29/04/2007

O da Viola

O homenzinho estremunhado estende os braços ainda com preguiça e tenta abrir os olhos. Depois esfre­ga-os.

Ó que beleza de manhã! — exclama. E logo de seguida: espera, há aqui um cheiro... Que coisa é esta? Enxofre? Ruim cheiro!

Pobre como os mais pobres que andam de sacola ao ombro, tinha caído de sono debaixo de uma árvore. Dor­mira regalado e agora acordava meio tonto. E pôs-se, entre bocejos: ora viva lá o sol, viva lá o sol! Viva o sol e viva tudo! Estas árvores, aqueles passarinhos... Bendita seja a hora em que vim ao mundo. E que ricos sonhos eu tive! Mas que cheiro! Má peste. Entra pelas goelas de um homem...

Dizendo isto o dorminhoco espirra e engasga-se, depois levanta a vista e olha em roda de si.

Que vejo eu? — murmura sobressaltado.

À sua frente estava um figurão alto e embuçado, com um olhar que feria lume.

Senhor, começa o pobre.

Que me queres? — pergunta o outro, seguindo-lhe os pensamentos. Não me chamaste?

Eu, eu...

Chamaste, sim, e aqui estou para te satisfazer. Diz lá o que queres.

Não me lembro bem.

Tu sonhaste...

Pois sonhei, lá isso sonhei, mas não me lembro de o ter chamado, meu rico senhor, gagueja ele. Logo, porém, como se um raio de prudência o animasse: Ai, que sonhos! sonhei que era rico! porque de meu, deveis bem sabê-lo, só tenho este bordão e esta sacola. Sonhei que vivia em palácio, rodeado de servos e de manjares...

Mentiroso, não foi isso que tu sonhaste.

Ai, não foi! É verdade que não! Sonhei com uma violinha...

E que eu ta trazia.

Pois, pois. Uma viola admirável! Toda ela loirejava, tinha bordões novos e cravelhas de valor. Com ela na mão eu tinha o poder de alegrar os vivos e de acordar até os mortos. Tudo cantava e dançava ao som da minha música. Olha o da viola, dizia o povo todo, e seguia-me. Eu sentava-me a tocar em qualquer banda e era como se falasse. Alegrias e tristezas, tudo corria pelas cordas da minha viola acima e abaixo. Era como se ela soubesse todas as línguas; não havia ninguém que a não entendesse e não risse e não chorasse quando eu a tangia. Até já era apontado! Invejavam-me. E não eram poucos... Eu sabia imitar os pássaros, o vento e o mar; chegava a fazer arre­pios.

Cala-te! — brada-lhe de súbito o figurão. Mentes, e pedes-me o impossível!

Mas se eu sonhei...

Sonhaste. Porém outro foi o teu sonho.

Sonhei com uma viola. Que é dela?

Dar-ta-ei, espera.

E não é doirada.

Não.

Quantas cordas tem?

Apenas duas.

Duas apenas? Como a hei-de eu tanger?

Como puderes.

E não arrebatarei com ela o mundo?

Tolo!

Ai de mim, outro foi o meu sonho...

Não foi. Tu sonhaste que eras tangedor.

Mas tangedor emérito...

Que eras tangedor porque te tinham dado uma viola. Querias-te entreter.

Pois, pois. Mas o encanto, o encanto...

Tem-lo tu.

Eu só? E não alvoroço as gentes, não as comovo?

Contenta-te.

Nisto o figurão de olhos fuzilantes desembuça-se da capa e estende ao pobre uma viola comum e velha. Nem tocador de profissão és, que mais queres? — diz-lhe com uma risada.

Desenvolve-se logo ali muito fumo, ouvem-se uns estalos secos e a aparição desfaz-se.

O sol torna a luzir, abanam as árvores, cantam os pás­saros, corre a água e o dono da viola, arrimado a um pe­nedo, entra a experimentá-la, já satisfeito. Dedilha-a com gosto. E o próprio coração lhe diz que é uma artista.


Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma