08/04/2007

A Imitação da Rosa

Antes que Armando voltasse do trabalho a casa deveria estar arrumada e ela própria já no vestido marrom para que pudesse atender o marido enquanto ele se vestia, e então sairiam com calma, de braço dado como antigamente. Há quanto tempo não faziam isso?

Mas agora que ela estava de novo «bem», tomariam o ónibus, ela olhando como uma esposa pela janela, o braço no dele, e depois jantariam com Carlota e João, recostados na cadeira com intimidade. Há quanto tempo não via Ar­mando enfim se recostar com intimidade e conversar com um homem? A paz de um homem era, esquecido de sua mulher, conversar com outro homem sobre o que saía nos jornais. Enquanto isso ela falaria com Carlota sobre coisas de mulheres, submissa à bondade autoritária e prática de Carlota, recebendo enfim de novo a desatenção e o vago desprezo da amiga, a sua rudeza natural, e não mais aquele carinho perplexo e cheio de curiosidade — vendo enfim Ar­mando esquecido da própria mulher. E ela mesma, enfim, voltando à insignificância com reconhecimento. Como um gato que passou a noite fora e, como se nada tivesse acon­tecido, encontrasse sem uma palavra um pires de leite espe­rando. As pessoas felizmente ajudavam a fazê-la sentir que agora estava «bem». Sem a fitarem, ajudavam-na activa­mente a esquecer, fingindo elas próprias o esquecimento co­mo se tivessem lido a mesma bula do mesmo vidro de remédio. Ou tinham esquecido realmente, quem sabe. Há quanto tempo não via Armando enfim se recostar com abandono, esquecido dela? E ela mesma?

Interrompendo a arrumação da penteadeira, Laura olhou-se ao espelho: e ela mesma, há quanto tempo? Seu rosto tinha uma graça doméstica, os cabelos eram presos com grampos atrás das orelhas grandes e pálidas. Os olhos marrons, os cabelos marrons, a pele morena e suave, tudo dava a seu rosto já não muito moço um ar modesto de mu­lher. Por acaso alguém veria, naquela mínima ponta de sur­presa que havia no fundo de seus olhos, alguém veria esse mínimo ponto ofendido a falta dos filhos que ela nunca ti­vera?

Com seu gosto minucioso pelo método — o mesmo que a fazia quando aluna copiar com letra perfeita os pontos da aula sem compreendê-los —, com seu gosto pelo método, agora reassumindo, planeava arrumar a casa antes que a empregada saísse de folga para que, uma vez Maria na rua, ela não precisasse fazer mais nada, senão: l?) calmamente vestir-se; 2°) esperar Armando já pronta; 3?) o terceiro o que era? Pois é. Era isso mesmo o que faria. E poria o ves­tido marrom com gola de renda creme. Com seu banho to­mado. Já no tempo do Sacré Coeur ela fora arrumada e limpa, com um gosto pela higiene pessoal e um certo horror à confusão. O que não fizera nunca com que Carlota, já naquele tempo um pouco original, a admirasse. A reacção das duas sempre fora diferente. Carlota ambiciosa e rindo com força; ela, Laura, um pouco lenta, e por assim dizer cuidando em se manter sempre lenta; Carlota não vendo pe­rigo em nada. E ela cuidadosa. Quando lhe haviam dado para ler a «Imitação de Cristo», com um ardor de burra ela lera sem entender mas, que Deus a perdoasse, ela sentira que quem imitasse Cristo estaria perdido — perdido na luz, mas perigosamente perdido. Cristo era a pior tentação. E Carlota nem ao menos quisera ler, mentira para a freira dizendo que tinha lido. Pois é. Poria o vestido marrom com gola de renda verdadeira.

Mas, quando viu as horas, lembrou, num sobressalto que a fez levar a mão ao peito, de que se esquecera de to­mar o copo de leite.

Encaminhou-se para a cozinha e, como se tivesse culposamente traído com seu descuido Armando e os amigos de­votados, ainda junto da geladeira bebeu os primeiros goles com um devagar ansioso, concentrando-se em cada gole com fé como se estivesse indemnizando a todos e se peni­tenciando. Se o médico dissera: «Tome leite entre as refei­ções, nunca fique com o estômago vazio, pois isso dá ansie­dade» — então, mesmo sem ameaça de ansiedade, ela to­mava sem discutir, gole por gole, dia após dia, não falhara nunca, obedecendo de olhos fechados, com um ligeiro ardor para que não pudesse enxergar em si a menor incredulidade. O embaraçante é que o médico parecia contradizer-se quan­do, ao mesmo tempo que recomendava uma ordem precisa que ela queria seguir com o zelo de uma convertida, dissera também: «Abandone-se, tente tudo suavemente, não se es­force por conseguir — esqueça completamente o que acon­teceu e tudo voltará com naturalidade.» E lhe dera uma palmada nas costas, o que a lisonjeara e a fizera corar de prazer. Mas na sua humilde opinião uma ordem parecia anular a outra, com se lhe pedissem para comer farinha e assobiar ao mesmo tempo. Para fundi-las numa só ela pas­sara a usar um engenho: aquele copo de leite que terminara por ganhar um secreto poder, que tinha dentro de cada gole quase o gosto de uma palavra e renovava a forte palmada nas costas, aquele copo de leite ela o levava à sala, onde se sentava «com muita naturalidade», fingindo falta de inte­resse, «não se esforçando» — e assim cumprindo esperta­mente a segunda ordem. «Não tem importância que eu en­gorde», pensou, o principal nunca fora a beleza.

Sentou-se no sofá como se fosse uma visita na sua pró­pria casa que, tão recentemente recuperada, arrumada e fria, lembrava a tranquilidade de uma casa alheia. O que era tão satisfatório: ao contrário de Carlota, que fizera de seu lar algo parecido com ela própria, Laura tinha tal prazer em fazer de sua casa uma coisa impessoal; de certo mo­do perfeita por ser impessoal.

Ora, como era bom estar de volta, realmente de volta, sorriu ela satisfeita. Segurando o copo quase vazio, fechou os olhos com um suspiro de cansaço bom. Passara a ferro as camisas de Armando, fizera listas metódicas para o dia seguinte, calculara minuciosamente o que gastara de manhã na feira, não parara na verdade um instante sequer. Oh, co­mo era bom estar de novo cansada.

Se uma pessoa perfeita do planeta Marte descesse e sou­besse que as pessoas da Terra se cansavam e envelheciam, teria pena e espanto. Sem entender jamais o que havia de bom em ser gente, em sentir-se cansada, em diariamente fa­lir; só os iniciados compreenderiam essa nuance de vício e esse refinamento de vida.

E ela retornara enfim da perfeição do planeta Marte. Ela, que nunca ambicionara senão ser a mulher de um ho­mem, reencontrava grata sua parte diariamente falível. De olhos fechados suspirou reconhecida. Há quanto tempo não se cansava? Mas agora sentia-se todos os dias quase exausta e passara, por exemplo, as camisas de Armando, sempre gostara de passar a ferro e, sem modéstia, era uma passa­deira de mão cheia. E depois ficava exausta como uma re­compensa. Não mais aquela falta alerta de fadiga. Não mais aquele ponto vazio e acordado e horrivelmente mara­vilhoso dentro de si. Não mais aquela terrível independên­cia. Não mais a facilidade monstruosa e simples de não dormir — nem de dia nem de noite — que na sua discrição a fizera subitamente super-humana em relação a um marido cansado e perplexo. Ele, com aquele hálito que tinha quan­do estava mudo de preocupação, o que dava a ela uma pie­dade pungente, sim, mesmo dentro de sua perfeição acorda­da, a piedade e o amor, ela super-humana e tranquila no seu isolamento brilhante, e ele, quando tímido, vinha visitá-la levando maçãs e uvas que a enfermeira com um levantar de ombros comia, ele fazendo visita de cerimónia como um namorado, com o hálito infeliz e um sorriso fixo, esforçando-se no seu heroísmo por compreender, ele que a recebera de um pai e de um padre, e que não sabia o que fazer com essa moça da Tijuca que inesperadamente, como um barco tranquilo se empluma nas águas, se tornara super-humana.

Agora, nada mais disso. Nunca mais. Oh, fora apenas uma fraqueza; o génio era a pior tentação. Mas depois ela voltara tão completamente que até já começava de novo a precisar de tomar cuidado para não amolar os outros com seu velho gosto pelo detalhe. Ela bem se lembrava das cole­gas do Sacré Coeur lhe dizendo: «Você já contou isso mil vezes!», ela se lembrava com um sorriso constrangido. Vol­tara tão completamente: agora todos os dias ela se cansava, todos os dias seu rosto decaía ao entardecer, e a noite então tinha a sua antiga finalidade, não era apenas a perfeita noi­te estrelada. E tudo se completava harmonioso. E, como para todo o mundo, cada dia a fatigava; como todo o mun­do, humano e perecível. Não mais aquela perfeição, não mais aquela coisa que um dia se alastrara clara, como um câncer, a sua alma.

Abriu os olhos pesados de sono, sentindo o bom copo sólido nas mãos, mas fechou-os de novo com um sorriso confortável de cansaço, banhando-se como um novo-rico em todas as suas partículas, nessa água familiar e ligeira­mente enjoativa. Sim, ligeiramente enjoativa; que importân­cia tinha, pois se também ela era um pouco enjoativa, bem sabia. Mas o marido não achava, e então que importância tinha, pois se graças a Deus ela não vivia num ambiente que exigisse que ela fosse mais arguta e interessante, e até do ginásio, que tão embaraçosamente exigira que ela fosse alerta, ela se livrara. Que importância tinha. No cansaço — passara as camisas de Armando sem contar que fora de manhã à feira e demorara tanto lá, com aquele gosto que ti­nha em fazer as coisas renderem —, no cansaço havia um lugar bom para ela, o lugar discreto e apagado de onde, com tanto constrangimento para si e para os outros, saíra uma vez. Mas como ia dizendo, graças a Deus, voltara.

E se procurasse com mais crença e amor encontraria dentro do cansaço aquele lugar ainda melhor que seria o so­no. Suspirou com prazer, por um momento de travessura maliciosa tentada a ir de encontro ao hálito morno que era sua respiração já sonolenta, por um instante tentada a co­chilar. «Um instante só, só um instantezinho!», pediu-se li­sonjeada por ter tanto sono, pedia cheia de manha como se pedisse a um homem, o que sempre agradara muito a Ar­mando.

Mas não tinha verdadeiramente tempo de dormir agora, nem sequer de tirar um cochilo — pensou vaidosa e com falsa modéstia, ela era uma pessoa tão ocupada! Sempre in­vejara as pessoas que diziam «não tive tempo» e agora ela era de novo uma pessoa tão ocupada: iam jantar com Carlota e tudo tinha que estar ordeiramente pronto, era o pri­meiro jantar fora desde que voltara e ela não queria chegar atrasada, tinha que estar pronta quando... bem, eu já disse isso mil vezes, pensou encabulada. Bastaria dizer uma só vez: «Não queria chegar atrasada» — pois isso era motivo suficiente: se nunca suportara sem enorme vexame ser um transtorno para alguém, agora então, mais que nunca, não deveria... Não, não havia a menor dúvida: não tinha tempo de dormir. O que devia fazer, mexendo-se com familiarida­de naquela íntima riqueza da rotina — e magoava-a que Carlota desprezasse seu gosto pela rotina —, o que devia fazer era: 1º) esperar que a empregada estivesse pronta; 2º) dar-lhe o dinheiro para ela já trazer a carne de manhã, chã--de-dentro; como explicar que a dificuldade de achar carne boa era até um assunto bom, mas se Carlota soubesse a desprezaria; 3º) começar minuciosamente a se lavar e a se vestir, entregando-se sem reserva ao prazer de fazer o tem­po render. O vestido marrom combinava com seus olhos e a golinha de renda creme dava-lhe alguma coisa de infantil, como um menino antigo. E, de volta à paz nocturna da Tijuca — não mais aquela luz cega das enfermeiras penteadas e alegres saindo para as folgas depois de tê-la lançado como a uma galinha indefesa no abismo da insulina —, de volta à paz nocturna da Tijuca, de volta à sua verdadeira vida: ela iria de braço dado com Armando, andando devagar para o ponto do ónibus, com aquelas coxas baixas e grossas que a cinta empacotava numa só fazenda dela uma «senhora dis­tinta»; mas quando, sem jeito, ela dizia a Armando que is­so vinha de insuficiência ovariana, ele, que se sentia lison­jeado com as coxas de sua mulher, respondia com muita audácia: «De que me adiantava casar com uma bailarina?», era isso o que ele respondia. Ninguém diria, mas Armando podia ser às vezes muito malicioso, ninguém diria. De vez em quando eles diziam a mesma coisa. Ela explicava que era por causa de insuficiência ovariana. Então ele falava as­sim: «De que é que me adiantava ser casado com uma bai­larina?» Às vezes ele era muito sem-vergonha, ninguém di­ria. Carlota ficaria espantada se soubesse que eles também tinham vida íntima e coisas a não contar, mas ela não con­taria, era uma pena não poder contar, Carlota na certa pen­sava que ela era apenas ordeira e comum e um pouco chata, e se ela era obrigada a tomar cuidado para não importunar os outros com detalhes, com Armando ela às vezes relaxava e era chatinha, o que não tinha importância porque ele fin­gia que ouvia mas não ouvia tudo o que ela lhe contava, o que não a magoava, ela compreendia perfeitamente bem que as suas conversas cansavam um pouquinho uma pessoa, mas era bom poder lhe contar que não encontrara carne mesmo que Armando balançasse a cabeça e não ouvisse, a empregada e ela conversavam muito, na verdade mais ela mesma que a empregada, e ela também tomava cuidado pa­ra não cacetear a empregada, que às vezes continha a impa­ciência e ficava um pouco malcriada. A culpa era mesmo sua, porque nem sempre ela se fazia respeitar.

Mas, como ela ia dizendo, de braço dado, baixinha e ele alto e magro, mas ele tinha saúde graças a Deus, e ela cas­tanha. Ela castanha como obscuramente achava que uma esposa devia ser. Ter cabelos pretos ou louros era um exces­so que, na sua vontade de acertar, ela nunca ambicionara. Então, em matéria de olhos verdes, parecia-lhe que se tives­se olhos verdes seria como se não dissesse tudo a seu marido. Não é que Carlota desse propriamente o que falar, mas ela, Laura — que se tivesse oportunidade a defenderia ar­dentemente, mas nunca tivera a oportunidade —, ela, Lau­ra, era obrigada, a contragosto, a concordar que a amiga ti­nha um modo esquisito e engraçado de tratar o marido, oh não por ser «de igual para igual», pois isso agora se usava, mas você sabe o que quero dizer. E Carlota era até um pou­co original, isso até ela já comentara uma vez com Arman­do e Armando concordara mas não dera muita importância. Mas, como ela ia dizendo, de marrom com a golinha... — o devaneio enchia-a com o mesmo gosto que tinha em arru­mar gavetas, chegava a desarrumá-las para poder arrumá-las de novo.

Abriu os olhos, e como se fosse a sala que tivesse tirado um cochilo e não ela, a sala parecia renovada e repousada com suas poltronas escovadas e as cortinas que haviam en­colhido na última lavagem, como calças curtas de mais e a pessoa olhando cómica para as próprias pernas. Oh! como era bom rever tudo arrumado e sem poeira, tudo limpo pe­las suas próprias mãos destras, e tão silencioso, e com um jarro de flores, como uma sala de espera. Sempre achara lindo uma sala de espera, tão respeitoso, tão impessoal. Co­mo era rica a vida comum, ela que enfim voltara da extra­vagância. Até um jarro de flores. Olhou-o.

— Ah! como são lindas, exclamou seu coração de repen­te um pouco infantil. Eram miúdas rosas silvestres que ela comprara de manhã na feira, em parte porque o homem in­sistira tanto, em parte por ousadia. Arrumara-as no jarro de manhã mesmo, enquanto tomava o sagrado copo de leite das dez horas.

Mas à luz desta sala as rosas estavam em toda a sua completa e tranquila beleza.

Nunca vi rosas tão bonitas, pensou com curiosidade. E como se não tivesse acabado de pensar exactamente isso, vagamente consciente de que acabara de pensar exactamente isso e passando rápido por cima do embaraço em se reco­nhecer um pouco cacete, pensou numa etapa mais nova de surpresa: «Sinceramente, nunca vi rosas tão bonitas.» Olhou-as com atenção. Mas a atenção não podia se manter muito tempo como simples atenção, transformava-se logo em suave prazer, e ela não conseguia mais analisar as rosas, era obrigada a interromper-se com a mesma exclamação de curiosidade submissa: como são lindas!

Eram algumas rosas perfeitas, várias no mesmo talo. Em algum momento tinham trepado com ligeira avidez uma sobre as outras mas depois, o jogo feito, haviam se imobili­zado tranquilas. Eram algumas rosas perfeitas na sua miudez, não de todo desabrochadas, e o tom rosa era quase branco. Parecem até artificiais!, disse em surpresa. Pode­riam dar a impressão de brancas se estivessem totalmente abertas mas, com as pétalas centrais enrodilhadas em bo­tão, a cor se concentrava e, como num lóbulo de orelha, sentia-se o rubor circular dentro dela. Como são lindas, pensou Laura surpreendida.

Mas, sem saber porquê, estava um pouco constrangida, um pouco perturbada. Oh! Nada de mais, apenas acontecia que a beleza extrema incomodava.

Ouviu os passos da empregada no ladrilho da cozinha e pelo som oco reconheceu que ela estava de salto alto; devia pois estar pronta para sair. Então Laura teve uma ideia de certo modo muito original: por que não pedir a Maria para passar por Carlota e deixar-lhe as rosas de presente?

E também porque aquela beleza extrema incomodava. Incomodava? Era um risco. Oh! não, por que risco?, ape­nas incomodava, eram uma advertência, oh! não, por que advertência? Maria daria as rosas a Carlota.

— D. Laura mandou, diria Maria.

Sorriu pensativa: Carlota estranharia que Laura, podendo trazer pessoalmente as rosas, já que desejava presenteá-las, mandasse-as antes do jantar pela empregada. Sem falar que acharia engraçado receber as rosas, acharia «refinado»...

— Essas coisas não são necessárias entre nós, Laura!, diria a outra com aquela franqueza um pouco bruta, e Lau­ra diria num abafado grito de arrebatamento:

— Oh não! não!, não é por causa do convite para jan­tar!, é que as rosas eram tão lindas que tive o impulso de dar a você!

Sim, se na hora desse jeito e ela tivesse coragem, era as­sim mesmo que diria. Corno é mesmo que diria?, precisava não esquecer: diria — Oh não! etc. E Carlota se surpreen­deria com a delicadeza de sentimentos de Laura, ninguém imaginaria que Laura tivesse também suas ideiazinhas. Nes­ta cena imaginária e aprazível que a fazia sorrir beata, ela chamava a si mesma de «Laura», como a uma terceira pes­soa. Uma terceira pessoa cheia daquela fé suave e crepitante e grata e tranquila, Laura, a da golinha de renda verdadei­ra, vestida com discrição, esposa de Armando, enfim um Armando que não precisava mais se forçar a prestar aten­ção em todas as suas conversas sobre empregada e carne, que não precisava mais pensar na sua mulher, como um ho­mem que é feliz, como um homem que não é casado com uma bailarina.

— Não pude deixar de lhe mandar as rosas, diria Laura, essa terceira pessoa tão, mas tão... E dar as rosas era quase tão bonito como as próprias rosas.

E mesmo ela ficaria livre delas.

E o que é mesmo que aconteceria então? Ah, sim: como ia dizendo, Carlota surpreendida com aquela Laura que não era inteligente nem boa mas que tinha também seus senti­mentos secretos. E Armando? Armando a olharia com um pouco de bom espanto — pois é essencial não esquecer que de forma alguma ele está sabendo que a empregada levou de tarde as rosas! —, Armando encararia com benevolência os impulsos de sua pequena mulher, e de noite eles dormi­riam juntos.

E ela teria esquecido as rosas e a sua beleza.

Não, pensou, de súbito vagamente avisada. Era preciso tomar cuidado com o olhar de espanto dos outros. Era pre­ciso nunca mais dar motivo para espanto, ainda mais com tudo ainda tão recente. E sobretudo poupar a todos o míni­mo sofrimento da dúvida. E que não houvesse nunca mais necessidade da atenção dos outros — nunca mais essa coisa horrível de todos olharem-na mudos, e ela em frente a to­dos. Nada de impulsos.

Mas ao mesmo tempo viu o copo vazio na mão e pensou também: «ele» disse que eu não me esforce por conseguir, que não pense em tomar atitudes apenas para provar que já estou...

— Maria, disse então ao ouvir de novo os passos da em­pregada. E quando esta se aproximou, disse-lhe temerária e desafiadora: você poderia passar pela casa de D. Carlota e deixar estas rosas para ela? Você diz assim: «D. Carlota, D. Laura mandou.» Você diz assim: «D. Carlota...»

— Sei, sei, disse a empregada paciente.

Laura foi buscar uma velha folha de papel de seda. De­pois tirou com cuidado as rosas do jarro, tão lindas e tran­quilas, com os delicados e mortais espinhos. Queria fazer um ramo bem artístico. E ao mesmo tempo se livraria de­las. E poderia se vestir e continuar seu dia. Quando reuniu as rosinhas húmidas em bouquet, afastou a mão que as se­gurava, olhou-as a distância, entortando a cabeça e entrefechando os olhos para um julgamento imparcial e severo.

E quando olhou-as, viu as rosas.

E então, incoercível, suave, ela insinuou em si mesma: não dê as rosas, elas são lindas.

Um segundo depois, muito suave ainda, o pensamento ficou levemente mais intenso, quase tentador: não dê, elas são suas. Laura espantou-se um pouco: porque as coisas nunca eram dela.

Mas estas rosas eram. Rosadas, pequenas, perfeitas: eram. Olhou-as com incredulidade: eram lindas e eram suas. Se conseguisse pensar mais adiante, pensaria: suas co­mo nada até agora tinha sido.

E mesmo podia ficar com elas, pois já passara aquele primeiro desconforto que fizera com que vagamente ela ti­vesse evitado olhar de mais as rosas.

Por que dá-las, então? Lindas e dá-las? Pois quando vo­cê descobre uma coisa boa, então você vai e dá? Pois se eram suas, insinuava-se ela persuasiva sem encontrar outro argumento além do mesmo que, repetido, lhe parecia cada vez mais convincente e simples. Não iam durar muito

— por que então dá-las enquanto estavam vivas? O prazer de tê-las enquanto estavam vivas? O prazer de tê-las não significava grande risco — enganou-se ela —, pois, quisesse ou não quisesse, em breve seria forçada a se privar delas, e nunca mais então pensaria nelas, pois elas teriam morrido

— elas não iam durar muito, por que então dá-las? O facto de não durarem muito parecia tirar-lhe a culpa de ficar com elas, numa obscura lógica de mulher que peca. Pois via-se que iam durar pouco (ia ser rápido, sem perigo). E mesmo

— argumentou numa última e vitoriosa rejeição de culpa — não fora de modo algum ela quem quisera comprar, o ven­dedor insistira muito e ela se tornava sempre tão tímida quando a constrangiam, não fora ela quem quisera com­prar, ela não tinha culpa nenhuma. Olhou-as com enlevo, pensativa, profunda.

E, sinceramente, nunca vi na minha vida coisa mais per­feita.

Bem, mas agora ela já falara com Maria e não teria jei­to de voltar atrás. Seria então tarde de mais?, assustou-se vendo as rosinhas que aguardavam impassíveis na sua pró­pria mão. Se quisesse, não seria tarde de mais... Poderia di­zer a Maria: «Ó Maria, resolvi que eu mesmo levo as rosas quando for jantar!» E, é claro, não as levaria... E Maria nunca precisava saber. E, antes de mudar de roupa, ela se sentaria no sofá por um instante, só por um instante, para olhá-las. E olhar aquela tranquila isenção das rosas. Sim, porque, já tendo feito a coisa, mas valia aproveitar, não se­ria boba de ficar com a fama sem o proveito. Era isso mes­mo o que faria.

Mas com as rosas desembrulhadas na mão ela esperava. Não as depunha no jarro, não chamava Maria. Ela sabia porquê. Porque devia dá-las. Oh, ela sabia porquê.

E também porque uma coisa bonita era para se dar ou para se receber, não apenas para se ter. E, sobretudo, nunca para se «ser». Sobretudo nunca se deveria ser a coisa bo­nita. A uma coisa bonita faltava o gesto de dar. Nunca se devia ficar com uma coisa bonita, assim como que guarda­da dentro do silêncio perfeito do coração. (Embora, se ela não desse as rosas, nunca ninguém iria jamais descobrir? Era horrivelmente fácil e ao alcance da mão ficar com elas, pois quem iria descobrir? E elas seriam suas, e as coisas fi­cariam por isso mesmo e não se fala mais nisso...)

Então? E então? indagou-se vagamente inquieta.

Então, não. O que devia fazer era embrulhá-las e man­dá-las, sem nenhum prazer agora; embrulhá-las e, decepcio­nada, mandá-las; e espantada ficar livre delas. Também porque uma pessoa tinha que ter coerência, pensamentos deviam ter congruência: se espontaneamente resolvera cedê--las a Carlota, deveria manter a resolução e dá-las. Pois ninguém mudava de ideia de um momento para outro.

Mas qualquer pessoa pode se arrepender!, revoltou-se de súbito. Pois se só no momento de pegar as rosas é que notei quanto as achava lindas, pela primeira vez na verdade, ao pegá-las, notara que eram lindas. Ou um pouco antes? (E mesmo elas eram suas.) E mesmo o próprio médico lhe dera a palmada nas costas e dissera: «Não se esforce por fingir que a senhora está bem, porque a senhora está bem», e depois a palmada forte nas costas. Assim, pois, ela não era obrigada a ter coerências, não tinha que provar nada a ninguém e ficaria com as rosas. (E mesmo — e mesmo elas eram suas.)

— Estão prontas?, perguntou Maria.

— Estão, disse Laura surpreendida.

Olhou-as, tão mudas na sua mão. Impessoais na sua ex­trema beleza. Na sua extrema tranquilidade perfeitas de ro­sas. Aquela última instância: a flor. Aquele último aperfei­çoamento: a luminosa tranquilidade.

Como uma viciada, ela olhava ligeiramente ávida a per­feição tentadora das rosas, com a boca um pouco seca olha­va-as.

Até que, devagar, austera, enrolou os talos e espinhos no papel de seda. Tão absorta estivera que só ao estender o ramo pronto notou que Maria não estava mais na sala — e ficou sozinha com seu heróico sacrifício. Vagamente, dolo­rosa, olhou-as, assim distantes como estavam na ponta do braço estendido — e a boca ficou ainda mais enxuta, aquela inveja, aquele desejo. Mas elas são minhas, disse com enor­me timidez.

Quando Maria voltou e pegou o ramo, por um mínimo instante de avareza Laura encolheu a mão retendo as rosas um segundo mais consigo — elas são lindas e são minhas, é a primeira coisa linda e minha!, foi o homem que insistiu, não fui eu que procurei!, foi o destino quem quis!, oh só desta vez!, só esta vez e eu juro que nunca mais! (Ela pode­ria pelo menos tirar para si uma rosa, nada mais que isso: uma rosa para si. E só ela saberia, e depois nunca mais, oh, ela se prometia que nunca mais se deixaria tentar pela per­feição, nunca mais!)

E no segundo seguinte, sem nenhuma transição, sem ne­nhum obstáculo — as rosas estavam na mão da empregada, não eram mais suas, como uma carta que já se pôs no cor­reio!, não se pode mais recuperar nem riscar os dizeres!, não adianta gritar: não foi isso o que quis dizer! Ficou com as mãos vazias mas seu coração obstinado e rancoroso ain­da dizia: «Você pode pegar Maria nas escadas, você bem sabe que pode, e tirar as rosas de sua mão e roubá-las.» Porque tirá-las agora seria roubar. Roubar o que era seu? Pois era assim que uma pessoa que não tivesse nenhuma pe­na dos outros faria: roubaria o que era seu por direito! Oh, tem piedade, meu Deus. Você pode recuperar tudo, insistia com cólera. E então a porta da rua bateu.

Então a porta da rua bateu.

Então devagar ela se sentou calma no sofá. Sem apoiar as costas. Só para descansar. Não, não estava zangada, oh nem um pouco. Mas o ponto ofendido no fundo dos olhos estava maior e pensativo. Olhou o jarro. «Cadê minhas ro­sas?», disse então muito sossegada.

E as rosas faziam-lhe falta. Haviam deixado um lugar claro dentro dela. Tira-se de uma mesa limpa um objecto e pela marca mais limpa que ficou então se vê que ao redor havia poeira. As rosas haviam deixado um lugar sem poeira e sem sono dentro dela. No seu coração, aquela rosa, que ao menos poderia ter tirado para si sem prejudicar ninguém no mundo, faltava. Como uma falta maior.

Na verdade, como a falta. Uma ausência que entrava nela como uma claridade. E também ao redor da marca das rosas a poeira ia desaparecendo. O centro da fadiga se abria em círculo que se alargava. Como se ela não tivesse passado nenhuma camisa de Armando. E na clareira das rosas faziam falta. «Cadê minhas rosas?», queixou-se sem dor alisando as preguinhas da saia.

Como se pinga limão no chá escuro e o chá escuro vai se clareando todo. Seu cansaço ia gradativamente se cla­reando. Sem cansaço nenhum, aliás. Assim como o vaga-lume acende. Já que não estava mais cansada, ia então se le­vantar e se vestir. Estava na hora de começar.

Mas, com os lábios secos, procurou um instante imitar por dentro de si as rosas. Não era sequer difícil.

Até bom que não estava cansada. Assim iria até mais fresca para o jantar. Por que não pôr na golinha de renda verdadeira o camafeu? O que o major trouxera da guerra na Itália. Arremataria bem o decote. Quando estivesse pronta ouviria o barulho da chave de Armando na porta. Precisava se vestir. Mas ainda era cedo. Com a dificuldade de condução ele demorava. Ainda era de tarde. Uma tarde muito bonita.

Aliás já não era mais de tarde.

Era de noite. Da rua subiam os primeiros ruídos da es­curidão e as primeiras luzes.

Aliás a chave penetrou com familiaridade no buraco da fechadura.

Armando abrira a porta. Apertaria o botão de luz. E de súbito no enquadramento da porta se desnudaria aquele rosto expectante que ele procurava disfarçar mas não podia conter. Depois sua respiração suspensa se transformaria enfim num sorriso de grande desopressão. Aquele sorriso em­baraçado de alívio que ele nunca suspeitara que ela perce­bia. Aquele alívio que provavelmente, com uma palmada nas costas, tinham aconselhado seu pobre marido a ocultar. Mas que, para o coração tão cheio de culpa da mulher, ti­nha sido cada dia a recompensa por ter enfim dado de novo àquele homem a alegria possível e a paz, sagradas pela mão de um padre austero que permitia aos seres apenas a alegria humilde e não a imitação de Cristo.

A chave virou na fechadura, o vulto escuro e precipita­do entrou, a luz inundou violenta a sala.

E na porta mesmo ele estacou com aquele ar ofegante e de súbito paralisado como se tivesse corrido léguas para não chegar tarde de mais. Ela ia sorrir. Para que ele enfim desmanchasse a ansiosa expectativa do rosto, que sempre vinha misturada com a infantil vitória de ter chegado a tempo de encontrá-la chatinha, boa e diligente, a mulher sua. Ela sorria para que de novo ele soubesse que nunca mais haveria o perigo de ele chegar tarde de mais. Ia sorrir para ensinar-lhe docemente a confiar nela. Fora inútil recomendarem-lhes que nunca falassem no assunto: eles não falavam mas tinham arranjado uma linguagem de rosto on­de medo e confiança se comunicavam, e pergunta e resposta se telegrafavam mudas. Ela ia sorrir. Estava demorando um pouco, porém ia sorrir.

Calma e suave, ela disse:

— Voltou, Armando. Voltou.

Como se nunca fosse entender, ele enviesou um rosto sorridente, desconfiado. Seu principal trabalho no momento era procurar reter o fôlego ofegante da corrida pelas esca­das, já que triunfalmente não chegara atrasado, já que ela estava ali a sorrir-lhe. Como se nunca fosse entender.

— Voltou o quê, perguntou afinal num tom inexpressi­vo.

Mas, enquanto procurava não entender jamais, o rosto cada vez mais suspenso do homem já entendera, sem que um traço se tivesse alterado. Seu trabalho principal era ganhar tempo e se concentrar em reter a respiração. O que de repente já não era mais difícil. Pois inesperadamente ele percebia com horror que a sala e a mulher estavam calmas e sem pressa. Mais desconfiado ainda, como quem fosse terminar enfim por dar uma gargalhada ao constatar o ab­surdo, ele no entanto teimava em manter o rosto enviesado, de onde a olhava em guarda, quase seu inimigo. E de onde começava a não poder se impedir de vê-la sentada com mãos cruzadas no colo, com a serenidade do vaga-lume que tem luz.

No olhar castanho e inocente o embaraço vaidoso de não ter podido resistir.

— Voltou o quê, disse ele de repente com dureza.

— Não pude impedir, disse ela, e a derradeira piedade pe­lo homem estava na sua voz, o último pedido de perdão que já vinha misturado à altivez de uma solidão já quase perfeita. Não pude impedir, repetiu, entregando-lhe com alívio a pieda­de que ela com esforço conseguira guardar até que ele chegas­se. Foi por causa das rosas, disse com modéstia.

Como se fosse para tirar o retrato daquele instante, ele manteve ainda o mesmo rosto isento, como se o fotógrafo lhe pedisse apenas um rosto e não a alma. Abriu a boca e involuntariamente a cara tomou por um instante a expres­são de desprendimento cómico que ele usara para esconder o vexame quando pedira aumento ao chefe. No instante se­guinte, desviou os olhos com vergonha pelo despudor de sua mulher, que, desabrochada e serena, ali estava.

Mas de súbito a tensão caiu. Seus ombros se abaixaram, os traços do rosto cederam e uma grande pesadez relaxou-o. Ele a olhou envelhecido, curioso.

Ela estava sentada com o seu vestidinho de casa. Ele sa­bia que ela fizera o possível para não se tornar luminosa e inalcançável. Com timidez e respeito, ele a olhava. Envelhe­cido, cansado, curioso. Mas não tinha uma palavra sequer a dizer. Da porta aberta via sua mulher que estava sentada no sofá sem apoiar as costas, de novo alerta e tranquila co­mo um trem. Que já partira.


Clarice Lispector, In Laços de Família