29/04/2007

A Revelação



Pau para toda a colher em matéria de chanatos, o Rodrigo apareceu em Dailão num dia de feira a tocar a gaita dos seus sete ofícios - uma flauta de capador, que parecia um harmónio a cantar-lhe nos beiços.
- Temos chuva! Sempre de ironia na ponta da língua, a Matilde, que lavava a louça, antes mesmo de ver a cara do músico, atirou a dizedela. Depois é que chegou à varanda. E o Rodrigo, apenas a lobrigou, repenicou-lhe cá de baixo uma assobiadela afinada como um madrigal.
- O homem é doido! Mas era por uma ave de arribação assim, exótica e atrevida, que o seu coração esperava. Reinadia, amiga de uma resposta a tempo e horas, imaginativa, o ramerrão da terra sabia-lhe a caldo sem sal. Todos os rapazes das redondezas lhe arrastavam a asa, o Artur principalmente. Queriam lavrar mais uma leira... Bom proveito! E deixava-os penar.
Engraçado, aquele, a dar ao pedal da roda como se ela fosse a da fortuna...
- Que diz, minha mãe: mando-lhe pôr uma vareta no guarda-sol?
- Manda. Enxugou as mãos a uma rodilha, foi ao quarto, deu um jeito ao cabelo, mudou de avental, pegou no chuço e desceu as escadas.
- Oiça lá, tio homem, componha-me aqui isto. 
- De mil amores!
- Não é preciso tanto. Basta que seja bem. Ele sorriu com os lábios grossos, que escancararam uma dentadura branca, sã, de lobo esfaimado, e ela ficou muito séria, a trespassá-lo com dois olhos ariscos e sonhadores.
- Deixe cá ver...
Estendeu a mão, onde um anel de oiro falso reluzia, e em menos dum fósforo tinha o serviço acabado. E foi durante esse breve tempo de espera, a seguir-lhe o movimento dos dedos prolongados pelo alicate, que a rapariga entronizou para sempre na alma a imagem do rapaz.
- Ora prontinho. Está aqui, que é uma perfeição.
- Veja lá!
- É o que lhe digo! Tomo a responsabilidade.
- E quanto lhe devo?
- Não é nada.
- Essa agora!
Também ele, enquanto trabalhava, a fora aninhando no pensamento.
- É um presente que lhe faço...
- A que propósito? Nunca me viu mais gorda...
- Algum dia havia de ser o primeiro...
Embora intimamente lisonjeada, reagia instintivamente àquela espécie de compromisso repentino.
- Costuma-se dizer que favores de gente honrada não se enjeitam. Mas contas, são contas. Ande lá, e deixe-se de brincadeiras.
- Já lhe disse.
- Mau!
- Não seja soberba, menina! Ou é por causa da insignificância? Para outra vez será coisa melhor...
Começou assim a conversa, e segue-se que nessa mesma noite dormiram juntos. Lá como arranjaram a marosca, não se sabe. Artes do diabo! O dia fora de balbúrdia, as vendas estiveram abertas até altas horas, bêbados para aqui, ciganos para acolá, o certo é que o Rodrigo entrou às tantas, saiu às quantas, e fecha-te segredo!
Eram fins de Setembro, na força das colheitas. De manhã cedo, quando a Matilde, estremunhada e dorida, chegou à janela, a veiga parecia uma colmeia. Nas vinhas, as mulheres enchiam cestos, que os homens, em fila indiana, despejavam nas dornas; e os carros de bois, a escorrer mosto, cantavam depois pela quelha acima numa alegria de ouriços carregados. Nos lameiros, os velhos tiravam milho, apanhavam feijões ou recolhiam abóboras. E nos pomares, trepado, o rapazio varejava as nogueiras, coalhando o chão.
- Arranja-te, rapariga! Ou queres ficar aí pasmada toda a vida?
Viúva, a Genoveva era uma moira de trabalho a granjear os bens que o homem deixara.
- Penteia-te, e trata de acender o lume enquanto eu vou apanhar umas maçãs para o reco.
Foi, voltou, e a filha no mesmo preparo e no mesmo alheamento.
- Tu que tens, mulher?
- Dói-me a cabeça...
- Faz uma pinga de chá. Pelo dia adiante, aquela névoa matinal foi-se dissipando. A tarde, já mal se notava. No dia seguinte, desaparecera. E o aterro do tempo começou a arrasar o valado aberto. Só três meses depois é que tudo voltou novamente ao princípio.
- Pareces-me mais grossa da cinta!...
- Que admiração! Estou prenha...
- Prenha?! Prenha de quem?
- Dum homem. 
A Genoveva quis morrer logo ali. Mas não morreu. A vida pôde mais de que ela, e teve de aguentar a filha naquele transe que, de resto, pareceu afligi-la pouco. A estalar o cós da saia, continuava na mesma, a caçoar com todos e com ela própria.
- Diz-me ao menos quem é o pai!
- Não é o rei, sossegue.
- Excomungada! Com tantos que te queriam para bem... Aquele pobre Artur...
- Não lhe faltam burras de carga. É só escolher.
As feições da petiza que nasceu ao fim dos noves meses da ordem não correspondiam a nenhuma cara conhecida. Por mais que o espírito bisbilhoteiro de Dailão se esforçasse, não havia maneira de arranjar cabeça de turco a quem servisse a carapuça.
- Foi milagre! Nasceu por obra e graça... - e a Matilde ria-se, a meter o bico do peito nos lábios sôfregos e polpudos da pequerrucha, que recebeu na pia o nome de Natália.
Monótono e rotineiro, o carro dos anos ia rodando. De vez em quando um assobio inquietador feria os ouvidos da povoação. A Matilde corria à varanda. Mas não era o Rodrigo.
- Afinal, o Artur veio falar comigo... - começou a mãe, numa tarde de monda.
- Quer casar com vossemecê?
- Parece tola! Contigo, mulher!
- E fez-lhe a declaração a si?!
- Tu espanta-lo! Aquilo é que é uma paixão!... Diz que põe tudo para trás das costas...
- Tem boa boca...
- Maldita! Sujas o bebedoiro, e ainda por cima te ris dos que querem beber!
- Há por aí muita água limpa. Por isso...
- Faz como entenderes. Mas sempre te digo: não cuspas tanto para o ar! Aproveita, e dá graças!
- Graças, será demais. Mas hei-de pensar... 
Pensou, repensou, tornou a pensar, correu à varanda mais algumas vezes, e, por fim, decidiu-se.
- Diga-lhe que sim. Casaram pouco depois, e, contra todas as expectativas, não houve ralhos nem desavenças naquela casa. A Matilde continuou a mesma caçoadeira, o Artur o mesmo paz de alma, e, quanto a darem-se, pareciam feitos de encomenda.
Ninguém os ouvia. Quando chegou a sua hora, a Genoveva morreu consolada. Deixava a filha melhor do que esperava, os bens em boas mãos, e a neta criada, na flor da idade, com vinte e dois anos abençoados. Do escândalo do seu nascimento já nem cinzas restavam. Filha do Artur a princípio apenas por comodidade de tratamento, o hábito da designação acabara por legitimar a paternidade. E ela própria, que sempre gostara do padrasto, se acostumou a ver nele o verdadeiro pai. Dirigia-se-lhe sempre em primeiro lugar, numa contínua e convicta demonstração de respeito, embora conhecesse de antemão a resposta às perguntas que lhe fazia.
- Ponho o milhão ao sol?
- A tua mãe que resolva. Desde o primeiro dia que o Artur deixava a mulher ser dona e senhora. Saía de madrugada, voltava à noite, comia, dormia, e no dia seguinte lá ia ele outra vez. Fiel à palavra dada, nunca se referia ao passado. Continuava a ignorar o nome do rival, mas nem a natural curiosidade de o conhecer dava a demonstrar. Tudo se passava como se tal homem não tivesse sequer existido.
Depois da morte da sogra, que às tantas tivera de trocar as courelas pela cozinha, era a enteada que tratava da lida da casa. O pessoal cada vez escasseava mais, e a Matilde teve de se agarrar à enxada. Mas a rapariga, felizmente, dava conta do recado. Agenciadeira, poupada, limpa, não havia defeito a pôr-lhe. E a vida corria como um veludo.
- Amanhã se me falarem às batatas, que faço? -já sabes a quem tens de perguntar! Preocupada com as decisões que teria de tomar no dia seguinte, a cachopa pedia instruções. Era feira, os dois iam regar, e ficava sozinha a governar o barco.
A mãe, sempre a mesma brincalhona:
- Se as não quiseres dar, vende-as. -A como?
- A conto de reis. Nem tu sabes que ninguém as paga a mais de quinze!
A ceia acabara, fora dita a última palavra, podiam ir descansar.
Dormiram, e quando de madrugada o casal, apressado, largou para as Bajancas, já os vendeiros armavam tendas no eiró.
Era também Setembro e, enquanto varria a casa, a Natália ia prestando atenção ao movimento da rua. O barulho dos socos a choutar no lajedo aumentava minuto a minuto, um automóvel passou a buzinar, o grunhido de uma vara de leitões recebia de vez em quando uma admoestação paciente da porca mãe que os acompanhava.
Às tantas, a melodia dum assobio de capador sobrepôs-se à barulheira. E a rapariga, que tinha uma travessa precisada de conserto, correu à varanda.
Ó tio homem! Menina... Espere aí, se faz favor. Espero, sim senhora. Era um velhote simpático, remendado, que lhe sorriu com uma grande boca desdentada.
- Só isso?
- Só. É pena. Pegou no pratalhão, mirou-o durante algum tempo, fez-lhe uns furos, deitou-lhe três gatos, limou, poliu, a olhar de vez em quando furtivamente a cachopa com duas pupilas muito vivas e fundas.
- Ora prontinho. Aqui tem. 
- Quanto lhe devo?
- Está pago.
- Pago por quem?
- Eu cá me entendo... Adeus, menina. Muita sorte é o que lhe desejo.
Sorriu-lhe com as rugas todas da cara, passou a gaita pelos beiços grossos, arrancou dela uma espécie de uivo dorido, e sumiu-se na multidão, enquanto a rapariga, parva, continuava especada no mesmo sítio.
- Não me quis nada pelo conserto! - desabafou com a Angélica que passava.
- O trabalho também não foi muito.
- Deixá-lo! Sem poder tirar o velho da lembrança, a cachopa passou o dia numa agitação que nunca conhecera. E à ceia, quando a família de novo se reuniu, foi a primeira coisa que contou.
- Hoje aconteceu-me uma partida... Mandei compor a travessa rachada a um amola-tesouras que apareceu aí, e o diabo do homem não me quis nada pelo serviço! Fartei-me de teimar, e não houve maneira.
- Ainda há almas caridosas... - largou-lhe a mãe, a disfarçar um baque que lhe dera o coração.
O padrasto é que se fez de novas.
- Ah, sim? E ficou bem?
- Mal se conhece.
- Ora mostra lá. A Natália foi ao - louceiro e exibiu a obra.
- Deixa ver mais perto... 
Na sua inocência, a cachopa estendeu o braço. E o Artur, num gesto seco, brusco, arrancou-lhe a travessa da mão, e, sem uma palavra, escacou-a no lajedo, da lareira.

Miguel Torga, Contos da Montanha