06/05/2007

O lugar do Sacristão



Não estava no propósito do prior desgraçar o rapaz. Pelo contrário. Quando o chamou, e com grande argumentação o convenceu a ficar a substituir o pai, cuidava até que lhe fazia um especial favor, Homem prático, embora tivesse por oficio tratar de coisas do céu, o seu forte eram assuntos cá deste mundo. Negociar em minério, granjear bons lameiros, criar gado. E dizia-lhe:
- Bem vês, numa terra pequena, onde não há ganhos, um vintém que seja faz sempre arranjo. Ora, tu sabes muito bem que o lugar de sacristão é uma pingadeira. São as missas, os casamentos, os baptizados...
- E os enterros...
- Evidentemente! Mas que tem lá isso? 
- Não sei, não gosto.
- ó criatura de Deus, olha que tudo é preciso neste mundo. Se não morrêssemos, comíamo-nos aqui uns aos outros.
- Deixá-lo! Antes quero ganhá-lo à enxada. 
- Não dês respostas à toa! Pensa primeiro. 
- Está pensado. Abrir covas, não...
- E tu a dar-lhe! Não plantas bacelo? Não saibras?
- Pois saibro.
- Então? É muito diferente. Parece-te. Tudo é terra!
O Felisberto, ouvia aquelas heresias, a olhar o padre com desconfiança.’
- Estás admirado?
- Se quer que lhe fale franco...
- Eu compreendo. Mas não há motivo para espantos. O corpo, quando a alma o deixa, é um monte de estrume a apodrecer.
- Será. Eu é que não tenho feitio...
- Qual não tens! Acostumas-te, que é um regalo. Depois já nem reparas.
- A modos que até o estômago se me revira só com a ideia...
- Mau! Que diabo de homem és tu?! Cabeçudo, o mal era o prior pensar numa coisa. Enquanto não levasse a sua avante, não sossegava. E tanto teimou, tantas voltas lhe deu, que o pobre do Felisberto acabou por se conformar.
- Pronto, seja. Bem me custa...
- E não te arrependes, verás. Eu tinha outros que queriam o lugar. Bastava acenar-lhes. Mas prefiro que fiques tu...
- Muito obrigado.
- Portanto, estamos entendidos. Posso contar? 
- Pode.
Naquela aceitação resignada, via o padre a luz do bom senso a reluzir no espírito do rapaz. Quando, na verdade, ela significava apenas uma renúncia impotente a felicidades futuras que o instinto do Felisberto pressentia.
- Sempre te resolveste? - quis saber, logo a seguir, a Filomena Velha, a beata mais categorizada da aldeia, que de longe vigiava a conversa.
- Resolvi. 
- Custou! Tolo, que ias atirando com a sorte pela porta fora!
- Se calhar atirei mas foi com outra coisa...
- Que coisa?
- Sei lá... Era um presságio vago, um pavor difuso que o afligia. A causa verdadeira de tal medo, não a sabia dizer. Quando na conversa com o prior insistia na repugnância que sentia pelo serviço no cemitério, agarrava-se a uma tábua de salvação. A realidade da sua recusa tinha raízes mais fundas.
- Acredita que fizeste bem! - teimava a Filomena.
- Não sei se fiz bem, se fiz mal.
- Quem anda no serviço de Deus faz sempre bem.
- Veremos. Tempos depois, ainda o sacristão mantinha no espírito e nas palavras a mesma incerteza quanto à excelência do emprego. No fim de uma semana de missões, quando a santanária se babava de felicidade, e queria logicamente compartilhar a sua alegria com o Felisberto, ouviu esta enormidade:
- No dia em que me meti nisto, se tenho quebrado uma perna...
- Eu benzo-me! Pareces maluco. Olha que os tempos vão ruins!
- Às vezes sabe melhor uma malga de caldo comida com gosto, do que...
- É o que te parece. Avisado pela devota, o prior acudiu ao desânimo do rapaz. Também a ele lhe custara engrenar naquela vida de incensos, velas, pecados e agonias, que tinham sempre um desfecho tumular. Mas fez-se forte, que remédio, e agora nem dava conta.
Grato às palavras de estímulo que ouvia, o Felisberto começou também a lutar. E com o andar do tempo já lhe não metiam tanta aflição as missas intermináveis, a gritaria dos miúdos ao pé da pia de água benta e as caveiras que ia desenterrando sempre que abria uma campa nova.
E quase se esquecera da relutância com que aceitara o lugar, quando teve, finalmente, a chave dos seus misteriosos e aparentemente absurdos pressentimentos.
Morrera sempre pela Deolinda. Desde garoto que sentia um gosto particular ao vê-la passar, muito ruiva e muito espevitada. Ambos da mesma criação, sem saber como, a imagem da rapariga foi-o acompanhando no crescimento. E, naturalmente, acabou por integrá-la na sua própria realidade. Sem nunca sequer lho dar a demonstrar, sempre que olhava o futuro via-se na companhia dela. Por isso, uma vez que ia ganhando o suficiente e podia pensar em arrumar-se, na primeira oportunidade que teve, abriu-lhe o coração.
Encontrou-a por acaso no caminho da igreja. Toda desenganada, vinha de levar o almoço ao pai, que andava a lavrar no Borrajo. Depois de lhe falar do tempo e das sementeiras, habilidosamente foi encarreirando a conversa para o ponto que lhe convinha.
A princípio, a cachopa fez-se desentendida. Mas apenas ele, claramente, lhe declarou que a pretendia, deu-lhe um não redondo.
Como um animal pacífico que recebesse uma chicotada, ficou petrificado de espanto e de pavor. Sem ela, a sua vida perdia todo o sentido. Contudo, passado o momento de dolorosa surpresa, sem despeito, humanamente, aceitou o desencontro amoroso. Agora quando a moça lhe explicou o motivo por que nunca o quereria, é que lhe caiu de todo a alma aos pés.
- Não. O homem que me levar, não me há-de abrir a cova, se Deus quiser.
- Ah, que bem lho dizia o coração! Burro, que se deixara perder!
Passou a noite em branco, a cismar na resposta da rapariga. E se abandonasse o lugar? Se nunca mais... Mas não. O mal já não tinha remédio. Nem ele seria capaz de lhe falar outra vez.
No dia seguinte, a auxiliar o prior a paramentar-se, deu-lhe tal repelão na alva, que o bom homem perguntou, entre duas orações:
- Tu que tens?
- Nada. E cada vez mais triste, o Felisberto, continuou a sua vida de sacristão. Sempre soturno, foi ele que ajudou a casar a Deolinda e a tomar-lhe os filhos cristãos. Com a sua paixão recalcada, tocou-lhe a repique todas as vezes que foi preciso.
O padre só dizia: 
- No domingo temos o baptizado de mais um crianço da Deolinda.
- A que horas?
- Depois da missa. 
E, acabada a celebração, lá estava ele a puxar à corda do sino.
- Porque não casas também? - perguntou-lhe um dia o prior, depois de prender com a estola a mão do Ramiro, o último solteiro da geração do Felisberto.
- Agora!
- Então, que idade tens?
- Sei lá! A idade não é que faz.
O padre não compreendeu, mas não quis aprofundar. A sua própria castração solidarizava-se mais facilmente com um Felisberto mutilado e solitário. Contudo, passados anos, já quando o vento do outono os abanava, gemeu: 
- Envelhecemos para aqui ambos como dois infelizes...
O sacristão encolheu os ombros, resignado.
- Calhou assim...
E nunca o prior soube se a resposta do Felisberto era uma censura velada, nem o Felisberto se as palavras do prior eram um desabafo de alma.
Evidente, só a velhice que os mirrava, cada vez mais enrugada e branca. O padre, trôpego, subia com dificuldade os degraus do altar, e quase que adormecia a ler o missal. Quanto ao Felisberto, esse tinha uma ronceira no peito que se ouvia do fundo da igreja.
- Eles não perdoam... - queixava-se o prior, cheio de reumatismo. - já cá cantam setenta e três.
Apesar de mais novo, o Felisberto parecia andar nos oitenta. Tais eram os estragos da doença e da solidão!
- E tu, quantos?
- Perdi-lhes a conta. Desde que a Deolinda o desprezara, o tempo para ele deixara de ter medida. Ou era uma eternidade baça, ou aquele segundo nítido em, que ela lhe dissera que não. E a própria bronquite como que já fazia parte dessa monotonia sem quebras.
- Vai ao médico, homem! Trata disso! - teimava o prior, agarrado à vida, apesar dos achaques.
- É crónico. Não vale a pena. E o triste, acompanhado da gataria do peito, ia arrastando como podia o seu latim de coadjutor. Às vezes os acessos de tosse quase que o sufocavam. Mas lá continuava a mudar o missal e a chegar as galhetas, sem o amparo sequer dum coração condoído. No ramerrão da igreja, a gosma acabou por já nem causar impressão aos fiéis.
- Temos um enterro amanhã. 
- De quem é?
- Da Deolinda. Teve um ataque há bocadinho, chamaram-me à pressa para lhe dar a extrema-unção e quando lá cheguei estava morta. É preciso tocar a sinais.
Ficou pensativo, mas o prior nem deu conta. Saiu da sacristia, foi à torre anunciar a desgraça, e nesse mesmo dia, à tardinha, tratou de abrir a cova da que não quisera ser sua mulher por essa razão.
Começou a cavar sem ânimo, aflito por dentro e muito infeliz. Iam saindo ossos, farrapos, tábuas - o espólio habitual dos hóspedes passados. Mas nem reparava. Só os braços é que trabalhavam. A sua atenção estava ausente daquelas misérias. Ou se alheava para atender a um apelo insistente da memória, ou se concentrava no alvoroço do coração, a bater descompassado dentro do peito.
Um suor frio, como nunca sentira, começou a humedecê-lo todo. Gotejante a princípio, alargava-se numa inundação. Pesadas, as ferramentas pareciam de chumbo. Contudo, continuava a manejá-las, numa espécie de automatismo, como uma máquina em movimento que por si só não pudesse parar.
Já fundo, quando a campa lhe dava pelo pescoço, o esvaimento aumentou. Um garrote invisível apertava-lhe a vida.
Pousou a pá e encostou-se à trincheira.
- Estou pronto.
O lusco-fusco embainhava de tristeza maciça os quatro ciprestes que guardavam os cantos do cemitério. Nos buxos alinhados havia uma paz cansada, de sono.
- Acabou-se o fadário... Num adeus quase indiferente, rolou a cabeça à superfície do mundo, como um roberto que não tivesse corpo.
- Cruzes e mais cruzes... Valeu a pena!... Depois, sem forças para sair do buraco, aninhou-se nele o melhor que pôde.
- Esta é para mim... - murmurou. - A dela que lha faça quem quiser. 
Escusava de ter medo, afinal...

Miguel Torga, Contos da Montanha