20/05/2007

A maçã de oiro

Enfim, enfim... O cavaleiro chega debaixo da macieira apetecida e colhe a maçã de oiro.

A macieira estava carregadinha delas e todas eram de oiro, mas só uma de oiro maciço. E foi àquela que ele lançou mão. Que sorte, que felicidade!

Nisto, o grande portão do pomar das maceiras, aberto de par em par, fechou-se com enorme estrondo. E os perseguidores do cavaleiro afortunado, que eram muitos, a cavalo também, de lanças em riste e aos gritos, dão voltas inúteis e desesperadas.

O cavaleiro, defendido por muros altíssimos e em poder da maçã rara, desmonta-se e sossega. Quer sosse­gar, desprezar os seus inimigos, mas são tantos os brados, as ameaças e os insultos que o sangue lhe referve. Afivela a couraça, de que já se tinha alijado, mede a lança, atira com a maçã de oiro a terra e corre, lançando o seu pre­gão.

A maça abre-se instantaneamente ao meio e dá saída a tantos e tão belos guerreiros armados e equipados, que os muros do pomar ficam guarnecidos deles numa exten­são infinita.

E começa a batalha... Quem a comanda é o feliz guer­reiro. Uma batalha dura e rápida.

Os vencidos, do lado de lá dos muros, fogem à doida e os vencedores, risonhos e contentes, dispersam a seu bel-prazer. O cavaleiro afortunado convida-os então para uma vida de armas, mas eles sorriem-lhe e não aceitam.

Torna o senhor da maçã de oiro a ver-se sozinho. De­sarma-se e limpa o suor. Como já era a hora da sesta, adormece. Sonha então que aquele pomar ainda era maior que um quinto do mundo e que lhe pertencia. Quando acorda, cheio de sede, estende o braço para a sua direita e não faz mais que pegar na maçã de oiro, intacta. Tem receio de a tornar a arrojar ao chão. Dá-lhe voltas sobre voltas, sempre indeciso, e torna a pô-la a seu lado. Quem lhe há-de ali aparecer, sem ele esperar, vinda debaixo das macieiras carregadas? Uma donzela formosa. Traz os cabe­los soltos e dois cavalos à rédea, muito bem arreados.

Diz-lhe ele: nobre donzela, onde ides?

Responde-lhe ela, com uma voz mais cantada que a dos pássaros: à fonte.

Ele rejubila. E entendendo que um dos cavalos lhe é destinado põe-lhe a mão na cabeçada. Sorri-lhe a donzela. Montam ambos e galopando e conversando vão ter com a água. Dessedentam-se e tornam a cavalgar. Correm, cor­rem, correm sem jamais sair do pomar, entendendo assim o cavaleiro que o seu sonho o não enganara. Pergunta, no entanto, à donzela que mistério há em tudo aquilo. De quem era ela filha, porque é que ali estava, quem lha man­dara... A donzela sorri sempre, sem lhe dar resposta. Até que ele a deixou de questionar e se pôs a rir também.

À noitinha ela diz-lhe adeus e ele fica-se a olhá-la. Depois tira do bolso a bela maçã de oiro e sente-se intri­gado. Tanto mistério e tanta felicidade! Os cardumes de estrelas a apontar deslumbram-no. Faz por fim uma cama de folhas e deita-se nela. Logo se julga num leito real. De manhãzinha os pássaros o acordam. Alegre, dispõe-se a passear e descobre uma ribeira. Ribeira que vinha ata­rantada como todas elas vêm, de pedra em pedra, às vol­tas e aos saltos. Parecia mesmo falar. E tanto falava que o cavaleiro se pôs a interrogá-la e ela a responder-lhe. Deste modo soube que a donzela o amava e que aqueles domí­nios lhe estavam destinados. Não se via ele em posse da maçã rara?

O cavaleiro vai caminhando sempre a par da ribeira. Que estranho fado seu! Estaria sonhando, viveria acor­dado? Andaria perdido ou tudo o enganava? E querendo mais certezas torna a falar à ribeira, mas as respostas desta já saem entrameladas. Ele irrita-se e arremessa-lhe a maçã de oiro.

Que fizeste? —julga ele logo ouvir.

Que fiz? E espera.

A ribeira, que dá uma instantânea volta, tem-no cer­cado. Está o cavaleiro preso, mas em que feliz prisão... É uma ilha de flores. No meio dela quem lhe há-de logo aparecer? Ó maravilha! a donzela, de regadorzinho em punho, de onde saem uma gotas irisadas. Aquele é o seu jardim, anda-o a regar. Logo o cavaleiro esquece todos os seus cuidados. Para ele não há mais vida nem curiosidades.

Os cabelos soltos da jovem, como ela anda de cabeça baixa, virada para as suas flores, tapam-lhe os olhos. Solícito o cavaleiro quer-lhos arredar e pedir que des­canse. Ela sorri-lhe. Ele corresponde-lhe e só deseja falar, explicar-se. Mas que lhe há-de dizer? Não sabe... E ela que lhe pergunta então se alguma coisa lhe falta, se tem fome, se não tem pena de nada...

Ele só lhe responde com a mais feliz convicção: de nada, de nada.


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma