23/04/2007

O Bruxedo



Apesar de a Gomes ter as farroncas que toda a gente sabia, a Melra foi-lhe àquele corpo que lho derreteu. A maior coça de que há memória em Feitais! A velha parecia o diabo, não parecia mulher! Que perdoava tudo, menos que lhe mordessem na reputação das filhas. Estavam casadas, e muito bem casadas! Quem quisesse falar de marafonas, falasse das da Vila Velha. E desancava a outra, com estas razões.
Feitais, embora não pusesse as mãos no fogo pela honra de ninguém, gostou do correctivo. A Gomes a dar lições de moral! Por que boca nos mandava Deus a verdade!
Os sessenta e cinco anos da Melra é que não eram para semelhantes avarias. Quinze dias depois do barulho, de tão magra e desfigurada, metia pena.
- Você que tem, ti Joana? Anda tão desolhada!...
- Nem sei. Dores no corpo, sem nenhuma vontade de comer, quebrada...
A Melra fora sempre como aço. A ter os filhos, era um ai que lhe dava; ao mato, punha cada carrego à cabeça, que até as mais se envergonhavam; a segar, enquanto as outras faziam cinco, fazia ela dez. Forte! Também lhe comia e bebia como uma valente. O homem, o Inácio, quando iam às feiras, já sabia: onde ele virasse um copo, ela virava outro. Uma mulher de armas! Mas, desde a tosa na Gomes, nem uma candeia, sem azeite, a apagar-se.
- Lá o que tenho, Deus é que sabe. Agora que não é coisa boa, não. Dói-me tudo, repugna-me a comida, sinto palpitações...
O Inácio, que também estava na casa dos setenta, e se sentia cada vez mais duro, no cerne - garantia ele -, não entendia aqueles flatos. Porque eram flatos, sem dúvida nenhuma.
- Eu não sou mulher de flatos! - protestava a Melra. - Quem pariu doze filhos como eu pari, sem um desejo, sem uma palavra que se ouvisse na rua, não é de flatos!
- Pois olha que ou eu me engano muito... - insistia o Inácio. - Que há-de ser?
Na cabeça da Melra andava um diagnóstico à espera de se escapulir. E numa hora de maior fraqueza abriu-lhe a portinhola:
- Até já me lembrou... Cala-te, boca...
- O quê?
- Que me fizessem qualquer bruxaria... 
- Deixa-te de maluquices e vê se tens propósito! Só cá faltava mais essa!... Valha-te Deus!
- Eu sei lá! Sinto-me tão cansada, tão moída...
- São flatos. Não é mais nada.
- E tu a dar-lhe!
As noites eram grandes e o Inácio tinha tempo de aturar a mulher. Encheu-se de paciência e pôs-se a meter um pouco de rigor masculino naquele juízo avariado. Não havia feitiços. O povo, ignorante, é que acreditava nesse e noutros disparates. Pusesse os olhos nas pessoas de certa categoria... 
- Nunca se ouvira dizer que a senhora Fulana ou o senhor Sicrano andassem com o diabo no corpo. Só a gente baixa, coitada, por falta de instrução... Palavra de honra! Estava absolutamente convencido...
A Melra borrou-lhe o discurso:
- Diz-lhe que não.
A Deolinda começou também assim, que eram maleitas, que eram febres intestinais, que eram sífilis, e vai-se a ver, tudo mandingas da Leopoldina.
O Inácio riu-se. Coitada da Leopoldina!
O poder dela era tanto como o dele. E que motivos dera ela à Leopoldina para lhe fazer mal?
- A ela nenhuns.
- Então, já vês... 
- Pois olha que não se me tira do pensamento...
- És teimosa!
- Serei. O pior é o resto... Seco-me de dia para dia...
Diante daquele argumento, o Inácio coçou a cabeça. Lá que a mulher se sumia, sumia. A Leopoldina é que não era para ali chamada. A que título ?
A Melra concretizou então numa clara luz as penumbras da sua intuição.
- Por incumbência da Gomes. Tão certo como Deus estar no céu! Não se largam. Umas amizades, uns namoros...
- Lá vens tu com enredos, mulher! Trata de domir, e amanhã vai ao Paliteiro que te venda sal amargo e toma-o. Isso ou são flatos ou é estômago sujo.
A Melra, apesar do purgante, não melhorou. E como tivera aquele grande barulho com a Gomes, e agora a Gomes não sala de casa da Leopoldina, aqui-del-rei que andava enfeitiçada.
- Tenho a certeza! Até dou conta quando me estão a coser a andilha! Acordo de noite com os alfinetes cravados no corpo!
- Valha-te um burro, mulher! Reloucaste. Depois de velha, reloucaste!
- Eu sinto! Eu sinto elas picarem o mono.
- Que mono?! Só ao cabo de grandes explicações é que o
Inácio veio a saber do que se tratava. Era pelos modos uma figura de pano, que representava a pessoa a desgraçar, onde a bruxa fazia os malefícios. Judiaria feita no boneco, era tal e qual como se fosse em nós.
- Estás num lindo estado, sim senhor! E tão sã que tu eras do miolo!
A Melra, obcecada por aquela ideia, nem ouvia as ironias do homem.
- E é que dão cabo de mim, as coiras! Uma agonia, não se me abre a boca para nada, uns apertos no coração...
O curandeiro da Azoia, chamado e posto ao corrente do que se passava, auscultou, apalpou, virou, receitou uma garrafada e prometeu a cura. Qual o quê! A Melra sentia-se cada vez pior.
- Bota-te à serra a casa da santa, se me queres viva! Leva-lhe uma camisa minha e conta-lhe tudo.
O Inácio, então, resolveu cortar o mal pela raiz. Iam mas é no dia seguinte à Vila, consultar o Dr. Amaral. Santa! Santa estava a mulher da caixa dos pirolitos.
Deitou-se nessa firme resolução, e acabara apenas de adormecer, quando, repentinamente, a Melra piorou. Foi-lhe fazer chá de cidreira e deu-lho. A doente pareceu melhorar. Mas passadas algumas horas, já de madrugada, estava ele a pegar no sono outra vez, a Melra deu um grande grito.
- Ai, que aquelas grandes putas atravessaram-me a alma! Ai! que eu sinto-me estrafegada! Ai Jesus, que eu morro! Ai...
O Inácio ergueu-se dum salto.
- Sossega, mulher, sossega! Valha-me nossa Senhora!
Palavras. A infeliz ficara-se-lhe já. Doido, sem um gemido que lhe abrandasse o desespero, tal e qual como saíra da cama, em ceroulas, correu para a rua, desvairado, à procura de um socorro impossível. Num relâmpago, desandou a chave e levantou o gravelho. E, mal puxou a porta, caiu-lhe aos pés um manipanso de farrapos todo cravado de alfinetes e com um grande prego de caibro espetado no sítio do coração.

Miguel Torga, Contos da Montanha