também!
De súbito, porém, o vizir lembrou-se de que o pergaminho recomendava expressamente que não rissem enquanto estivessem transformados e apressou-se a comunicar os seus receioí ao califa.
- Por Meca e Medina! - exclamou o califa. - Seria uma brincadeira de muito mau gosto SÉ tivesse de continuar cegonha até ao fim dos meus dias! Tente recordar a estúpida palavra, pois passou-me por completo.
- Devemos inclinar-nos três vezes na direcção do Oriente e dizer Mu... mu... mu... Viraram-se para oriente e começaram a curvar-se até tocarem no chão com os bicos, mas, oh, horror! A palavra mágica sumira-se-lhes da memória. Por muito que o califa se curvasse É o seu vizir gaguejasse lamentosamente Mu... mu... mu..., não se lembravam do resto e continuavam cegonhas.
As duas aves encantadas vaguearam tristemente pelos prados, sem saberem que fazer Não conseguiam libertar-se da sua nova forma! Seria inútil regressarem à cidade e dizerem quem eram, pois ninguém acreditaria numa cegonha que dissesse ser um califa... E, mesmo que acreditassem, consentiria o povo de Bagdade que uma cegonha o governasse? Vaguearam assim vários dias, enganando a fome com frutos que tinham certa dificuldade em comer com o longo bico e sem conseguirem habituar-se às rãs e aos lagartos. O seu único consolo, na triste situação em que se encontravam, era a faculdade de voarem, o que lhes permitia sobrevoarem com frequência os telhados de Bagdade, para verem como corriam as coisas por lá.
Nos primeiros dias notaram, nas ruas, sinais de muita inquietação, mas no quarto dia, quando se encontravam empoleirados no telhado do palácio, viram passar, na rua, um luzido cortejo. Soavam tambores e trombetas e um homem de manto escarlate bordado a ouro montava um cavalo ricamente ajaezado, rodeado de escravos muito bem vestidos. Meia Bagdade comprimia-se atrás dele e gritava:
- Viva Mirza, senhor de Bagdade!
As duas cegonhas empoleiradas no telhado entreolharam-se e o califa Chasid disse:
- Compreende agora, grão-vizir, por que fui encantado? Este Mirza é filho do meu mortal inimigo, o poderoso mágico Kaschnur, que num momento de cólera jurou vingar-se de mim. Mas não desesperarei! Vem comigo, meu fiel amigo; iremos ao túmulo do Profeta e talvez, naquele local sagrado, o encanto se quebre.
Levantaram voo do telhado do palácio, abriram as asas e puseram-se a caminho de Medina.
Mas voar não era tarefa fácil, pois as duas cegonhas tinham pouca prática, e passadas duas horas o vizir declarou, ofegante:
- Oh, meu senhor, não posso ir mais longe! Voa depressa de mais para mim e, além disso, anoitece e não seria má ideia procurarmos um lugar para passarmos a noite.
Chasid concordou com a sugestão do seu vizir i e, vendo no vale que sobrevoavam umas ruínas que pareciam capazes de os abrigar, começaram a descer. O edifício onde se propunham passar a noite parecia ter sido, em tempos, um castelo. Viam-se ainda algumas belas colunas, entre as ruí nas, e vários quartos razoavelmente conservados testemunhavam antigo esplendor. Chasid e o companheiro percorreram os corredores, à procura de um lugar seco, mas de súbito Mansor estacou.
- Meu amo e senhor, se não fosse absurdo um grão-vizir - e ainda mais uma cegonha! - ter medo de fantasmas, sentir-me-ia nervosíssimo, pois alguém ou alguma coisa acaba de suspirar e gemer perto de mim.
O califa parou, também, e ouviu distintamente uma espécie de choro abafado, que parecia mais de ser humano que de animal. Cheio de curiosidade, ia a correr para o local de onde lhe parecera vir o som, mas o vizir segurou-lhe numa asa com o bico e suplicou-lhe que não se expusesse a novos e desconhecidos perigos. O califa, porém, sob cujo peito de cegonha batia um coração valente, soltou-se, perdendo algumas penas, e seguiu apressadamente por um cor-redor escuro, até encontrar urna porta entreaberta, através da qual ouviu, com a maior clareza, suspiros misturados com soluços. Empurrou a porta com o bico, mas ficou no limiar, espantado com o que viu. No chão do quarto em ruínas, frouxamente iluminado por uma janelinha gradeada, encontrava-se uma grande coruja. Enormes lágrimas rolavam-lhe dos grandes olhos redondos e o bico arqueado proferia, em voz rouca, tristes queixas. Assim que viu o califa e o vizir, que entretanto se acercara também, a coruja soltou um grito de alegria, limpou delicadamente as lágrimas, com as asas castanhas sarapintadas, e, com grande surpresa dos recém-chegados, dirigiu-se-lhes em bom e humano árabe:
- Bem-vindas, cegonhas! São um bom sinal da minha libertação, pois foi-me profetizado que me aconteceria uma coisa boa por intermédio de uma cegonha.
Quando se refez da surpresa, o califa ergueu um pé, numa atitude graciosa, curvou o comprido pescoço e disse:
- Oh, coruja, deduzo das tuas palavras que encontrámos em ti uma companheira de infortúnio! Mas, ai de nós! A tua esperança de alcançares a libertação por nosso intermédio é vã. Com-preenderás a nossa impotência quando ouvires a nossa história...
A coruja pediu-lhe que a contasse e o califa disse-lhe o que já sabemos.
Ouvida a história, a coruja agradeceu-lhe e disse-lhes:
- Ouçam a minha história e ficarão a saber que não sou menos infortunada que vocês. Meu pai é o rei das índias e eu sou Lusa, a sua única filha. O mágico Kaschnur que os encantou foi também a causa das minhas desventuras. Um dia procurou o meu pai e pediu-lhe a minha mão para o seu filho Mirza. O meu pai, que é um pouco impetuoso, ordenou que o atirassem pela escada abaixo. Passado pouco tempo, o malvado conseguiu aproximar-se de mim, sob outra forma. Um dia, quando me encontrava no jardim e pedi um refresco, transformou-se em escravo e trouxe-me uma bebida que me transformou imediatamente nesta feia ave. Desmaiei de terror e ele transportou-me para aqui e gritou-me, na sua voz terrível: "Ficarás aqui, sozinha e hedionda, desprezada até pêlos brutos, até ao fim dos nossos dias ou até que alguém, de sua livre vontade, te peça que sejas sua esposa! Assim me vingo de ti e do teu orgulhoso pai!". Depois disso, muitos meses passaram. Triste e sozinha, para aqui tenho vivido como uma eremita, dentro destas paredes, evitada pelo mundo e um terror até mesmo para os animais. As belezas da natureza estão-me vedadas, pois de dia sou cega e só quando a Lua ilumina este lugar com a sua pálida luz o véu cai dos meus olhos e volto a ver.
A coruja calou-se e limpou de novo os olhos com a asa, pois o relato dos seus tormentos arrancara-lhe mais lágrimas.
O califa mergulhou em profundo cogitar, ao ouvir tal história, e pouco depois declarou:
- Ou me engano muito ou existe uma relação misteriosa entre os nossos infortúnios. A dificuldade reside em encontrar a chave da charada.
- Sou da mesma opinião, meu senhor, pois em menina uma mulher de virtude vaticinou-me que uma cegonha me traria grande felicidade... E creio poder dizer-lhe como poderemos salvar-nos.
Surpreendido, o califa perguntou-lhe o que significavam as suas palavras.
- O mágico vem uma vez por mês a estas ruínas. Não longe deste quarto existe um grande salão onde costuma banquetear-se com os seus companheiros. Tenho-os observado muitas vezes. Contam uns aos outros as suas patifarias e é muito possível que a palavra mágica que vocês esqueceram seja mencionada.
- Oh, queridíssima princesa! - exclamou o califa. - Quando é que ele vem e onde fica o tal salão?
A coruja hesitou, antes de responder:
- Não me julguem antipática, mas só posso satisfazer esse desejo com uma condição.
- Fala, fala! - pediu-lhe Chasid. - Pede, e de boa vontade satisfarei o teu desejo.
- Bem, gostaria igualmente de ser livre, mas isso só acontecerá se um de vocês me oferecer a sua mão de esposo...
As cegonhas pareceram desanimadas com a sugestão e o califa fez sinal ao seu vizir para se afastar e conferenciar com ele. Fora da porta, o califa disse:
- Que caso complicado, grão-vizir! Mas pode ficar com ela...
- Deveras? Para a minha mulher me arrancar os olhos, quando voltar para casa? Além disso, sou velho, ao passo que vossa alteza ainda é jovem, solteiro e um partido melhor para uma princesa moça e encantadora.
- Tem razão - concordou o califa, com um suspiro, deixando pender tristemente as asas.
- Mas como sabe que ela é jovem e encantadora? Chamo a isto comprar nabos em saco.
Argumentaram durante algum tempo, mas por fim, quando o califa compreendeu que o seu vizir preferiria continuar cegonha até ao fim da vida a desposar a coruja, resolveu com-prometer-se e cumprir a condição exigida. A coruja ficou encantada e afirmou que não podiam ter chegado em melhor altura, pois era muito provável que os mágicos se reunissem naquela mesma noite.
Conduziu então as duas cegonhas ao referido salão. Passaram por um corredor escuro e comprido até encontrarem, finalmente, um raio de luz, que se coava pelas fendas de uma parede meio arruinada. A coruja recomendou-lhes, então, silêncio. Pela fresta, junto da qual se encontravam, viam facilmente todo o grande salão, adornado com belas colunas esculpidas e diversas lanternas coloridas, que substituíam a luz do dia. No meio do aposento via-se uma mesa redonda, cheia de iguarias, e junto da mesa um divã no qual estavam sentados oito homens. As duas cegonhas reconheceram num deles o bufarinheiro que vendera o pó mágico ao califa. O que se encontrava sentado a seu lado pediu-lhe que contasse os seus últimos feitos, e entre eles o bufarinheiro referiu a história do califa e do seu vizir.
- E que palavra lhes deu? - perguntou um velho feiticeiro.
- Uma palavra latina muito difícil: Mutubor.
Ao ouvirem tal palavra, as cegonhas ficaram fora de si de contentamento e correram tão depressa para a porta do castelo em ruínas que a coruja teve dificuldade em as apanhar. Ao chegar, o califa voltou-se para ela e disse-lhe muito comovido:
- Salvadora do meu amigo e de mim próprio, como prova da minha eterna gratidão, aceita-me por marido.
Voltaram-se em seguida para o Oriente, curvaram três vezes o comprido pescoço numa vénia ao Sol, que nascia naquele momento, exclamaram ao mesmo tempo Mutabor e transformaram-se imediatamente.
No êxtase de voltarem a ser o que eram, amo e servo caíram nos braços um do outro, a rir e a chorar. Como descrever a sua surpresa quando, ao voltarem-se de novo, viram na sua frente uma linda senhora, maravilhosamente vestida?
- Não reconhece a sua coruja? - perguntou ao califa, estendendo-lhe a mão. Era ela! O califa ficou tão encantado com a sua graça e beleza que afirmou ter sido, afinal, uma grande sorte haver sido transformado em cegonha! Nunca na vida lhe acontecera nada melhor!
Partiram imediatamente para Bagdade e, felizmente, o califa encontrou no cinto não só a caixa do pó mágico, mas também a sua bolsa, o que lhe permitiu comprar na cidade mais próxima tudo quanto precisavam para a viagem.
Chegaram por fim às portas da cidade de Bagdade, onde a presença do califa causou grande sensação. Haviam-no declarado morto e o povo ficou contentíssimo ao rever o seu amado chefe e proporcionalmente furioso com o usurpador Mirza. Correram ao palácio e aprisionaram o feiticeiro e o filho, e depois o califa ordenou que levassem o primeiro para o quarto onde a princesa vivera transformada em coruja e o enforcassem. Mas como o filho ignorava os actos do pai, o califa deu-lhe a escolher entre a morte e uma fungadela do pó mágico. O jovem escolheu a última hipótese e o vizir estendeu-lhe a caixa. Uma boa fungadela e a palavra mágica e ei-lo feito cegonha! Chasid mandou-o fechar numa gaiola de ferro e colocar no jar-dim do palácio.
O califa viveu muito tempo feliz com a sua mulher, a princesa Lusa, e os seus momentos mais divertidos eram aqueles em que o vizir o visitava à tarde. Quando o califa se sentia excep-cionalmente bem-disposto, condescendia em imitar Mansor-cegonha. Andava pela sala muito direito, aos saltinhos, a tagarelar e a demonstrar como o seu vizir se voltara para o Oriente, se inclinara em vão e murmurara "Mu... mu...". A mulher e os filhos achavam sempre muita graça a imitação, mas quando o califa exagerava e dizia "Mu... mu..." mais vezes que a conta, o vizir ameaçava, a rir, contar à esposa do amo o assunto de certa conversa trava-se da numa noite à porta do quarto da princesa-coruja...


Pearl S. Buck, "A história do califa cegonha", in Histórias Maravilhosas do Oriente