06/05/2007

A estrela azul

Eu só tinha pai, que pouco a pouco se ia desinteres­sando de mim. O resto da gente da casa eram umas mulheres más e vaidosas. Umas intrusas!

O meu tempo corria como o tempo corre... ao acaso. Nada me pertencia já. Bastarda a casa, bastardos os ares respirados nela. Quantos anos teria eu então? Doze, treze, catorze. Até o gosto de vestir perdi porque tudo me retira­vam; de vestir e de andar limpa e bem pregada. Só a ima­ginação me sustinha. A imaginação, digo: isto que aos jovens compensa de muitas faltas, da ternura, das satisfações, dos desejos realizáveis, de pequenas e de grandes coisas.

Com essa imaginação, que ninguém me podia roubar, eu via fantásticas coisas e amava outras não menos fan­tásticas, inatingíveis: as estrelas, os rouxinóis, os heróis das lendas, a água...

Amava-os, perseguia-os de sonhos e de pequenas efabulações.

À noite, noites quentes e noites frias, tinha muitos delíquios sentimentais: considerava a lua uma maravilha mortal, maravilha inigualável, e deixava-me gelar de olhos fitos nela.

De dia corria as bordas da ribeira a ver os pássaros, os saltinhos da água e a descobrir flores. Dessa idade me ficou a ideia da nobreza das violetas silvestres e da fra­grância dos junquilhos.

A gente do campo, mulheres e homens, que me sabiam desprezada, tinham certo respeito pela minha pes­soa, espreitavam-me sem me insultar.

Assim, neste viver, eu compunha, ideava histórias coi­sas ... e uma delas foi a da estrela azul

Ninguém me vê. Que é delas? Não sei. Deste lado, as luzes apagadas. Estará tudo lá em baixo.

Que noite! Que noite! Que linda noite! Tudo calado no pátio, também. Saio, encosto a porta da vidraça. Hoje não há luar. O jardim é pequeno e a mini só me apetece correr. O buxo já está orvalhado, é frio. Mas que cheiro! Da baunilha e da lúcia-lima...

Nada se ouve. As estrelas brilham, relampejara. Mais, cada vez mais. Vou andar pelo meio do buxo de cabeça levantada. Só para as ver.

Pequeninas, ó minhas lindezas... Tu, princesa do Sião; tu, princesa do mar; tu, flor da vida; tu, oiro a arder... tu, minha sem-nome, primeira entre todas, amiga do meu coração... ó estrela azul!

E sentei-me, com os olhos pregados nela. Cansada, enfim, arrastei-me para o chão, cruzei as mãos por baixo da cabeça e deixei-me ficar de olhos abertos.

E admirável o céu. Sobretudo de noite. Quem pode­ria viver sem ele, sem o ver, sem jamais o gozar? A terra, cá em baixo, só me parece morta. Estrela azul, flor sem par desse jardim, desse jardim ideal! Nunca mais te largo. És a minha estrela.

A estrela azul é a estrela dela... A estrela azul…

E todas tão formosas!

Florêncio morreu nessa mesma noite.

De dor e de paixão.

Amou-as tanto!

A todas, a todas...

E os pássaros, que nunca mais se calavam, contaram uns aos outros a longa história de Florêncio, triste desde a sua nascença até à morte.

Enquanto as flores, sobretudo a baunilha e a lúcia-lima, e também a madressilva, se derramavam em chei­ros deliciosos. E uma nespereira velha, muito grande e velha, nascida sem propósito naquele campo de flores, talvez na era de Florêncio, se mantinha reservada.


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma