06/03/2007

O apocalipse privado do tio Geguê



- Pai, ensina-me a existência.
- Não posso. Eu só conheço um conselho. - E é qual?
- É o medo, meu filho.

História de um homem é sempre mal contada. Porque a pessoa é, em todo o tempo, ainda nascente. Ninguém segue uma única vida, todos se multiplicam em diversos e transmutáveis homens.
Agora, quando desembrulho minhas lembranças eu aprendo meus muitos idiomas. Nem assim me entendo. Porque enquanto me descubro, eu mesmo me anoiteço, fosse haver coisas só visíveis em plena cegueira.
Nasci de ninguém, fui eu que me gravidei. Meus pais negaram a herança das suas vidas. Ainda sujo dos sangues me deixaram no mundo. Não me quiseram ver transitando de bicho para menino, ranhando babas, magro até na tosse.
O único que tive foi Geguê, meu tio. Foi ele que olhou meu crescimento. Só a ele devo. Ninguém mais pode contar como eu fui. Geguê é o solitário guarda dessa infinita caixa onde vou buscar meus tesouros, pedaços da minha infância.
No entanto, ele me trazia pouco: uma côdea, um lixo limpinho. De onde arrancava o sustento ele não falava. Sua conversa sempre era miúda, chuva que nem molhava, água arrependida de cair. Servia-se de sonhos:
- Amanhã, amanhã.
Foi essa instrução que ele me deu: lições de esperança quando já havia desfalecido o futuro. Pois eu aconteci num tempo de caminhos cansados. Meu tio me protegia os aguardos, sugerindo que outras cores brilhavam no longe.
- Levantamos cedo e partimos para lá. Amanhã.
Não havia cedo nem lá. E amanhã era ainda o mesmo dia. O tio inventava missões. Um pobre nem pode subornar o destino. Ele para si aldraba expectâncias, impossíveis lugares e tempos.
Um dia me trouxe uma bota de tropa. Grande, de tamanho sobrado. Olhei aquele calçado solteiro, demorei o pé. Duvidava entre ambos, esquerdo e direito. Um sapato sem par tem algum pé certo?
- Não gosta, é?
- Gosto, gosto.
- Então?
- É que falta o atacador - menti.
Geguê raivou-se. A paciência dele era muito quebradiça.
- Você sabe de onde vem essa bota?
A botifarra estava garantida pela história: tinha percorrido os gloriosos tempos da luta pela independência.
- São botas veteranas, essas.
Então, ele me malditou: eu era um sem-respeitoso,
sem subordinação à pátria. Eu haveria de chorar, tropeçado e pisado. Ou eu estava à espera que as estradas amolecessem para eu andarilhar com agrado?
- Não quer calçar, pois não?
Pegou na bota e atirou para longe. O estranho então sucedeu: lançada no ar a bota ganhou competência volátil.
A coisa voejava em velozes rodopios. O tio Geguê desafiara os espíritos da guerra?
Nessa noite, não sei se resultado da zanga, eu tiritacteava no escuro. A febre me engasgava o corpo, fogueirando-me o peito. Sonhava de olhos abertos. Mais que abertos: acesos. Sonhava com minha mãe, era ela, eu sei, embora que nunca lhe vi. Mas era ela, não havia outra doçura assim. Me segurou os braços e me chamou: filho, meu filho. Eu me arrepiei, nunca aquelas palavras tinham pousado na minha alma. Ela, o que queria? Nada, só me vinha pedir bondades. Eu que não virasse costas ao coração. O meu comportamento - essa seria sua recompensa. Mãe, chamei eu, mãe, me leve daqui. Mas ela não me escutava, parecia as minhas palavras tombavam antes de lhe tocar. Ela continuava seus conselhos, insistindo no valor das bondades. Mãe, eu tenho muito frio, leva-me junto consigo. Ela então me dispensou suas mãos, em concha de carinho. Naquele instante, por obra do encanto, eu me desorfanava.
Repente, um ruído me trouxe ao corpo. Era o tio Geguê. Suas mãos estavam deitadas entre as minhas, ali deixadas. Aquele encosto era seu tratamento, o remédio maior que ele sabia: chamava lembranças mais recuadas que meu próprio nascimento.
- Tio, minha mãe, ela não estava aqui?
- Cala, bebe essa água.
Aquela ilusão me dera uma outra febre: eu carecia daquela presença, sofria já a demora de nova aparição. Enquanto eu beberava, senti o suor escorrer por dentro, meu sangue aguava. Nesse rio interior eu afoguei, extraviei meus sentidos. No fim de tudo, na fronteira da luz, havia um porém, um nada sem fim: minha mãe.
Por que motivo ela me surgira das febres? E que aviso era aquele contra a maldade?
Na manhã seguinte, acordei longe da véspera. Olhei o azul em volta. O tio Geguê até que tinha razão: existia um amanhã. Ali estava, com o sol estreando cores e belezas. Quis dividir o sentimento mas o Geguê já tinha ido. Assim, só eu me festejei. Tinha vencido a doença, regressara da visita aos infernos. Fixei o céu, procurando Deus. Mas eu não tinha vistas para tão longe. Me ecoavam as palavras de minha mãe, fosse ela a amostra dos divinos. Como podia acontecer aquela voz? Ela era ninguém, só podia usar silêncios.
Deixei o assunto. Quem me acendeu a pergunta me haveria de dar a resposta. Saí aos tropeços pelo atalho. Onde ia, de passos tão fracos? Melhor seria eu me restar, cuidando das minhas forças. Mas havia um secreto motivo que me empurrava para o caminho. Sem me guiar eu acabei junto à mafurreira, lugar onde pousara a bota. Mas ela já não dormia ali. Um passeante me explicou: passou aqui o teu tio, junto com o camarada secretário. Tiveram um bocadinho de reunião, discutiram a temática da bota. O secretário se pronunciou: esta bota é demasiado histórica, não pode sofrer destino da lixeira. Geguê concordara, não se podia deitar tamanha herança fora. Mas o camarada secretário corrigira:
- Seu engano, Geguê: é preciso deitar esta porcaria fora.
- Deitar? Mas não é muito histórica, a bota? Por isso mesmo, respondeu o secretário. Mas não podemos fazer às vistas públicas. O Geguê quanto menos entendia mais concordava:
- Isso, isso.
- Fazemos sabe o quê, ó Geguê? - E será o quê, camarada chefe?
- Vamos afogar essa bota lá nos pântanos.
E foram. O passeante não mais sabia dos dois. Retornei a casa, à espera do Geguê. Veio a noite e ele sem regressar. Me afligi: teria havido uma situação? O tio, esse que me dera sombra à vida, teria sido levado? Ele que sempre fora de nenhum emprego, teria sido carregado para Niassa, na campanha contra os improdutivos?
Na angústia da demora, eu me avaliava. Afinal, aquele homem já me era muito paterno. E eu nele me filiava, fosse verdade eu sair de seu corpo. Pensava assim quando lhe vi chegar. Como era seu hábito, rodeou a casa. Comentava o jeito: o escaravelho dá duas voltas antes de entrar no buraco. Quando se aproximou da luz, eu vi a surpresa - no seu braço havia uma braçadeira vermelha, onde estava pintado a letras negras: G. V.
- Grupo de Vigilância, sim senhor. Agora também sou.
Meu tio, vigilante? Não era possível. Um vigiado, ainda vá lá. Porque, em justiça, ele apenas merecia desconfianças. Seu sustento era digno de gorda suspeita. Se eu nada perguntava era para evitar manchar meu sentimento de filho. Preferia não saber. Mas agora ele desempenhar o serviço da vigilância popular? Com certeza, estava só experimental. No entanto, ele se confirmou: era um. De pano vermelho sobre a camisa esfarrapada, meu tio despachava mandos:
- Shote-kulia, shote-kulia (Shote-kulia - ordem de comando, compasso da marcha militar, equivalente a "esquerdo-direito".).
E vendo como enchia de vaidade a sua magreza, marchando aos nobres tropeções, dobrei os risos. Ele reagiu, sério:
- Vão-me dar os treinos, não sabia?
Falava. Ainda assim, somei dúvidas. Era possível? Entregar-se a chave da porta ao próprio ladrão? Como podia ser ele um defensor da Revolução?
- E agora - perguntei -, lhe chamo de camarada tio?
Você deve compreender, respondeu. Não se pode ficar toda a vida pequeno. Sabe quem me escolheu? Foi o secretário, o próprio. Me conhece desde, somos primos, quase familiares. E terminou com ameaças: agora é que esses gajos vão saber quem sou eu, Fabião Geguê.
Na tarde seguinte, partiu-se embora. Foi para os treinos, no quartel dos milicianos. Ficou semanas, voltou sem saber maiores artes. Nem disparar não sabia. Só marchava: shote-kulia, shote-kulia.
Tinha o corpo bastante lamentável das fadigas que lhe mandaram. Ele olhou-me, suspirou fundo. Depois, deitou-se e fechou os olhos.
- Tio, vai dormir todo assim? Tira a farda, ao menos.
- Cala-te a boca. Se cansei com a farda, devo descansar com ela também.
Mandou-me aquecer o chá. Não queria adormecer com o estômago acordado. Assim, como estou, nem distingo as costas da barriga, reclamava ele.
- O chá não posso fazer, tio. Não há folha.
- Não faz mal, bebemos só assim: chá de água.
Mas quando a água ferveu já ele dormia. Também eu adormecia quando escutei sombras. Da silhueta saiu uma mulher, capulana (Capulana - peça de tecido que as mulheres enrolam à cintura.) sobre as costas. Protegeu o rosto com o braço, tossiu o fumo que subia da fogueira. Quando me notou, apontou para o chão: - Esse aí é o Geguê?
Confirmei. Ela preparava-se para sacudir o dormitoso mas eu, pressentindo o milando, me adiantei:
- Não lhe acorde, mamã. Ele está um pouco doente.
Ela virou a cara. Suas faces se acenderam inteiras na luz. Então eu vi que não era uma mãe. Não passava de uma rapariga da minha idade. Era bela, com olhos de convidar desejos, o corpo à flor da pele.
- Me chamo de Zabelani.
Era dona do nome. Falava em sussurro, parecia voz nascida de asas, não de garganta. Meu tio devia estar acordado mas nem mexeu. Estava quieto com a competência de um falecido. A menina resolveu sentar. Nem eu imaginava aquela habilidade de sentar tão redondo corpo num mínimo caixotinho de madeira. O assento balançava mas não reclamava.
- E tu quem és?
- Sou sobrinho do Geguê.
Fez uma pausa, como se tivesse ausentado. Esfregando os braços pediu que alimentasse a fogueira. O fogo está com frio, disse.
- Vens ficar connosco? - perguntei.
Sim, era esse o seu propósito. Ela se relatou: viera fugida dos terrores no campo. O mundo lá se terminava, em flagrante suicídio. Seus pais tinham desaparecido em anónimo paradeiro, raptados por salteadores. Tudo aquilo ela contava sem o deslize da mais breve lágrima.
- Agora venho ficar aqui. Geguê é meu tio, também.
Preparei uma esteira, dei-lhe manta. Adormeceu logo.
Era manhã elevada e ela ainda dormia. O tio Geguê contemplava o corpinho enroscado e abanava a cabeça:
- Esta menina vai desafinar o teu juízo, rapaz.
Proverbiava: duas árvores só atrapalham o caminho. Vocês, juntos, me vão trazer grande chatice. Enquanto matabichávamos ele me aconselhava, em vagas dicções. A redondura das ilhas, dizia, é o mar que faz. A beleza dessa menina, meu sobrinho, é você que lhe põe. As mulheres são muito extensas, a gente viaja-lhes, a gente sempre se perde.
- Mas, tio: nem cheguei de olhar essa menina.
Geguê prosseguia. Eu que frequentasse a quantidade e a variedade. Mas nunca, nunca aplicasse despesa em nenhuma mulher. Fosse pelo velho lobolo, fosse por modernas tradições: eu me devia furtar aos anéis. A melhor família, qual é? São os desconhecidos parentes dos estranhos. Só esses valem. Com os outros, intrafamiliares, nascemos já com dívidas. O tio Geguê negava os valores da tradição, o laço da família, vizinhando as existências.
Os dias passaram. Quase eu deixei de ver meu tio. Ele saía logo cedo, ocupado em segredos. Não seriam coisas válidas, com certeza. No enquanto, eu passeava com Zabelani. No caminhar do tempo, eu reconhecia o aviso de Geguê. Aquela menina me obrigava a urgentes adiamentos. Com ela eu aprendia uma tontura: eu muito queria, pouco sabia. Todo o meu corpo sonhava mas eu temia as ocasiões. Seria aquele amor um estado de infinita chegada? Ou será que, de novo, Fabião Geguê se confirmava: a mulher da nossa vida é sempre futura?
Na tarde de um sábado, levei Zabelani para um desses lugares só meus. Caminhámos por baixo dos coqueiros, vagueámos entre seus oscilaçantes pescoços. A brisa animava as copas: para cá, indo; para lá, vindo. No capinzal, os bois divagavam enquanto as garças soltavam súbitos branquejos na paisagem. Zabelani se abrandava, amolentada. Nossas mãos se tocavam, de um roçar só leve, distraído. Ela parou e me pediu: mostra onde corre o rio. Apontei o fundo da paisagem. Sempre de costas, ela se foi chegando, aconchegando. Até que todas as suas formas se afeiçoaram ao meu corpo. Eu sentia a pele chegar aos nervos. Então ela deixou tombar a saia e, com os vagares da lua, rodou até me enfrentar. O instante foi fundo, quase eterno. Para mais do rio se escutava apenas a nossa respiração.
Quando regressámos o tio Geguê me chamou para um canto. Eu esperava suas reprovações mas ele demorava, mastigando uma ervinha.
- Andas a comer essa gaja?
- Tio, não fala assim...
- Falo, sim. - E cuspiu: - Putas!
E logo ele ordenou que Zabelani arrumasse suas coisas. Seria levada dali, separada de mim, posta em lugar que só ele saberia. Me soltei às fúrias, tudo numa gritaria. Meu tio me desconhecia. Maldiçoei a malandrice dele, sua costumada fuga ao trabalho. Mesmo eu lhe queria agredir, mas ele segurava meus braços. A bem escrever, eu proferia mais choro que palavras. Ele me baixou as mãos, prendendo-me a mim mesmo. Cansado de choraminguar, me acalmei. Sentamos, um triste sorriso veio a seu rosto. A zanga recolhera seus azedos, o ar amolecia.
- Sabe, meu filho? Vou-te dizer: o trabalho é uma coisa muito infinita.
Ele adoçava um entendimento - que aquilo, nele, nem preguiça nem era. Ele apenas estava a tirar rendimento dos vagares do mundo, sem se desperdiçar. Eu que não mal-julgasse suas poupanças: nesta vida só os presentes sofrem. Vantagem do ausente: ele sempre não se agasta.
- Veja você, meu sobrinho: um boi. Dentro da água, um boi será que nada? Não, ele apenas se preguiça na corrente. A esperteza do boi é levar a água a trabalhar na viagem dele.
Sorri, ensonado. Essa é a garantia do pranto, dar um total cansaço. Depois, já nem nós importamos. Geguê ia levar aquela que amava. Mas eu já nem me opunha. Rendido às pálpebras, me sobrava só uma réstia da alma.
- Isso, sobrinhinho: dorme. Porque amanhã, muito cedo, te vou ensinar maneira de um tipo desenrascar nesta vida.
Água, um boi será que nada? Não, ele apenas se preguiça na corrente. A esperteza do boi é levar a água a trabalhar na viagem dele.
Sorri, ensonado. Essa é a garantia do pranto, dar um total cansaço. Depois, já nem nós importamos. Geguê ia levar aquela que amava. Mas eu já nem me opunha. Rendido às pálpebras, me sobrava só uma réstia da alma.
- Isso, sobrinhinho: dorme. Porque amanhã, muito cedo, te vou ensinar maneira de um tipo desenrascar nesta vida.
Geguê me acordou cedo. Ordenou que me lavasse e me aprontasse. Olhei em volta, Zabelani já tinha sido levada. Me permaneci, sem coragem de perguntar. Nem a cara de Geguê podia dar ânimos. Sentei, escutei-lhe. O plano dele era simples: você vai na casa da tia Carolina, assalta o galinheiro, rouba as cujas galinhas. Depois, pega fogo nas traseiras.
- Mas, tio...
- Vai, não demora.
Ele acrescentou: aquilo era um começo. Seguiam-se outras casas. Eu devia espalhar confusões, divulgar medos. Geguê se implementava, acrescido de farda, promovido de poderes.
- Mas, tio, o senhor, um miliciano, como pode...
- Ou você pensa um milicia existe enquanto há paz?
Eu me neguei. Primeiro, sofri suas ameaças. Eu recusasse e ele muito se consenquenciaria. Não esquecesse eu que ele guardava o destino de Zabelani. Depois, escutei suas promessas: se eu aceitasse não haveria de me lamentar.
Parti, fui sem mim. Executei maldades, tantas que eu já nem recordava as primeiras. Ao cabo de vastas crueldades, já eu me receava. Porque ganhara quase gosto, orgulhecia-me.
Dessas maldades me ficava uma surpresa: eu nunca sofria arrependimento. Era deitar e dormir. Onde estava, afinal, a minha consciência? O tio respondia:
- Não há bons nesse mundo. Há são maldosos com preguiça.
Fique o Geguê, sua palavra. Porque, afinal? Será que pode haver bondade num mundo que já não espera nenhuma coisa? Sempre me repeti - há os que querem, há os que esperam. Agora, no bairro já não havia nem querer nem espera.

Finalmente, se explicava o sonho da minha mãe. Aquilo nem foi sonho, foi miragem de sonho. Eu, afinal, nascera sem princípio, sem nenhum amor. Como pretendia minha mãe ensinar meu tardio coração? Fosse ainda a Zabelani talvez ela pudesse açucarar o meu formato. Mas meu tio me proibia eu só lhe lembrar. Os amores enfraquecem o homem, você será dado outras tarefas, mais bravas missões. Passado um tempo, meu tio me entregou uma espingarda. Olhei a arma, cheirei o cano, o perfume da morte.
- Levas um pano, escondes a cara. Não podem saber quem és.
O Geguê não era punido pela consciência. Tudo era leve como sua vigente risada:
- Os gajos vão panicar bem.
Com a arma, eu aperfeiçoei malvadezes. Assaltava currais, vazava cantinas. Quando não roubava, mascarado, eu era adjunto de milícia. Acumulava, por turnos, o polícia e o gatuno. Para o efeito, o tio me aplicara a braçadeira vermelha. Assim, já eu podia espalhar castigos. Muito-muito me agradava controlar a estrada. Tirar dos cestos as galinhas, exigir as guias de marcha, desamarrar os cabritos. E complicar os documentos:
- Essa foto é sua?
- É sim, faz favor.
- Mas está muito clara.
- Não é minha culpa: o retratista me tirou assim. Eu gozava aqueles gaguejos. Embrulhava:
- Ou será que você tem vergonha da sua raça? No final, decretava sanções: carretar pedras, covar buracos, capinar terreno. Aos poucos, por obra minha e do Geguê, nascera uma guerra. Ali já ninguém era dono de longas circunstâncias. Casa, carro, propriedades: tudo se tinha tornado demasiado mortal. Tão cedo havia, tão cedo ardia. Entre os mais velhos já se espalhara saudade do antigamente.
- Mais valia a pena...
E todos suspiravam: houvesse uma lei, qualquer que fosse. Mas que autorizasse a pessoa, em seus humanos anseios. Alguns se amargavam, fazendo conta aos sacrifícios:
- Foi para isto que lutámos?
Até que, certa tarde, me surgiu o aviso. Foi um sinal, breve mas ditado letra por letra. Eu vinha pelo carreiro dos pantanos. Por ali, um grupo de homens pescava o ndoé (Ndoé - peixe pulmonado que, nos períodos de seca, vive enterrado no lodo.). Sempre gostei de assistir esse trabalho, essa única pescaria que se faz na terra e não no mar. Os homens trazem lanças e espetam o chão, à procura dos buracos onde vive o peixe ndoé no tempo da seca. É bonito ver: repente, salta o peixe, cor de prata, no escuro matope. É o ndoé, bicho aquático que entende do ar, respirando fora e dentro.
Naquele momento, porém, eu sentia um aperto no peito. Sentei. Era como se a morte falasse dentro de mim, com suas surdas sibilâncias. Os homens tinham fisgado um peixe. O bicho se contracurvava, iluminado aos zigues brilhante aos zagues. Do ndoé não se pode esperar afogamento: é preciso cortar a cabeça. Assim fazia aquela gente, assentando o peixe numa pedra. Desta vez, tudo aquilo me fugia dos olhos, a realidade não me dava hospedagem. Enquanto o sangue escorria na lama eu recebi o sinal. Ali, no pleno matope: a bota militar. A mesma que eu recusara, a mesma que o meu tio deitara aos pântanos. Parecia escapar do seu tamanho, quase sem fronteira de si. Sobre ela se entornava o sangue, um vermelho de bandeira.
Os pescadores notaram a bota, recolheram, examinaram. Olharam para mim, encolheram os ombros e atiraram a bota. Ela veio cair junto de mim, pesada e grave. Eu então lhe peguei e, numa poça de água, lavei o dentro e o fora. Lhe apliquei cuidados como se fosse uma criança. Um menino órfão, tal qual eu. Depois, escolhi uma terra muito limpa e lhe dei digno funeral. Enquanto inventava a cerimónia me chegaram os toques da banda militar, o drapejo de mil bandeiras.
Era já tarde quando voltei a casa. Eu queria contar a Geguê aquele enterro. Não pude, nunca. Ele me empurrava, de ânsia carregada, mal que cheguei:
- Dá cá minha parte, onde está a minha parte?
Não entendi. Mas ele fervia em molho da sua zanga, já não falava língua nenhuma.
Exigia-me. Revistou as minhas coisas, mexeu no meu saco. Não encontrou o que procurava.
- Mas tio, eu juro, não fiz nada.
Ele segurou a cabeça com ambas as mãos. Duvidava-se, duvidava-me. Repetia: um malandro não corta o cabelo de outro malandro. Vendo-lhe assim vencido, eu me decidi a lhe dar consolos. Meu coração tonteava quando eu acarinhei o ombro dele. Geguê cedeu, aceitou minha verdade. Então se explicou: havia no bairro outras acontecências sanguíneas. Outros desordeiros cresciam, soldados de ninguém. Em todo o lado se propagavam assaltos, consporcarias, animaldades. A morte se tornara tão frequente que só a vida fazia espanto. Para não serem notados, os sobrevivos imitavam os defuntos. Por carecerem de vítima, os bandoleiros retiravam os corpos das sepulturas para voltarem a decepar-lhes.
- Não andas com eles, sobrinho? Não te juntaste a esses bandos?
Neguei. Mas a voz nem saiu. A garganta me estreitara, eu gaguejava silêncios. Como podia eu ter suficiência para tanto crime? Meu tio ficou parado, olhando a minha resposta. Ele não me acreditava.
- Então, me diga: enterravas o quê, hoje, lá nos matopes?
- Enterrava a bota.
Ele admirava: a bota? Se ela já estava deitada no fundo esquecimento? Que via eu naquela bota, que conversa eu tinha com aquele destroço? Ficou numerando dúvidas, uma, outra e outra. Pediu que eu prometesse o esquecimento daquele lixo. Prometi.
- Tio, agora eu quero saber: onde fica a casa de Zabelani ?
Ele hesitou, eu insisti. Era urgente recolher aquela menina, salvar-lhe dos bandidos. Pode ser já é tarde, quem sabe, se indecidia o Geguê. Estes são perigos que ultrapassam a tua força, sobrinho.
- Tio, faça-me o favor, me diga.
Ele desviava: aquele tempo não contemplava amores.
Como podia eu enamorar dela num lugar tão mortífero?
- Tio, vamos salvar Zabelani.
Enfim, ele pareceu vencido. Já amaldiçoava minha teimosia - pode alguém conselhar uma lagartixa que a pedra em baixo está quente? Você, sobrinho, não vale a pena. Se a sua mãe lhe visse.
- Nunca mais me fala da minha mãe!
Geguê abismou-se. Eu passara a odiar aquela ausência. A sombra da mãe me trazia um insuportável peso. Não se pode sofrer de saudade de pessoa que nunca existiu, eu devia matar aquela ausência. Ser indígena de mim, assumir minha inteira natalidade.
- Essa menina, tio. Essa menina, agora, é a minha unica mãe.
O tio levantou-se, deu-me as costas. Escondia lágrimas? Respeitei o seu retiro, nem espreitei. Ele entrou na casa, trouxe a arma. Segurou a minha mão e meteu nela algumas balas.
- Desta vez, levas as balas, verdadeiras.
Então, ele me passou a morada de Zabelani. Ficamos ainda um tempo de mãos dadas. Estranhei o Geguê, aquela sua tanta emoção. Meu tio parecia despedir-se.
Corri por dolorosas areias, suspeitando que o tempo já me antecipara. De facto, assim fora. Os vizinhos de Zabelani me relataram: a menina tinha sido levada nessa noite. Queimaram a casa, roubaram as validades. Podia os bandidos, só por seu expediente, terem praticado toda aquela sujeira?
- Digam, meus amigos: Vocês suspeitam quem?
Alguém guiou esses bandidos, disseram os presentes. Nem era desconfiança: foi visto o quem. Era um desse milícias. Não se retratara o focinho mas devia ser um amigo, um familiar. Porque Zabelani, ao ver o dito, saíra por sua vontade, braços abertos. E demais, que estranho poderia ser para conhecer o esconderijo da menina? Eram os ditos. Voltei a casa, a alma de rasto: Meus pés demoravam como se adiassem a ordem de toda minha raiva. Passei pelo pântano, lá onde dormia a bota, em sua subtérrea morada. Cheguei ao nosso quintal, já descera o escuro. Dentro, brilhava um xipefo, meu tio não dormia. Parei na entrada, gritei seu nome. Ele surgiu à porta, arrastando os chinelos. O xipefo ficou por trás, ele só tinha contornos. O resto era sombra, nem o rosto lhe aparecia. Meu tio desaparecia na sua mesma silhueta, isso ajudou-me a ganhar força. Levantei a arma, apontei no desfoco das lágrimas. Geguê então falou. Suas palavras nem ganharam tradução, tanto cacimbavam meus sentidos.
- Dispara, meu filho.
Meus olhos me afugentavam de mim. Meu ódio, a contracorpo, me instruía - aquele era o certo momento. Nos breves segundos, eu visitei minha toda vida. Geguê ladeando-me os tempos, travesseiro único de meus fundos desânimos. Algum pássaro desmancha o ninho?
Mas o tio se avultava, cheio de insistência, nunca ele me pedira em tão humilde rogo:
- Dispara sobrinho. Sou eu que lhe peço.
O tiro me ensurdeceu. Não ouvi, não vi. Se acertei, lhe cortei o fio da vida, isso ainda hoje me duvido. Porque, no momento, meus olhos se encheram de muitas águas, todas que me faltaram em anteriores tristezas. E fugi, correndo dali para nunca mais.
Agora penso: nem me merece a pena saber do destino daquela bala. Porque foi dentro de mim que aconteceu: eu voltava a nascer de mim, revalidava minha antiga orfandade. Ao fim, eu disparava contra todo aquele tempo, matando esse ventre onde, em nós, renascem as falecidas sombras deste velho mundo.