30/03/2007

O Pé Tolo



Bravães tinha-o de reserva. Era o seu lado pragmático, a sua face deslavada e oportunista. Todos se riam dele, o escarneciam ou lhe ignoravam a existência, se vinha a talho de foice falar em brio e dignidade. Mas à hora menos pensada, na primeira apertadinha, numa destas aflições que tem qualquer povo que se preza, o instinto colectivo de conservação elegia-o por unanimidade padroeiro da honra do convento. E lá ia o pobre do Pé Tolo em missão de paz fingida ou de aparente submissão, conforme as necessidades.
As relações de Bravães com Soutelo, sede do concelho, desde tempos imemoriais que dançam na corda bamba. A vila não perdoa à aldeia o ar lavado que lhe dignifica a pobreza, a feira dos nove, sem comparação nas redondezas, a bela situação que disfruta no centro do município, e, sobretudo, a rebeldia que se estampa no rosto másculo dos seus filhos. Homens de timbre e landreiro, rijos de corpo e alma, ninguém se meta com eles se não está disposto a arriscar a vida. Ora como os de Soutelo são doutra natureza - pemósticos, troca-tintas e amigos de coser o semelhante agachados atrás do balcão das repartições -, nunca se entenderam. Daí o calvário dum convívio difícil e atormentado, que recorreu durante muitos anos à diplomacia irresponsável do Pé Tolo. Através dela, nem os de Bravães se sentiam diminuídos no reconhecimento da vassalagem obrigatória, nem os de Soutelo deixavam de receber o preito devido. E quando depois, em horas calmas, o caso era discutido, ambas as partes tiravam proveito da baixa qualidade da deputação. Uns afirmavam que no lugar não havia melhor; e os outros que, para quem era, bacalhau bastava.
O certo é que, bem ou mal, desde rapaz que o Pé Tolo ia salvando a situação, sempre economicamente e com êxito. Bastava embebedá-lo, meter-lhe uns tostões no bolso para manter por lá, à força de mais vinho, o fogareiro aceso, e recomendar-lhe que desse vivas à Patuleia a torto e a direito. Foi assim nas guerras entre progressistas e regeneradores, no Trinta e um de Janeiro, na implantação da República e na própria inauguração do busto do Conselheiro Azevedo. Pena as vidas serem tão curtas e acabarem às vezes no pior momento.
Ninguém, fora de Trás-os-Montes, o sabe, mas declara-se já: Bravães tinha o seu quê de talassa. Razões? Bem, o rei passara por lá numa das suas visitas ao Norte, acenara muito com a mão, era loiro... Sem falar no exemplo do Senhor Nóbrega, o manda-chuva da povoação, que marrava como um toiro se via à frente o barrete frígio. Ora quando na Traulitânia aparece a tropa vinda não se sabe de onde, os comandantes se amesendam em casa do figurão, e a soldadesca, nos armazéns do mesmo, se põe a esvaziar os tonéis num regabofe universal, pareceu a todos que se tratava do Advento. E pronto: tocaram o sino a rebate, a mulher do Zebedeu largou pela veiga fora a gritar ao homem que viesse ver a monarquia, e foi o fim do mundo. Música e foguetes, dança desenfreada a noite inteira, e, às tantas, não se sabe dada por quem e posta por que mão, apareceu hasteada na coroa do negrilho a bandeira azul e branca.
No dia seguinte, o exército glorioso marcha sobre Mirandela, há combate, morrem alguns heróis, mas, finalmente, o país tinha a governá-lo a excelsa figura de Sua Majestade. Pelo menos assim o garantia a Isaura, fêmea do Senhor Nóbrega, a beber do fino na etiqueta dos tratamentos.
O pior é que de repente a coisa muda. A tropa fandanga é derrotada., e aí temos nós Bravães metida numa arriosca dos diabos. Içado no calor do entusiasmo, o bocado de pano ali ficou esquecido. Se alguém, pela calada da noite, tem a feliz ideia de o arriar, o caso talvez passasse despercebido. Mas ninguém se lembrou de tal, vem a reviravolta, e chega ordem de Soutelo para que o regedor apeasse imediatamente aquele símbolo de rebelião contra a ordem estabelecida, e o fosse entregar à sede da administração na quinta-feira próxima, dia em que se festejava na vila o regresso à normalidade constitucional, com sessão solene e discursos. Isto, enquanto não se procedia a um rigoroso inquérito que apurasse as responsabilidades.
Por azar, o regedor era precisamente o feitor do Senhor Nóbrega. E, claro, o ricaço travou-lhe a andadura.
- Tu não dás um passo. A bandeira está muito bem onde está. Eles que a venham buscar.
Foi quanto bastou para se armar a trovoada. De um lado, que sim, do outro, que não, o povo começa a tomar calor, e quem é que se atrevia a entrar em Bravães e subir ao negrilho? Armados de arcabuzes, sacholas, forquilhas e foices, os de lá guardavam a povoação como cães. A bandeira a drapejar na crista da árvore perdera toda a significação partidária, para ser um ponto de honra da resistência da terra à prepotência de Soutelo.
Intimações da capital do distrito, ameaças de Lisboa, e nada. Uma tentativa da Guarda foi rechaçada a tiros, à pedrada e a estadulho. E, claro, o Governo ameaçou de bombardear a terra. Deu três dias de espera, os que faltavam para a festança em Soutelo, e depois que ninguém se queixasse. Falsa ou verdadeira, a notícia circulou assim.
Protestos, imprecações, fanfarronadas, mas, à medida que as horas passavam, a bazófia começou a esmorecer. Numa reunião de emergência, convocada na véspera do prazo indicado, chegou-se à conclusão de que o mais sensato era acabar com a fantochada. Tirar o farrapo cá para baixo e mandá-lo entregar em Soutelo. Não valia a pena morrer por duas varas de linharéu.
Mas quem se prestava a ser o Egas Moniz da rendição?
O regedor, sempre preso à argola do Senhor Nóbrega, que via na humilhação do caseiro a sua própria, que não contassem com ele; o Lúcio, que batessem a outra porta; o Moura, idem, idem...
E aqui é que, mais uma vez, os préstimos do Pé Tolo acudiram à consciência de todos.
Simplesmente, o Pé Tolo, revelho e adoentado há muito, lembrara-se de dar a alma ao Criador precisamente naquela manhã. Depois da assembleia, ia o sacristão tocar a finados e o Silvério dar parte ao registo.
E foi nessa altura que o Anelhe teve uma inspiração.
- Suspendei lá isso. Fazei de conta que ele não morreu por enquanto.
Essa agora! É que me veio uma ideia. Quem vai levar a bandeira sou eu.
- Tu?!... - e todos se espantaram daquela súbita abnegação.
- É só dar um jeito à cara... Ninguém percebeu. Tanoeiro de seu oficio, o Anelhe era também comediante nas horas vagas. Entremez, auto, drama, farsa ou estrelóquio que houvesse na terra, lá estava ele no primeiro papel. Capaz de mudar de semblante como quem muda de camisa, imitava um qualquer, que ninguém os distinguia.
- Faz lá de Fulano!
Dava meia volta, dava outra meia e já estava. A mesma voz, o mesmo tique na cara, os mesmos ombros caídos, tudo chapadinho. Até parecia engordar de repente, se o caso o exigia. E foi ir a Soutelo na figura do Pé Tolo que se lhe meteu em cabeça.
- Faço de conta que sou ele, e está o caso arrumado.
- E se dão conta?
- Eles são burros. Deixai-me cá manobrar o barco.
Quando no dia seguinte o virar- aparecer de perna lázara a abanar, de bigode caído sobre a beiçola e chapéu cabaneiro enterrado nas orelhas despegadas, nem queriam acreditar. Parecia o Pé Tolo ressuscitado.
Grandes admirações, muitos ainda duvidavam, mas os factos estavam à vista.
E o Anelhe, sem se descompor, mandou um neto subir ao negrilho, agarrou na bandeira endemoninhada, enrolou-a, desfraldou ao sol a verde e vermelha, deu um viva à República e largou.
Chegou a Soutelo pelo caminho velho, do seu vagar e no seu normal. Mas logo diante da primeira casa da vila começou a dar ao pé. Subiu neste preparo as escadas da Câmara, entrou no salão nobre das sessões, alinhou ao lado dos representantes das freguesias, aclamou, bateu palmas, e, na hora própria, foi apertar a mão do presidente e entregar-lhe o testemunho da rendição.
Acostumados à presença daquele bonifrates em todos os grandes momentos da vida cívica da vila, os de Soutelo engoliram a pílula sem reparar no tamanho. Apenas o conservador do Registo Civil, mais papista do que o Papa, se aproximou do Anelhe e o interpelou:
- Vocês não tinham em Bravães ninguém mais decente para mandar?
Resposta pronta do Anelhe:
- Não, senhor. Para estes serviços, sou sempre eu.
O outro meteu o rabo entre as pernas, e o plenipotenciário, acabada a funçanata, regressou consolado a casa.
- Pronto. Amanhã de manhã já se pode dar andamento ao defunto. Cuidado com o figurão dos assentos.
No outro dia, à entrada da repartição, o Silvério ainda sentiu tremer-lhe a passarinha. Mas, caramba, da firmeza com que se houvesse dependia o bom êxito de toda aquela comédia. E puxou pela coragem.
- António da Silva Osório, diz você? - estranhou o Dr. Acúreio.
- Exactamente.
- Não era um a quem chamavam o Pé Tolo?
- Exactamente.
- Essa agora! Eu vi-o ontem na sessão! Até lhe falei.
- Pois viu, viu! Mas já lá está a dar contas a Deus.
- Como pode ser isso?! Parecia vender saúde...
- A vida é um engano... - filosofou o de Bravães.
- E então morreu de quê?
O Silvério lembrou-se do Anelhe, riu-se por dentro, e resolveu completar-lhe a obra. Pigarreou e respondeu com o ar mais safado que pôde arranjar:
- Olhe, de vergonha, coitado...

Miguel Torga, Contos da Montanha