18/03/2007

Uma árvore na Lua


Daphne é uma menina que quer ser uma árvore. Gosta tanto de árvores que acha nada haver de mais belo à face da terra. “Ou da lua”, acrescentam, a brincar, os avós. Daphne passa sempre as férias com os avós, que afiançam que a neta está, muitas vezes, “na lua”. Enganam-se, porque Daphne não está “na lua”.
Está nas árvores. Nas do jardim dos avós, nas da floresta mais próxima, e sobretudo naquela que é considerada o tesouro da família: a Árvore das Quatro Estações. Esta árvore tem a particularidade de ser, ao mesmo tempo, todas as árvores, em todas as estações.
O que é muito prático para Daphne. Se lhe apetece estar no Natal, instala-se nos ramos do Inverno e colhe visco e azevinho. Na ponta dos ramos da Primavera, descobre ninhos e observa os ovos a abrir. Faz colares e pulseiras com as folhas do Outono. E, num só ramo de Verão, pode colher ameixas, damascos, cerejas e figos.
Como é filha única, Daphne está habituada a estar só. Na solidão que é a sua, procura não fazer mal a nada nem a ninguém: pessoa, animal, ou planta. Melhor ainda, cuida das borboletas feridas. Abriu mesmo um hospital, onde é enfermeira. Trata dos ramos partidos das árvores com fita adesiva e consegue, graças à sua paciência, colá-los completamente. Se tivesse cartões de visita como os adultos, esses cartões diriam:

Daphne
Enfermeira de borboletas
E médica de árvores.

Quando está cansada de brincar com a Árvore das Quatro Estações, ou com as borboletas, Daphne vai para a floresta, que começa onde acaba o jardim. Trata-se de uma floresta mágica, como o são todas as florestas, onde uma menina pode passear sem medo, já que aí os animais não lutam entre si. Amam-se. Podemos ver passar, de braço dado, o coelho e a doninha, a raposa e o faisão, a corça e o lobo. Os caçadores não podem lá entrar. Sempre que tentam, rebenta uma tempestade que os molha até aos ossos, e que os obriga a arrepiar caminho. O único proveito que tiram dessa incursão é uma constipação que dura oito dias, no mínimo, sem falar de outras complicações, da bronquite e da pleurisia.
Nesta floresta mágica, Daphne vê e ouve coisas muito engraçadas. Encontra uma poupa. Como é a primeira vez que vê um pássaro destes, exclama:
— Que animal é este? Dir-se-ia um antílope, pelos chifres, e uma zebra, pela cauda.
— Não sou uma zebra, embora seja raiada de preto e branco — corrige o pássaro. — Também não sou um antílope, embora pareça ter chifres na cabeça. São chifres de plumas que formam uma poupa, e daí o meu nome. Sou a Poupa, a mais bela das Poupas, pois sou a Rainha das Poupas.
— Majestade — saúda Daphne, fazendo uma vénia ─ queira aceitar as minhas desculpas.
— Estão aceites — responde a Poupa, que é boa pessoa.
Em seguida, vão passear juntas. Quando Daphne entra na floresta mágica, a Poupa poisa no seu ombro e começa a contar-lhe os últimos acontecimentos: o desabrochar de um cogumelo que cheira a violetas, o nascimento de uma fonte dourada, o casamento de uma libelinha com um alecrim frisado.
De uma outra vez, Daphne encontra um seixo no caminho, todo branquinho e muito redondinho. Dir-se-ia um ovo de mármore. É tão bonito que Daphne o mete no bolso. O seixo protesta imediatamente, já que não gosta de estar na escuridão do bolso. Só gosta da luz.
— Outrora — conta ele a Daphne, surpreendida por ouvir uma pedra falar — quando os deuses viviam com os homens, e tinham estátuas nos templos, eu era o dedo de uma deusa. Os deuses e os templos desapareceram e, no meio da confusão, a deusa perdeu a cabeça e os braços. Os braços com as mãos, e as mãos com os dedos, foram dispersos pela natureza. Pouco a pouco, perderam as formas que o escultor lhes dera e tornaram-se o que antes tinham sido: simples pedras.
Esta é a história do Pequeno Seixo (assim se chama a pedra), que, do seu esplendor antigo e dos templos erguidos no cimo das colinas, conserva o gosto pela luz. Daphne promete-lhe que o porá aos pés da Árvore das Quatro Estações, do lado do Verão, para assim estar sempre ao sol. Com é bem-educado, o Pequeno Seixo desfaz-se em agradecimentos.
Contando com a Árvore das Quatro Estações, a Rainha das Poupas e o Pequeno Seixo, Daphne já tem três amigos. Vai ter um quarto, ou melhor, uma quarta: trata-se de uma feiticeira.
Mesmo no meio da floresta, existe um carvalho enorme: é lá que habita a feiticeira. Escolheu morar ali, porque também gosta de árvores. Construiu um ninho para si mesma, à semelhança dos pássaros, mas à sua medida: um metro e cinquenta centímetros. Como os habitantes da floresta lhe querem tanto bem quanto a respeitam, chamam-lhe “Venerável”. Quando ouve o epíteto, a feiticeira ri-se de si própria e diz: — Veneranda Mãe, sou a Venerável Ninho de Pássaro.
Venerável Ninho de Pássaro: assim lhe chamam os amigos íntimos, entre os quais se conta Daphne, deslumbrada e conquistada pelas proezas da feiticeira. Com efeito, é ela que faz desabar a tempestade sobre os caçadores.
A Venerável Ninho de Pássaro ensina a Daphne imensas coisas sobre as árvores: os seus hábitos, os seus costumes, os seus segredos.
— O que é uma árvore? É alguém que não tem mãos para se defender, nem pés para fugir.
E acrescenta:
— As pessoas aproveitam-se disso para as massacrar. Daphne, nunca se deve maltratar uma árvore, tal como nunca se deve dizer a uma criança que é estúpida. O que é uma criança? É um adulto que ainda não teve tempo de crescer.
O mês de Julho passa, enquanto Daphne se diverte com os amigos e escuta a Venerável Ninho de Pássaro. Chega o mês de Agosto. Um dia, no início do mês, o avô entra em casa e põe os jornais sobre a mesa.
— Vejam — diz, consternado, dirigindo-se à avó e a Daphne.
Todos os jornais trazem a mesma notícia:

SOS Floresta
M M ataca

Daphne pergunta o que quer dizer MM. MM quer dizer Máquina Malvada, aquela que engole árvores às centenas e devora uma floresta inteira de uma só vez.
As florestas ameaçadas lançam um apelo, um SOS.
Por ora, a Máquina Malvada não ataca os seres humanos, contentando-se com aterrorizá-los com o seu barulho infernal e os seus odores pestilentos. Tresanda e mata. É decretado o estado de tristeza geral no país. O que se pode fazer? É Verão. As pessoas estão na praia ou na montanha. Na aldeia da floresta mágica, só há velhos e crianças como Daphne. Cada um se fecha na sua casa quando a Máquina Malvada desfila pelas ruas, arrotando vapores de gasolina e ameaçando as árvores, mesmo aquelas que se escondem nos jardins:
— Nenhum muro e nenhuma grade conseguirão deter-me quando eu tiver fome.
Daphne decide salvar a floresta e libertar o seu país da Máquina Malvada.
Para o efeito, convoca a Rainha das Poupas e o Pequeno Seixo, que aprovam a sua resolução. É claro que é preciso acabar com ela, e já. A Árvore das Quatro Estações, que vê os seus dias contados, definha. Na floresta mágica, os animais não ousam sair das suas tocas e passam fome e sede. É uma situação intolerável. Mas o que fazer para destruir a Máquina Malvada?
Daphne, a Rainha das Poupas e o Pequeno Seixo partem em busca dos conselhos e da ajuda da feiticeira. A Venerável Ninho de Pássaro está desesperada. Nada pode fazer contra a Máquina Malvada. A tempestade que ela enviava contra os caçadores já não lhe obedece.
— Antes quero molhar os caçadores do que sujar as minhas gotas de chuva e os meus trovões com esta máquina gordurenta que transpira óleo queimado — repete, obstinada, a tempestade.
Exasperada com tal atitude, a Venerável Ninho de Pássaro anuncia aos amigos que se vai embora de vez, que deixa a floresta para se refugiar em qualquer parte do céu.
— Quem gostar de mim que me siga — diz a feiticeira. Posso transformar o meu ninho em tapete voador e podemos partir imediatamente.
Ninguém quer, ou pode, partir imediatamente. Daphne tem de avisar os avós, e a Rainha das Poupas o seu povo.
Antes de partir para sempre, a Venerável Ninho de Pássaro revela a Daphne uma fórmula mágica, que deve ser aprendida de cor, não pode ser divulgada, e só deve ser utilizada em caso de perigo extremo:

Árvore, querida árvore,
Transforma-me em árvore
No centro da lua.

— Nunca imaginei que a Venerável Ninho de Pássaro fosse tão egoísta e nos abandonasse quando mais necessitamos dela — queixa-se a Rainha das Poupas
Ao que Daphne respondeu:
— Não faz mal. Acabaremos por vencer. Os fortes serão vencidos. Nós venceremos porque somos os mais fracos.
— Está tudo ao contrário — lamenta a Rainha das Poupas.
— A Daphne tem razão — assevera o Pequeno Seixo. A Máquina Malvada é muito forte, mas deve ter uma fraqueza escondida. Se a encontrarmos, podemos tirar partido dela e bater a Máquina. Quando era o dedo de uma deusa, falava-se muito, nos templos, de um rapazinho chamado David, que tinha conseguido derrubar um gigante, Golias, ao acertar-lhe com uma pedra em plena testa. Serei eu essa pedra e Daphne será David.
É preciso salvar as árvores. O tempo urge. Fica decidido, por unanimidade, que Daphne se disfarçará de árvore para chamar a atenção e despertar o apetite da Máquina Malvada. É fácil: Daphne só tem de vestir o casaco de bombazina castanha do avô, que parece mesmo uma casca de árvore. Na cabeça, usará a capelina com flores da avó.
— Parecerei uma árvore florida a passear — comenta.
Meu dito, meu feito. Disfarçada de árvore, Daphne passeia na estrada. Leva o Pequeno Seixo dentro da mão cerrada. Este suplica:
— Não me apertes tanto que me abafas. Não te esqueças do nosso plano de ataque. Logo que a Máquina Malvada abra a boca, atiras-me lá para dentro. Acredita que um pedaço de mármore, um antigo dedo de deusa, que teria hoje três mil anos, é mais difícil de digerir do que uma árvore tenra ou uma floresta mágica. A Máquina Malvada vai morrer de indigestão. Quando estiver morta, libertas- me. Não me deixes no meio daquele ferro-velho.
— Claro que não. Agora cala-te, que já a ouço aproximar-se — sussurra Daphne.
Ei-la que chega, negra de óleo e malvadez, qual monstruosa vespa feita de ferro, com os olhos salientes e em forma de ampola.
— Eis uma árvore que se passeia. Vou comê-la para ganhar apetite.
Abre os maxilares e mostra uma fila de dentes, de tal forma pontiagudos e feios que Daphne, apanhada de surpresa, erra a pontaria.
O Pequeno Seixo acerta no olho da Máquina Malvada, que estremece de dor e de cólera. Enfurecida, consegue arrancar o Pequeno Seixo da pálpebra e atira-o com tal força que a pedrinha desaparece lá para as bandas do sol. A deusa esperava-a, com um sorriso radioso:
— Eis-te, enfim, pequeno dedo. Faltavas-me tu para poder entrar inteira no paraíso das deusas.
Daphne e a Máquina Malvada ficam frente a frente.
— Vou devorar-te — ruge a máquina, lançando sobre Daphne um sopro eléctrico de tal forma potente e viscoso que a deita ao chão. A menina reúne as forças que lhe restam para se levantar e correr para a floresta, a fim de se refugiar no carvalho. Daphne corre e os amigos acorrem em seu socorro. Em vão.
Nem a Rainha das Poupas, nem as borboletas conseguem abrandar a Máquina Malvada, que é cada vez mais veloz. Aproxima-se de Daphne, sem apelo nem agravo. Daphne sente-se perdida e é então que se lembra da fórmula mágica que a Venerável Ninho de Pássaro lhe confiara:

Árvore, querida árvore,
Transforma-me em árvore
No centro da lua.

O desejo é formulado com tanta força que é de imediato realizado. Daphne levanta voo sob os aplausos da Rainha das Poupas e dos amigos da floresta, enquanto a Máquina Malvada se debate sozinha e, enraivecida, se reduz a um montão de óleo fumegante.

Daphne sobe, sobe, atravessa as fronteiras celestes, e percorre o país da Luz. De passagem, cumprimenta a feiticeira Venerável Ninho de Pássaro, o Pequeno Seixo, a nuvem, o peixe, a onda, os signos do Zodíaco e a Ursa Maior.

Chega finalmente ao centro da lua e aí transforma-se em árvore. A árvore da lua, que podemos ver nas noites de lua cheia…


Jean Chalon/Martine Delerm, Un arbre dans la lune